Da Emoção à Lesão

Um guia de Medicina Psicossomática; os efeitos orgânicos causados pelas emoções e vice-versa.
| Psicossomática |


Do ponto de vista psicológico, existem emoções naturais, fisiológicas, que aparecem em todas as pessoas e conseqüentes a um importante substrato biológico. Elas podem ser a alegria, o medo, a ansiedade ou a raiva, entre outras. Essas emoções podem ser agradáveis ou desagradáveis, capazes de nos mobilizar para a atividade e de influir na comunicação interpessoal. Portanto, essas emoções atuam como poderosos motivadores da conduta humana.

Além dessas emoções serem capazes de mobilizar o Sistema Nervos Autônomo, juntamente com outros órgãos e sistemas diretamente, não obstante, elas podem ter um importante papel na qualidade de vida psicológica. Portanto, as emoções influem sobre a saúde e sobre a doença não apenas em decorrência da psico-neuro-fisiologia, mas também através de suas propriedades motivacionais, pela capacidade de modificar as condutas saudáveis, tais como os exercícios físicos, a dieta equilibrada, o descanso, etc., conduzindo muitas vezes para condutas não saudáveis, como o abuso do álcool, tabaco, sedentarismo, etc.

Ansiedade, Tristeza e Raiva; complicações na saúde
O termo emoções negativas se refere às emoções que produzem uma experiência emocional desagradável, como por exemplo, a ansiedade, a raiva e a tristeza. As emoções positivas são aquelas que geram uma experiência agradável, tais como a alegria, a felicidade ou o amor.

Hoje em dia há dados suficientes para podermos afirmar que as emoções positivas potencializam a saúde, enquanto as emoções negativas tendem a comprometê-la. Por exemplo, em períodos de estresse, quando as pessoas desenvolvem muitas reações emocionais negativas, é mais provável que surjam certas doenças relacionadas com o sistema imunológico, como por exemplo, a gripe, herpes, diarréias, ou outras infecções ocasionadas por vírus oportunistas. Em contra partida, o bom humor, o riso, a felicidade, ajudam a manter e/ou recuperar a saúde (veja Bom Humor e Saúde, na seção Psicossomática).

Dentro das emoções negativas, uma das reações emocionais que mais se tem estudado é, sem dúvida, a ansiedade. Este é um estado emocional reconhecidamente associado a múltiplos transtornos. Uma segunda emoção negativa que está sendo muito estudada é a raiva, por sua estreita relação com os transtornos cardiovasculares. Finalmente, a tristeza e sua representação psicopatológica, a Depressão, até pelo fato desta se acompanhar, em geral, de altos níveis de ansiedade.

A ansiedade pode ser considerada como uma reação natural que se produz diante de certos tipos de situações nas quais a pessoa necessitaria de recursos adaptativos extras. As situações onde se desencadeiam a reação de ansiedade têm em comum, em geral, a previsão subjetiva de possíveis conseqüências negativas para o indivíduo. Esta reação supõe uma mobilização de diferentes recursos cognitivos, tais como a atenção, a percepção, a memória, o pensamento, a linguagem, etc., de diferentes recursos fisiológicos, como a ativação do sistema nervoso autônomo, da ativação motora, da atividade glandular, etc., e de diferentes recursos de conduta, como estar alerta, evitação do perigo, etc. Tais recursos teriam como objetivo o enfrentamento das possíveis conseqüências negativas.

Apesar da ansiedade ser uma emoção natural, de caráter essencialmente adaptativo, quando excessiva ela pode estar na base de muitos processos que podem levar à doença.

Dissimular Emoções Negativas
Quando a pessoa experimenta altos níveis de ansiedade, durante tempo prolongado, seu bem estar psicológico se encontra seriamente prejudicado, seus sistemas fisiológicos podem se alterar por excesso de solicitação, seu sistema imunológico pode ser incapaz de defender seu organismo, seus processos cognitivos podem estar prejudicados provocando uma diminuição do rendimento e, finalmente, a evitação das situações que provocam essas reações ansiosas pode comprometer sua vida sócio-ocupacional.

Há pessoas que se regozijam de saberem controlar suas emoções. Mas, o fato de não se comportarem de acordo com esses sentimentos negativos não significa, automaticamente, que não estão experimentando as tais emoções negativas. Pode não bastar a essas pessoas o controle das manifestações das emoções negativas, pois, mesmo controlando as reações de ansiedade, pode haver níveis elevados da ativação fisiológica global, de alterações do sistema nervoso autônomo, de mudanças no sistema imune, etc.

