Espectro Histérico (ou Histriônico)

Transtornos onde a sugestionabilidade, teatralidade e tendência a chamar atenção estão presentes
| Histeria e Afins |


O termo histeria escapou, há tempos, do âmbito da medicina e passou ao domínio público. Na realidade xinga-se de histérico e não se diagnostica histérico. Essa postura cultural descaracteriza a histeria doença, influindo inclusive no médico não psiquiatra, o qual também acaba vendo o histérico como o “malandro” da medicina.

A maioria dos médicos não psiquiatras costuma adotar duas atitudes diante do paciente histérico; a expressiva maioria deles adota uma atitude de rejeição, achando que os histéricos ... não são doentes de verdade ou são doentes que não têm nada, e uma minoria, infelizmente, podem achar que a ... histeria é uma doença como as outras.

Surpreendendo tanto aos médicos quanto aos leigos, essa misteriosa “doença” pode apresentar sintomas sem qualquer substrato físico, sintomas que mudam segundo a época, os costumes e as conveniências, sintomas que podem desaparecer como em um passe de mágica, de fé ou benzimento... e se procurarmos os motivos pelos quais os histéricos recorrem a esses sintomas, bem como o sucesso que conseguem com eles, é bem possível nos deparamos com uma inquietante dúvida: “teremos todos um quê de histéricos”.

A histeria sempre existiu na história humana, sempre acompanhou o ser humano desde sua introdução na vida gregária. Descrições de quadros de histeria são encontradas nos papiros egípcios que datam de 4 mil anos, como o de “Kahun”. O histórico documento descrevia vários sintomas encontrados em mulheres, normalmente representados por dores em diversos órgãos, variando até a impossibilidade de abrir a boca, caminhar e mexer as mãos. Na antiguidade, todos estes distúrbios eram remetidos a uma causa uterina.

Este órgão, supostamente acometido de inanição por descaso matrimonial ou crueldade do destino, deslocar-se-ia através do corpo feminino, prejudicando ora aqui ora ali o funcionamento dos diversos órgãos. O tratamento consistia em fazer o útero retornar ao seu local de origem. Essa recolocação do útero se fazia mediante a inalação de substâncias fétidas ou através de estranhas estripulias vaginais que o colocariam em seu devido lugar.

Platão (400 aC), diz que “... também nas mulheres e pelas mesmas razões, a chamada matriz ou útero é um animal que vive nelas com o desejo de fazer filhos. Quando fica muito tempo estéril, após o período da puberdade, tem dificuldade em suportá-lo, indigna-se, erra por todo o corpo, bloqueia os condutos do hálito, impede a respiração, causa mal-estar extremo e ocasiona doenças de toda espécie”.

Hipócrates falava da histeria no capítulo reservado às doenças femininas, e corrobora a idéia da movimentação do útero no interior do corpo da mulher também serve como explicação para outras doenças, além da histeria. Por exemplo, a suspensão das regras também era provocada por esta migração uterina. Se a mulher não mantinha relações sexuais e o ventre se encontrava vazio (não grávido), o útero sofria um deslocamento devido ao ressecamento e à leveza, (maiores que o normal), provocados pela ausência do coito.

Hipócrates achava, de fato, que a sufocação da matriz (útero) ocorria, sobretudo, em mulheres que estavam em abstinência sexual e naquelas de maior idade. Em termos fisiológicos, era assim que o processo era descrito;

Naquelas mulheres, os espaços encontrar-se-iam mais vazios que ordinariamente, o útero ressecado e mais leve deslocar-se-ia em direção aos vários órgãos. Quando este se lançava sobre o fígado, causava uma sufocação súbita que interceptava a via respiratória “localizada no ventre”. Nestas ocasiões, os olhos se reviravam, a mulher tornava-se fria e lívida, cerrava os dentes, salivava abundantemente e assemelhava-se aos epilépticos em crise. O prognóstico era bom e o ataque sobrevinha em plena saúde. O útero também podia lançar-se sobre outros órgãos, como o coração, a vesícula, etc. A sintomatologia era variada: vômitos, afonia, dores de cabeça, esfriamento das pernas, etc.

O tratamento hipocrático para histeria, à semelhança dos egípcios, consistia em reconduzir o útero ao seu lugar de origem através de remédios que eram inalados e fumigações de preparados exóticos. A relação entre histeria e, digamos, preenchimento vaginal, era tão marcante que um bom remédio para os casos onde a doente perdia a voz e cerrava os dentes, seria introduzir-lhe na vagina um pessário (consolo) embebido em substâncias perfumadas até que o útero voltasse ao seu lugar. A técnica exata dessa "introdução" não tem relato histórico, infelizmente. O tratamento preventivo, conseqüentemente, era o casamento para as jovens solteiras e o coito para as casadas, discretamente para as viúvas também.

Descrições do quadro clínico histérico existem em abundância na história universal, como por exemplo, nas palavras de Celso, médico da Roma antiga, que descrevia a enfermidade da matriz dizendo que às vezes, as doentes perdem a consciência e caem ao solo como na epilepsia, tendo como diferença das verdadeiras convulsões apenas a sialorréia e um entorpecimento profundo.

Portanto, guardando-se a distância cronológica entre os relatos de Platão e de Celso, vemos que o quadro histriônico atravessou vários séculos. Mas, a trajetória do eloqüente poder dos órgãos sexuais femininos não atravessava apenas séculos, eles se universalizavam entre as diversas culturas com, basicamente, a mesma teatralidade. Segundo Marilita Lúcia Calheiros de Castro, os Murias, um antigo povo indígena, tinham uma lenda sobre “as vaginas dentadas” das mulheres que abandonavam seus corpos para ir roer as colheitas durante a noite.

A Personalidade Histérica
Em psicopatologia, as anormalidades da personalidade se reportam, principalmente, à possibilidade que se tem de classificar determinada personalidade (pessoa) como sendo desta ou daquela maneira (de existir). Desta forma, diante da possibilidade de se destacar um traço marcante, específico e característico numa determinada pessoa, ou seja, diante do fato desta personalidade ser caracterizada por um determinado traço, torna-se possível sua classificação.

Caso ainda esta característica responsável por sua classificação (traço), subtraia desta pessoa (personalidade) a liberdade necessária para que ela seja livre e desimpedida de qualquer estigma limitador de sua maneira de reagir ao mundo (prejuízo), aí então, ao invés de estarmos apenas diante de um certo tipo de personalidade, estaremos diante de um Transtorno de Personalidade.

No histérico, o traço prevalente e mais unanimemente reconhecido entre diversos investigadores é o “histrionismo”. A palavra, que significa teatralidade, surgiu na Roma antiga para designar como histrião, o comediante, que representava papeis.

Portanto, o histrionismo do histérico clássico é representado por seu caráter afetado, exagerado, exuberante como se estivesse fingindo. Sua representação sempre varia de acordo com as expectativas da platéia. É um comportamento caracterizado por colorido dramático, extrovertido e eloqüente, com notável tendência em buscar contínua atenção. Trata-se dos únicos distúrbios de personalidade mais freqüentes no sexo feminino.

