O que são Neuroses

Atualmente o termo Neurose é substituído por outros nomes
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A palavra "neurótico", da maneira como costuma ser usada hoje, tem sentido impróprio e pode ser ofensivo ou pejorativo. Pessoas que não entendem nada dessa parte da medicina podem usar a palavra "neurose" como sinônimo de "loucura". Mas isso não é verdade, de forma alguma. A Neurose é uma reação exagerada do sistema emocional em relação a uma experiência vivida (Reação Vivencial). Neurose é uma maneira da pessoa SER e de reagir à vida.

Quando se diz que a pessoa É neurótica e não ESTÁ neurótica, está se tentando dizer que a neurose é uma maneira da pessoa ser, associada à traços de sua personalidade. Essa maneira de ser neurótica significa que a pessoa reage à vida através de reações vivenciais não normais; seja no sentido dessas reações serem desproporcionais, seja pelo fato de serem muito duradouras, seja pelo fato delas existirem mesmo sem que exista uma causa vivencial aparente.

Essa maneira exagerada de reagir leva a pessoa neurótica a adotar uma serie de comportamentos compatíveis com o que está sentindo. Cada tipo de transtorno neurótico tem seus sintomas, suas atitudes e sentimentos e como o quadro das neuroses é muito variável, não há uma seção neste site específico para Neuroses, como tem para Psicoses. Na realidade os quadros neuróticos estão descritos em várias seções, tais como Ansiedades e Fobias, Depressão, Estresse, Histeria e Afins, Obsessões e Compulsões e outros.

 

O neurótico, tem plena consciência do seu problema e, muitas vezes, sente-se impotente para modificá-lo.
Exemplos:
1 - Diante de um compromisso social a pessoa neurótica reage com muita ansiedade, mais ansiosa que a maioria das pessoas submetidas à mesma situação (desproporcional). Diante desse mesmo compromisso social a pessoa começa a ficar muito ansiosa uma senana antes (muito duradoura) ou, finalmente, a pessoa fica ansiosa só de imaginar que poderá ter um compromisso social (sem causa aparente).
2 - Num determinado ambiente (ônibus, elevador, avião, em meio a multidão, etc) a pessoa neurótica começa a passar mal, achando que vai acontecer alguma coisa (desproporcional). Ou começa a passar mal só de saber que terá de enfrentar a tal situação (sem causa aparente).

O que não é Neurose?
Como vimos, a Neurose é uma doença, uma doença emocional, afetiva e da personalidade. Esclarecendo alguns mitos culturais, primeiramente é importante deixar claro o que a Neurose não é:

Neurose não é:
- Falta de Homem (ou de Mulher)
- Falta de pensamento positivo
- Cabeça ou mente fraca
- Falta de força de vontade
- Falta de ter o que fazer
- Ruindade, maldade ou capricho
- Senvergonhice
- Influência espiritual
- Mal-olhado ou encosto
- Coisa "de sua cabeça" (coisa da cabeça é caspa)
- Falta de ter passado por dificuldades de verdade (isso é sorte)
Neurose (embora possa ser agravada) não acontece por:
- Nunca ter passado dificuldades na vida
- Falta de uma boa surra
- Ter tido de tudo na vida
- Não ter tido tudo na vida
- Causa do pai que brigava com a mãe
- Causa dos pais que se separaram
- Causa do pai ter sido muito enérgico
- Causa do pai ter sido omisso
- Não ter tido pai
- Ter tido uma mãe super-protetora
- Ter tido uma mãe omissa
- Não ter tido uma mãe
- Ter sabido que a mãe não era essa
- Ter "forçado demais a cabeça"
- Nunca ter "forçado demais a cabeça"
- Causa de uma menstruação que subiu para a cabeça
- Finalmente, por ter misturado manga com leite...

A Neurose é uma Doença Mental?
Não. A Neurose não é sonônimo de loucura, assim como também, não compromete a inteligência, nem o contato com a realidade. Seus sentimentos dos neuróticos também são normais; eles amam, sentem alegria, tristeza, raiva, etc., como qualquer pessoa. O que pode estar alterado na Neurose é a quantidade desses sentimentos.

Assim, as principais diferenças entre uma pessoa neurótica e outra normal são em relação à capacidade de adaptação às situações vividas e em relação à quantidade de emoções e sentimentos. Os neuróticos ficam mais ansiosos, mais angustiados, mais deprimidos, mais sugestionáveis, mais teatrais, mais impressionados, mais preocupados, com mais medo, enfim, eles têm as mesmas emoções que qualquer pessoa, porém, em quantidade que compromete a adaptação. Para entender melhor, estude: Teorias da Personalidade e Transtornos da Personalidade.