Ao invés de se imunizarem contra as emoções negativas, que seria o ideal, as pessoas que se dizem controladas, podem não estar reconhecendo os estados emocionais negativos que estão experimentando. Podem estar dissimulando a raiva, a ansiedade, o medo ou a tristeza.

As tentativas de livrar-se (dissimular) dessas emoções negativas nem sempre têm êxito, pois algumas pessoas que aparentam uma certa tranqüilidade, podem estar desenvolvendo uma alta reatividade fisiológica. São pessoas obrigadas, pelo papel social que desempenham, a dissimular sentimentos diuturnamente, mas nem por isso significa que não estão experimentando intimamente tais emoções. Ou seja, o desgaste psicossomático proporcionado pelo esforço em dissimular emoções pode ser muito alto, vindo daí o conceito popular (e sensato) de que as emoções que não são manifestadas livremente acabam eclodindo em outro lugar do organismo.

Acredita-se, atualmente, que os transtornos psicossomáticos ou psicofisiológicos, como algumas dores de cabeça, das costas, algumas arritmias cardíacas, certos tipos de hipertensão arterial, algumas moléstias digestivas, entre tantas outras doenças, podem ser produzidas por uma excessiva ativação das respostas fisiológicas do órgão ou sistema que sofre a lesão ou disfunção (cardiovascular, respiratório, etc.). Seria uma espécie de disfunção do órgão ou do sistema orgânico por trabalhar em excesso por muito tempo.

A ansiedade apesar de ser considerada uma reação emocional normal e que surge como resposta do organismo diante de determinadas situações, quando tem sua freqüência, intensidade ou duração excessivas, passa a se tratar de uma ansiedade patológica. Psiquiatricamente a presença de forte estado ansioso, não somente pode ser a base dos denominados Transtornos de Ansiedade, mas também estar associada freqüentemente à depressão.

DA EMOÇÃO À LESÃO
O livro Da emoção à Lesão, do mesmo autor desse site (veja na seção Livros), diz respeito às doenças com verdadeiro componente orgânico, detectável por exames clínicos e não à somatização ou conversão, que são quadros onde existe a queixa mas não se encontra alterações orgânicas.

Clinicamente, uma ampla variedade de transtornos psicofisiológicos pode estar associada à ansiedade, entre eles os transtornos cardiovasculares, digestivos, cefaléias,  síndrome pré-menstrual,  asma, transtornos dermatológicos, transtornos sexuais, dependência química, transtornos alimentares, debilidade do sistema imune etc. As classificações tradicionais dos transtornos psicofisiológicos descrevem as seguintes doenças relacionadas com variáveis psicológicas.

DOENÇAS PSICOFISIOLÓGICAS (algumas)
Transtornos cardiovasculares
- doença arterial coronariana, hipertensão arterial, arritmias

Transtornos respiratórios
- asma brônquica, síndrome de hiperventilação, rinite alérgica

Transtornos endócrinos
- hiper ou hipotiroidismo, doença de Addison, Síndrome de Cushing, alterações das glândulas paratireóides, hipoglicemia, diabetes

Transtornos gastrintestinais
- transtornos esofágicos, dispepsia, úlcera péptica, síndrome do cólon irritável, colite ulcerosa, Doença de Crohn

Transtornos dermatológicos
- prurido, hiperhidrose, urticária, dermatite atópica, alopecia areata, psoríase, herpes, vitiligo

Dor crônica
- lombalgias, cefaléias, dor pré-menstrual, fibromialgia

Reumatologia
- artrite reumatóide

Transtornos imunológicos
- lúpus, depressão imunológica inespecífica

Mas, com o crescente reconhecimento da implicação de fatores psicológicos ou emocionais no desencadeamento e/ou agravamento da maioria das enfermidades orgânicas, as tabelas como acima acabam perdendo totalmente o valor. Quanto mais avançam os meios de investigação da patologia, mais se evidencia relevância dos fatores psicológicos na etiologia e desenvolvimento de um grande número de doenças até então não consideradas como psicofisiológicas.

Esses transtornos englobam desde doenças neurológicas, como a Esclerose Múltipla, até enfermidades infecciosas, como a tuberculose, passando por enfermidades imunológicas, como a leucemia (Wittkower y Dudek, 1973).

