Transtornos da Linhagem Sociopática

Os principais tópicos que relacionam a psiquiatria com a atitude violenta, agressiva e anti-social.
| Forense | Personalidade |


Os termos Psicopata, Sociopata, Anti-social, Transtornos de Conduta, Delinqüência, Borderline, até certo ponto, e muitos outros congêneres, juntamente com conceitos tais como Personalidade Criminosa, Personalidade Psicopática, Propensão ao Delito, etc., estão constantemente sendo revistos pela psiquiatria em geral e, particularmente, pela Psiquiatria Forense. Toda essa temática tem, também, um grande interesse para a sociologia, política e antropologia, na medida em que a sociedade tem se surpreendido com fenômenos de agressividade e violência estarrecedoras.

As perenes ocorrências de crimes seriais, juntamente com as igualmente perenes atitudes destrutivas de fundo religioso e político e as atuais conturbações do mundo moderno, principalmente as grandes tragédias político-sociais que abalam os grandes centros, como por exemplo, as ações terroristas, têm chamado muito a atenção sobre a destrutividade potencial que caracteriza a conduta de algumas pessoas. Seriam psicopatas todas as pessoas envolvidas nessas ações delituosas?

Com finalidade didática, resolvemos agrupar todos esses desvios da atitude humana que conflitam com os padrões sociais normais da vida gregária sob a denominação de TRANSTORNOS DA LINHAGEM SOCIOPÁTICA.

Nesse capítulo, compreensivamente bastante longo, veremos de maneira didática os principais tópicos que relacionam a psiquiatria com a atitude humana violenta, agressiva e anti-social. Nossa sistematização se dá assim:

1.Comportamento Violento
2.Personalidade Psicopática
  2.1 - Transtorno Psicopático e Sociopático
  2.2 - Personalidade Anti-Social
  2.3 - Personalidade Criminosa
  2.4 - Personalidade Psicopática e Moral
  2.5 - Violência no Psicopata
3.Personalidade Borderline
4.Transtorno Explosivo da Personalidade
5.Transtorno de Conduta
6.Agressividade em Crianças e Adolescentes

PERSONALIDADE PSICOPÁTICA - TRAÇOS E CARACTERÍSTICAS

A psicopatologia em geral e a psiquiatria forense em especial têm dedicado, há tempo, uma enorme preocupação com o quadro conhecido por Psicopatia (ou Sociopatia, Transtorno Dissocial, Transtorno Sociopático, etc).

Trata-se de um terreno difícil e cauteloso, este que engloba as pessoas que não se enquadram nas doenças mentais já bem delineadas e com características bastante específicas, a despeito de se situarem à margem da normalidade psico-emocional ou, no mínimo, comportamental. As implicações forenses desses casos reivindicam da psiquiatria estudos exaustivos, notadamente sobre o grupo de entidades entendidas como Transtornos da Personalidade.

A VIOLÊNCIA E IMPULSIVIDADE NO PSICOPATA

As descrições da Psicopatia têm incluído déficits afetivos e alguns processos psicofisiológicos associados. A nosso ver, a maneira de ser do psicopata é o resultados de um complexo sistema de avaliação do objeto, juntamente com uma série de condutas aprendidas como eficazes.

Antes que o sujeito interaja com o objeto, ou seja, em nosso caso, para que o sujeito psicopata elabore considerações sobre os objetos de sua realidade e com eles se inter-relacione, obrigatoriamente temos que refletir sobre suas características cognitivas.

Essa consideração cognitiva prévia decorre da tendência atual que considera as cognições como propriedades da consciência com potencialidade de causar determinadas respostas emocionais e sociais. Portanto, as bases biológicas da personalidade e de seus transtornos, como é o caso da psicopatia, muitas vezes se expressam em cognições disfuncionais.

Os estilos de relacionamento interpessoais expressam, além das tendências motivacionais, também o perfil cognitivo da pessoa. Os traços que definem a personalidade de cada um também podem ser analisados à luz das comunicações interpessoais, o que, por sua vez, volta a ter que ver com as motivações e com o perfil cognitivo da pessoa.

Assim sendo, as motivações estão sempre atreladas ao perfil cognitivo da pessoa e, a motivação do psicopata gira em torno do poder e do status destacado na hierarquia social, num contexto de repúdio ou evitação da empatia e apego.

