Cleptomania

Os impulsos para o furto são mais fortes do que a capacidade da pessoa em controlar-se.
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A cleptomania é uma doença psiquiátrica crônica caracterizada pela necessidade impulsiva de furtar objetos. No DSM.IV, classificação de doenças mentais norte americana, trata-se de um fracasso recorrente em resistir a impulsos de furtar objetos, embora esses sejam desnecessários para o uso pessoal ou por seu valor monetário.

 

A cleptomania faz parte dos Transtornos no Controle dos Impulsos, assim como a Piromania (comportamento incendiário), a Tricotilomania (puxar os próprios cabelos), o Transtorno Explosivo Intermitente (fracasso em resistira impulsos agressivos), o Jogo Compulsivo (comportamento recorrente em relação a jogos de azar).

 

A cleptomania tem sido mencionada na medicina durante séculos. O nome “cleptomania” começou com a observação do psiquiatra suíço Andre Matthey (klopemanie) ao descrever pessoas que roubavam impulsivamente itens irrelevantes e desnecessários. Os médicos franceses Esquirol e Marc corroboraram o conceito de Matthey e alteraram sutilmente a palavra para kleptomanie.

 

A importância de Esquirol e Marc foi em relação à qualificação da atitude da pessoa com cleptomania, segundo eles, decorrente do impulso irresistível e involuntário para o furto, além de atribuir este tipo de furto à uma doença mental e não à falta de consciência moral. Somente a partir dos anos 50 é que a cleptomania foi reconhecida pela Associação de Psiquiatria Americana como uma espécie de doença mental e só nos últimos 15 anos os trabalhos científicos nesta área confirmaram-na realmente como um transtorno psiquiátrico.

 

 

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A necessidade surge como um impulso que não se consegue controlar e normalmente os objetos que despertam desejo sobre os cleptomaníacos são aqueles de baixo valor, embora isso não seja uma regra invariável. Por causa da absoluta preferência por objetos sem grande valor devemos estar alerta para ladrões querendo passar-se por cleptomaníacos. Dinheiro, jóias e outros objetos de valor dificilmente são levados por cleptomaníacos.

 

Logo após o furto a pessoa cleptomaníaca sente prazer e tem um grande alívio da ansiedade que existia antes do ato, mas algum tempo depois sente vergonha e tristeza pelo que fez. Habitualmente ela esconde seu comportamento da família dificultando o diagnóstico e o tratamento e, quando decide por tratar-se tem grande dificuldade em falar que furta, preferindo outros termos, tais como, pegar, adquirir, levar, conseguir e coisas assim.

 

Os impulsos para o furto são mais fortes do que a capacidade da pessoa em controlar-se, daí a inclusão da cleptomania nos Transtornos do Controle dos Impulsos. Acompanhando o forte impulso e a realização do roubo, vem um enorme prazer em ter furtado o objeto cobiçado. Após o furto o paciente reconhece o erro e a natureza de seu gesto, deprime-se por não conseguir controlar-se, por não ter evitado que isso acontecesse. Alguns pacientes pedem para ser acompanhados quando saem de casa e, com isso, sentirem-se inibidos para furtar.

 

Algumas características da cleptomania se assemelham muito ao transtorno obsessivo compulsivo, por isso, embora atualmente a doença esteja classificada nos Transtornos do Controle dos Impulsos, está sendo cogitado classificá-la no Espectro Obsessivo-Compulsivo. Como outros transtornos que implicam em compulsões, como por exemplo, a bulimia, onde o paciente a sente-se culpado e envergonhado por de ter comido demais, na cleptomania também o paciente sofre culpa, arrependimento e vergonha depois de ter furtado.

 

Aparentemente, a pessoa portadora de cleptomania é completamente normal em todas as outras áreas psíquicas. Não há nenhum traço que identifique algum descontrole emocional em outras atividades psíquicas como em algumas outras doenças mentais, ou seja, não é possível identificar o cleptomaníaco se ele não furtar objetos. Acredita-se que cleptomaníacos possam ainda apresentar sinais de depressão, ansiedade, anorexia e outros transtornos associados.

 

A cleptomania deve ser diferenciada de atos comuns de roubo ou furtos em lojas. Estudos em lojas mostram que em menos de 5% dos roubos estavam envolvidos cleptomaníacos. O furto comum é planejado, deliberado e motivado pela utilidade do objeto ou por seu valor monetário. Há casos em que ladrões buscam se passar por doentes para justificar os assaltos que comete, mas já foi comprovado que a pessoa realmente doente rouba objetos sem valor sendo que em casos isolados roubam algo de valor. Portanto, em casos de roubos de alto valor deve-se estudar detalhadamente o histórico da pessoa para que um criminoso não seja confundido com um doente psiquiátrico.