Os pacientes histriônicos tendem a exagerar seus pensamentos e sentimentos, apresentam acessos de mau humor, lágrimas e acusações sempre que percebem não serem o centro das atenções ou quando não recebem elogios e aprovações. São pessoas freqüentemente animadas e dramáticas, tendendo sempre a chamar atenção sobre si mesmas. De início elas costumam encantar as pessoas com quem travam conhecimento, principalmente devido ao seu entusiasmo, à aparente franqueza e fragilidade ou, simplesmente, devido à exímia capacidade de sedução. Tais qualidades, contudo, perdem sua força à medida que esses indivíduos passam a exigir continuamente o papel de "dono da festa" .

Representar papéis é a especialidade mais eficiente da histérica, assim, com muita propriedade ela representa aquilo que mais impressiona espectadores. Vem daí a idéia de que, entre tais papeis, essas pacientes costumam ser pseudo-hiper-sexuais, retrato superficial de sua pseudo-hiperfeminilidade.

Quadro Clínico da Histeria
Ao longo dos tempos a histeria tem colocado em questão saberes e instituições. É conhecida a forma como eram tratadas as feiticeiras, bruxas e possuídas nos tempos medievais. Desafiavam a religião constituída, ousavam desobedecer os preceitos divinos, davam vazão à sexualidade, etc. As punições por ser histérica eram terríveis, culminando, em geral, na morte, após muito sofrimento.

 Julgamento da Histeria

Julgamento de Bruxas (histéricas) - A expansão do saber médico acabou retirando a natureza "demoníaca" da histeria, mas não conseguiu integrá-la adequadamente em suas classificações nem em sua seriedade clínica.

A histeria desafiou e continua desafiando a semiologia médica: seus "sinais" e "sintomas" não respeitam sequer a fisiologia da Medicina, quanto mais a patologia. E mais do que isto, a histeria subverte a medicina clínica e a “boa vontade” dos médicos, em suma, até hoje a histeria é encarada como um transtorno..., não do paciente, mas para o médico.

Do ponto de vista descritivo e psicopatológico, a histeria é vista como uma neurose. Manifesta-se por sintomas variados, incomuns, bizarros e, muitas vezes, transitórios, muito embora atualemente seu quadro clínico seja frequentemente modificado, dissimulado e adequado aos valores de nossa cultura . Mais comumente a histeria clássica é representada por perturbações sensoriais, como a cegueira, surdez, afonia, dores ou anestesias localizadas, enxaquecas, contraturas musculares, e alterações motoras, através de dificuldades para andar, paralisias variadas, etc.

A Histeria, em suas variadíssimas formas de expressão, pode se manifestar através de traços (histriônicos) marcantes de personalidade, através de Transtornos Histéricos da Personalidade e através dos Transtornos Histéricos propriamente ditos, como por exemplo, Transtornos Conversivos, Dissociativos, Hipocondria, etc. De modo geral as classificações internacionais de doenças mentais consideram incluídos nos Transtornos Histéricos ou Histriônicos os seguintes quadros: Amnésia Psicogênica, Fuga Psicogênica, Personalidade Múltipla, Despersonalização, Síndrome de Ganser, Transtorno de Somatização ou Somatoforme, Transtorno Conversivo, Transtorno Doloroso, Transtorno Dismórfico e Personalidade Histriônica.

Um dado muito curioso no quadro clínico da histeria é o papel extremamente importante que a cultura tem no aparecimento e na forma dos sintomas. O histérico, por ser muito sugestionável, “idealiza” sintomas de acordo com aquilo que ele próprio representa de verdadeiro. Isso significa que a doença é intencional e involuntária ao mesmo tempo; existe algum planejamento (inconsciente), mas a pessoa não consegue libertar-se dele voluntariamente.

Uma característica quase universal do paciente histérico é sua dificuldade e relutância em reconhecer a participação emocional no processo de seu adoecimento. Sua tendência natural, assim como ocorre com uma parte expressiva dos médicos clínicos, é localizar a doença no corpo.

Nos serviços de saúde os histéricos tendem a se tornar dependentes de psicofármacos e analgésicos, bem como responderem parcialmente às abordagens psicoterápicas usuais. Parece que quando sentem que podem, de fato, melhorarem, eles insistem em abandonar o tratamento para manter presentes seus sintomas.

Essa característica de relutância em saberem-se emocionalmente adoecidos faz com que muitos profissionais os consideram inabordáveis. Normalmente eles sentem o encaminhamento para a saúde mental como uma desistência por parte dos médicos clínicos, como se a equipe não acreditasse na veracidade de suas queixas e lhes dificultassem a permanência no sistema de saúde.

Em situações onde o relacionamento médico-paciente se complica, normalmente devido ao fato dos histéricos não aceitarem que o médico associe suas queixas físicas a algum fator emocional, existe uma história do médico ter desvalorizado a queixa do paciente ... “o senhor não tem nada”, ... “procure relaxar, tirar essas coisas da cabeça”, ... “procure um psiquiatra”, e coisas assim.

Muitas vezes, diante da constatação clínica de que esses pacientes não têm nada medicamente palpável, o encaminhamento para a saúde mental funciona como uma espécie de vingança do clínico contra o corruptor da ordem médica. Esse encaminhamento é como se o profissional se libertasse do sentimento desagradável de impotência despertado pelo paciente. Na prática clínica estes pacientes são encaminhados aos ambulatórios de saúde mental sob o diagnóstico de poliqueixosos, somatizadores crônicos, portadores de queixas múltiplas ou doentes psicossomáticos.

Outro sintoma, responsável pela antipatia que eles causam nos médicos e em funcionários da saúde, e que pode acompanhar pacientes histéricos notadamente conversivos e dissociativos é a Mitomania. Trata-se de ficções criadas pelos histéricos, muitas vezes facilmente percebidas pelos outros, nas quais eles próprios podem acreditar.

Ainda dentro das características dos histéricos que contribuem para a reserva com que são recebidos pelos serviços de saúde, está a sensação que eles transmitem de perturbarem a ordem dos serviços. Não é incomum que façam complôs com outros enfermos, que promovam intrigas e semeiem discórdia entre o pessoal do serviço de saúde. De fato, a personalidade histérica ameaça, provoca, mente e frustra as expectativas dos médicos, do cônjuge, do amante, dos parentes, etc.

A dificuldade de classificação médica desses pacientes começou desde que o diagnóstico de neurose histérica, onde se inclui a maioria desses pacientes, foi desmembrado pelas classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV). Desde então, ainda não se obteve uma uniformidade quanto á classificação desses casos.

Do ponto de vista do politicamente correto, consideramos que a CID-10 representou um avanço no sentido de agrupar os pacientes com queixas múltiplas e difusas numa outra alternativa classificatória; os Transtornos de Somatização. Com esse nome, as pessoas, antes tidas histéricas, puderam ser também consideradas à luz de alterações afetivas, além das comportamentais.

Conversão, Dissociação, Somatização, e outros nomes complicados
Há, como sempre houve, uma grande dificuldade de nomenclatura e classificação dos quadros onde o componente histérico é evidente. Para facilitar, didaticamente vamos considerar essas situações todas como fazendo parte dos Quadros do Espectro Histérico.

Tanto os Transtornos Somatoformes, quanto os fenômenos Dissociativos e Conversivos, podem ser considerados transtornos psicorreativos, ou seja, aparecem sempre em resposta ou reação a algum evento de vida, a alguma emoção. Trata-se de uma resposta emocional a uma vivência traumática, e de certa forma aqui se incluem também os transtornos psicossomáticos. 