Tem-se que considerar vários aspectos vinculados com a agressão e Psicopatia. Um deles é a relação existente entre agressão e impulsividade. Os vínculos entre a agressão e a impulsividade têm sido minuciosamente estudados por Seroczynski (1999). Entre os muitos traços de personalidade comórbidos estudados na psicopatologia, a associação entre impulsividade e agressividade é um dos mais freqüentes. Mas, vejamos com mais calma se esses traços, de fato, estão inexoravelmente atrelados.

Para entender melhor nosso raciocínio, será importante a distinção entre Agressão Depredadora (ou Proativa) e Agressão Reativa. Por último, teríamos que ver a real relação da Psicopatia com os grandes criminosos, como por exemplo, os assassinos em série e de massa. A Agressão Reativa tem sido definida como uma reação hostil à uma frustração percebida. O individuo Agressivo Reativo super-reage diante a menor provocação e costuma ser explosivo e instável.

Por outro lado, na Agressão Proativa (ou Depredadora) a pessoa tem uma conduta agressiva e violenta dirigida para uma meta determinada. Este tipo de agressor pode ser perigosíssimo aos demais e uma ameaça criminal para a sociedade. Vendo o problema desse jeito, podemos dizer que a Agressão Reativa é a que está mais fortemente ligada à impulsividade, enquanto que a Agressão Proativa é mais elaborada, planejada e premeditada.

Voltando agora à questão agressividade-impulsividade, e ainda tomando por base essa distinção das agressões em Proativa e Reativa, pode ser perfeitamente possível uma pessoa ser agressiva sem ser impulsiva e, não surpreendentemente, ser impulsivo sem ser agressivo. Então, para que estejamos certos, é necessário que a natureza da agressividade e da impulsividade seja diferente e não, obrigatoriamente, a mesma.

Isso significa que, no desenvolvimento da personalidade, os fatores genéticos, ambientais ou combinações de ambos, capazes de influenciar nos traços de agressividade e impulsividade, atuariam diferentemente em diferentes pessoas. Barratt (1999) demonstrou em suas pesquisas que os criminosos impulsivos presos diferiam dos que não eram impulsivos em várias medições neuropsicológicas, cognitivas e neurofisiológicas, sugerindo com isso que os dois tipos de criminosos poderiam ter etiologia distinta.

Apesar disso, existe quem apóia a idéia da impulsividade e agressividade estarem sempre sobrepostas numa mesma pessoa, tal como ocorreria, para esses autores, na sobreposição entre o Transtorno por Déficit de Atenção (TDAH) e os Transtornos de Conduta (TC). Aqueles que não compartilham esta posição, entre os quais nos colocamos, alegam que o TDAH e a agressão não estão obrigatoriamente e nem freqüentemente correlacionados.

Até o momento, tudo parece levar a crer que a impulsividade, que é o traço mais associado à Agressão Reativa, teria muito mais influência genética do que a Agressão Proativa. Para essa Agressão Depredadora, as influências ambientais teriam um papel fundamental, tais como experiências traumáticas ou ameaçadoras, precoces e duradouras.

As pessoas que exibem comportamentos impulsivos têm, em geral, outros problemas de conduta e/ou emocionais. A irritabilidade, e não a agressividade, parece ser o sintoma mais fortemente relacionado com a impulsividade. De outra forma, a possível relação entre Agressão Reativa e impulsividade parece provir, segundo Eduardo Mata (1999), das redes neuronais (assembléias neuronais) que manejam o controle da impulsividade, bem como dos fatores neuroquímicos do cérebro.

Segundo Meloy (Richards, 1998), uma das respostas fisiológicas que diferencia os Psicopatas, tanto dos Anti-sociais quanto dos normais, seria um sentimento de apego severamente perturbado, isto é, um prejuízo e fracasso nas atitudes de apego e nas identificações malignas.

O déficit do Psicopata na capacidade de apegar-se ou vincular-se aos outros pode também ser melhor conceitualizado por vias neurológicas inespecífica ou uma configuração incomum de genes. Outra opção causal sugere um defeito que resulta numa superabundância de impulsos agressivos ou um defeito nas funções psíquicas inibitórias, ou ainda, na combinação de ambos.

Assim sendo, um defeito do Superego, juntamente com uma predisposição inata para impulsividade e agressividade, mais a natureza adversa de experiências infantis precoces (normalmente antes dos 36 meses), criariam condições propícias para o desenvolvimento da Personalidade Psicopática.

