Linguagem Expressiva, Transtorno da
DSM.IV
(na CID.10 é F80.1)  315.31 TRANSTORNO DA LINGUAGEM EXPRESSIVA

A característica essencial do Transtorno da Linguagem Expressiva é um prejuízo no desenvolvimento da linguagem expressiva, demonstrado por escores em medições padronizadas, individualmente administradas, do desenvolvimento da linguagem expressiva, acentuadamente abaixo dos escores obtidos de medições padronizadas da capacidade intelectual não-verbal e do desenvolvimento da linguagem receptiva (Critério A).

As dificuldades podem ocorrer na comunicação que envolve a linguagem tanto verbal quanto de sinais. As dificuldades de linguagem interferem significativamente no desempenho escolar ou profissional ou na comunicação social (Critério B). Os sintomas não satisfazem os critérios para Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (Critério C).

Em presença de Retardo Mental, déficit motor da fala, déficit sensorial ou privação ambiental, as dificuldades de linguagem excedem aquelas geralmente associadas a esses problemas (Critério D). Caso esteja presente um déficit motor da fala, déficit sensorial ou condição neurológica, isto é codificado no Eixo III.

As características lingüísticas do transtorno variam de acordo com sua gravidade e a idade da criança. Essas características incluem uma fala de quantidade limitada, vocabulário restrito, dificuldade em adquirir novas palavras, erros na busca da palavra correta ou de vocabulário, frases abreviadas, estruturas gramaticais simplificadas, variedades limitadas de estruturas gramaticais (por ex., formas verbais), variedades limitadas de tipos de frases (por ex., imperativas, interrogativas), omissões de partes críticas das frases, uso de uma ordem inusitada das palavras e desenvolvimento lento da linguagem.

O funcionamento não-lingüístico (medido por testes de inteligência de execução) e as habilidades de compreensão da linguagem em geral estão dentro dos limites normais. O Transtorno da Linguagem Expressiva pode ser adquirido ou evolutivo. No tipo adquirido, um prejuízo na linguagem expressiva ocorre após um período de desenvolvimento normal, em conseqüência de uma condição neurológica ou outra condição médica geral (por ex., encefalite, traumatismo craniano, irradiação).

No tipo evolutivo, existe um prejuízo na linguagem expressiva que não está associado com um agravo neurológico de origem conhecida. As crianças com esta espécie de prejuízo freqüentemente começam a falar tarde e atravessam mais lentamente do que o habitual os vários estágios do desenvolvimento da linguagem expressiva.

Características e Transtornos Associados
A característica associada com maior freqüência ao Transtorno da Linguagem Expressiva em crianças pequenas é o Transtorno Fonológico. Também pode haver uma perturbação na fluência e formulação da linguagem, envolvendo uma fala anormalmente rápida e um ritmo errático e perturbações na estrutura da linguagem ("taquifemia").

Em casos de Transtorno da Linguagem Expressiva adquirido, dificuldades adicionais da fala também são comuns, podendo incluir problemas de articulação, erros fonológicos, fala lenta, repetição de sílabas e entonação e padrões de ênfase monótonos. Entre as crianças em idade escolar, os problemas escolares e de aprendizagem (por ex., escrever ditados, copiar frases e soletrar) que por vezes satisfazem os critérios para Transtornos da Aprendizagem freqüentemente estão associados com o Transtorno da Linguagem Expressiva. 

Também pode haver algum prejuízo leve nas habilidades da linguagem receptiva, mas, quando este é significativo, aplica-se um diagnóstico de Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva. Uma história de atraso em alcançar alguns marcos motores, e a presença de Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação e Enurese não são incomuns.

O retraimento social e alguns transtornos mentais, como Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, também estão freqüentemente associados. O Transtorno da Linguagem Expressiva pode ser acompanhado de anormalidades ao EEG, achados anormais em neuroimagem, comportamentos com disartria ou apraxia ou outros sinais neurológicos.

Características Específicas à Cultura e ao Gênero
As avaliações do desenvolvimento das capacidades de comunicação devem levar em consideração o contexto cultural e lingüístico do indivíduo, particularmente no caso daqueles que cresceram em ambientes bilíngües.

As medições padronizadas do desenvolvimento da linguagem e da capacidade intelectual não-verbal devem ser relevantes para o grupo cultural e lingüístico. O tipo evolutivo de Transtorno da Linguagem Expressiva é mais comum em pessoas do sexo masculino.

Prevalência
Estimativas sugerem que 3-5% das crianças podem ser afetadas pelo tipo evolutivo de Transtorno da Linguagem Expressiva. O tipo adquirido é menos comum.