De modo geral, o Transtorno Somatomorfo (Somatiforme ou Somatoforme) se caracteriza por um salto do psíquico para o orgânico, com predominância de queixas relacionadas aos órgãos e sistemas, como por exemplo, queixas cardiovasculares, digestivas, respiratórias, etc. 

 

Na Conversão existe igualmente um salto do psíquico para o orgânico, porém, com repercussão no “sistema de comunicação” da pessoa com o mundo, ou seja, em sua mímica, seus cinco sentidos, sua mobilidade e coordenação motora. Os problemas de Somatização normalmente envolvem a clínica médica devido ao comprometimento dos diversos órgãos, enquanto os transtornos Conversivos guardam uma grande semelhança com os problemas neurológicos.

 

Assim sendo, na Conversão os sintomas aparecem sob a forma de perda da função de um ou de vários atributos necessários à vida de relação. Isso significa que a musculatura estriada e os órgãos sensoriais são afetados, podendo fazer surgir paralisias, anestesias, afonias, cegueira, crises convulsiformes, contraturas, desmaios, etc.

 

Nos distúrbios de Dissociação há, da mesma forma, um salto do psíquico, porém, não para o orgânico. Há um salto do psíquico para o próprio psíquico. Aqui são afetadas a consciência e integração da pessoa com a realidade. A Dissociação, segundo a CID.10, é representada pelos fenômenos onde o indivíduo fica, repentinamente, dissociado dos estímulos internos e externos.

 

Todos esses sintomas psicorreativos são reversíveis e não obedecem à realidade orgânica ou à fisiologia médica conhecida. Eles obedecem sim, à representação emocional que o sujeito tem de seus conflitos, de seu corpo e de seu funcionamento. Através dessa representação sintomática nada fisiológica podemos observar uma perda total da visão sem que o reflexo foto-motor se encontre alterado, ou uma lombalgia com exames neurológicos normais, tonturas com exames otoneurológicos normais e assim por diante.

 

Vale acrescentar que nenhum desses sintomas tem algo a ver com a simulação, tratando-se, pois, da comunicação corporal de um conflito ou mobilização emocional. É a expressão de uma necessidade psicológica onde os sintomas não são voluntariamente produzidos e não podem ser explicados, após investigação apropriada, por qualquer mecanismo clínico conhecido.

 

É muito importante fazer uma boa distinção entre sintomas somatiformes e conversivos com os sintomas psicossomáticos, embora todas essas manifestações possam ocorrer em um mesmo paciente. Na Conversão e Somatização, a representação da realidade vivenciada penosa, desagradável ou traumática é reprimida para o inconsciente e sua energia psíquica é deslocada para alguma zona do corpo, convertendo-se em sintoma.

 

Isso pode ser o que acontece, por exemplo, quando uma paciente apresenta queixa ginecológica vaga e incongruente, após ter participado de alguma prática sexual com o namorado em desacordo com seus valores morais. Nesses casos não existem lesões orgânicas, embora sempre exista a queixa do sofrimento. Tais queixas conversivas ou alterações funcionais independem da anatomia e fisiologia reais do organismo.

 

Na Doença Psicossomática, diferentemente, de fato existe alteração orgânica confirmada por exames clínicos, embora tais alterações tenham sido desencadeadas, determinadas ou agravadas por razões emocionais. Na Doença Psicossomática o Sistema Nervoso Autônomo (SNA) é o mais mobilizado. Alguns autores aceitam a idéia de que a Doença Psicossomática acontece quando há prejuízo da manifestação afetiva típica, ou seja, quando há alguma dificuldade para a pessoa reconhecer e verbalizar sentimentos e emoções (alexitimia).

 

Resumindo, a maneira mais didática de entender essa sucessão de termos parecidos e confusos pode ser assim:

TERMO

SIGNIFICADO

Somatiforme, Somatoforme ou Somatomorfo

Toda patologia psíquica que se faz representar no orgânico através de sintomas compatíveis ou não com a patologia clínica, com a anatomia ou com a fisiologia.

Somatização

Quando a parte física envolvida diz respeito aos órgãos e sistemas (coração, muscular, respiratório, genital...)

Conversão

Quando a parte física envolvida diz respeito à comunicação corporal da pessoa (cinco sentidos, musculatura, coordenação...)

Dissociação

Quando a parte envolvida diz respeito ao próprio psiquismo (confusão mental, delírios, desorientação...)

Psicossomática

Doenças determinadas, agravadas ou desencadeadas por razões emocionais com alterações orgânicas constatáveis (asma, hipertensão, dermatites, diabetes...)

Uma classificação bastante sensata das histerias é oferecida pelo DSM.IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - American Psychiatric Association, 1994). Com objetivo exclusivamente didático, elaboramos uma classificação que aproveita a classificação do DSM.IV e da CID.10 para os quadros do espectro histérico.

1 - Transtornos Somatoformes
1.1 - Transtorno de Conversivo
1.2 - Transtorno Somatização
1.3 - Transtorno Doloroso e Hipocondríaco
1.4 - Transtorno Neurovegetativo
1.5 - Transtorno Dismórfico Corporal
2 - Transtornos Dissociativos
2.1 - Amnésia Dissociativa
2.2 - Fuga Dissociativa
2.3 - Transtornos dissociativos do movimento
2.4 - Convulsões dissociativas
2.5 - Anestesia e perda sensorial dissociativas
2.6 - Transtorno Dissociativo de Identidade (Personalidade Múltipla)
2.7 - Estupor dissociativo
2.8 - Estados de transe e de possessão
2.9 - Transtorno de Despersonalização
2.10 - Síndrome de Ganser

Veja a página sobre Transtornos Somatoformes

Transtorno Dismórfico Corporal
O Transtorno Dismórfico Corporal é definido como uma preocupação com algum defeito imaginário na aparência física numa pessoa com aparência normal. O DSM.IV diz que a característica essencial do Transtorno Dismórfico Corporal (historicamente conhecido como Dismorfofobia) é uma preocupação com um defeito na aparência, sendo este defeito imaginado ou, se houver uma ligeira anomalia física de fato, a preocupação do indivíduo é acentuadamente excessiva e desproporcional.

Entretanto, para ser doença, essa preocupação deve causar sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Os quadros mais comuns envolvem, principalmente, preocupações com defeitos faciais, mas pode também incluir preocupações com outras partes do corpo, cheiro corporal e aspectos da aparência. Essa preocupação é, em geral, uma crença que não assume proporções delirantes. Quando isso ocorre o quadro pode ser de Esquizofrenia.

As queixas do paciente com Transtorno Dismórfico Corporal geralmente envolvem falhas imaginadas ou leves na face ou na cabeça, tais como perda de cabelos, acne, rugas, cicatrizes, marcas vasculares, palidez ou rubor, inchação, assimetria ou desproporção facial, ou pêlos faciais excessivos. Outras preocupações comuns incluem o tamanho, a forma ou algum outro aspecto do nariz, olhos, pálpebras, sobrancelhas, orelhas, boca, lábios, dentes, mandíbula, queixo, bochechas ou cabeça.

De um modo geral, qualquer outra parte do corpo pode ser o foco de preocupação, notadamente os genitais, seios, nádegas, abdômen, braços, mãos, pés, pernas, quadris, ombros, espinha, regiões corporais maiores, ou tamanho geral do corpo. A preocupação pode concentrar-se simultaneamente em diversas partes do corpo.