Desta forma, em muito pouco tempo, ao se descreverem os transtornos psicofisiológicos, não mais se fará referência a um determinado grupo distinto de enfermidades (como a lista acima), mas sim às alterações físicas que são precipitadas, agravadas ou prolongadas por fatores psicológicos. A psicossomática preocupar-se-á com as diversas categorias de reações orgânicas, utilizando-as para compreender qualquer transtorno físico nos quais os fatores psicológicos sejam importantes. Por exemplo, no caso do Lúpus Eritematoso Sistêmico, a psicossomática estará preocupada em estudar as alterações das emoções sobre a imunidade, sobre os linfócitos T, ou sobre as imunoglobulinas. Se, daí em diante, aparecerá Lúpus ou Artrite Reumatóide não será mais tão importante.

DA EMOÇÃO À EMOÇÃO MESMO
As emoções negativas podem, por sua vez, determinar não apenas uma repercussão orgânica, como de vê em psicossomática, mas, sobretudo, repercussões psico-emocionais. Neste caso, o excesso de ansiedade poderia se traduzir por Transtornos de Ansiedade. Vejamos os casos onde a ansiedade patológica "se converte" em quadros psiquiátricos definidos pelas classificações internacionais (CID.10 e DSM.IV):

- Ataque de Pânico: caracteriza-se por crise súbita de sintomas de apreensão, medo intenso ou terror, acompanhados habitualmente de sensação de morte iminente. Aparecem também durante estes ataques, sintomas como palpitações, opressão ou mal estar torácico, sensação de sufocamento, medo de perder o controle, de ficar louco.

- Agorafobia: caracteriza-se pelo aparecimento de ansiedade ou comportamento de evitação de lugares ou situações de onde escapar pode ser difícil ou complicado, ou ainda de onde seja impossível conseguir ajuda no caso de se passar mal.

- Fobia específica: caracteriza-se pela presença de ansiedade clinicamente significativa, como resposta à exposição a determinadas situações e/ou objetos específicos temidos irracionalmente, dando lugar a comportamentos de evitação.

- Fobia social: caracteriza-se pela presença de ansiedade clinicamente significativa como resposta a situações sociais ou atuações em público, e também podem dar lugar a comportamentos de evitação.

- Transtorno obsessivo-compulsivo: caracteriza-se por obsessões que causam ansiedade e mal estar significativos, e/ou compulsões, cujo propósito é neutralizar a ansiedade. As obsessões são idéias involuntárias, recorrentes, persistentes, absurdas e geralmente desagradáveis que aparecem com grande freqüência sem que a pessoa possa evitá-las. As compulsões são comportamentos repetitivos e litúrgicos que se realizam em forma de rituais.

- Transtorno por estresse pós-traumático: caracteriza-se pela recorrência de experiências ou de acontecimentos altamente traumáticos, e comportamento de evitação dos estímulos relacionados com a situação vivida como traumática.

- Transtorno por estresse agudo: caracteriza-se por sintomas parecidos com o transtorno por estresse pós-traumático que aparecem imediatamente depois de um acontecimento altamente traumático.

- Transtorno de ansiedade generalizada: caracteriza-se pela presença de ansiedade e preocupações excessivas e persistentes durante pelo menos seis meses.

- Transtorno de ansiedade devido a enfermidade médica geral: caracteriza-se por sintomas proeminentes de ansiedade que se consideram secundários a efeitos fisiológicos diretos de uma enfermidade subjacente.

- Transtorno de ansiedade induzido por sustâncias: caracteriza-se por sintomas proeminentes de ansiedade secundários aos efeitos fisiológicos diretos de uma droga, fármaco ou tóxico.

- Transtorno de ansiedade não especificado: existe para encaixar aqueles transtornos que se caracterizam por ansiedade ou evitação fóbica proeminentes, que não reúnem os critérios diagnósticos dos transtornos de ansiedade já mencionados.

Fatores Predisponentes
A relação entre as respostas fisiológicas e os transtornos psicofisiológicos tem sido o ponto de partida de muitas teorias explicativas. Entre as diversas emoções com respostas fisiológicas importantes devemos destacar a ansiedade e a raiva.

Supõe-se, em geral, que para se desenvolver e manter um transtorno psicofisiológico, são necessários dois fatores:

O primeiro fator será de predisposição individual, pelo qual a pessoa tende a experimentar maior reação fisiológica diante da emoção. Significa que essa pessoa tem uma certa excitabilidade exagerada do sistema nervoso autônomo, bem como endócrino e imunológico.
O segundo fator levará em conta a própria reação fisiológica ao estímulo emocional, sua duração e intensidade. Ela deve ser suficiente para manter níveis altos de ansiedade ou raiva. Portanto, um fator é predominantemente fisiológico e o outro de personalidade.