CARACTERÍSTICAS DA PERSONALIDADE PSICOPÁTICA

Blackburn (1998) desenvolveu uma interessante tipologia para os subtipos de psicopatas, inclusive considerando o aspecto Anti-social como se tratasse de um dos sintomas possíveis de estar presente em certos casos. Inicialmente ele fez uma distinção entre dois tipos de psicopatas e ambos compartilhando um alto grau de impulsividade: um Tipo Primário, caracterizado por uma adequada socialização e uma total falta de perturbações emocionais, e um Tipo Secundário, caracterizado pelo isolamento social e traços neuróticos.

Apesar de todas variações tipológicas dos mais diversos autores, todos parecem estar de acordo nas características nucleares do conceito; impulsividade e falta de sentimentos de culpa ou arrependimento. Mais tarde os 2 subtipos de Blackburn (Primário e Secundário) foram aprimorados em 4 subtipos mas, para nosso trabalho, apenas esses dois tipos iniciais são relevantes :

1 - Os Psicopatas Primários, caracterizados por traços impulsivos, agressivos, hostis, extrovertidos, confiantes em si mesmos e baixos teores de ansiedade. Neste grupo se encontram, predominantemente, as pessoas narcisistas, histriônicas, e anti-sociais. Sua figura pode muito bem se identificar com personalidades do mundo político.
2 - Os Psicopatas Secundários, normalmente hostis, impulsivos, agressivos, socialmente ansiosos e isolados, mal-humorados e com baixa auto-estima. Aqui se encontram anti-sociais, evitativos, esquizóides, dependentes e paranóides. Podem ser identificados com líderes excêntricos de seitas, cultos e associações mais excêntricas ainda.

Entre esses 2 subtipos, as pessoas pertencentes ao grupo dos Psicopatas Secundários, seriam as mais desviadas socialmente, são também desviadas em outros aspectos. Nessas pessoas é onde mais se encontram as anormalidades no Eletroencefalograma, as quais têm sido descritas precocemente.

Os Psicopatas Primários, por sua vez, têm mais excitação cortical e autonômica, e maior tendência a buscar sensações. Entre esses grupos existem também diferenças quanto à agressividade e criminalidade.

Os Psicopatas Primários ainda teriam convicções mais firmes para efetuar crimes violentos, enquanto que os Psicopatas Secundários para os roubos. Psicopatas Primários e Psicopatas Secundários seriam mais dominantes, tanto em situações ameaçantes como aflitivas, mas os Psicopatas Secundários mostram mais fúria diante da ameaça, tanto física como verbal.

Os Psicopatas Primários e Psicopatas Secundários podem corresponder à brilhante classificação de Millon ao Psicopata Carente de Princípios (veja adiante). Esses dois subtipos compartilham alguns traços em comum, mas os Secundários têm muito mais ansiedade social e traços de personalidade esquizóides, evitativos e passivo-agressivos. É muito provável que a maioria ingresse no critério mais amplo de borderlines.

Com relação ao potencial de conflitos interpessoais da personalidade do psicopata é interessante considerar dois modelos: o grau de poder ou controle exercido sobre as demais e o grau de afinidade. Sobre o poder está em apreço a dominância ou a submissão aos demais e, em relação à afinidade, entra em cena a hostilidade ou o cuidado.

A expressiva maioria dos psicopatas estabelece uma interação social do tipo hostilidade e dominância, ficando a submissão e cuidado por conta dos não psicopatas. Para o exercício da dominância e hostilidade, o psicopata costuma culpar a outros, mentir com freqüência, buscar continuadamente atenção e ameaçar a outros com violência. O contrário dessa postura seria a amabilidade social, representada pelas condutas coercitivas e dóceis.

Entretanto, para complicar ainda mais essa questão dos traços, devemos considerar o desempenho sócio-teatral dos psicopatas, através do qual manifestam atitudes que não fazem parte de suas características genuínas, mas, sobretudo, de suas simulações sociais.

É assim que a Psicopatia pode aparecer estreitamente vinculada com a amabilidade. Neste modelo o Psicopata Primário tende a ser coercitivo e, apesar disso, também dominante e sociável (gregário). Já os Psicopatas Secundários, além de poderem ser também coercitivos, costumam ser mais isolados e aparentemente submissos. Mas ambos tipos exibem estilos interpessoais que os coloca na possibilidade de ter conflitos com terceiros. De qualquer forma, satisfazendo os critérios usados para definir os Transtornos de Personalidade, de modo geral, os psicopatas tendem a manifestar comportamentos rígidos e inflexíveis.