O mais comum é que a queixa do paciente com Transtorno Dismórfico Corporal seja específica, como por exemplo, lábio "torto" ou nariz "chato". Por vezes essa queixa pode ser vaga, do tipo "face caída" ou olhos "inadequadamente fixos". Em vista do seu embaraço com essas preocupações, algumas pessoas com esse transtorno evitam descrever seus "defeitos" em detalhes, podendo referir-se apenas à sua "feiúra" geral.

A maior parte das pessoas com Transtorno Dismórfico Corporal experimenta acentuado sofrimento por sua suposta deformidade, em geral descrevendo suas preocupações como "extremamente dolorosas", como "um tormento pior que a morte" ou "devastadoras". Em conseqüência dessa supervalorização, freqüentemente elas passam horas por dia pensando em seus "defeitos", a ponto de esses pensamentos poderem vir a dominar suas vidas.

Um prejuízo significativo em muitas áreas do funcionamento geralmente ocorre. Os sentimentos de desconforto com seu "defeito" podem levá-los a evitar o trabalho ou situações públicas.

As cansativas verificações no espelho e exames do "defeito" em outras superfícies refletoras disponíveis, como vitrines de lojas, pára-brisas de automóveis, vidros dos mostradores de relógios, etc, acabam consumindo horas intermináveis. Conseqüentemente, alguns pacientes evitam espelhos, às vezes cobrindo-os ou removendo-os de seu ambiente. Uma situação clínica que freqüentemente acompanha o Transtorno Dismórfico Corporal em homens é a Vigorexia .

As pessoas com este transtorno freqüentemente pensam que os outros podem estar observando (ou certamente estão) com especial atenção sua suposta deficiência, talvez falando dela ou ridicularizando-a. Essa postura caracteriza idéias de referência, ou persecutórias que elas podem apresentar concomitante ao Transtorno Dismórfico Corporal.

Esses pacientes podem estar sempre tentando disfarçar ou camuflar seu "horrendo defeito", e fazem isso deixando crescer a barba para encobrir cicatrizes faciais imaginadas, por exemplo, ou usando chapéu para esconder uma imaginada perda de cabelos, ou ainda colocar enchimentos em cuecas para aumentar um pênis "pequeno".

O sofrimento e a disfunção freqüentemente associados a este transtorno, podem provocar repetidas hospitalizações e ideação suicida, tentativas ou suicídio completo. O Transtorno Dismórfico Corporal pode estar associado com Transtorno Depressivo Maior, Transtorno Delirante Persistente, Fobia Social e Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Transtorno Dissociativo
O Transtorno Dissociativo se caracteriza, principalmente, por uma perturbação das funções integrativas da identidade, memória e consciência de origem psicorreativa, normalmente de forma súbita e transitória. De origem psicorreativa significa um quadro que aparece como reação à alguma vivência.

Semelhante ao quadro de Conversão, onde há um salto das emoções para o orgânico ou físico, na forma de sintomas que afetam órgãos e sistemas corpóreos, na Dissociação também há um salto, entretanto, trata-se de um salto do psíquico para o próprio psíquico. É como se fosse um enlouquecer psicológico.Anteriormente tal transtorno era denominado de Neurose Histérica do Tipo Dissociativo. A Amnésia Psicogênica é uma das apresentações desta neurose, assim como a Fuga Psicogênica, o Distúrbio de Personalidade Múltipla e o Distúrbio de Despersonalização.

Neste distúrbio, como dissemos, ao invés do arremesso das emoções para o orgânico, elas são refletidas no próprio psiquismo através de uma ruptura efervescente com a realidade. Conceitualmente, como os afetos podem se traduzir por sintomas em praticamente todos órgãos e sistemas, no caso em pauta o sistema afetado é o próprio sistema psíquico. Ao invés de considerarmos os cinco sub-tipos de Dissociação como se fossem doenças próprias, preferimos entender esses sub-tipos como sendo sintomas diferentes de uma mesma doença.

Amnésia Psicogênica ou Dissociativa
Define-se Amnésia Psicogênica (pela CID.10) ou Dissociativa (pelo DSM.IV) como sendo uma súbita incapacidade para lembrar informações pessoais importantes e anteriormente armazenadas na memória. Trata-se de algo muito mais profundo que um esquecimento simples e, para que possamos dar esse diagnóstico, deve ocorrer na ausência de outro transtorno cerebral concomitante, como por exemplo, traumatismos cranianos, estados pós-conlvulsivos, etc.

Evidentemente não podemos afastar a possibilidade deste sintoma tratar-se de uma exacerbação patológica do Mecanismo de Defesa denominado Negação. Na Amnésia Psicogênica há angústia patológica suficiente para produzir o Transtorno Dissociativo sob a forma de esquecimento (lacunar) daquilo que “precisa” ser esquecido. De fato, pode ser o próprio Mecanismo de Defesa (Negação) exibido de maneira patológica.

Na prática a Amnésia Psicogênica pode seguir-se aos acidentes catastróficos, como por exemplo a guerra, acidentes aéreos, etc., ou a fatos vivenciais traumáticos e/ou moralmente muito condenáveis. Há uma incapacidade de recordar informações pessoais importantes, em geral de natureza traumática ou estressante, demasiadamente extensa e delimitada para ser explicada pelo esquecimento normal

Nesse transtorno o prejuízo da memória pode ser de natureza reversível. Normalmente a amnésia tem início súbito e o paciente tem boa noção de que perdeu parte de sua memória, isso quando não há outro comprometimento da consciência superposto. A Amnésia Histérica se apresenta como uma lacuna bem delimitada no tempo, normalmente referida como acontecendo a partir de tal momento e durando até tal instante.

Algumas pessoas com esse tipo de histeria podem ter amnésia para episódios, por exemplo, de automutilação, de ataques violentos ou de tentativas de suicídio. Outras vezes a amnésia se apresenta de modo bastante súbito em tempos de guerra ou em resposta a um desastre natural.

Quando a amnésia é bem definida e localizada no tempo, a pessoa não consegue recordar eventos que ocorreram durante um período limitado de tempo, em geral durante as primeiras horas (de 2 a 36, em média) após um evento perturbador. Isso é o que pode acontecer, por exemplo, com sobreviventes de sérios acidentes automobilísticos, principalmente quando houver perda de algum membro da família.

Pode haver ainda, uma espécie de amnésia seletiva, quando então a pessoa consegue recordar alguns, mas não todos, eventos durante um período limitado de tempo. É o que pode acontecer, por exemplo, com um veterano de guerra capaz de recordar apenas algumas partes de uma série de experiências de um episódio de combate violento.

Há ainda três outros tipos de amnésia, menos comuns que as duas anteriores; a generalizada, contínua e a sistematizada. Na amnésia generalizada, o fracasso em recordar abrange toda a vida da pessoa. Os indivíduos com este raro transtorno em geral se apresentam à polícia, às salas de emergência ou aos serviços de psiquiatria de hospitais gerais.

A amnésia contínua é definida como uma incapacidade de recordar eventos subseqüentes a um momento específico (inclusive) até o presente. Finalmente, a amnésia sistematizada representa a perda de memória para certas categorias de informações, tais como todas as recordações envolvendo a própria família ou uma determinada pessoa. Os indivíduos que exibem esses últimos três tipos de Amnésia Dissociativa ou Psicogênica podem por fim receber um diagnóstico de uma forma mais complexa de Transtorno Dissociativo (por ex., Transtorno Dissociativo de Identidade).

