Personalidade Esquizotípica, Transtorno da
DSM.IV
(na CID.10 é F21) - 301.22 - PERSONALIDADE ESQUIZOTÍPICA - DSM.IV

Outros tipos de Transtornos de Personalidade do DSM.IV
Transtorno da Personalidade Paranóide
Transtorno da Personalidade Esquizóide
Transtorno da Personalidade Esquizotípica
Transtorno da Personalidade Anti-Social
Transtorno da Personalidade Borderline
Transtorno da Personalidade Histriônica
Transtorno da Personalidade Narcisista
Transtorno da Personalidade Esquiva
Transtorno da Personalidade Dependente
Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
Veja um a um nessa classificação

A característica essencial do Transtorno da Personalidade Esquizotípica é um padrão invasivo de déficits sociais e interpessoais, marcado por agudo desconforto e reduzida capacidade para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico. Este padrão começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizotípica muitas vezes têm idéias de referência (isto é, interpretações incorretas de incidentes casuais e acontecimentos externos como se tivessem um significado particular e incomum, especificamente destinado a eles) (Critério A1).

Estas idéias devem ser diferenciadas dos delírios de referência, nos quais as crenças são mantidas com convicção delirante. Esses indivíduos podem ser supersticiosos ou preocupar-se com fenômenos paranormais que estão fora das normas de sua subcultura (Critério A2). Eles podem pensar que possuem poderes especiais de pressentir acontecimentos ou de ler os pensamentos de outras pessoas.

Eles podem crer que possuem um controle mágico sobre os outros, o qual pode ser implementado diretamente (por ex., acreditar que o cônjuge está levando o cachorro para passear na rua porque ele pensou que isto deveria ser feito uma hora atrás) ou indiretamente, através do cumprimento de rituais mágicos (por ex., passar por um determinado objeto três vezes, para evitar certa conseqüência funesta).

Alterações da percepção podem estar presentes (por ex., sentir a presença de outra pessoa ou ouvir uma voz murmurando seu nome) (Critério A3). Seu discurso pode incluir construções idiossincráticas, sendo freqüentemente desconexo, digressivo ou vago, porém sem um real descarrilamento ou incoerência (Critério A4).

As respostas podem ser demasiadamente concretas ou abstratas, e as palavras ou conceitos ocasionalmente são aplicados de maneira incomum (por ex., a pessoa pode afirmar que não estava "conversável" no trabalho).

Os indivíduos com este transtorno são freqüentemente desconfiados, podendo ter ideação paranóide (por ex., acreditar que os colegas de trabalho estão decididos a estragar sua reputação junto ao chefe) (Critério A5).

Eles geralmente não são capazes de lidar com toda a faixa de afetos e indicadores interpessoais necessários para relacionamentos bem-sucedidos, de modo que muitas vezes parecem interagir com os outros de maneira inadequada, rígida ou constrita (Critério A6).

Esses indivíduos muitas vezes são considerados esquisitos ou excêntricos por causa dos maneirismos incomuns, pelo seu modo desleixado de vestir-se, no qual "nada combina com nada", bem como por sua desatenção às convenções sociais habituais (por ex., evitar o contato visual, usar roupas manchadas de tinta e que não servem, ser incapaz de participar de "bate-papos" com os colegas) (Critério A7).

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizotípica vivenciam os relacionamentos interpessoais como problemáticos e sentem desconforto na interação com outras pessoas. Embora possam expressar infelicidade acerca de sua falta de relacionamentos, seu comportamento sugere pouco desejo de ter contatos íntimos.

Como resultado, eles habitualmente têm poucos ou nenhum amigo íntimo ou confidente, exceto algum parente em primeiro grau (Critério A8). Eles sentem-se ansiosos em situações sociais, particularmente aquelas envolvendo estranhos (Critério A9). Estes indivíduos interagem com os outros quando precisam, mas preferem ficar sós, por acharem que são diferentes e simplesmente não "se encaixam".

Sua ansiedade social não cede com facilidade, mesmo quando passam mais tempo no contexto ou se familiarizam com as outras pessoas, porque a ansiedade tende a estar associada com suspeitas acerca das motivações dos outros. Por exemplo, ao comparecer a um jantar, o indivíduo com Transtorno da Personalidade Esquizotípica não relaxa com o passar do tempo, mas, ao contrário, pode tornar-se ainda mais tenso e desconfiado.

O Transtorno da Personalidade Esquizotípica não deve ser diagnosticado se o padrão de comportamento ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos, outro Transtorno Psicótico ou um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (Critério B).

