Frigidez ou Desejo Sexual Hipoativo

Apesar de existir de fato, pode ser que o Transtorno do Desejo Hipoativo não exista nas proporções que se acredita.
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"Doutor, meu problema é a frigidez. O que o senhor me recomenda?" Essa pergunta, colocada de maneira tão fria e simples assim, tem sido um dos maiores desafios à ginecologia e à psiquiatria. Trata-se mais de uma confissão constrangida do que uma queixa médica. O problema vem geralmente acompanhado de sentimentos de frustração, vergonha, mágoa e, às vezes, culpa. A pessoa sente como se a parte psíquica que desperta o interesse pelo sexo estivesse morta ou desligada, não raro sente injustamente que a culpa é sua falta de determinação ou entusiasmo.

Por questão acadêmica a Frigidez deve ser diferenciada da falta de orgasmo. Muitas mulheres não conseguem experimentar orgasmo mas continuam tendo prazer e interesse sexual. Os problemas que envolvem o desempenho sexual feminino podem ser agrupados sob o título de Disfunção Sexual Feminina onde se inclui o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo.

Na absoluta maioria dos casos, o desinteresse pelo sexo está ligado a fatores psicológicos, sendo um dos motivos mais reclamados a monotonia conjugal. Estudo populacional com 356 mulheres entre 20 e 70 anos identificou que a diminuição do desejo ocorre mais freqüentemente nos relacionamentos mais longos. Por outro lado, entre as mulheres que relatam maior satisfação com seu parceiro a diminuição do desejo sexual foi bem menos provável (Hayes, 2008).

Outros fatores relacionados ao desinteresse sexual e sobejamente conhecidos por todos são a educação recebida, a falta de diálogo, práticas sexuais pouco gratificantes e outras. O próprio envelhecimento e as dificuldades do cotidiano também podem interferir na satisfação sexual. A maioria das pacientes não procura o especialista para saber se tem frigidez, elas já vem ao consultório sabendo que têm. A expectativa delas é saber se existe uma fórmula mágica para o problema.

Fazer um diagnóstico correto é muito importante. Boa parte das vezes o problema tem origem emocional e entre as questões emocionais o problema pode ser muito mais da outra pessoa do que da paciente. Geralmente essa outra pessoa não aceita sua parcela de culpa e vive "obrigando" a mulher a procurar um tratamento, preferentemente milagroso.

A falta ou diminuição do desejo sexual pode também estar ligada a problemas orgânicos, como por exemplo, alterações hormonais, debilidade física por conta de outras doenças ou até mesmo pelo uso incorreto de medicamentos. Entre os estudos que sugerem provável origem física da baixa libido feminina, um dos mais recentes foi realizado na Wayne State University pelo Dr. Michael Diamond, em Detroit, e apresentado à Sociedade Americana para Medicina Reprodutiva na conferência em Denver, sugerindo diferenças no processamento mental em mulheres que têm impulsos sexuais baixos.

Independente da causa, os transtornos da função sexual em ambos os sexos são estudados considerando-se algumas fases específicas da atividade sexual, geralmente separadas em 3:
- Desejo
- Excitação
- Orgasmo

O DSM-IV (Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais, 4ª. Revisão) classifica os distúrbios sexuais femininos de acordo com a função alterada, mais precisamente; desequilíbrios do desejo, da excitação e do orgasmo, havendo ainda transtornos classificados em separado, como é o caso da Aversão Sexual, Dispareunia e Vaginismo. É pouco provável que o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo e o Transtorno Orgástico Feminino também não estejam relacionados à excitação. De fato, as queixas relacionadas a tais transtornos dizem respeito a problemas da excitação sexual e não, propriamente, à função do aparelho sexual ou genital. Uma coisa é não ter prazer fazendo sexo, outra é não conseguir fazer sexo.

Nossa cultura tem forte apelo para um desempenho sexual obrigatoriamente fogoso e, dessa forma, qualquer diminuição na vontade de fazer sexo é considerada impotência ou frigidez, quase uma invalidez sexual.

Há ainda questões orgânicas que não podem ser confundidas com Transtorno Sexual Hipoativo. É o caso, por exemplo, do vaginismo e da dispareunia, que causam dor à penetração, portanto, comprometendo irreparavelmente a excitação sexual, além de poder levar ao medo de sexo ou à fuga total das atividades sexuais.