Além dos sintomas relacionados à memória, na Amnésia Dissociativa podem existir também sintomas depressivos, despersonalização, estados de transe, anestesias e regressão etária espontânea. É uma condição muito propícia às encenações das vidas passadas. Outros problemas que ocasionalmente acompanham este transtorno incluem disfunção sexual, prejuízo no trabalho ou nos relacionamentos interpessoais, automutilação, impulsos agressivos, impulsos e atos suicidas. Os indivíduos com Amnésia Dissociativa também podem ter sintomas que satisfazem os critérios para Transtorno Conversivo, Transtorno do Humor ou Transtorno da Personalidade.

Fuga Psicogênica
Neste tipo de alteração o distúrbio predominante consiste num afastamento súbito e inesperado de casa ou do local de trabalho e a incapacidade de se recordar de seu passado, portanto, é um sintoma superposto à Amnésia Psicogênica.

Há, na Fuga Dissociativa ou Psicogênica, essencialmente, um desejo incontido de se afastar de experiências emocionalmente dolorosas mas, durante o período em que o paciente está foragido, pode se comportar de modo aparentemente normal ao julgamento dos outros. O principal diagnóstico diferencial para a Fuga Psicogênica é o comportamento do Estado Crepuscular, que pode acontecer na epilepsia do lobo temporal.

Normalmente a Fuga Dissociativa é acompanhada por confusão acerca da identidade pessoal ou mesmo adoção de uma nova identidade. Essa “viagem” pode variar desde breves afastamentos, por períodos relativamente curtos de horas ou poucos dias, até roteiros complexos, geralmente discretos, por períodos mais longos de semanas ou meses.

Há relatos de casos onde pessoas com Fuga Dissociativa cruzam fronteiras e viajam milhares de quilômetros. Durante uma fuga, os indivíduos em geral parecem não ter psicopatologia e não despertam atenções. Em algum momento o indivíduo é levado ao atendimento médico, geralmente por causa de amnésia para eventos recentes, estado confusional ou falta de consciência da identidade pessoal. Retornando ao estado pré-fuga, a pessoa pode não recordar o que ocorreu durante a fuga.

A maioria das fugas não envolve a formação de uma nova identidade mas, quando isso ocorre, a nova identidade assumida durante a fuga é caracterizada por traços mais gregários e desinibidos do que aqueles que caracterizavam a identidade anterior.

A pessoa com esse quadro pode assumir um novo nome, uma nova residência e envolver-se em atividades sociais complexas e bem integradas, que não sugerem a presença de um transtorno mental. Juntamente com o quadro de Fuga Dissociativa pode haver sintomas de Depressão, Disforia, tristeza, culpa, Estresse, conflitos, impulsos suicidas e agressivos.

Síndrome de Personalidade Múltipla
O Transtornos de Personalidade Múltipla ou Transtorno Dissociativo de Identidade é outro sintoma que também pode estar presente no Transtorno Dissociativo. Alguns autores consideram a Personalidade Múltipla mais freqüente que se imaginava antes, principalmente em adolescentes do sexo feminino.

Esse quadro se caracteriza pela existência de duas ou mais personalidades distintas e separadas numa mesma pessoa, e cada uma delas determinando comportamentos, atitudes e sentimentos próprios.

Quando o paciente manifesta uma determinada personalidade, há amnésia em relação à outra. A transição de uma personalidade para outra é, freqüentemente, súbita e dramática. As personalidades assumidas podem representar identidades criadas subjetivamente e que atendem anseios subterrâneos do indivíduo, bem como entidades sobrenaturais e possessivas.

Normalmente o Transtorno Dissociativo de Identidade, ou de Personalidade Múltipla, reflete um fracasso psíquico em integrar vários aspectos da identidade, memória e consciência. Cada estado de personalidade pode ser vivenciado como se possuísse uma história pessoal distinta e própria, auto-imagem e identidade próprias, inclusive com nomes diferentes.

Segundo o DSM.IV, nos casos de Personalidade Múltipla existe em geral uma identidade primária, portadora do nome correto do indivíduo. Com freqüência essa identidade costuma ser passiva, dependente, culpada e depressiva.

As identidades alternativas, ao contrário, têm nomes e características que contrastam com a identidade primária, como por exemplo, hostilidade, participação ativa e controle dos outros, etc. Outras identidades particulares podem emergir quando a pessoa se vê em circunstâncias específicas e altamente exigentes em termos emocionais.

As pessoas com este transtorno experimentam freqüentes falhas de memória para a história pessoal, tanto remota quanto recente. As evidências desses episódios de amnésia podem ser reveladas por relatos de outras pessoas que testemunharam o comportamento negado pelo paciente, como por exemplo, compras realizadas e não recordadas pela pessoa.

As transições entre identidades freqüentemente são ativadas pela tensão emocional e estresse, e o tempo necessário para a mudança de uma para outra identidade é uma questão de segundos. O número de identidades relatadas varia de 2 a mais de 100. Metade dos casos relatados inclui indivíduos com 10 ou menos identidades.

Os indivíduos com Transtorno Dissociativo de Identidade freqüentemente relatam a experiência de severo abuso físico e sexual, especialmente durante a infância. Kaplan refere estudos que apontam uma incidência em 80% de em vítimas de abusos sexuais na infância em pacientes com Transtornos de Personalidade Múltipla, e 25% dos casos com esse quadro apresenta epilepsia concomitante.

Transtorno de Despersonalização e Desrealização
Muito semelhante à Personalidade Múltipla é a forma de histeria denominada Despersonalização, caracterizada por alteração persistente ou recorrente na percepção de si mesmo, como a experiência de sentir-se separado do próprio corpo, de agir mecanicamente ou de estar num sonho.

Ao invés de sentir-se “possuído” por uma outra personalidade há, aqui, uma sensação de irrealidade para com o próprio corpo. Entre as causas orgânicas que mais apresentam o sintoma da Despersonalização está a Epilepsia, a qual deve ser prontamente distinguida do Transtorno Dissociativo. Normalmente a Despersonalização é acompanhada de grande sensação de ansiedade.

As características essenciais do Transtorno de Despersonalização consistem de episódios persistentes ou recorrentes de sensação de distanciamento ou estranhamento de si próprio. A pessoa pode se sentir como um autômato ou como se estivesse num sonho ou filme.

Pode haver uma sensação de ser um observador externo de si próprio, dos próprios processos mentais, do próprio corpo ou de partes do próprio corpo. Vários tipos de anestesia sensorial, falta de resposta afetiva e uma sensação de não ter o controle das próprias ações, incluindo a fala, freqüentemente estão presentes. Pacientes com Transtorno de Despersonalização mantêm um bom juízo de realidade, ou seja, têm consciência de que isto é apenas uma sensação e de não ser realmente um autômato.

A Despersonalização costuma ser uma experiência comum na psiquiatria, devendo-se fazer este diagnóstico apenas se os sintomas forem suficientemente severos para causar sofrimento acentuado ou prejuízo no funcionamento. Uma vez que o sintoma despersonalização é um fenômeno associado a muitos outros transtornos emocionais, e não apenas à histeria, o diagnóstico de Transtorno de Despersonalização não deve ser considerado se houver qualquer outro transtorno mental, como por exemplo, Esquizofrenia, Transtorno de Pânico, Transtorno de Estresse Agudo ou outro estado não histérico.

