Movimento Estereotipado, Transtorno de
DSM.IV
(na CID.10 é F98.4) - 307.3 TRANSTORNO DE MOVIMENTO ESTEREOTIPADO - DSM.IV
(anteriormente Transtorno de Estereotipia/do Hábito)

A característica essencial do Transtorno de Movimento Estereotipado é um comportamento motor repetitivo, não funcional e muitas vezes aparentemente intencional (Critério A).

Este comportamento motor interfere acentuadamente nas atividades normais ou resulta em lesões corporais auto-infligidas, suficientemente significativas para exigirem tratamento médico (ou resultariam em ferimentos, caso não fossem adotadas medidas de proteção) (Critério B). Em presença de Retardo Mental, o comportamento estereotipado ou autodestrutivo é suficientemente severo para se tornar um foco do tratamento (Critério C).

O comportamento não é melhor explicado por uma compulsão (como no Transtorno Obsessivo-Compulsivo), um tique (como nos Transtornos de Tique), uma estereotipia que faz parte de um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, ou arrancar os cabelos (como na Tricotilomania) (Critério D).

O comportamento também não é devido aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a uma condição médica geral (Critério E). Os comportamentos motores devem persistir por pelo menos 4 semanas (Critério F).

Os movimentos estereotipados podem incluir acenar com as mãos, balançar o corpo, brincar com as mãos, remexer os dedos, manusear objetos, bater a cabeça, morder a si mesmo, beliscar a pele ou enfiar os dedos em orifícios corporais, ou golpear várias partes do próprio corpo.

Às vezes o indivíduo usa um objeto para executar esses comportamentos, podendo causar danos permanentes e debilitantes aos tecidos e, por vezes, acarretar risco de vida. Por exemplo, o ato de bater ou golpear severamente a cabeça pode provocar cortes, sangramentos, infecções, descolamento da retina e cegueira.

EspecificadoresTranstorno de Movimento Estereotipado
O clínico deve especificar Com Comportamento Autodestrutivo se o comportamento acarreta lesões corporais que exigem tratamento específico (ou que resultariam em lesão corporal, caso não fossem tomadas medidas de proteção).

Características e Transtornos Associados
Características descritivas e transtornos mentais associados. O indivíduo pode desenvolver métodos de autocontenção (por ex., manter as mãos dentro da camisa, das calças ou dos bolsos) na tentativa de controlar os comportamentos autodestrutivos.

Quando a autocontenção sofre interferência, os comportamentos retornam. Quando os comportamentos são extremos ou repulsivos aos outros, podem ocorrer complicações psicossociais devido à exclusão do indivíduo das atividades sociais e comunitárias.

O Transtorno de Movimento Estereotipado ocorre mais habitualmente em associação com Retardo Mental. Quanto mais severo o retardo, maior o risco de comportamentos autodestrutivos. Este transtorno também pode ocorrer em associação com severos déficits sensoriais (cegueira e surdez), podendo ser mais comum em contextos institucionais nos quais o indivíduo recebe estimulação insuficiente.

Os comportamentos autodestrutivos ocorrem em certas condições médicas gerais associadas com o Retardo Mental (por ex., síndrome do X frágil, síndrome de Lange e, especialmente, a síndrome de Lesch-Nyhan, caracterizada por mordidas severas auto-infligidas).

Achados laboratoriais associados
Caso exista uma lesão auto-infligida, os achados laboratoriais refletirão sua natureza e gravidade (por ex., a anemia pode estar presente no caso de uma perda sangüínea crônica por sangramento retal auto-infligido).

Achados ao exame físico e condições médicas gerais associadas. Sinais de lesões crônicas dos tecidos podem estar presentes (por ex., feridas, marcas de mordidas, cortes, arranhões, infecções cutâneas, fissuras retais, corpos estranhos em orifícios corporais, prejuízo visual devido a enfiar os dedos nos olhos ou catarata traumática, e fraturas ou deformações ósseas).

Em casos menos severos, pode haver uma irritação cutânea crônica ou calos por mordidas, beliscões, arranhões ou saliva.

Características Específicas à Idade e ao Gênero
Os comportamentos autodestrutivos ocorrem em indivíduos de todas as idades. Existem indicações de que o ato de bater a cabeça é mais prevalente no sexo masculino (com uma proporção de cerca de 3:1) e as mordidas auto-infligidas podem ser mais prevalentes no sexo feminino.

Prevalência
Existem informações limitadas sobre a prevalência do Transtorno de Movimento Estereotipado. As estimativas de prevalência dos comportamentos autodestrutivos em indivíduos com Retardo Mental variam de 2 a 3% em crianças e adolescentes que vivem na comunidade até aproximadamente 25% em adultos com Retardo Mental severo ou profundo que vivem em instituições.