 Causas Orgânicas para o Desejo Sexual Hipoativo

 - Função hipotalâmica-hipofisária anormal. Isso resulta na diminuição do Fator de Liberação de LH (hormônio luteinizante), com conseqüente diminuição de seu nível sérico e simultâneo aumento de prolactina. Este último um hormônio muito relacionado ao desinteresse sexual.
- Anomalias testiculares capazes de produzir uma diminuição de testosterona.
- Diminuição de testosterona ovariana e/ou supra-renal na mulher.
- Enfermidades sistêmicas, tais como a insuficiência renal crônica com conseqüente diminuição de gonadotrofinas, a cirrose hepática com a conseqüente atrofia testicular e transformação de androgênios em estrogênios, a Síndrome de Cushing, com a conseqüente diminuição de testosterona plasmática, a insuficiência supra-renal, o hipotiroidismo e as enfermidades debilitantes.
- Medicamentos e drogas. Nessa categoria dos agravantes da hipofunção sexual está o álcool, em primeiro lugar, os tranqüilizantes, os anti-hipertensivos, tais como a metildopa (Aldomet), reserpina, clortiazidas, clonidina, espironolactona, beta bloqueadores como o propranolol; os anti-depressivos, principalmente os tricíclicos, os inibidores da MAO e o carbonato de lítio, também a cimetidina (Tagamet), sulpirida, metoclopramida (Plasil), metronidazol (Flagil), a maconha, as anfetaminas (anorexígenos usados em regimes alimentares), a cocaína e o craque.

Para o diagnóstico de qualquer transtorno incluído no capítulo da Disfunção Sexual Feminina, é necessário que as manifestações sejam persistentes. É importante também reconhecer se essas alterações sexuais sejam primárias, que não sejam conseqüência de alguma outra condição clínica. Costuma-se também subdividi-Ias em situacionais ou generalizadas, quer dizer, se a dificuldade sexual acontece apenas em situações específicas ou se ocorrem em qualquer situação que envolve atividade sexual.

Epidemiologia
O termo Disfunção Sexual Feminina engloba o Transtorno Orgástico Feminino, Transtorno de Excitação Sexual Feminina e o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo. Por questão de definição, as queixas sexuais femininas seriam consideradas "doenças" apenas quando provocassem algum sofrimento.

Entretanto, o maior desafio estatístico está na precisão dessas queixas, saber se o que as pessoas se queixam são problemas da função sexual propriamente dita, ou da satisfação com o sexo que têm. Pesquisas mais antigas mostravam que 50% dos homens e 77% das mulheres queixavam dificuldades sexuais. O maior número de dificuldades relatadas na época se relacionava mais à falta de satisfação sexual global do que com alguma disfunção (Frank, 1978).

A questão é complexa porque o que vemos é uma espécie de "doença relativa", se fosse possível esse termo, isto é, muitas vezes trata-se de uma mulher com desempenho sexual aquém daquilo que seu companheiro espera dela. Por ela mesma, entretanto, não haveria sofrimento.

De qualquer forma, em nome da boa adaptação conjugal é importante avaliar as questões relacionadas ao desempenho sexual. Pesquisa com 5.463 mulheres entre 18 e 49 anos mostrou que a presença de dificuldades sexuais se relaciona a maior probabilidade de desarmonia conjugal, comparando-se com mulheres sem esses problemas (Witting, 2008).

Há mais de 10 anos (Laumann, 1999), um terço das mulheres relatava falta de interesse sexual e quase um quarto delas reclamava não sentir orgasmo. Um pouco menos de 20% tinha dificuldades de lubrificação e mais de 20% achava o sexo desagradável. Inegavelmente trata-se de uma ampla prevalência de queixas sexuais femininas.

Entre as queixas sexuais femininas o que se observa é que a maioria delas, 33%, de fato diz respeito ao déficit de desejo sexual. Em segundo lugar a falta de orgasmo – anorgasmia – com 24% das queixosas, seguido pelas dificuldades de excitação e/ou lubrificação, com 20%, dor vaginal na relação – dispareunia – com 15% e o restante com outras queixas.