Millon (1998) desenvolveu também uma subtipologia dos psicopatas, por sinal, de interesse clínico maior que a subtipologia de Blackburm. A idéia de Millon foi dirimir as contradições entre numerosas visões que se têm sobre o psicopata. Mesmo considerando diversos subtipos de psicopatas, Millon deixa claro que existem elementos comuns a todos os grupos: um marcado egocentrismo e um profundo desprezo pelos sentimentos e necessidades alheias.

Com finalidade exclusivamente didática, modificamos, condensamos e sistematizamos a subtipologia de Millon da seguinte forma:

1 - O Psicopata Carente de Princípios: Este tipo de psicopata se apresenta freqüentemente associado às personalidades narcisistas e histéricas. Podem até conseguir manter-se com êxito nos limites do legal.

Estes psicopatas exibem com arrogância um forte sentimento de autovalorização, indiferença para com o bem estar dos outros e um estilo social continuamente fraudulento. Existe neles sempre a expectativa de explorar os demais (esse traço pode corresponder ao estilo dominante dos Psicopatas Primário e Secundário de Blackburn).

Há neles uma consciência social bastante deficiente e se faz notória uma grande inclinação para violação das regras, sem se importarem com os direitos alheios. A irresponsabilidade social se percebe através de fantasias expansivas e de grosseiras, contumazes e persistentes mentiras.

Falta, nesses Psicopatas Carentes de Princípios, o Superego. Essa falta é responsável pelos seus relacionamentos inescrupulosos, amorais, desleais e exploradores. Podem estar presentes entre sociedades de artistas e de charlatões, muitos dos quais são vingativos e desdenhosos com suas vítimas.

O psicopata sem princípios mostra sempre um desejo de correr riscos, sem experimentar temor de enfrentar ameaças ou ações punitivas. São buscadores de novas sensações. Suas tendências maliciosas resultam em freqüentes dificuldades pessoais e familiares, assim como complicações legais.

Estes psicopatas narcisistas funcionam como se não tivessem outro objetivo na vida, senão explorar os demais para obter benefícios pessoais. Eles são completamente carentes de sentimentos de culpa e de consciência social. Normalmente sua relação com os demais dura tempo suficiente em que acredita ter algo a ganhar.

Os Psicopatas Carentes de Princípios exibem uma total indiferença pela verdade, e se são descobertos ou desmascarados, podem continuar demonstrando total indiferença. Uma de suas maiores habilidades é a facilidade que têm em influenciar pessoas, ora adotando um ar de inocência, ora de vítima, de líder, enfim, assumindo um papel social mais indicado para a circunstância. Podem enganar a outros com encanto e eloqüência. Quando castigados por seus erros, ao invés de corrigirem-se, podem avaliar a situação e melhorar suas técnicas em continuar a conduta exploradora.

Carentes de qualquer sentimento de lealdade, juntamente com uma extrema competência em desempenhar papéis, os psicopatas normalmente ocultam suas intenções debaixo de uma aparência de amabilidade e cortesia.

2 - O Psicopata Malévolo: Juntamos aqui as características que Millon atribui aos subtipos Malévolo, Tirânico e Maléfico, por razões didáticas e por considerar que todos três comumente se manifestam numa mesma pessoa.

Os Psicopatas Malévolos são particularmente vingativos e hostis. Seus impulsos são descarregados num desafio maligno e destrutivo da vida social convencional. Eles têm algo de paranóicos na medida em que desconfiam exageradamente dos outros e, antecipando traições e castigos, exercem uma crueldade fria e um intenso desejo de vingança.

Além de esses psicopatas repudiarem emoções ternas, há neles uma profunda suspeita de que os bons sentimentos dos demais são sempre destinados a enganá-los. Adotam uma atitude de ressentimento e de propensão a buscar revanche em tudo, tendendo dirigir a todos seus impulsos vingativos. Alguns traços desses psicopatas se parecem com os sádicos e/ou paranóides, com características beligerantes, mordazes, rancorosos, viciosos, malignos, frios, brutais, truculentos e vingativos, fazendo, dessa forma, com que muitos deles se revelem assassinos e assassinos seriais.

Quando os Psicopatas Malévolos enfrentam à lei e sofrem sanções judiciais, ao invés de se corrigirem, aumentam ainda mais seu desejo de vingança. Quando se situam em alguma posição de poder, eles atuam brutalmente para confirmar sua imagem de força.