Tipos de Neuroses
De modo geral, e didaticamente, as neuroses costumam ser classificadas através de seus sintomas mais proeminentes. Isso não significa que todas elas não possam ter uma série de sintomas comuns (todas têm ansiedade, por exemplo).

Um dos tipos mais comuns de Neurose, hoje em dia, é aquele cujo sintoma proeminente é a ansiedade (e depressão). O Transtorno Fóbico-Ansioso, por exemplo, é uma neurose que se caracteriza, exatamente, pela prevalência da Fobia entre outros sintomas de ansiedade, ou seja, um medo anormal, desproporcional e persistente diante de um objeto ou situação específica. Mas isso não quer dizer que no Transtorno Fóbuco-Ansioso não tenha também depressão, ataques de pânico, ansiedade generalizada...

O Transtorno Ansioso é outro tipo de Neurose (veja Ansiedade). Os padrões individuais de ansiedade variam amplamente. Algumas pessoas com ansiedade neurótica podem ter sintomas cardiovasculares, tais como palpitações, sudorese ou opressão no peito, outros manifestam sintomas gastrointestinais como náuseas, vômito, diarréia ou vazio no estômago, outros ainda apresentam mal-estar respiratório ou predomínio de tensão muscular exagerada, do tipo espasmo, torcicolo e lombalgia.

Enfim, os sintomas físicos da ansiedade variam de pessoa para pessoa. Psicologicamente a ansiedade pode monopolizar as atividades psíquicas e comprometer, desde a atenção e memória, até a interpretação fiel da realidade.

Os Transtornos Histriônicos (Histéricos), por sua vez, são neuroses onde o sintoma principal é a teatralidade, sugestionabilidade, necessidade de atenção constante e manipulação emocional das pessoas ao seu redor. O neurótico histérico pode desmaiar, ficar paralítico, sem fala, trêmulo, e desempenhar todo tipo de papel de doente. Há grande variedade nesse tipo de neurose.

Os Transtornos do Espectro Obsessivos-Compulsivos reúnem neuroses cujo sintoma principal é a incapacidade de controlar impulsos, manias e rituais, assim como determinados pensamentos desagradáveis e absurdos.

Incluimos a Distimia como representante de um tipo de neurose, cujo sintoma mais proeminente é a tendência a reagir depressivamente à vida, ou seja, é a pessoa com tendência à longos períodos de depressão.

A Neurose tem cura?
Antigamente se pensava que a neurose era sempre incurável e que se convertia, com o tempo, numa doença crônica e invalidante. Hoje em dia, felizmente, as pessoas que sofrem deste transtorno podem recuperar-se por completo e lavar uma vida normal como qualquer outra pessoa.

A questão da cura das neuroses, que é uma doença da personalidade, deve ser comparada à cura da diabete, da pressão alta, reumatismo, alergia, asma e uma grande série de outras doenças crônicas. As pessoas portadoras dessas doenças, assim como os neuróticos, teriam uma péssima qualidade (e quantidade) de vida se não fossem os recursos da medicina. Pois bem. Com recursos da medicina essas pessoas têm uma qualidade de vida normal, tal como acontece com os pacientes neuróticos tratados.

A rigor, para as neuroses, recomenda-se um tratamento de responsabilidade tripla; um acompanhamento psicológico adequado, um tratamento médico (com medicamentos) quando necessário, e a maior cooperação possível do próprio paciente e da sua família. Portanto, vai aqui um alerta para aquelas pessoas do tipo "- não consigo isso, não consigo aquilo". Com essa participação tríplice, felizmente, a grande maioria das neuroses podem ser perfeitamente controlada, proporcionando ao paciente uma melhor qualidade de vida e inegável bem estar.

A família pode causar a neurose?
Sim e não! A resposta correta é: depende da família e do neurótico. Para entender melhor essa questão, vamos comparar a neurose com a alergia. Vamos considerar uma pessoa com rinite alérgica e que, ao entrar em contacto com um ambiente embolorado, manifesta sua rinite.

Esse exemplo acima é muito didático e favorece outras reflexões esclarecedoras. Seria o caso de perguntarmos: o fungo do bolor (a família), é a causa da rinite alérgica (neurose)???
Para haver a rinite alérgica é preciso 2 coisas; que a pessoa seja alérgica previamente, e do fungo, ao qual ela é sensível. Assim sendo, para a crise de rinite o fungo foi tão indispensável quanto a sensibilidade alérgica da pessoa. O mais correto, agora, é dizer que o fungo (família) pode desencadear, agravar ou proporcionar condições para uma crise alérgica aguda (uma reação neurótica), mas não é a causa exclusiva.