A prevalência dos transtornos sexuais femininos é extremamente elevada e, muito provavelmente, superior à prevalência das disfunções sexuais masculinas. No Brasil, a falta de desejo sexual mostrou ser a maior queixa sexual feminina. A prevalência do problema é de 23,4% para as mulheres mais jovens e chega a atingir 73,0% entre aquelas de idade mais avançada (Abdo, 2002). Esses números são maiores entre as mulheres brasileiras do que entre as européias e americanas, nas quais a falta de desejo sexual variou de 11% a 53% (Hayes, 2007).

Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo
O Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (HSDD) é uma das formas mais comuns de disfunção sexual feminina. O DSM-IV trata do assunto no capítulo dos Transtornos do Desejo Sexual, sendo a frigidez sexual feminina denominada Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo. A característica essencial desse transtorno é uma deficiência ou ausência de desejo de ter atividade sexual.

Este manual internacional recomenda para  diagnóstico do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo o seguinte:
- Deficiência ou ausência de fantasias sexuais, ou
- Deficiência ou ausência de desejo sexual, e
- Sofrimento ou dificuldades interpessoais

Como se vê, para tal diagnóstico a perturbação deve causar sofrimento e dificuldades interpessoais. Acreditamos que a primeira questão a ser levantada, diante de uma paciente com queixas sobre seu desejo sexual, é saber se ela gostaria de ser diferente ou se está bem desse jeito. Em segundo lugar, é saber se ela gostaria de ser diferente para acomodar alguma situação, para atender aspiração de outra pessoa, para estar inserida em modelo cultural desejável ou o quê?

A dificuldade que se apresenta no consultório de psiquiatria é que algumas pacientes reivindicam, com certa simplicidade inocente, que gostariam de ter mais vontade sexual. Tomando-se um tema tão complexo com tal simplicidade, ou estaria sendo menosprezado o assunto ou o terapeuta.

De fato, trata-se de assunto delicado, até porque pode ser difícil entender como uma pessoa poderia desejar ter desejo por aquilo que não quer. Seria o mesmo que não estar satisfeito com o fato de não ter vontade de comer melancias,... mas como tenho um compromisso de adaptação à alguma contingência, gostaria de gostar de melancias. De qualquer forma, a despeito das armadilhas do raciocínio e das palavras, o tema é realmente de inegável importância.

A descrição do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo diz que o baixo desejo sexual pode ser global, abrangendo todas as formas de expressão sexual ou apenas situacional, limitado a um determinado parceiro ou a uma determinada atividade sexual. Existe nessas pessoas pouca motivação para a busca de estímulos e pouca frustração quando privadas da oportunidade de vivência sexual.

A paciente portadora do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo – leia-se, mulher portadora de frigidez – em geral não costuma tomar iniciativa para a atividade sexual ou pode se engajar com certa relutância quando esta atividade é iniciada pelo parceiro. O DSM-IV, com igual frigidez, estabelece critérios pretensamente objetivos para o diagnóstico desse transtorno predominantemente emocional e subjetivo.

Critérios Diagnósticos para F52.0 - 302.71 Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo (veja Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo no DSM-IV)
A. Deficiência (ou ausência) persistente ou recorrente de fantasias ou desejo de ter atividade sexual. O julgamento de deficiência ou ausência é feito pelo clínico, levando em consideração fatores que afetam o funcionamento sexual, tais como idade e contexto de vida do indivíduo.
B. A perturbação causa acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal.
C. A disfunção sexual não é melhor explicada por outro transtorno do Eixo I (exceto outra Disfunção Sexual) nem se deve exclusivamente aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral (por exemplo, transtornos hormonais).
Especificar tipo:
Ao Longo da Vida
Adquirido
Especificar tipo:
Generalizado
Situacional
Especificar:
Devido a Fatores Psicológicos
Devido a Fatores Combinados

Para começar a entender o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo devemos refletir, antes, sobre o próprio desejo sexual, cuja ausência ou diminuição é o primeiro requisito para o diagnóstico.

O desejo sexual é um fenômeno subjetivo extremamente complexo, para cuja origem contribuem significativamente as fantasias sexuais, os sonhos sexuais, a iniciação do comportamento sexual, a receptividade ao e do par sexual, as sensações genitais, as respostas aos sinais eróticos no meio ambiente e muitos outros fatores.