Irritados pelo freqüente repúdio social que despertam, esses Psicopatas Malévolos estão continuamente experimentando uma necessidade de retribuição agressiva, a qual pode, eventualmente, expressar-se abertamente em atentados coletivos ou atitudes anti-sociais (a luta sociedade versus eu). De qualquer forma, nunca demonstram a o mínimo sentimento de culpa ou arrependimentos por seus atos violentos. Ao invés disso, mostram uma arrogante depreciação pelos direitos dos outros.

É curioso o fato desses psicopatas serem capazes de dar uma explicação racional aos conceitos éticos, capazes de conhecerem a diferença entre o que é certo e errado, mas, não obstante, são incapazes de experimentar tais sentimentos.

A noção ética faz com que o Psicopata Malévolo defina melhor os limites de seus próprios interesses e não perca o controle de suas ações. Esse tipo de psicopata se encontra entre os mais ameaçantes e cruéis. Ele é invariavelmente destrutivo, sem misericórdia e desumano.

A noção de certo-errado faz com que esses psicopatas sejam oportunistas e dissimulem suas atitudes ao sabor das circunstâncias, ou seja, diante da autoridade jamais atuam sociopaticamente. Portanto, eles são seletivos na eleição de suas vítimas, identificando sujeitos mais vulneráveis a sua sociopatia ou que mais provavelmente se submetam aos seus caprichos. Mais que qualquer outro bandido, este psicopata desfruta prazer em proporcionar sofrimento e ver seus efeitos danosos em suas vítimas.

3 - O Psicopata Dissimulado: seu comportamento se caracteriza por um forte disfarce de amizade e sociabilidade. Apesar dessa agradável aparência, ele oculta falta de confiabilidade, tendências impulsivas e profundo ressentimento e mau humor para com os membros de sua família e pessoas próximas.

Na realidade, didaticamente poderíamos comparar o Psicopata Dissimulado como uma mistura bastante piorada dos transtornos Borderline e Histérico da Personalidade. Isso significa que ele pleiteia um estilo de vida socialmente teatral, com persistente busca de atenção e excitação, permeada por um comportamento muito sedutor.

Por essas características Millon já considerava o Psicopata Dissimulado como uma variante da Personalidade Histriônica, continuamente tentando satisfazer sua forte necessidade de atenção e aprovação. Essas características não estão presentes no Psicopata Carente de Princípios ou no Malévolo, os quais centram em sí mesmo sua preocupação e são indiferentes às atitudes e reações dos outros.

Esse subtipo dissimulado costuma exibir entusiasmo de curta duração pelas coisas da vida, comportamentos imaturos de contínua buscas de sensações. Seguindo as características básicas e comuns à todos os psicopatas, o dissimulado também tende a conspirar, mentir, a ter um enfoque astuto para com a vida social, a ser calculista, insincero e falso. Muito provavelmente ele não admite a existência de qualquer dificuldade pessoal ou familiar, e exibe um engenhoso sistema de negações. As dificuldades interpessoais são racionalizadas e a culpa é sempre projetada sobre terceiros.

A contundente falsidade é a característica principal deste subtipo. O Psicopata Dissimulado age com premeditação e falsidade em todas suas relações, fazendo tudo o que for necessário para obter exatamente o que querem dos outros. Por outro lado, em diferentemente do Psicopata Carente de Princípios ou do Psicopata Malévolo, parece desfrutar prazerosamente do jogo da sedução, obtendo excitação nas conquistas.

Mesmo aparentando intenções de proteger certas pessoas, o Psicopata Dissimulado é frio, calculista e falso, caracterizando mais ainda um estilo fortemente manipulador. Essa característica pode ser conseqüência da convicção íntima de que ninguém poderá amá-lo ou protegê-lo, a menos que consiga manipular a todos. Apesar de reconhecer que está manipulando seu entorno social, tenta convencer aos outros de que suas intenções são boas e que suas atitudes são, no mínimo, bem intencionadas.

Quando as pessoas com esse tipo de psicopatia são pressionadas ou confrontadas, sentem-se muito encabulados e suas reações oscilam entre a explosão agressiva e vingança calculista. A característica afabilidade dos Psicopatas Dissimulados é superficial e extremamente precária, estando sempre predispostos a depreciarem imediatamente a qualquer um que represente alguma ameaça à sua hegemonia, chegando mesmo a perderem o controle e explodirem em cólera.