Da mesma forma, podemos dizer que para desenvolver uma neurose é preciso uma certa vulnerabilidade emocional e, para que esta se manifeste em sua plenitude, é preciso uma vivência desencadeadora.

A Neurose é herdada?
Em primeiro lugar convém fazer uma distinção entre o que é genético, o que é constitucional e o que é hereditário:

1) Se uma doença é Genética, isso quer dizer que antes de nascer a pessoa pode ter um gene ou uma programação genética que a conduza em direção à doença. Isso se dá sob a forma de probabilidade e não de certeza.

Cada um de nós carrega genes de diferentes doenças mas não as desenvolvemos obrigatoriamente. Um exemplo claro disso é o câncer de pulmão, identificado em genes de pessoas sadias não fumantes. Uma pessoa que tenha este gene teria uma predisposição genética a desenvolver a doença, mas isso não quer dizer que esta pessoa vá desenvolvê-la obrigatoriamente. De fato, se não fumar, levar uma vida não estressante, enfim, se não facilitar os requisitos necessários ao desenvolvimento da doença, muito provavelmente não terá câncer de pulmão.

2) É Constitucional a doença que faz parte da pessoa, sem necessariamente ter sido genética ou hereditária. Constitucional significa ter nascido assim ou ter adquirido para sempre. Se a pessoa nasceu surda, essa surdez é constitucional, sem necessidade de ser genética. As marcas de vacina que alguns têm nos braços desde criança, são constitucionais (fazem parte da pessoa) mas não foram herdadas. Antes disso, foram adquiridas em tenra idade e não desapareceram mais.

3) Doença Hereditária é uma doença genética que se transmitirá, com certeza, de uma geração a outra e, além disso, terá uma porcentagem fixa e calculada de novos casos da doença na geração seguinte.

Um exemplo de doença hereditária é a Coréia de Huntington. Esta doença crônica supõe um degeneração corporal e mental que se passa de uma geração a outra, desenvolvendo-se em 50% dos filhos. Quer dizer que um paciente de Coréia de Huntington que decide ter um filho sabe, de antemão, que a cada dois filhos que nascerem, no mínimo um desenvolverá a enfermidade.

Até o momento, podemos considerar as Neuroses de natureza Constitucional e, algumas vezes, Genética.

Qual a importância social das neuroses?
As neuroses são, indubitavelmente, o contingente mais importante de pacientes que procuram ajuda de psicólogos e psiquiatras. Seu quadro é extremamente variado, indo dos problemas psicossomáticos, sexuais, depressões, angústia, insôniao, etc, etc.

As neuroses interferem e estão presentes também nos problemas de aprendizagem, no desenvolvimento da personalidade, no fracasso escolar, nos conflitos failiares e nas crisis conjugais.

A psiquiatria considera as neuroses transtornos menores, em relação às psicoses. Isso se deve ao fato do neurótico conservar, de alguma maneira, critérios de avaliação da realidad semelhantes às pessoas consideradas normais. Entretanto, ao falarmos em “transtorno menor”, não estamos nos referindo a algum criterio de prognóstico. O mais comum é que a neurose tenha um curso crônico e, não tratada, pode levar a algum grau de incapacidade social e/ou profissional.

 

 

para referir:
Ballone GJ - Perguntas mais freqüentes - Neuroses - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2008





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Para entender Neuroses

Reação Vivencial; como Reagimos à Realidade
Poderíamos chamar esse capítulo de Interação do Sujeito Com a Realidade ou Interação do Sujeito com o Objeto. A todo contacto do sujeito com a realidade haverá sempre, por parte do sujeito, uma reação à ela na forma de emoções e sentimentos. Esta reação esboçada pelo sujeito ao interagir com a realidade chamamos de Reação Vivencial.

Para entender melhor devemos considerar o que e como são essas Reações Vivenciais e, antes disso, considerar até o que são, de fato, as Vivências. As experiências subjetivas acerca daquilo que vivemos devidamente valorizado e particularmente representado dentro de nosso ser são as nossas Vivências.

Estas são, então, nossos conteúdos conscientes dos dados perceptivos, representativos, ideativos e emotivos em nossa mente, ou seja, de fato o que estamos vivendo ou foi por nós vivido.