As pessoas com despersonalização mas que não sejam histéricas, freqüentemente podem ter dificuldade em descrever seus sintomas, bem como temer e recear que essas sensações possam ser interpretadas como sinais de loucura.

A Desrealização também pode estar presente, sendo vivenciada como um sentimento de que o mundo externo é estranho ou irreal. A pessoa com desrealização pode perceber também uma alteração insólita no tamanho ou forma dos objetos, percebendo-os maiores do que são (macropsia) ou menores (micropsia), assim como podem parecer estranhas ou mecânicas as pessoas à sua volta.

Tanto a Despersonalização quanto a Desrealização podem estar associadas à quadros de intensa ansiedade, à episódios depressivos, principalmente do tipo Grave (ou Maior) e à Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias. Também é comum encontrar nesses pacientes quadros de ruminação obsessiva de idéias, preocupações somáticas exageradas e Hipocondria. Os sintomas de Despersonalização e a Desrealização são muitíssimo freqüentes durante os Ataques de Pânico.

Síndrome de Ganser
A Síndrome de Ganser pode ser considerada a apoteose das histerias. Nesse caso, se fosse nominalmente possível, o termo mais correto seria Loucura Histérica. Trata-se de um Transtorno Dissociativo que se manifesta por uma produção voluntária de sintomatologia psiquiátrica muito severa, exuberante e inusitada. No exame desses pacientes podemos perceber respostas incoerentes e discurso despropositado, cujo objetivo é convencer solidamente o observador de que o paciente, de fato, está louco.

Perguntando-se à essas pessoas quanto é dois mais um, costumam responder quatro, ou a cor de uma parede verde ele diz ser preta. São elementos da realidade intelectual e sensoperceptiva que não se alteram em nenhuma espécie de loucura. Caso esse paciente estivesse desorientado de fato, diria não sei para as duas perguntas.

A Síndrome de Ganser pode fazer parte de um quadro dissociativo, juntamente com os demais sintomas histéricos. Há aqui, evidentemente, uma perturbação nas funções habitualmente integradas da consciência, memória, identidade ou percepção do ambiente.


 

Ballone GJ - Transtornos do Espectro Histérico - in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2008




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Histeria e Demônios
Acompanhando as histéricas através dos séculos, vê-se que no final da Idade média elas começaram a ser identificadas com as bruxas. A histeria passava a agregar genitália com demônio. Aquelas criaturas femininas que curavam com poções mágicas, copulavam e faziam pactos com o demônio, entravam em transe e, como castigo, acabavam condenadas à fogueira. Segundo as ordens do papa Inocêncio VIII, em 1484, “... realmente, nos últimos tempos chegou a nossos ouvidos, o que certamente nos afligiu com amarga tristeza, que muitas pessoas, de ambos os sexos, sem pensar em sua salvação e afastando-se da Fé Católica, abandonaram-se a demônios, íncubos e súcubos. Por isso, decretamos e ordenamos que os já mencionados inquisidores tenham o poder para proceder à justa correção, ao encarceramento e ao castigo de quaisquer pessoas, sem embaraço e impedimento (...)”

Sobre o “tratamento” das bruxas-histéricas publicou-se em 1486 um famoso manual chamado Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas). Alguns trechos desse Malleus Maleficarum pode nos dar uma pálida idéia da dimensão da histeria, não apenas das pacientes mas, da sociedade à sua volta.

“.... Os carrascos aproximaram-se, então, removendo-lhe o sambenito. Ela não esboçou qualquer resistência. Quando um eles, porém, tocou o laço que prendia o largo roupão ao corpo, ela gritou e recuou. As mãos fortes dos carrascos buscaram-na incontinente, imobilizando-a. O tecido que cobria seu corpo foi retirado e sua nudez pecaminosa expôs-se aos nossos olhos piedosos, alertados para os perigos e artimanhas do inimigo do Senhor, que a fez tão bela e tão sedutora com o único propósito de ceifar almas para o fogo do inferno. Percebi, porém, que ela estava mais magra do que era antes do processo”.

Os carrascos trataram, inicialmente, de raspar-lhe todos os pêlos à procura de algum sinal de malefício. De olhos fechados, ela parecia não se importar. Penso que isso tenha pesado contra ela no julgamento do representante do bispo, muito embora ele não se manifestasse a respeito. Lamentei, como todos devem ter lamentado, que tal mulher se tivesse deixado desencaminhar, incorrendo na heresia que acabaria por levá-la a uma condenação capital, caso não se arrependesse...”

Esse manual de diagnóstico para bruxas, o Malleus Maleficarum (1487; Martelo das Bruxas), dividia-se em três partes. A primeira ensinava os juízes a reconhecerem as bruxas em seus múltiplos disfarces e atitudes. A segunda expunha todos os tipos de malefícios, classificando-os e explicando-os. A terceira regrava as formalidades para agir “legalmente” contra as bruxas, demonstrando como inquiri-las e condená-las (não necessariamente nessa ordem).

A primeira parte do Martelo das Bruxas descreve quadros comportamentais perfeitamente compatíveis com a histeria. As maneiras de se identificar uma bruxa eram muitas, segundo o manual. Fora denúncias espontâneas e aquelas obtidas sob tortura, qualquer coisa servia como indício de bruxaria. Um ataque histérico ou epiléptico era a prova de possessão demoníaca, ser canhoto equivalia a ter feito pacto com o demônio, não comer carne de cabra, inclusive. Grave também era não ir às missas, mostrar-se inquieto, apresentar tiques nervosos, adoecer subitamente. Manchas no corpo era fatal, principalmente quando insensíveis à dor. Essas eram prova das mais válidas de ser, quem as tivesse, um servidor de Satanás.

Historicamente, um dos casos mais famosos e que relaciona visivelmente a histeria com a bruxaria, foi o julgamento e condenação de 18 ou 19 bruxas em Salem, uma cidade da Nova Inglaterra (EUA) em 1692.

Naquele ano, centenas de pessoas foram acusadas de praticar bruxaria. Entre junho e setembro, 18 pessoas foram condenadas e enforcadas e outra morreu de forma ainda mais bárbara, esmagada por pedras. Essas moças e mulheres acusadas manifestavam, todas, um forte comportamento histérico. Esse episódio foi fielmente retratado num filme chamado As Bruxas de Salem, dirigido por Nicholas Hytner, com Wynona Rider e Daniel Day-Lewis nos papéis principais.

Foi só em 5 de março de 1954 que a Câmara de Deputados do Estado de Massachusetts aprovou uma lei inocentando seis das dezenove mulheres executadas em Salem no ano de 1692. Isto equivale a um julgamento de bruxas em pleno século XX, pois se apenas seis mulheres foram absolvidas, implicitamente as outras treze tiveram sua condenação confirmada! Embora em 1957 a Comunidade de Massachusetts tenha revogado a extinção dos direitos civis das condenadas como bruxas em Salem, a que saibamos nada se fez para inocentar aquelas outras doze criaturas vítimas da intolerância (NetEstado, 1997).