4 - O Psicopata Ambicioso: perseguem avidamente seus engrandecimentos. Os Psicopatas Ambiciosos sentem que a vida não lhes tem dado tudo o que merecem, que têm sido privados de seus direitos ao amor, ao apoio, ou às gratificações materiais. Normalmente acham que os outros têm recebido mais que eles, e que nunca tiveram oportunidades de uma vida boa.

Portanto, estão motivados por um desejo de retribuição, de compensar-se pelo que tem sido despojado pelo destino. Através de atos de roubo ou destruição, se compensam a si mesmos pelo vazio de suas vidas, sem importar-lhes as violações que cometam à ordem social. Seus atos são racionalizados através da idéia de que nada fazem senão restaurar um equilíbrio alterado.

Para os Psicopatas Ambiciosos que estão somente ressentidos, mas que ainda têm controle minimamente crítico de seus atos, pequenas transgressões e algumas aquisições são suficientes para aplacar essas motivações. Mas para aqueles que têm estas características psicopáticas mais desenvolvidas, somente a usurpação de bens e coisas alheias podem satisfazê-los.

O prazer psicopático nos ambiciosos está baseado mais em tomar do que em ter. Como a fome que os animais experimentam em relação à presa, os Psicopatas Ambiciosos têm um enorme impulso para a rapinagem, e tratam os demais como se fossem peões num tabuleiro de xadrez de poder.

Além de terem pouca consideração pelos efeitos de sua conduta, sentindo pouca ou nenhuma culpa pelos efeitos de suas ações, como os demais psicopatas, os ambiciosos nunca chegam a sentir que tem adquirido o bastante para compensar suas privações. Independentemente de suas conquistas, permanecem sempre ciumentos e invejosos, agressivos e ambiciosos, exibindo todas vezes que podem, posses e consumo ostentoso.

A maioria deles é totalmente centrada em si mesmos, contribuindo isso para sua comum atitude libertina e em busca de sensações. Esses psicopatas nunca experimental um estado de completa satisfação, sentindo-se não realizados, vazios, desolados, independentemente do êxito que possam ter obtido. Insaciáveis, estão sempre convencidos de que serão sempre despojados de seus direitos e desejos.

Ainda que o subtipo ambicioso seja parecido, em alguns aspectos, ao Psicopata Carente de Princípios, ele exerce uma exploração mais ativa e sua motivação central é manifestada através da inveja e apropriação indevida das posses alheias. O Psicopata Ambicioso experimenta não só um sentimento profundo de vazio, senão também uma avidez poderosa de amor e reconhecimento que, segundo ele, não lhe ofereceram na infância.

4 - O Psicopata Explosivo: diferencia-se das outras variantes pela emergência súbita e imprevista de hostilidade. Estes psicopatas são caracterizados por fúria incontrolável e ataque a outros, furor este freqüentemente descarregado sobre membros da própria família. A explosão agressiva se precipita abruptamente, sem dar tempo de prevenir ou conter. Sentindo-se frustrados e ameaçados, estes Psicopatas Explosivos respondem de uma maneira volátil, daninha e mórbida, fascinando aos demais pela brusca forma com que os surpreende.

Desgostosos e frustrados na vida, estas pessoas perdem o controle e buscam vingança pelos alegados maus tratos a que foram precocemente submetidos. Em contraste com outros psicopatas, esses não se movem de maneira sutil e afável. Pelo contrário, seus ataques explodem incontrolavelmente, quase sempre, sem nenhuma provocação aparente. Esta qualidade de beligerância súbita, tanto quanto sua fúria desenfreada, distingue estes psicopatas dos outros subtipos. Muitos são hipersensíveis aos sentimentos de traição, a ponto de fantasiarem deslealdades o tempo todo.

para referir:
Ballone GJ, Moura EC - Transtornos da Linhagem Sociopática - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2008.

 

Bibliografia
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Transtorno da Personalidade Anti-Social: os Pacientes Esquecidos da Psiquiatria
A Personalidade Anti-Social(PAS) é caracterizada por um padrão de comportamento socialmente irresponsável, explorador e sem culpa que começa nos primeiros anos de vida ou no início da adolescência e se manifesta por distúrbios em muitas áreas da vida, inclusive nas relações familiares, na área acadêmica, no trabalho, no serviço militar e no casamento.