Perder o emprego, por exemplo, pode simplesmente ser um dado objetivo, tal qual o significado (de demissão) no dicionário. Por outro lado, se pode tratar de uma Vivência, quando perder o emprego diz respeito ao meu emprego. Neste caso seu significado ultrapassa o dicionário porque está acontecendo conosco, fazendo parte de nossa vida, sendo representado particularmente em nosso interior. Aqui, perder o emprego será minha Vivência.

Assim sendo, Reação Vivencial é a resposta emocional ou sentimental a uma determinada vivência, ou seja, a maneira pela qual o aparelho psíquico reage às estimulações vivenciais. Um fato típico e fundamental é apresentado ao indivíduo e a partir daí determina uma experiência interna e subjetiva, individual e particular.

Tomando-se por base um fato, considerado aqui um objeto, ao ser experimentado por um ser humano passa a fazer parte de seu "eu" e será, então, introduzido em sua consciência. Uma vez introjetado na consciência este fato jamais ficará isolado do universo íntimo de cada um. Fará parte do dinamismo que compõe nosso ser e pertencerá de alguma maneira, à nossa pessoa.

Como vimos, tal como se passasse por “óculos individuais” que fazem cada um enxergar o mundo a sua maneira, qualquer que seja o fato introduzido em nossa consciência, receberá sempre um tratamento representativo e particular de cada um. Em termos práticos, consideramos as categorias mais cotidianas e atuantes na valorização da realidade a anímica e a vital. Ambas dizem respeito à tonalidade e estado afetivo, portanto, passamos a considerar o afeto como o principal elemento que atribui significado e valor à realidade.

O fato tratado pela afetividade será chamado de Vivência, algo individual e particular a cada um de nós, de acordo com as particularidades de nossos traços afetivos. Os fatos podem ser os mesmos entre as várias pessoas, as Vivências, porém, serão sempre diferentes. Fazendo uma analogia com o modelo médico, a Vivência determina uma Reação Vivencial tal como um alérgeno é capaz de determinar uma resposta imunológica (reação alérgica).

Para que uma Reação Vivencial possa ser considerada normal, Jaspers recomenda 3 ingredientes: uma relação causal, uma relação proporcional e temporal .

1 - Relação Causal
Não se concebe uma Reação Vivencial normal sem que haja uma vivência causadora. A mãe, por exemplo, tendo sido surpreendida por uma febre alta em seu filho durante a noite, dever reagir emocionalmente a esta "causa" com sentimentos de angústia, ansiedade, apreensão, etc., enfim, sentimentos dentro da expectativa da concordância cultural para este evento. A febre do filho é a vivência causadora.

Há pessoas, emocionalmente instáveis, capazes de manifestar uma crise de angústia, choro ou desespero diante da possibilidade de vir a ser demitido, de vir a perder seus pais, etc. Obviamente, trata-se de possibilidades, entretanto, não é normal viver experimentando sistematicamente tais sentimentos antecipados. As pessoas portadoras de algum transtorno de ansiedade podem experimentar desagradáveis sentimentos de tensão muito antecipadamente, tomando o evento futuro como ameaça. Esta é uma maneira particular de valorizar a realidade.

2 - Relação Proporcional
Em situações normais, os sentimentos determinados pela Reação Vivencial devem guardar uma compreensiva proporcionalidade com a vivência causadora, ou seja, o conteúdo da reação acha-se numa relação compreensível com sua causa. Essa proporcionalidade é também argüida pela concordância cultural.

Utilizando o exemplo anterior, não devemos esperar que a mãe do filho com febre se atire janela abaixo ou se descabele histericamente diante dessa situação. Igualmente, não se espera que ela manifeste sentimentos de exaltação e alegria transbordante, mas, será compreensível ela apresentar sentimentos de ansiedade, medo, angústia ou inquietação proporcionais à causa.

Na tentativa de avaliar a tonalidade afetiva podemos considerar as Reações Vivenciais. Uma boa atitude semiológica seria imaginar como reagiria a maioria das pessoas diante de determinada situação vivenciada pelo paciente.

3 - Relação Temporal
Em seu curso temporal a Reação Vivencial deve depender da permanência da Vivência causadora, esmaecendo e, finalmente cessando algum tempo depois de desaparecer a causa.

Ainda usando o mesmo exemplo anterior da mãe com filho febril, sua ansiedade e angústia deverão desaparecer quando a saúde do filho for restabelecida. O mesmo acontece, por exemplo, em relação à ansiedade de determinadas pessoas, ao aguardarem o resultado de um exame laboratorial ou o atraso indesejável da menstruação. Tal sentimento dever desaparecer tão logo os resultados sejam satisfatórios.

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