Muito ao contrário do que pensam alguns, o desejo sexual do ser humano adulto, maduro e consciente não se resume à simples pulsões fisiológicas, tal como é o caso da vontade de comer ou da vontade de beber. Sexo por impulso, ou seja, exclusivamente biológico, acontece nos animais e no ser humano imaturo, biológica ou mentalmente. No ser humano maduro e consciente considera-se que o desejo sexual seja um complexo vivencial formado por três componentes principais; a biologia, a psicologia e a socialização. Interessa aqui esses três componentes interagindo continuamente uns com os outros.

A expressão "desejo sexual" envolve a inclinação humana para o comportamento sexual, o qual tem início tanto na cultura, através da motivação sexual, como na pessoa, através do impulso sexual.

Sem motivação e estímulo sexual a idéia de Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo fica comprometida.
Historiadores, sociólogos, filósofos, teólogos e antropólogos aceitam o fato da vida sexual sofrer importante influência de forças culturais, as quais pesam tanto quanto ou mais que os aspectos biológicos ou psicológicos. Assim sendo, pode-se dizer que o desejo sexual humano tem um importante componente cultural: a Motivação Sexual.

Em alguns ambientes culturais – seja uma família ou um país – o sexo ainda é considerado algo pecaminoso, algo que deve ser combatido veementemente, repudiado... Muitas pessoas submetidas a tal influência passam a reprimir seus desejos sexuais e, conseqüentemente, a experimentar situações fortemente conflitivas de desagradáveis conseqüências emocionais. Nesses casos e nesses meios culturais, as mulheres diagnosticadas portadoras de Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo em nosso meio seriam, ao contrário, valorizadas e meritosas.

As aspirações ou motivações sexuais brotam da conjunção favorável entre fatores biopsicológicos e culturais. Representam um dinamismo psíquico estimulado por valores culturais com o aval da integridade biológica. Essas motivações variam em temática e potência entre as pessoas, indo das fantasias e devaneios sobre uma sexualidade culturalmente recomendada, até os limites impostos pelas possibilidades pessoais, passando pelas questões ditas de consciência, as quais reprimem sentimentos e comportamentos por toda a vida.

Em mulheres a motivação sexual parece depender bastante de elementos culturais cerceadores de natureza moral, religiosa, de decência, decoro, pudor, e outros valores. Nos homens, por sua vez, parecem influir outros parâmetros culturais, embora de natureza mais permissiva, igualmente tirânicos. No fundo, todos se submetem ao modelo cultural que recomenda o que deve ou não deve motivar o desejo sexual.

A motivação sexual é quase a mesma coisa que o Estímulo Sexual, pois ambos dizem respeito à influência que o "objeto" exerce sobre o "sujeito", ou seja, é o efeito sexual causado pelo ambiente sobre a pessoa.

Academicamente podemos dizer que a motivação é de origem cultural e geral, diz respeito a “autorização” ou licitude para a pessoa sentir desejo sexual. A motivação sexual obedece recomendações culturais: só pessoas casadas devem sentir tesão, ou isso também inclui as solteiras? Deve-se ter desejo sexual durante a quaresma? Pessoas com mais de 70 anos podem ter desejo sexual? É bastante recomendado sentir desejo sexual durante o carnaval na Bahia. Universitários devem sentir desejo sexual o tempo todo. Jovens copulam continuamente.

A motivação sexual não apenas autoriza a experimentar desejo mas, sobretudo, aponta quais objetos devem estimular esse desejo: deve (ou pode) excitar-se por pessoas do sexo oposto, não se deve desejar o próprio cunhado, pessoas muito mais jovens não devem despertar desejo sexual... irmã, então, nem pensar. O mesmo para mulher de amigo. Só se tem tesão por pessoas muito mais velhas se forem ricas ou muito interessantes... e assim por diante.