Curso
Não existe uma idade ou padrão de início típico para o Transtorno de Movimento Estereotipado. O início pode ocorrer após um evento ambiental estressante. Em indivíduos não-verbais com Retardo Mental severo, os movimentos estereotipados podem ser desencadeados por uma condição médica geral dolorosa (por ex., uma infecção no ouvido médio levando ao comportamento de bater a cabeça).

Os movimentos estereotipados freqüentemente atingem seu auge na adolescência, podendo então declinar aos poucos. Entretanto, especialmente em indivíduos com Retardo Mental severo ou profundo, os movimentos podem persistir por anos.

O foco desses comportamentos freqüentemente muda (por ex., um indivíduo que costuma morder as mãos pode deixar de fazê-lo e passar a bater a cabeça).

Diagnóstico Diferencial
Os movimentos estereotipados podem estar associados com Retardo Mental, especialmente no caso de indivíduos que vivem em ambientes não estimuladores.

O Transtorno de Movimento Estereotipado deve ser diagnosticado apenas em indivíduos nos quais o comportamento estereotipado ou autodestrutivo apresenta gravidade suficiente para tornar-se um foco de tratamento. Movimentos estereotipados e repetitivos são um aspecto característico dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento.

O Transtorno de Movimento Estereotipado não é diagnosticado se as estereotipias são melhor explicadas por um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. As compulsões do Transtorno Obsessivo-Compulsivo geralmente são mais complexas e ritualizadas e executadas em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser rigidamente aplicadas.

A diferenciação entre os movimentos complexos característicos do Transtorno de Movimento Estereotipado e os Tiques Simples (por ex., piscar os olhos) é relativamente simples, mas o diagnóstico diferencial com Tiques Motores Complexos é menos claro. Em geral, os movimentos estereotipados parecem ser mais voluntários e intencionais, enquanto os tiques têm uma qualidade mais involuntária e não rítmica.

Na Tricotilomania, por definição, o comportamento repetitivo limita-se a puxar os cabelos. Os ferimentos auto-induzidos no Transtorno de Movimento Estereotipado devem ser diferenciados do Transtorno Factício com Sinais e Sintomas Predominantemente Físicos, no qual a motivação para o ferimento auto-induzido consiste em assumir o papel de doente.

A automutilação associada com certos Transtornos Psicóticos e Transtornos da Personalidade é premeditada, complexa e esporádica, possuindo um significado para o indivíduo, dentro do contexto do transtorno mental severo subjacente (por ex., resulta de um pensamento delirante).

Os movimentos involuntários associados com condições neurológicas (tais como doença de Huntington) geralmente seguem um padrão típico e os sinais e sintomas da condição neurológica estão presentes.

Os comportamentos de auto-estimulação adequados ao nível de desenvolvimento em crianças pequenas (por ex., chupar o dedo, balançar o corpo e bater a cabeça) em geral são autolimitados e raramente acarretam lesões aos tecidos exigindo tratamento. Os comportamentos de auto-estimulação em indivíduos com déficits sensoriais (por ex., cegueira) geralmente não resultam em disfunção ou em lesão auto-infligida.

Critérios Diagnósticos para F98.4 - 307.3 Transtorno de Movimento Estereotipado
A. Comportamento motor repetitivo, não funcional e aparentemente intencional (por ex., sacudir as mãos ou acenar, balançar o corpo, bater a cabeça, levar objetos à boca, morder partes do corpo, beliscar a pele ou enfiar os dedos em orifícios corporais, golpear o próprio corpo).
B. O comportamento interfere acentuadamente nas atividades normais ou provoca lesão corporal auto-infligida que exige tratamento médico (ou provocariam lesão, caso não fossem adotadas medidas preventivas).
C. Em presença de Retardo Mental, o comportamento estereotipado ou autodestrutivo apresenta suficiente gravidade para tornar-se um foco de tratamento.
D. O comportamento não é melhor explicado por uma compulsão (como no Transtorno Obsessivo-Compulsivo), por um tique (como no Transtorno de Tique), uma estereotipia que faz parte do Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, ou puxar os cabelos (como na Tricotilomania).
E. O comportamento não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou a uma condição médica geral.
F. O comportamento persiste por 4 semanas ou mais.
Especificar se:
Com Comportamento Autodestrutivo: se o comportamento resulta em lesão corporal que exige tratamento específico (ou que resultaria em lesão corporal, caso medidas de proteção não fossem adotadas).