Características e Transtornos Associados
Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizotípica freqüentemente buscam tratamento para os sintomas associados de ansiedade, depressão ou outros afetos disfóricos, ao invés de para os próprios aspectos do transtorno da personalidade.

Particularmente em resposta ao estresse, os indivíduos com este transtorno podem vivenciar episódios psicóticos transitórios (durando de minutos a horas), embora em geral sejam de duração suficiente para indicarem um diagnóstico adicional, como Transtorno Psicótico Breve ou Transtorno Esquizofreniforme.

Em alguns casos podem desenvolver-se sintomas psicóticos clinicamente significativos que satisfazem os critérios para Transtorno Psicótico Breve, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou Esquizofrenia. Mais da metade dos indivíduos podem ter uma história de pelo menos um Episódio Depressivo Maior.

Cerca de 30 a 50% dos indivíduos diagnosticados com este transtorno têm um diagnóstico concomitante de Transtorno Depressivo Maior, quando admitidos em um contexto clínico. Existe uma considerável co-ocorrência de Transtornos da Personalidade Esquizóide, Paranóide, Esquiva e Borderline.

Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
As distorções cognitivas e perceptivas devem ser avaliadas no contexto do meio cultural do indivíduo. Características gerais determinadas pela cultura, particularmente aquelas relativas a crenças e rituais religiosos, podem parecer esquizotípicas aos olhos de pessoas desinformadas (por ex., vodu, falar em línguas, vida após a morte, bruxaria, ler mentes, sexto sentido, mau olhado e crenças mágicas relacionadas à saúde e doença).

O Transtorno da Personalidade Esquizotípica pode manifestar-se pela primeira vez na infância e adolescência, na forma de solidão, fracos relacionamentos com seus pares, ansiedade social, baixo rendimento escolar, excessiva suscetibilidade, pensamentos e linguagem peculiares e fantasias bizarras.

Essas crianças podem parecer "esquisitas" ou "excêntricas" e atrair zombarias. O Transtorno da Personalidade Esquizotípica pode ser ligeiramente mais comum no sexo masculino.

Prevalência
Há relatos de que o Transtorno da Personalidade Esquizotípica ocorre em aproximadamente 3% da população geral.

Curso
O Transtorno da Personalidade Esquizotípica tem um curso relativamente estável, sendo que apenas uma pequena parcela dos indivíduos desenvolve Esquizofrenia ou algum outro Transtorno Psicótico.

Padrão Familial
O Transtorno da Personalidade Esquizotípica parece agregar-se nas famílias e ter maior prevalência entre os parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos com Esquizofrenia do que na população geral.

Também pode haver uma incidência discretamente maior de Esquizofrenia e outros Transtornos Psicóticos entre os parentes de probandos com Transtorno da Personalidade Esquizotípica.

Diagnóstico Diferencial
O Transtorno da Personalidade Esquizotípica pode ser diferenciado de Transtorno Delirante, Esquizofrenia e Transtorno de Humor Com Aspectos Psicóticos, pelo fato de que esses transtornos são caracterizados por um período de sintomas psicóticos persistentes (por ex., delírios e alucinações).

Para um diagnóstico adicional de Transtorno da Personalidade Esquizotípica, este deve ter estado presente antes do início dos sintomas psicóticos e persistir após a remissão destes.

Quando um indivíduo tem um Transtorno Psicótico crônico do Eixo I (por ex., Esquizofrenia) que foi precedido pelo Transtorno da Personalidade Esquizotípica, este último deve ser registrado no Eixo II seguido da expressão "Pré-mórbido", entre parênteses.

Pode ser muito difícil distinguir as crianças com Transtorno da Personalidade Esquizotípica do grupo heterogêneo de crianças solitárias e esquisitas cujo comportamento se caracteriza por acentuado isolamento social, excentricidade ou peculiaridades da linguagem e cujos diagnósticos seriam provavelmente de formas leves de Transtorno Autista, Transtorno de Asperger, Transtorno da Linguagem Expressiva e Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva.

Os Transtornos da Comunicação podem ser diferenciados pela primazia e gravidade do distúrbio de linguagem, acompanhado de esforços compensatórios da criança para comunicar-se por outros meios (por ex., por gestos) e pelos aspectos característicos de prejuízo da linguagem encontrados em uma avaliação especializada da linguagem.

As formas mais leves de Transtorno Autista e Transtorno de Asperger distinguem-se pela falta ainda maior de consciência social e reciprocidade emocional e por comportamentos e interesses estereotipados.