Há anos se estudam as características do perfil de resposta de pessoas com diferentes transtornos psicofisiológicos, tais como a hipertensão arterial, asma, a úlcera digestiva, as dores de cabeça, vários tipos de dermatites, etc. Os resultados indicam que as pessoas que apresentam tais transtornos costumam ter níveis mais altos de ansiedade do que outras pessoas da mesma idade e sexo.

A mesma emoção negativa pode, ainda, se apresentar com características internas ou externas, variando de acordo com a capacidade de controle e dissimulação da pessoa. Assim, segundo Cano (Cano-Vindel & Fernández Rodríguez, 1999), as pessoas com hipertensão essencial têm níveis maiores de raiva interna que os grupos controle, sem hipertensão. Os pacientes com asma, por exemplo, apresentam níveis maiores de raiva externa do que as pessoas sem asma. A raiva, neste caso, ajudaria a manter níveis altos de ativação fisiológica.

A maioria das pessoas com estilo repressivo de enfrentamento de suas emoções negativas não costuma ter consciência de sua alta ativação fisiológica e, inclusive, podem referir-se a si mesmos como pessoas relaxadas, calmas e tranqüilas. Na realidade não são bem assim.

Embora essas pessoas apresentem baixas pontuações nos testes para ansiedade, apresentam uma alta ativação fisiológica. Esta alta ativação fisiológica continuada será um fator de vulnerabilidade para o desenvolvimento de transtornos psicofisiológicos. Segundo Cano, em testes de laboratório, submetidos à tarefas estressantes, os indivíduos com maiores tendências para ocultação e dissimulação das emoções apresentaram maior reatividade cardiovascular com uma resposta de aumento da pressão arterial diastólica.

O estilo repressivo de enfrentamento das emoções negativas também é um fator que pode introduzir um certo grau de imunodepressão (Cano-Vindel, del Rosal, Sirgo, Pérez Manga e Miguel-Tobal, 1999). Uma alta ativação fisiológica mantida ao longo do tempo pode provocar alterações no Sistema Imunológico que tornam a pessoa mais vulnerável à enfermidades infecciosas ou à doenças auto-imunes. Assim, por exemplo, pacientes com câncer que apresentam estilo repressivo de enfrentamento das emoções têm uma menor expectativa de vida (Cano-Vindel, Sirgo y Díaz-Ovejero, 1999).

Deve ser destacado que as emoções são reações naturais, universais e têm uma finalidade adaptativa mas, não obstante, quando demasiadamente intensas e/ou freqüentes, essas mesmas reações podem provocar alterações patológicas na saúde.

Se essas emoções não podem ser relacionadas diretamente ao desenvolvimento de doenças, no mínimo elas provocam uma alteração no nível e qualidade de vida que favorecem o desenvolvimento patológico. A ansiedade, a tristeza e a raiva, quando em níveis demasiadamente intensos ou freqüentes, quando se mantêm por um tempo longo, tendem a determinar mudanças na conduta, ao ponto de determinar atitudes não sadias, como por exemplo, o consumo de fumo, álcool, sedentarismo, apatia, falta de exercícios, transtornos alimentares (hipo ou hiperfagia), etc.

Hoje, a medicina psicossomática tem se interessado, mediante técnicas cognitivas, comportamentais e, se necessário, farmacológicas, em ajudar pessoas a diminuir sua ativação fisiológica, a reduzir o mal estar psicológico e a facilitar uma expressão emocional mais sadia. Com isso pretende-se melhorar a qualidade de vida e a saúde das pessoas.

As pessoas reagem diferentemente ao estresse, inclusive em termos de eventuais doenças psicossomáticas. Ao estudarmos o Afeto, entendemos que parece haver uma espécie de filtro exemplificados como lentes de óculos hipotéticos) através do qual os fatos e eventos são percebidos pelo indivíduo. Isto faria distinguir situações percebidas como estressantes por alguns e não por outros (veja em Afetividade, na seção Psicopatologia).

Tal sensibilidade pessoal diante da vida exerce um efeito atenuante ou agravante aos eventos, efeito este que depende mais da própria personalidade que das circunstâncias. Isso definirá o modo de ser, de reagir, de enfrentar e de se adaptar ao estresse.