Enquanto a motivação sexual disponibiliza a pessoa para o sexo, decidir com quem fazer esse sexo é papel do estímulo sexual. Depois da motivação sexual, a vontade de aproximar-se dessa ou daquela pessoa com intenções sexuais, de eleger esta ou aquela pessoa para o sexo é atributo do estímulo sexual. O ambiente cultural motiva, a outra pessoa estimula. Assim como o incesto é culturalmente desmotivado, a pessoa com mau hálito é intimamente desestimulante; o primeiro é a motivação, o segundo a estimulação.

Como se percebe, a cultura sugere um forte apelo sexual, determina normas de sexualidade e recomenda protocolos. A mídia banaliza e torna naturalmente desejável o relacionamento sexual entre duas pessoas que mal se conhecem, simplesmente porque se encontram na mesma festa, ou fascinam o público em um reality show. O modismo libertino sugere certa obrigatoriedade de promiscuidade sexual, aliás, o conceito de promiscuidade também é cultural. As regras de condenação do promíscuo são éticas, portanto, culturais. A motivação sexual permitida ou condenada diante do promíscuo exemplifica bem o componente cultural.

As normas do “politicamente correto” motivam pessoas a procurar seguir o modelo e, de modo geral, o ambiente cultural de nosso meio e em nossos dias motiva pessoas para o sexo, se possível, hipersexo. A motivação sexual deve representar certa obediência ao modelo cultural e implica em frustração caso este modelo não esteja sendo obedecido. Assim, é possível entender melhor quando a pessoa vem ao médico desejando sentir desejo sexual, ou querendo gostar mais de sexo; “doutor... eu gostaria de gostar...”.

Algumas vezes, embora haja uma motivação cultural e ambiental absolutamente instigante para o sexo, como por exemplo, um casal de jovens atraentes em viagem de férias em uma praia paradisíaca, mesmo assim fracassa totalmente o estímulo sexual necessário a um dos parceiros. E “quando um não quer dois não brigam”. Isso pode acontecer, por exemplo, se algum requisito importante não estiver sendo atendido, como por exemplo, higiene, carinho, compreensão, segurança, companheirismo, etc. Podemos, neste caso, falar em Desejo Sexual Hipoativo? Melhor seria inventar algum transtorno de desleixo sexual hiperativo, que pelo menos não seria monopólio das mulheres.

Se situações como esta acontecem às pessoas absolutamente normais, emocionalmente sadias, imagine-se o que pode acontecer sexualmente às pessoas com depressão, quando então a vitalidade e a capacidade de sentir prazer estão fortemente reduzidas. Na depressão o "objeto" deixa de representar para o "sujeito" aquilo que representava. O próprio sujeito deprimido deixa de representar para si mesmo aquela pessoa capaz de fazer o sexo, de dar prazer, de amar e ser amada.

Assim como há prejuízo do estímulo sexual porque a outra pessoa não corresponde às expectativas, algumas vezes a pessoa não corresponde às suas próprias expectativas, não se consideram mais atraentes, sente-se incapaz de despertar um estímulo sincero na outra. O envelhecimento exerce um efeito desastroso sobre a autoestima, tanto quanto a depressão. Podemos falar aqui em Desejo Sexual Hipoativo? Melhor seria dar crédito à idéia de que um dos sintomas freqüentes da depressão é a redução significativa da libido, que por sinal também não é monopólio das mulheres.

Em relacionamentos sólidos e maduros, quando a outra pessoa estimula sentimentos negativos, quando há mágoas, decepções, incompreensão, perda da admiração, geralmente perde-se o estímulo sexual. As decepções da vida conjugal são as maiores responsáveis pela perda do estímulo sexual. Podemos falar em Desejo Sexual Hipoativo quando os outros sentimentos necessários para um vínculo afetivo já não existem mais?

No ser humano maduro a vontade de ter um relacionamento sexual costuma estar atrelada a algum tipo de apreço ou sentimento pelo par, além da necessária compatibilidade sexual. A análise de fatores psicológicos como esses ajuda a explicar grande parte dos problemas de falta motivação sexual na população feminina.

Segundo pesquisa de 2008, nos casos diagnosticados como Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo as principais queixas sobre o parceiro incluíam poucos carinhos preliminares em 42% dos casos e, em 35%, um visível desinteresse do parceiro (Witting, 2008). Como se vê, é importante avaliar a compatibilidade conjugal antes de se falar em Disfunção Sexual Feminina, uma vez que a participação masculina pode influenciar fortemente o desejo feminino para o sexo.