Os comportamentos anti-sociais incluem criminalidade, insucesso em manter um emprego de maneira consistente, manipulação de outros para ganho pessoal, freqüentes atos de trapaças em relação a outros e insucesso em desenvolver relações interpessoais estáveis.2 Outros atributos da PAS incluem falta de empatia com outros, raramente experimentar remorso e falha em aprender com os resultados negativos das experiências de alguém. Os comportamentos anti-sociais variam de atos relativamente pouco importantes, como mentir ou trair, a atos hediondos, inclusive tortura, estupro ou homicídio. Embora a PAS seja generalizada, sua importância raramente é reconhecida. Com observou o psiquiatra Hervey Cleckley,3 em 1976, a pessoa anti-social é “a pessoa esquecida da psiquiatria que provavelmente causa mais infelicidade e mais perplexidade ao público que todos os pacientes com distúrbios mentais combinados.”

História
O comportamento anti-social tem sido descrito durante toda a história registrada; ainda assim, as descrições formais de comportamento anti-social datam apenas do início do século XIX. Philippe Pinel, líder da Revolução Francesa e fundador da psiquiatria moderna, usou o termo manie sans délire (mania sem delírio) para descrever pessoas que não eram loucas, mas tinham crises irracionais de raiva e violência.4 Benjamin Rush,5 médico que assinou a Declaração da Independência nos Estados Unidos, descreveu casos semelhantes que ele acreditava fossem causados por uma “organização defeituosa naquelas partes do corpo que são ocupadas pelas faculdades morais da mente.” O médico escocês James Pritchard escreveu sobre insanidade moral, a qual ele identificou como uma patologia em que pessoas normais no restante dos aspectos se envolvem intencionalmente em comportamento anti-social.

No final do século XIX, psiquiatras alemães cunharam o termo “psicopatia” (uma contração de psychological pathology – patologia psicológica) para descrever ampla gama de comportamentos inaceitáveis e excentricidades; eles implicaram que a personalidade psicopática fosse causada por fatores constitucionais. O termo foi popularizado mais tarde por David Henderson,6 que escreveu e publicou obras quase ao mesmo tempo.

Cleckley, cuja obra foi reconhecida e se tornou altamente influente na América do Norte, forneceu a primeira descrição coerente de personalidade anti-social no agora clássico Mask of Sanity (Máscara da Sanidade), originalmente publicado em 1941. Colocando a PAS à parte de outras patologias psiquiátricas e anormalidades do comportamento, ele demonstrou, através de uma série de vinhetas de casos, como o distúrbio transcende a classe social. Os atuais conhecimentos sobre PAS refletem muitas teorias e interpretações propostas em seu trabalho pioneiro. Cleckley3 também destacou que os psicopatas não são loucos e que seus atos, conquanto deploráveis, são deliberados e intencionais. Ele argumentou que o distúrbio jamais deve ser considerado uma desculpa para mau comportamento.

O termo “desequilíbrio da personalidade sociopática”, que substituiu “psicopatia”, foi incluído no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Primeira Edição (DSM-I), compêndio de distúrbios mentais reconhecidos publicado em 1952.7 Os psiquiatras usavam o termo “distúrbio da personalidade psicopática” para descrever pessoas que exibiam comportamento anormal em relação ao seu ambiente. Adições a drogas, alcoolismo e comportamentos sexuais aberrantes foram relacionados como subtipos importantes. O termo “transtorno da personalidade anti-social” foi introduzido em 1968 no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Segunda Edição (DSM-II).8 A PAS finalmente assumiu um lugar em separado entre as várias categorias de diagnóstico; já não estava ligada a adições ou sexualidade diferente da norma. Como “sociopatia” o termo “anti-social” implica que o desequilíbrio é dirigido contra a sociedade e suas muitas regras e regulamentos.

Os critérios de diagnóstico foram enumerados com a publicação do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Terceira Edição (DSM-III),9 em 1980, e foram baseados, em parte, na pesquisa conduzida nas décadas de 40 e 50 por Robins e colegas10 na Universidade Washington em St. Louis, e por Sheldon e Eleanor Glueck11 na Universidade de Harvard em Boston. Ambas as equipes de pesquisa demonstraram independentemente a continuidade entre problemas comportamentais na infância e na idade adulta, ambos os quais eram necessários para o diagnóstico. Os critérios foram simplificados desde então no DSM.IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4ª Edição). Trecho do site
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