Assim sendo, podemos dizer que a elevação da pressão arterial diante do estresse, por exemplo, parece depender mais da avaliação pessoal (subjetiva) que o indivíduo faz de sua situação do que da própria situação em si, objetivamente considerada. Alguns observadores notaram que os hipertensos tendem ao pessimismo, antecipando conseqüências negativas dos fatos e a interação interpessoal e social é por eles vivida como fonte de ansiedade e estresse.

A Opção Somática das Emoções
É no Sistema Límbico que tem início nossa função avaliadora da situação, dos fatos e eventos de vida. Esse modo de avaliação sempre leva em consideração vários elementos, tais como, a personalidade prévia, a experiência vivida, as circunstâncias atuais e as normas culturais.

É devido a esse aspecto multifatorial que uma dada situação vivida pelo indivíduo sofrerá um processamento interno envolvendo sua avaliação quanto à natureza do evento e sua possível ameaça, bem como um processamento interno acerca da escolha ou decisão da melhor maneira de enfrentamento, resultando, finalmente, numa dada resposta. Tanto os fatores constitucionais de personalidade, quanto as experiências anteriores de vida representariam o núcleo desse sistema de avaliação.

Desde a década de 60, Selye já dizia que a "preferência" de um agente estressor por um determinado órgão ou sistema, bem como a intensidade dessa resposta, parece ser determinada por fatores condicionantes internos e externos ao indivíduo, ou seja, depende de características herdadas e adquiridas.

De acordo com esse aspecto extremamente pessoal da resposta do sujeito ao objeto estresse, podemos entender porque diante de situações semelhantes, os diversos indivíduos reagirão de forma diferente. Isso refletirá sempre o modo peculiar de cada um avaliar as situações, e o que é estressante para um, pode não ser para outro.

Da mesma forma, também o modo de enfrentar cada situação é peculiar e particular a esse determinado indivíduo, conforme sua história, circunstâncias, aptidões e personalidade. Essas aptidões personais (de personalidade) são quem nos oferece maiores ou menores "opções" de enfrentamento da situação.

E a palavra "opções" foi colocada entre aspas por tratar-se de uma atitude intencional e involuntária. Pode-se dizer, então, que a opção mais elaborada de enfrentamento seria aquela de encarar a situação conscientemente, objetivamente, podendo falar sobre ela, discutir, refletir, superando-a conforme as características e os recursos à nossa disposição.

Quando não é possível encarar a situação objetivamente, seja porque o problema não está sendo consciente, seja porque faltam recursos disponíveis à personalidade, a tendência será lançar mão de outras formas mais atípicas de enfrentamento.

A forma mental de enfrentar a situação seria, por exemplo, fantasiar, racionalizar, negar, rezar. A maneira emocional atípica de enfrentamento seria deprimir-se, agredir, culpar os outros ou culpar-se, chorar, gritar. Outras atitudes de enfrentamento atípico, seriam isolar-se, exibir-se, brincar, arriscar-se, comer, beber, transar, fumar, trabalhar, tudo excessivamente e, finalmente, de particular interesse à psicossomática, surge uma maneira somática de enfrentamento, representada pelo adoecer.

Eis algumas "opções" de enfrentamento adotadas pela maioria das pessoas*:

1. Olhar o problema objetivamente.
2. Buscar alternativas para enfrentar a situação.
3. Falar sobre o problema.
4. Ter esperança de que as coisas melhorem.
5. Procurar apoio com familiares e amigos.
6. Agitar-se fisicamente.
7. Fumar, beber e usar drogas.
8. Comer e dormir em excesso.
9. Adoecer fisicamente.
10. Gritar e agredir.
11. Meditar e relaxar.
12. Isolar-se e ficar só.
13. Esquecer o problema.
14. Resignar-se.
15. Sonhar e fantasiar sobre o problema.
16. Rezar.
17. Ficar nervoso.
18. Preparar-se para o pior.
19. Deprimir-se.
20. Dedicar-se excessivamente ao trabalho.

*MELO FILHO J – Psicossomática Hoje – Artes Médicas, 1992

Para entendermos de forma mais clara, os processos da somatização devem ser considerados os tipos de resposta emocional resultante da avaliação que fazemos da realidade (e dos estressores) e nossos mecanismos pessoais e particulares de enfrentamento da situação. A escolha somática para eclosão das emoções parece depender de uma série de fatores ou mecanismos, desde os mais somáticos aos mais psíquicos.