 

Geralmente a cleptomania começa no final da adolescência e continua por vários anos da vida adulta. Atualmente é considerada uma doença crônica e seu curso ao longo da vida é desconhecido, ou seja, não se sabe se ocorre cura espontânea ou não. A comorbidade da cleptomania com outros transtornos psiquiátricos é comum, principalmente com outras patologias do controle de impulsos (20-46%), com uso patológico de substâncias (23-50%) e transtornos do humor, principalmente depressão (45-100%).  Há ainda comorbidade com

Transtornos de Ansiedade, Transtornos Alimentares (particularmente Bulimia Nervosa) e Transtornos da Personalidade.

 

Embora a cleptomania possa ser encontrada tanto em homens como em mulheres, a ocorrência em mulheres parece ser maior, ou talvez elas cheguem aos tratamentos especializados mais que os homens. A incidência da cleptomania no mundo todo é estimada em aproximadamente 6 casos por 1000. Devido implicações legais e éticas envolvidos na cleptomania, junto com a tendência do paciente em se esconder, é provável que essa incidência esteja subestimada.

 

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Ainda existem poucas informações psiquiátricas sobre o curso e prognóstico da cleptomania, mas foram descritos três cursos típicos: cleptomania esporádica, com episódios breves e longos períodos de acalmia; cleptomania episódica, com períodos prolongados de furtos e períodos de remissão; cleptomania crônica, com algum grau de flutuação. Apesar de eventuais condenações por furtos, o transtorno pode continuar por muitos anos.

 

Critérios Diagnósticos para Cleptomania no DSM.IV

A. Fracasso recorrente em resistir aos impulsos de furtar objetos que não são necessários para o uso pessoal ou por seu valor monetário.

B. Sentimento aumentado de tensão imediatamente antes da realização do furto.

C. Prazer, satisfação ou alívio no momento de cometer o furto.

D. O furto não é cometido para expressar raiva ou vingança, nem ocorre em resposta a um delírio ou alucinação.

E. O furto não é melhor explicado por um Transtorno da Conduta, um Episódio Maníaco ou um Transtorno da Personalidade Anti-Social.

 

Tratamento

Atualmente, a FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos não tem nenhuma medicação formalmente indicada para o tratamento da cleptomania. Os trabalhos realizados nessa área, entretanto, apontam resultados com várias substâncias promissoras: paroxetina, fluvoxamina, escitalopram, uma combinação de sertralina e o estimulante metilfenidato, imipramina em combinação com fluoxetina, e o ácido valpróico.

 

Infelizmente, como acontece no conflito comercial na indústria farmacêutica, para cada relato de tratamento positivo com determinada substância, existem outros relatos negativos em relação a eficácia da mesma medicação. É um desserviço à ciência.

 

Não obstante, segundo revisão de Brian e Odlaug (2008), em uma série cinco pessoas com cleptomania todas apresentaram melhora com antidepressivos, quatro delas apresentaram com fluoxetina e uma com paroxetina. O tratamento a base de antidepressivos se apóia na hipótese de que os cleptomaníacos tenham uma disfunção ou uma diminuição da quantidade de serotonina e dopamina (neurotransmissores responsáveis pelo controle do impulso) no espaço entre dois neurônios. Essa disfunção provoca o descontrole do impulso e, conseqüentemente, pode levar a quadros de ansiedade e depressão.

 

Outra série de três pessoas que remitiram completamente os sintomas de cleptomania após dois meses de tratamento assim registrado: uma mulher de 28 anos com uma combinação de 100 mg/dia de topiramato e 30 mg/dia de citalopram em; uma mulher de 32 anos com 100 mg/dia de topiramato e 60 mg/dia de paroxetina  e um homem de 18 anos com 150 mg/dia de topiramato (Dannon, 2006) .

 

Em relação ao escitalopram, das 20 pessoas tratadas, 79% delas relatou melhora no comportamento de furtar. Os que responderam ao escitalopram foram aleatorizados para continuar a medicação ou para receber placebo. Mas o efeito real do medicamento é contestado porque um número quase igual de pacientes respondeu também ao tratamento com placebo (Aboujaoude, Koran e Gamel, 2005).

 

Aparentemente o resultado mais promissor foi com a naltrexona. O acompanhamento por um período de três anos de 17 pessoas com cleptomania tratados com naltrexona produziu os seguintes resultados: 76,5% das pessoas relataram redução nos impulsos para furtar, 41,1% pararam totalmente de furtar e 52,9% foram classificados como "totalmente sadios".