Mais recente, em novembro de 2000, o Vaticano condenou exageros litúrgicos em sessões de cura. A Congregação para a Doutrina da Fé, que atualmente é o órgão do Vaticano que substituiu a Santa Inquisição, voltou a causar polêmica através de um documento sobre curas e exorcismos. O documento, de 17 páginas, está sendo visto por alguns especialistas como uma crítica à Renovação Carismática Católica, um movimento leigo, de inspiração pentecostal, que valoriza orações para cura e contra opressões do demônio.

O recente documento, assinado pelo prefeito da Congregação, cardeal Joseph Ratzinger, significa um progresso nas idéias que atrelam histeria com possessão. Embora o texto afirme que as orações dos fiéis para que Deus os cure de suas enfermidades sejam legítimas, ele ressalta que ... "qualquer coisa que se assemelhe a histeria, artificialidade, histrionismo e sensacionalismo deve ser afastada dessas práticas de cura." (O Estado de S.Paulo, 2000)

Histeria e Depressão
A associação dos quadros histéricos com a Depressão é cada vez mais contundente. A Depressão é um dos diagnósticos psiquiátricos mais comumente associados à histeria nas últimas pesquisas. Estima-se em que seja em torno de 38% o número de pacientes histéricos do tipo conversivo que sofrem de Depressão (Marjama J, Troster AI, Koller WC, Psychogenic Movement Disorders. Neurologic Clinics 13:283-297,1995).

Esta relação é ainda maior quando o transtorno histérico é do tipo somatização. Chega em torno de 90% o número de pacientes com esse quadro que desenvolverão um episódio de Depressão Maior ao longo da vida (Ford Blair, Treatment of psychogenic movement disorders, Columbia College of Physicians, Center for Parkinson´s disease and movement disorders, New York, NY).

Para entender melhor como ocorre a concordância entre depressão e histeria, vamos considerar o seguinte: os quadros do espectro histérico (conversão, dissociação, somatização, etc) podem ser todos considerados como tendo origem reativa, ou seja, aparecem como uma reação a eventos, sentimentos e emoções. Mas, para se manifestar, a histeria necessita previamente de um marcante traço histriônico de personalidade. Resumindo, vamos dizer que a química para a histeria seria um traço histriônico de personalidade, juntamente com uma reação emocional exuberante à alguma vivência.

Isso significa que não basta o traço histriônico para fazer aparecer o quadro histérico, se não houver uma reação vivencial exuberante, se não houver uma vivência emocional exageradamente significativa (para a pessoa).

Ora, sabendo que as pessoas com tonalidade afetiva depressiva sentem os estímulos aversivos, as dificuldades existenciais e os conflitos com muito mais intensidade, podemos supor que se essas pessoas estão sujeitas a reagirem à vida, de um modo geral, com muito mais sentimentos.

Juntando-se agora, a extrema sensibilidade vivencial das pessoas com tonalidade afetiva depressiva e a eloqüência de reações das pessoas histriônicas, podemos supor que os histéricos estão assim devido a uma reação vivencial exagerada aos estímulos aversivos, às dificuldades existenciais e conflitos.

Caso ainda esteja difícil relacionar as crises do espectro histérico à depressão, vamos raciocinar ao contrário: a pessoa não terá uma crise histérica se não reagir exageradamente ao estímulo, ela não reagirá exageradamente ao estímulo se não tiver uma grande sensibilidade afetiva a esse estímulo e não terá uma crise histérica se não tiver um traço histriônico em sua personalidade. Assim sendo, podemos considerar a histeria como uma das manifestações depressivas em personalidades cujo traço histriônico seja proeminente.

A Histeria nos Homens
A análise etimológica da palavra histeria nos traz ecos das superstições do passado. Como vimos, não foram poucos os que disseram que só mulheres poderiam ser histéricas e que era rematado absurdo falar-se em histeria masculina, uma vez que, etimologicamente, o vocábulo vem de "hyster", Grego para "útero".

Na realidade, o vocábulo não nos diz nada sobre a doença, mas sim sobre o estágio da Medicina na época em que o nome foi cunhado, muitos e muitos séculos antes de Freud. Antes de Freud e Charcot, acreditava-se que os sintomas descritos como histéricos eram causados por uma mirabolante migração uterina, estando assim a doença anatomicamente vinculada às mulheres.

Durante muitos séculos, a histeria não era somente uma queixa feminina. Ela foi atribuída a uma espécie de manifestação da fraqueza moral da mulher, como parte de sua habilidade em mentir, sua imaturidade, seus caprichos e lágrimas e necessidade de chamar a atenção. "Como regra geral, todas as mulheres são histéricas," escreveu o médico francês Auguste Fabre em 1883, acrescentando... "O que constitui o temperamento de uma mulher é basicamente a histeria".

Se, no tempo de Platão, o útero provocava nas mulheres um vivo desejo de gerar filhos e que, passando as épocas férteis e não se dando a concepção, este útero desapontado "começava a irritar-se perigosamente, se agitando em todas as direções, no corpo da mulher, ocasionando doenças de todos os tipos", hoje a maioria dos estudiosos desvincula a doença da esfera feminina.

Prefere-se estudar a histeria na esfera da mente, independente do gênero, podendo, assim, falar de homens histéricos. O vocábulo claramente perdeu qualquer relação com o significado etimológico de seus componentes e, embora o caráter histérico seja mais freqüente nas mulheres, os homens também podem ser acometidos pelo histrionismo.

Há até quem conteste a supremacia feminina em relação a esse traço do existir humano e, de fato, se considerarmos que os homens histéricos podem manifestar essa mazela de forma diferente e atípica, aí então a casuística ficaria praticamente igual.

Por estar a neurose histérica tão fortemente atrelada ao sexo frágil, passou a ser um verdadeiro insulto rotular um homem de histérico. Assim sendo, o chamado sexo forte passou a esconder sua histeria em sintomas algo diferente da teatralidade feminóide. Para os homens, parece que a necessidade de alguma vivência desencadeadora do rompante histérico é imprescindível. Quanto mais traumática for a vivência pré-surto histriônico, mais aliviado o histérico se sente em seus pruridos masculinos.

A etiqueta diagnóstica do Transtorno de Estresse Pós-Traumático parece atender alguns casos de histeria masculina, onde os sintomas podem ser muito parecidos aos da histeria feminina, incluindo as paralisias, anestesias, etc. Estes sintomas masculinos seriam ainda acrescidos de honrosas preocupações hipocondríacas, com medos de afecções cardíacas, palpitações, dores diversas e vertigens.

Há também no histérico masculino uma preocupação pela boa aparência, um zelo especial para com os gestos, com o modo de falar, comportamento, roupas, penteados, da mesma forma que na mulher. O desejo de agradar a todos domina sua vida e é inconsciente. Isso o torna tão sedutor como a histérica mulher.

Há estudos mostrando que 75% das pessoas adultas e sadias sofrem algum tipo de dor ou de mal estar num prazo de uma semana. Isso quer dizer que, em condições normais, o ser humano costuma apresentar alguma queixa sobre si mesmo e isso não se constitui em nenhum transtorno psiquiátrico (White KL, Williams TF, Greenberg BG. The ecology of medical care. N Eng J Med 1961; 265: 885-892). Entretanto, devemos pensar num diagnóstico de Somatização, apenas quando a pessoa que se queixa acredita estar sofrendo de um problema orgânico e busca diagnóstico e tratamento médico persistentemente. Nesses casos parece haver uma relutância do paciente em aceitar as seguidas negativas dos médicos quanto a possibilidade de não haver nenhuma doença física.