O Transtorno da Personalidade Esquizotípica deve ser diferenciado de uma Alteração da Personalidade Devido a uma Condição Médica Geral, na qual os traços emergem devido aos efeitos diretos de uma condição médica geral sobre o sistema nervoso central. Ele também deve ser diferenciado de sintomas que podem desenvolver-se em associação com o uso crônico de substâncias (por ex., Transtorno Relacionado à Cocaína Sem Outra Especificação).

Outros Transtornos da Personalidade podem ser confundidos com o Transtorno da Personalidade Esquizotípica por terem certos aspectos em comum, de modo que é importante distinguir entre esses transtornos com base nas diferenças em seus aspectos característicos.

Entretanto, se um indivíduo tem características de personalidade que satisfazem os critérios para um ou mais Transtornos da Personalidade além do Transtorno da Personalidade Esquizotípica , todos podem ser diagnosticados. Embora os Transtornos da Personalidade Paranóide e Esquizóide possam também ser caracterizados por distanciamento social e afeto restrito, o Transtorno da Personalidade Esquizotípica pode ser distinguido destes dois diagnósticos pela presença de distorções cognitivas ou perceptivas e acentuada excentricidade ou esquisitice.

Os relacionamentos íntimos são limitados tanto noTranstorno da Personalidade Esquizotípica quanto no Transtorno da Personalidade Esquiva; entretanto, no Transtorno da Personalidade Esquiva, um desejo ativo de ter relacionamentos é restringido pelo medo da rejeição, ao passo que no Transtorno da Personalidade Esquizotípica existe uma falta de desejo de ter relacionamentos e um distanciamento persistente.

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Narcisista podem também manifestar suspeitas, retraimento ou afastamento social, mas neste caso essas qualidades derivam-se principalmente do medo de que sejam reveladas suas imperfeições ou falhas.

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Borderline também podem ter sintomas transitórios do tipo psicótico, mas estes em geral estão mais estreitamente relacionados com alterações afetivas em resposta ao estresse (por ex., raiva intensa, ansiedade ou decepção) e em geral são mais dissociativos (por ex., desrealização ou despersonalização).

Em contrapartida, os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizotípica estão mais propensos a terem sintomas tipo psicóticos persistentes que podem piorar sob estresse, mas tendem menos a estar invariavelmente associados com sintomas afetivos pronunciados.

Embora o isolamento social possa ocorrer no Transtorno da Personalidade Borderline, este geralmente é secundário a fracassos interpessoais repetidos devido a ataques de raiva e freqüentes alterações do humor, ao invés de resultar de uma falta persistente de contatos sociais e de desejo por intimidade.

Além disso, os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizotípica em geral não apresentam os comportamentos impulsivos ou manipuladores do indivíduo com Transtorno da Personalidade Borderline. Entretanto, existe uma alta taxa de co-ocorrência entre os dois transtornos, de modo que a distinção entre ambos nem sempre é possível. Características esquizotípicas durante a adolescência podem refletir um distúrbio emocional transitório, ao invés de um transtorno da personalidade persistente.

Critérios Diagnósticos para F21 - 301.22 Transtorno da Personalidade Esquizotípica
A. Um padrão invasivo de déficits sociais e interpessoais, marcado por desconforto agudo e reduzida capacidade para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por pelo menos cinco dos seguintes critérios:
(1) idéias de referência (excluindo delírios de referência)
(2) crenças bizarras ou pensamento mágico que influenciam o comportamento e são inconsistentes com as normas da subcultura do indivíduo (por ex., superstições, crença em clarividência, telepatia ou "sexto sentido"; em crianças e adolescentes, fantasias e preocupações bizarras)
(3) experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões somáticas
(4) pensamento e discurso bizarros (por ex., vago, circunstancial, metafórico, superelaborado ou estereotipado)
(5) desconfiança ou ideação paranóide
(6) afeto inadequado ou constrito
(7) aparência ou comportamento esquisito, peculiar ou excêntrico
(8) não tem amigos íntimos ou confidentes, exceto parentes em primeiro grau
(9) ansiedade social excessiva que não diminui com a familiaridade e tende a estar associada com temores paranóides, ao invés de julgamentos negativos acerca de si próprio
B. Não ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos, outro Transtorno Psicótico ou um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
Nota: Se os critérios são satisfeitos antes do início de Esquizofrenia, acrescentar "Pré-Mórbido", por ex., "Transtorno da Personalidade Esquizotípica (Pré-Mórbido)".