Observando-se tanto os animais quanto as pessoas, notamos a presença de dois componentes no processo emocional de adaptação do sujeito às exigências da realidade. Existe o componente expressivo ou sinalizador e o componente comportamental ou de enfrentamento, propriamente dito.

As manifestações fisiológicas e/ou somáticas resultantes do estresse adaptativo, chamadas de somatizações, podem ser entendidas como uma forma não verbal de se expressar. E quanto menos eficientes são os mecanismos mentais ou cognitivos de sentir, falar e agir, mais o sistema somático será utilizado para expressar emoções. Isso significa que quanto mais "puras" forem as emoções, menos somáticas se tornarão.

A Síndrome Geral de Adaptação, descrita por Hans Selye e posteriormente identificada como o próprio estresse, é um conjunto de reações fisiológicas e eminentemente somáticas, de cunho sobretudo emocional, que surge quando o organismo é compelido adaptar-se à alguma situação alarmante. O processo que vai do estresse até o resultado somático final será sempre um processo fisiológico e biológico, atrelado às características da espécie mas, identificar ou considerar um estímulo como sendo estressante ou não, será sempre uma atribuição emocional e particular do sujeito (não mais e exclusivamente da espécie).

Na realidade, não será errado chamar o estresse de "extrema ansiedade", uma vez que é produto de uma avaliação emocional acerca do potencial estressante dos estímulos. Será de natureza ansiosa, na medida em que aparece cada vez que o organismo se percebe ameaçado em sua integridade. Podemos, então, afirmar que a ansiedade é um estado de tensão interna do indivíduo no sentido da adaptação, diante de algo que o ameaça.

A resposta ao estresse envolve um nítido componente somático e a localização dessa resposta neste ou naquele órgão, neste ou naquele sistema dependerá, primeiramente, da natureza e intensidade do agente estressante, em segundo, da participação da estrutura orgânica do indivíduo e, finalmente, da possível hipersensibilidade ou fragilidade constitucional que tornaria tal estrutura menos resistente.

Somatização desde criança
Em se tratando de seres humanos, e considerando sua possibilidade de pensar, desde cedo tal atividade racional exerce um papel fundamental na avaliação e enfrentamento das situações com que se depara o indivíduo. A influência da pessoa que cuida da criança (em geral a mãe) é decisiva nesse processo de identificação de estressores e escolha dos modos de enfrentamento.

Na verdade, geralmente é a mãe que nomeia e valoriza para a criança tudo o que ocorre à sua volta. Havendo discrepâncias nesse relacionamento, seja por abandono, maus tratos, omissão, etc., a criança ficará à mercê de si mesma, lançando mão então do seu próprio corpo ou de suas fantasias para resolver a maioria dos conflitos que experimenta.

Nos casos de abandono na infância, é como se a criança voltasse a reagir de maneira primitiva, somática, a qualquer situação ameaçante. Provavelmente o que ocorre, nesse momento, é que somente através de reações físicas a criança consegue despertar o interesse, a atenção e os cuidados que necessita. Assim sendo, a criança aprende a usar o corpo como um meio de comunicação ee de defesa. E sempre que o comportamento dos demais privilegia essa somatização, acaba reforçando-a. Além da opção somática, a criança tem ainda como recurso adaptativo suas próprias fantasias e aprenderá a usá-las eficientemente.

Autores mais psicodinâmicos incluem como recursos intermediários entre o corpo e a fantasia, certas atitudes tais como comer, beber, fumar, usar drogas, manter atividade sexual ou atividade física de uma forma aditiva, etc.

Somatização como complexo de culpa
A prática clínica tem mostrado que grande parte das manifestações somáticas pode ter como componentes básicos, uma forma primitiva de expressão e de defesa que é a culpa. O indivíduo, como vimos, aprende a falar e se defender com o corpo. Com o corpo ele obtém atenção e cuidados que necessita, com o corpo ele exprime desejos e fantasias, com o corpo ele enfrenta as situações estressantes e, muito provavelmente, com o corpo ele se recrimina e se culpa.

A utilização do corpo como meio de autopunição merece um destaque especial por sua característica psicodinâmica. Essa situação representa uma reação e defesa ao estresse interior proporcionado por algum conflito íntimo. É assim que o sujeito se impõe o sofrimento.