O que é Normal
Em vista da falta de referências na literatura especializada sobre a idade, freqüência ou grau do desejo sexual que possa ser considerado normal, não-normal ou patológico, o diagnóstico deve fundamentar-se no julgamento clínico, com base nas características do indivíduo, nas determinantes interpessoais, no contexto de vida e na conjuntura cultural. É isso que recomenda as diretrizes do DSM-IV.

Imbuído dessa função e autoridade, o médico deve avaliar os parceiros em relação às eventuais discrepâncias na expectativa da sexualidade, tanto a expectativa de um quanto de outro, e quanto às características do relacionamento do casal. Às vezes, o desejo sexual aparentemente acanhado de um reflete apenas as necessidades excessivas do outro.

Algumas circunstâncias podem ter um efeito prejudicial sobre um desejo sexual originariamente normal, como por exemplo, a expectativa ou medo de sofrer dor durante a penetração (dispareunia), ou os problemas relacionados à imagem corporal e à autoestima, ou ainda as justificadas preocupações com as adversidades cotidianas.

Os transtornos depressivos lideram a lista das circunstâncias emocionais adversas que interferem na vontade, na energia e no prazer em quase todas as atividades humanas, especialmente na atividade sexual.

Há questões muito interessantes relacionadas à possibilidade de se classificar como doença a maioria dos casos de pouca intensidade do desejo sexual. Primeiramente, a falta de desejo sexual sendo considerada uma doença, isentaria a mulher de qualquer responsabilidade sobre seu desempenho sexual. Sendo doença ainda e, principalmente, uma doença própria da mulher, a qualidade sexual da participação masculina na vida do casal estaria preservada. Além de atender emocionalmente ao casal disfuncional ainda podem ser vendidos alguns medicamentos. Todos ganham.

Com isso não se quer dizer que o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo não exista: existe sim. Entretanto, pode ser que não exista nas proporções que se acredita. Pode ser ainda que, embora o foco do problema seja o desejo sexual feminino, as causas desta “invalidez” estejam localizadas muito além da mulher.

 

Para referir:
Ballone GJ - Frigidez ou Desejo Sexual Hipoativo - in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/>, 2010.

 

Referências:
Abdo CHN - Perfil sexual da população brasileira: resultado do Estudo do Comportamento Sexual (ECOS) do Brasileiro. [Sexual profile of brazilian population: results from Brazilian Study of Sexual Behavior (BSSB)]. RBM Rev Bras Med. 2002;59(4):250-7.

Frank E, Anderson C, Rubinstein D - Frequency of sexual dysfunction in "normal" couples. N Engl J Med. 1978 Jul 20;299(3):111-5

Hayes RD, Dennerstein L, Bennett CM, Koochaki PE, Leiblum SR, Graziottin A - Relationship between hypoactive sexual desire disorder and aging. Fertil Steril. 2007;87(1):107-12.

Hayes RD, Dennerstein L, Bennett CM, Sidat M, Gurrin LC, Fairley CK - Risk factors for female sexual dysfunction in the general population: exploring factors associated with low sexual function and sexual distress. J Sex Med. 2008;5(7):1681-93.

Laumann EO, Paik A, Rosen RC - The epidemiology of sexual dysfunction: results from the National Health and Social Life Survey.Int J Impot Res. 1999 Sep;11 Suppl 1:S60-4.

Shifren JL, Monz, B, Russo P, et al. - Sexual Problems and Distress in United States Women: Prevalence and Correlates. Obstet Gynecol 2008;112(5): 968-969.

Witting K, Santtila P, Varjonen M, et al. - Female sexual dysfunction, sexual distress, and compatibility with partner. J Sex Med. 2008;5(11):2587-99.




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Nova substância não foi eficaz para mulheres com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo
Uma nova substância pesquisada inicialmente como antidepressiva ganhou expectativa em relação ao tratamento para o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo – a baixa libido em mulheres. Resultados iniciais são animadores em relação à segurança e eficácia da nova substância para o tratamento dessa disfunção sexual da mulher.