 

Várias formas de terapia comportamental, psicanalítica, psicodinâmica e cognitivo-comportamental (TCC) têm sido relatadas como benéficas para tratar a cleptomania. Embora não hajam ainda estudos controlados sobre efetivos resultados de qualquer dos tipos de psicoterapia para a cleptomania, os tratamentos que combinam terapia cognitivo-comportamental com medicação têm mostrado mais benefícios para a cleptomania.

 

 

Para referir: 

Ballone GJ, Celli MM - Cleptomania, in. PsiqWeb, internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, 2009

 

 

 

 

Referências

Aboujaoude E, Koran LM, Gamel N. Escitalopram in the treatment of kleptomania. Scientific Abstract, 25th meeting of the New Clinical Drug Evaluation Unit; 2005 June 6-9; Boca Raton, Florida. 

Dannon P. Topiramate for the treatment of kleptomania: a case series and review of the literature. Clin Neuropharmacol. 2003;26(1):1-4.

Durst R, Katz G, Teitelbaum A, Zislin J, Dannon PN. Kleptomania: diagnosis and treatment options. CNS Drugs. 2001;15(3):185-95.        

Feeney D, Klykylo W. Treatment for kleptomania. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 1997;36(6):723-4.        

Grant JE, Brian L Odlaug BL - Cleptomania: características clínicas e tratamento, Rev. Bras. Psiquiatr. vol.30  suppl.1, São Paulo Maio 2008

Kmetz G, McElroy S, Collins D. Response of kleptomania and mixed mania to valproate. Am J Psychiatry. 1997;154(4):580-1.

 




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Cleptomania é um transtorno do impulso cercado de preconceitos e geralmente está associado à depressão e ansiedade. Apesar de causar muita curiosidade, a cleptomania é uma doença pouco estudada, mal compreendida e cercada de preconceitos.

 

Em psiquiatria, cleptomania é classificada como um transtorno, uma falha em resistir ao impulso de furtar objetos que não são necessários, nem são cobiçados por seu valor prático ou monetário. Na prática clínica sabe-se que o cleptomaníaco raramente busca auxílio para o seu problema de perda de controle e quando isso acontece, em geral é determinado pelo estresse emocional ou por iminência de sérios problemas jurídicos.

 

 Habitualmente cleptomania está associada a transtornos depressivos, ansiosos e outros transtornos do controle dos impulsos. Geralmente acompanha a vida da pessoa cleptomaníaca algumas complicações legais e muito estresse. Seu tratamento inclui medicações para os outros transtornos emocionais associados e psicoterapia para o transtorno do impulso.

 

Algumas medicações têm sido investigadas para auxiliar no controle do impulso, principalmente os antidepressivos, mas nenhuma ainda foi confirmada como particularmente eficaz em cleptomania. Mais estudos são necessários para um melhor conhecimento desse transtorno, mas isto somente será possível quando os pacientes sentirem-se seguros o suficiente para buscarem ajuda.

 

 A doença teve muita repercussão na mídia com o caso da atriz americana Winona Ryder e do rabino Henry Sobel, que foram flagrados em atos de cleptomania dentro de lojas. A atriz Winona Ryder foi acusada em 2002de roubo a uma loja, embora seja de conhecimento geral, ela não alegou cleptomania em sua defesa. Foi condenada a três anos de liberdade condicional e prestação de serviço comunitário por roubar roupas na loja Saks de Beverly Hills, fez terapia e, com 36 anos, Winona continua a roubar nas lojas. Em 2008 a atriz voltou a ser apanhada em flagrante numa boutique em Los Angeles.

 

Outro caso que deixou marcado a doença foi o caso da personagem Haydeé da novela América, interpretada por Cristiane Torloni, que roubava objetos de baixo valor e guardava em sua casa. Christiane Torloni conviveu com médicos, pesquisou histórias de pacientes e leu muito sobre o assunto para melhor viver a cleptomaníaca Haydée. Segundo o que disse na mídia, “pelo que entendi, têm casos que na verdade são fases de cleptomania. Isso porque a cleptomania é como se fosse a ponta de um iceberg. Por trás dela há um quadro muito mais complexo. Quando se toca na causa, às vezes se consegue, pelo menos, ter um controle da coisa”, conta ela sobre seus estudos”.

 

A cleptomania é um transtorno raro, infinitamente mais raro que os furtos em lojas. Menos de 5% das pessoas que cometem estes furtos podem ser diagnosticados com cleptomaníacos.

 

Quem sofre deste distúrbio experimenta um sentimento de tensão antes do furto, mas também prazer, satisfação ou alívio ao cometê-lo. Embora as pessoas com este transtorno não levem muito em conta as chances de serem pegas em flagrante, elas evitam furtar quando correm o risco de serem pegos em flagrante, não costumam planejar o furto. Neste caso, o furto é cometido sem auxílio ou colaboração de ninguém.