Muitas vezes ficam evidentes as condutas mórbidas e autodestruidoras de pacientes politraumatizados, portadores de diabetes melito, doença pulmonar obstrutiva crônica, hipertensão arterial, úlceras varicosas, como se eles agissem de forma a agravar suas doenças. Costumam ser descuidados, abusam da dieta, fumam, comem salgado e andam demais conseqüentemente.

Isso não quer dizer que todos os portadores dessas afecções exibem tal comportamento autodestrutivo, mas seus freqüentes "deslizes" em relação aos cuidados terapêuticos que deveriam tomar, apontam para uma forma inconsciente de perpetuar a doença, como forma de manter o autoflagelo.

A Desistência Depressiva
Outro tipo de situação capaz de gerar ou agravar doenças físicas é a desistência depressiva de viver. Trata-se de um estado de espírito típico dos deprimidos, onde o indivíduo "desiste" de viver, permitindo assim que a doença física o acometa. Situações de perda familiar, perda de situação econômica e social ou outras perdas que dêem ao indivíduo a sensação de não ter saída, parecem estar na base desse estado depressivo de auto-abandono.

Existem, principalmente, dois Mecanismos de Defesa capazes de gerar somatização. São eles a identificação e a conversão. Identificar-se é sentir-se como o outro. É tornar seu algo que é do outro. Na identificação, sentir-se doente pode ser uma forma de identificar-se com alguém que está ou esteve doente. Assim, por exemplo, o transtorno menstrual conhecido por dismenorréia pode ser conseqüência da identificação de uma adolescente com sua mãe, a qual apresentou ou apresenta esse quadro. As identificações também assumem importantíssimos papéis na dinâmica das patologias relacionadas aos estados histéricos e hipocondríacos.

Na conversão, por sua vez, o hipocondríaco é capaz de se sentir e acreditar-se doente e o histérico é capaz de expressar exuberantemente essa doença. Ele desmaia, paralisa, arma a cena e exibe seu sintoma. Parece ter uma ação mais expressiva que o hipocondríaco. Mas, mesmo assim, seus sintomas expressam seus conflitos reprimidos. É uma forma simbólica (e somática) de falar que utiliza o corpo como meio de comunicação.

ESTRESSE, SISTEMA IMUNOLÓGICO e INFECÇÃO
Um tema que diz respeito diretamente à psiconeuroimunologia é o relacionamento entre os fatores psicológicos e o estresse com as doenças infecciosas. Uma das mais importantes funções do equilíbrio do organismo (homeostasia) é protegê-lo das agressões infecciosas, ou seja, impedir a multiplicação de agentes infecciosos e a formação de colônias em seu interior, bem como proporcionar resistência às infecções (veja Psiconeuroimunologia 1 e 2, na seção Psicossomática).

Como mecanismos inespecíficos desse sistema de defesa existem a integridade das barreiras naturais, compostas pela pele, pelos cílios e pelos, pela presença de ácidos nas superfícies, substâncias inibidoras da proliferação dos germes nos humores e outros. Os mecanismos específicos de nossas defesas estão representados por um combate muito mais eficaz conduzida pelo sistema imunológico.

Os anticorpos do Sistema Imunológico, por exemplo, facilitam extremamente a atração, a aderência e a fagocitose dos germes invasores pelas células brancas e macrófagos, participando também da neutralização de partículas virais circulantes. Graças à participação celular da resposta imunológica, as células infectadas por vírus ou por outros parasitas intracelulares podem ser destruídas e isso se dá às custas das células chamadas Linfócitos T.

O estresse desempenha importante papel no Sistema Imunológico, inibindo ou estimulando seus componentes, ou seja, aumentando a morbidade e mortalidade, por excesso ou por falta desses mecanismos. Plaut e Friedman (1981) reportam uma tremenda variabilidade da morbidade e mortalidade por invasão de germes em animais de laboratório, dependendo da natureza do organismo patogênico, da qualidade e quantidade do estresse e de fatores genéticos e ambientais.

Depois de enfatizar a natureza multifatorial das doenças infecciosas, Amkraut e Solomon (1975) escrevem: "Pequenas mudanças no processo imunológico podem causar alterações iniciais para permitir o estabelecimento de infecções, alterar o curso da doença depois da infecção instalada, ou mesmo, permitir a invasão de organismos não patogênicos, como acontece no caso da gengivite aguda necrozante, a qual é fortemente associada com o estresse emocional".