Curso
O tipo evolutivo de Transtorno da Linguagem Expressiva geralmente é identificado por volta dos 3 anos de idade, embora formas mais leves do transtorno possam não se tornar visíveis até o início da adolescência, quando a linguagem habitualmente se torna mais complexa. O tipo adquirido de Transtorno da Linguagem Expressiva, devido a lesões cerebrais, traumatismo craniano ou acidente cérebro-vascular, pode ocorrer em qualquer idade, e o início é súbito.

O resultado do tipo evolutivo de Transtorno da Linguagem Expressiva é variável. Aproximadamente metade das crianças com este transtorno parece superá-lo, enquanto a outra metade parece apresentar dificuldades mais persistentes. A maioria das crianças acaba adquirindo capacidades de linguagem mais ou menos normais ao final da adolescência, embora déficits sutis possam persistir.

No tipo adquirido de Transtorno da Linguagem Expressiva o curso e o prognóstico estão relacionados à gravidade e localização da patologia cerebral, bem como à idade da criança e extensão do desenvolvimento da linguagem à época em que o transtorno foi adquirido.

A melhora clínica nas capacidades de linguagem às vezes é rápida e completa, enquanto em outros casos pode ser incompleta ou haver um déficit progressivo.

Padrão Familial
Aparentemente, o tipo evolutivo de Transtorno da Linguagem Expressiva está mais propenso a ocorrer em indivíduos com uma história familiar de Transtornos da Comunicação ou da Aprendizagem. Não existem evidências de agregação familial no tipo adquirido.

Diagnóstico Diferencial
O Transtorno da Linguagem Expressiva distingue-se do Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva pela presença, neste último, de um prejuízo significativo na linguagem receptiva.

O Transtorno da Linguagem Expressiva não é diagnosticado se são satisfeitos os critérios para Transtorno Autista ou outro Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. O Transtorno Autista também envolve prejuízo na linguagem expressiva, mas pode ser diferenciado dos Transtornos da Transtorno da Linguagem Expressiva e Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva pelas características de prejuízo na comunicação (por ex., uso estereotipado da linguagem) e pela presença de um prejuízo qualitativo na interação social e de padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento.

O desenvolvimento da linguagem expressiva e receptiva pode apresentar prejuízo devido a Retardo Mental, um prejuízo auditivo ou outro déficit sensorial, um déficit motor da fala ou severa privação ambiental. A presença desses problemas pode ser estabelecida por testes de inteligência, testagem audiométrica, testagem neurológica e anamnese.

Se as dificuldades de linguagem excedem aquelas habitualmente associadas com esses problemas, aplica-se um diagnóstico concomitante de Transtorno da Linguagem Expressiva ou Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva. As crianças com atrasos na linguagem expressiva devido à privação ambiental podem apresentar rápidos progressos, se melhorados os problemas ambientais. No Transtorno da Expressão Escrita, existe uma perturbação nas habilidades de escrita.

Caso déficits na expressão oral também estejam presentes, poderá aplicar-se um diagnóstico adicional de Transtorno da Linguagem Expressiva. O Mutismo Seletivo envolve uma produção restrita de linguagem expressiva que pode imitar o Transtorno da Linguagem Expressiva ou o Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva; anamnese e observação detalhadas podem ser necessárias para determinar a presença de uma linguagem normal, em alguns contextos. A afasia adquirida associada com uma condição médica geral na infância geralmente é transitória.

Um diagnóstico de Transtorno da Linguagem Expressiva aplica-se apenas se a perturbação na linguagem persiste além do período de recuperação aguda para a condição médica geral etiológica (por ex., traumatismo craniano, infecção viral).
Critérios Diagnósticos para F80.1 - 315.31 Transtorno da Linguagem Expressiva
A. Os escores obtidos em medições padronizadas e individualmente administradas do desenvolvimento da linguagem expressiva estão acentuadamente abaixo daqueles obtidos em medições padronizadas da capacidade intelectual não-verbal e do desenvolvimento da linguagem receptiva. A perturbação pode manifestar-se clinicamente por sintomas que incluem um vocabulário acentuadamente limitado, erros nos tempos verbais ou dificuldades com a evocação de palavras ou com a produção de frases de extensão ou complexidade apropriadas em termos evolutivos.
B. As dificuldades com a linguagem expressiva interferem no desempenho escolar ou profissional ou na comunicação social.
C. Não são satisfeitos os critérios para Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
D. Em presença de Retardo Mental, déficit motor da fala ou sensorial ou privação ambiental, as dificuldades de linguagem excedem aquelas habitualmente associadas com esses problemas.
Nota para a codificação: Caso esteja presente um déficit motor da fala ou sensorial ou uma condição neurológica, codificar a condição no Eixo III.