A diferença entre os Transtornos Somatomorfos e as
Doenças Psicossomáticas está não fato dessas últimas comportarem, junto com a queixa, realmente alguma alteração orgânica constatável clinicamente, enquanto a somatização não. Assim sendo, havendo confirmação de alterações orgânicas e, sendo a doença em pauta influenciável (determinada ou agravada) por razões emocionais, estamos diante de Doenças Psicossomáticas. Alguns poucos exemplos desses transtornos podem ser: asma brônquica, hipertensão arterial essencial, psoríase, retocolite ulcerativa, entre muitas outras.

O Lucro (emocional) da Histeria
O fenômeno do benefício emocional, primário e secundário, observado em todas as neuroses, é particularmente notável na histeria. Portanto o meio cultural mais exuberantemente impregnado de superstições, crenças mágicas, possessões e demônios, pecados e castigos, e toda sorte de elementos sobrenaturais irá influenciar enormemente na proliferação dos sintomas da histeria.

Curiosamente, atestando que não é a natureza emocional do ser humano que depende da cultura, mas sim sua forma de manifestação e sintomatologia, à medida que aumenta o nível cultural, a crítica social e a resistência à sugestão e às influências, embora diminuam os casos de histeria, os distúrbios psicossomáticos aumentam (veja mais à frente).

Na histeria, sempre que o sintoma servir para o alívio da ansiedade, há um mecanismo ao qual chamamos de Lucro Emocional Primário. Diante de um conflito, normalmente proporcionado pela discrepância entre aquilo que o histérico quer fazer com aquilo que ele deve fazer, ou ainda, com aquilo que ele consegue fazer ou com a situação que está acontecendo, o sintoma histérico aparece para proporcionar algum alívio.

Uma adolescente conversiva, por exemplo, diante de uma situação vivencial potencialmente ansiosa, como pode ser o caso de uma briga entre seus pais, recorre à uma síncope conversiva (desmaio). Com isso, certamente estará se afastando da situação traumática e se protegendo da ansiedade provocada pela briga. Também um soldado com Transtorno Conversivo, diante da ansiedade produzida pelo conflito entre o medo do combate e a vergonha da fuga, poderá apresentar uma paralisia ou qualquer outra limitação neuromuscular; sendo um deficiente físico, não terá que experimentar a ansiedade de saber-se um covarde já que, infelizmente, a natureza impediu sua participação no combate através de uma doença limitante de sua mobilidade.

Num outro mecanismo, a pessoa histérica obtém um Lucro Emocional Secundário, ou seja, conquista um suporte de aprovação, complacência ou compaixão do ambiente para com sua eventual falha ou para a não realização da atividade que lhe é avessa. A mesma adolescente que manifestou uma síncope ao presenciar a briga de seus pais, citada no exemplo anterior, despertará sentimentos de remorso nas pessoas responsáveis pela sua crise, juntamente com uma compaixão pelo seu estado deplorável e, inevitavelmente, receberá uma boa dose de carinho em seguida.

Dependência Emocional e Centro das Atenções
Observa-se em algumas pessoas histéricas uma acentuada dependência emocional de outra(s) pessoa(s) íntimas, seja do companheiro(a), do(s) filho(s) ou dos pais. Por causa dessa característica a pessoa histérica condiciona seus sintomas, crises e queixas ao estado da pessoa de quem dependem emocionalmente.

Percebendo que existem riscos da pessoa de quem dependem envolver-se com outras preocupações que não a pessoa do histérico, essa pode entrar em crise. É o que acontece com muitas mães histéricas ao perceberem que não estão sendo os alvos principais de atenção dos filhos, quando esses planejam sair de casa, casar-se, viajar, etc. Acontece também quando percebem que o(a) esposo(a) não tem-lhes dado a atenção pleiteada.

Notamos também essa característica de dependência das pessoas histéricas em relação aos outros, quando elas parecem despojar-se de qualquer pensamento ou decisão pessoal. O discurso dessas pessoas dá-nos a impressão que elas são marionetes nas mãos dos demais (quando na realidade é exatamente o contrário); ... eles acharam que eu deveria procurar um médico.... eles me levaram ao pronto socorro... eles me acharam doentes... Sempre são “eles” quem tomam decisões, parecendo que o histérico está imune e à margem de seu destino.

Sugestionabilidade e Teatralidade
Sem dúvida, a sugestionabilidade é um dos traços mais marcantes da personalidade histérica. É sobejamente sabido da atração que as profissões médicas ou paramédicas exercem sobre os histéricos. Muitas vezes ouvimos de pessoas histéricas frases do tipo: “...doutor, o senhor tem uma das profissões mais bonitas. Eu sempre quis estudar medicina...”, “... doutor, só de falar com o senhor já sinto alívio...

Os histéricos, de um modo geral, são extremamente sugestionáveis, demonstrando com isso seu clássico infantilismo e falta de maturidade da Personalidade. Eles têm os afetos e as relações interpessoais pueris, com predomínio da vida em fantasia como tentativa de negar uma realidade frustrante e penosa.

No campo terapêutico, essa característica pode ser benéfica, já que esses pacientes se tornam dependentes de seu médico e sujeitos a verdadeiras curas milagrosas que ocorrem por pura sugestão. O lado ruim, é que podem sentir todos efeitos colaterais dos medicamentos, complicando a adesão ao tratamento.

A marcante teatralidade e sugestionabilidade dos histéricos, juntamente com a divulgação freqüente feita pela literatura e pelo cinema sobre temas médicos, fazem com que a medicina ofereça sempre um valioso suporte alternativo para os fracassos, angústias, carências e fantasias da histeria. Essa teatralidade é muito marcante, fazendo com que eles estejam sempre ensaiando e interpretando papéis que acredita adequados à si próprios. Por mais que lhe sejam dispensados carinhos a atenções, estes nunca são suficientes. Insistentemente as pessoas histéricas estão a reclamar que ninguém as entende.

A indiferença aos Sintomas
La belle indiference é o nome que se dá quando o paciente não demonstra preocupação com o que parece ser um prejuízo maior. Nessa indiferença o histérico pode relatar, tranqüilamente, que está cego. A intencionalidade do histérico com essa indiferença sobre seu estado é no sentido de, sendo vítima, aceitar placidamente esse destino cruel.

O paciente se comporta, às vezes, como se falasse dos sintomas de outra pessoa. Após queixar-se deles com veemência, passa a abordar outros acontecimentos de sua vida atual ou passada, como se tivesse esquecido o início da conversa e de seu sintoma principal. Curioso é que quanto mais o médico se desvia dos sintomas físicos mais a pessoa histérica o acompanhará e, ao contrário, quando retorna a abordar os sintomas e lhes damos muita atenção, observa-se um agravamento dos mesmos.

A belle indiference constitui uma fragrante dissociação entre a reação emocional esperada e o transtorno apresentado pelo histérico. Um dos propósitos desse sintoma na histeria é fazer com que a pessoa assuma o papel de vitima indefesa diante da situação, provocando sentimentos de dó, pena e complacência dos outros. De fato, um dos males viciosos da histeria é o fato da pessoa ir incorporando este sentimento de fragilidade interior, o qual fará com que vá se sentindo cada vez mais fraca e incapaz.