Trabalhos sobre um novo tratamento para o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, que se caracteriza pela diminuição do desejo sexual, foram apresentados em Lyon, na França, durante o 12º Congresso da Sociedade Européia de Medicina Sexual em novembro de 2009 e mostraram que o flibanserin aumenta o número de eventos sexuais satisfatórios, bem como o desejo sexual de mulheres na pré-menopausa. O novo tratamento não é hormonal e age no sistema nervoso central. As pesquisas com flibanserin foram realizadas com 5 mil mulheres.

Para administração de um tratamento como este foi necessário um diagnóstico preciso de Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, depois de excluírem-se outras circunstâncias médicas ou psiquiátricas que poderiam comprometer a libido, como por exemplo, a depressão, os conflitos no relacionamento com o parceiro, o uso de alguns medicamentos ou a presença de outras doenças que afetem o desejo sexual.

O novo composto não-hormonal investigado como possibilidade de tratamento para mulheres com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo é o flibanserin. No entanto, o medicamento foi dado como não efetivo para esse tipo de tratamento por uma comissão do FDA (órgão americano que regulamenta medicamentos e alimentos) em junho de 2010.

Os testes iniciais não convenceram o órgão de regulamentação americano de que o medicamento ativa o desejo sexual das mulheres. Em outubro de 2010 o laboratório Boehringer Ingelheim, que produzia a droga, abandonou as pesquisas com esse princípio ativo para a melhoria de desejo sexual nas mulheres.

 

Uma Luz
Por ser a atividade sexual em geral muito complexa, principalmente a sexualidade feminina, que é mais afetiva que sensorial, o tratamento para esse problema tem sido extremamente difícil. Outro fator complicante é o fato do tratamento envolver, quase sempre, o parceiro da paciente, já que a dinâmica sexual pode estar envolvida bilateralmente.

O uso de doses altas (supra-fisiológicas) de hormônios masculinos (andrógenos) para mulheres com disfunção sexual tem mostrado resultados convincentes, mas a segurança desse tratamento a longo prazo ainda é duvidoso. A partir de 2001 o FDA aprovou um dispositivo eletromecânico ("bomba") de vácuo clitoriano para o tratamento da Disfunção Sexual Feminina. Não existem, contudo, estudos de eficácia em larga escala para o mesmo, de forma que, até o presente momento não existe umá terapêuticas oficialmente comprovadas pelo FDA para a Disfunção Sexual Feminina.

Até bem pouco tempo, as psicoterapias eram as alternativas mais eficazes, senão únicas, para resolver parte significativa dos casos, fora aquelas pacientes que apresentavam hipoatividade sexual decorrente de estados depressivos, as quais, felizmente melhoram com o tratamento antidepressivo. A psicoterapia comportamental, o treinamento em práticas masturbatórias e o treinamento continuado com o parceiro são técnicas psicoterápicas com resposta relativamente satisfatória.

Assim sendo, a maioria dos casos de disfunção sexual feminina é tratada mediante psicoterapia orientada aos sintomas e pelo uso de medicamentos para os quais é descrita alguma eficácia em nível experimental, mas para os quais ainda não existe aprovação oficial

A Bupropiona é um antidepressivo dopaminérgico central, já aprovado como antidepressivo e coadjuvante no tratamento do tabagismo. O aumento da libido nas pessoas que usam esse medicamento tem sido bem documentado. Um estudo recentemente apresentado por Segraves (2003), em fase de publicação, demonstra considerável aumento das fantasias e desejo sexual, em mulheres com diagnóstico de HSDD, não-responsivas ao placebo.

Segundo a farmacologia, o cloridrato de bupropina aumenta a quantidade de noradrenalina e dopamina, substâncias químicas naturalmente produzidas pelo corpo, responsáveis pela comunicação entre os neurônios e associadas ao prazer sexual.

Essas pesquisas, conduzidas pelo psiquiatra Robert Taylor Segraves, de Cleveland, o estudo foi feito com adultas de 23 a 65 anos que tiveram falta de desejo por cerca de seis anos e sem histórico de depressão típica. Quase um terço das pacientes que usaram a bupropiona, administrada em comprimidos pela manhã por oito semanas, apresentou melhoras, com aumento das fantasias, dos episódios de estímulo sexual e da vontade de manter relações.


O que costuma ser imperdoável para a mulher
Em Edição Especial da revista Época (ed. 303), Editora Globo, de 8 de março de 2004, há um artigo interessantíssimo sobre a sexualidade atual da mulher.

Reproduzimos aqui algumas sugestões, conselhos ou "dicas" com o propósito de ampliar o conhecimento masculinos sobre os anseios sexuais femininos e, com isso, minimizar as disfunções sexuais do casal.

"Lideram a lista de queixas femininas na cama:
- A pressa que o homens têm de chegar "lá" e o fato de muitos dormirem depois de gozar
- A idéia de que toda mulher adora discutir a relação depois de transar. Para a maioria, mais vale um abraço do que passar discutir "ficada"
-Não dar importância às preliminares é gravíssimo. A penetração, que para os homens é o auge da transa, para as mulhres é só parte da relação.

Resumindo, não se deve:
- Ser rápido demais
- Dormir logo depois do orgasmo
- Pular a etapa das carícias
- Insistir em saber se mereceu um 10 pela performance
- Falar de antigas conquistas na cama.

Apesar da mulher estar experimentando que o sexo e afeto obrigatoriamente nem sempre andam juntos, ainda a maioria delas escolhe seu parceiro mais por empatia e afinidades que por sua aparência.
" Mulheres que foram para a cama apenas movidas pela atração física se disseram menos satisfeitas do que em relações mantidas com outros que não as seduziram à primeira vista".

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Oscilações da Libido Feminina
Entre outras razões não orgânicas, o organismo feminino sofre intensa influência hormonal durante o ciclo menstrual. Os hormônios oscilam muito durante trinta dias e essas oscilações podem interferir nas emoções, inclusive no desejo sexual.

O hormônio responsável pela libido é a testosterona, um hormônio masculino que existe em menor quantidade no organismo da mulher. No primeiro dia do ciclo, primeiro dia da menstruação, os níveis de estrógeno e progesterona caem, mas fazem com que a mulher tenha desejo, mesmo porque elas têm mais lubrificação e estão relaxadas com o final dos sintomas da TPM.

Depois que a menstruação acaba a produção de estrógeno cresce, assim como a de progesterona, em menor quantidade. O apetite sexual também aumente, principalmente quando se chega entre o 12º e o 14º dia do ciclo.

Neste período, quando a mulher está fértil, os níveis de testosterona chegam ao seu pico. Isso faz com que a mulher fique mais atraente e com a libido em alta. É uma forma de estimular a procriação no dia que ela tem mais propensão para engravidar. Mas isso não é uma regra, pois outras alterações influenciam no desejo.

Depois disso, acontece o contrário, ou seja, a partir do 17º dia o desejo sexual não é tão intenso porque os níveis de estrógeno caem e os sintomas da conhecida TPM começam, isso dias depois 22º ou 23º. Caso ocorra a gravidez, a progesterona prepara o útero para receber o embrião e a mulher chega a ficar mais inchada.

Durante a gestação, a relação entre desejo sexual e fases da gravidez é semelhante com a que ocorre durante o ciclo menstrual, só que dividido em três trimestres. No primeiro trimestre, há diminuição do desejo, relacionado com sintomas desagradáveis, como o medo de abortamento, medo de machucar o bebê e as mudanças físicas e psíquicas às quais o casal deve se adaptar.

No segundo trimestre há um aumento do desejo sexual, às vezes sendo até maior do que antes da gravidez. No terceiro trimestre até o final da gestação a libido fica menor, geralmente por conta do mal-estar físico, cansaço, estresse, ansiedade e o incômodo no momento das relações.

Anticoncepcionais, como, pílula, anel vaginal, implantes e adesivos inibem a libido. Isso acontece porque certos anticoncepcionais atingem a SHBG, proteína responsável pelo transporte da testosterona. Eles também bloqueiam a ovulação, dessa forma o desejo, que vai e vem durante o ciclo, é amenizado. “A relação da libido com a pílula depende de cada mulher, vai variar de cada paciente e sua reação aos anticoncepcionais com baixa ou alta dosagem de estrógeno e progesterona”, segundo a ginecologista Rosa Maria Neme, da USP. Fonte: Terra Saúde