Esses autores também ilustram sua posição dando como exemplo o caso da infecção pneumocócica, lembrando que este germe costuma estar naturalmente presentes no trato respiratório de pessoas normais e nem atravessam a mucosa ou entram nos pulmões em número significativo. Em condições normais a natureza da mucosa, as secreções desta e a flora normal impedem a proliferação e penetração dessas bactérias. Entretanto, essas condições normais da mucosa e a flora normal que aí se encontra podem ser modificadas pelo estresse, permitindo a multiplicação e passagem de microrganismos.

Quando essas bactérias invadem a mucosa em pequeno número, podem ser eficazmente atacados por células da defesa, os macrófagos. Mas, não obstante, a vigilância dos macrófagos pode ser afetada por hormônios ou pelo estresse, possibilitando o início da doença. Macrófagos alterados pelo estresse podem ser menos eficientemente.

Também devemos levar em conta que as proteínas capsulares dos pneumococos estimulam os linfócitos B diretamente e, por causa do estresse, uma leve diminuição da atividade destes, pode levar a uma produção inadequada de anticorpos. Também, lembram os autores, que esta inibição da capacidade de remover as bactérias encharcadas de anticorpos dos macrófagos pode diminuir significativamente as defesas imunológicas.

Contribuindo ainda para a deficiência da vigilância imunológica, a redução dos níveis de complemento do paciente (proteínas que se ligarão aos agressores) ou de um particular componente do sistema de complemento, pode aumentar a severidade da doença infecciosa.

Tem sido muito observado por aqueles que lidam com a tuberculose, as relações entre melhoras e pioras dos pacientes e seus problemas emocionais. Já em 1919, Ishigami, citado por Schindler, escreveu sobre isso quando, estudando a fisiopatologia da tuberculose, observou a diminuição da atividade fagocitária das células imunológicas durante episódios de excitação emocional, atribuindo-os ao estresse da vida.

Wittkower, já na década de 1950, escrevia que "algumas vezes pode ser mais adequado firmar o prognóstico do paciente na base de sua personalidade e conflitos emocionais que na base das imagens de suas radiografias". Por causa dessas observações é que se firmou o ditado, segundo o qual, na doença, "a agressão depende mais do agente agredido que do agente agressor".

A própria psicoterapia de grupo nasceu, na década de 30, para o atendimento de pacientes tuberculosos em pequenos grupos, para possibilitar um processo educativo em relação a suas enfermidades, bem como a perspectiva de melhor lidarem com elas, favorecendo a alta e a reabilitação.

Também servem de exemplo da influência das emoções no curso e evolução das doenças, os famosos trabalhos de Renée Spitz, sobre crianças internadas em instituições. Várias situações mórbidas descritas pelo autor, como por exemplo a Depressão Anaclítica, marasmo e hospitalismo, ele constatava também um expressivo aumento da mortalidade por maior suscetibilidade a infecções. Em suas preciosas observações, Spitz descreveu como a simples presença da mãe, junto à criança internada, fazia reverter o curso, evolução e prognóstico das doenças.

Jacobs, em 1969, propôs-se a estudar os problemas psicossomáticos da pneumologia, e constatou que as pessoas em situações de mudança de vida, que estavam usando mal seus mecanismos psicológicos de adaptação adoeciam, sobretudo, de infecções das vias aéreas superiores. De fato, tanto os médicos quanto os leigos, sabem que as situações de resfriado, gripe ou bronquite ocorrem em pessoas fatigadas emocionalmente ou mesmo deprimidas.

Para sistematizar academicamente as antigas suspeitas da influência das emoções sobre a recuperação de doenças infecciosas, Greenfield e cols, em 1959, realizaram um interessante trabalho experimental. Aplicaram um inventário de avaliação psicológica, o Minnesota Multiphasic Personality Inventory (MMPI), em 38 pessoas que estavam em recuperação de um processo de mononucleose infecciosa.

Eles dividiram os pacientes em dois grupos: os de longa recuperação e os de curta recuperação. O grupo que se recuperou mais rapidamente apresentava significativos escores de maior força de ego do que o grupo que se recuperou mais lentamente. Na discussão desse trabalho, escrevem, "... parece-nos que há uma substancial evidência empírica para a assertiva de que a saúde psicológica e a somática são separáveis apenas arbitrariamente.”. Bioquimicamente é importante também o trabalho de Gruchow (1979), que conseguiu detectar elevações de catecolaminas três dias antes de episódios infecciosos.

Oliveira, na área da Hanseníase em 1988, por várias vezes constatou uma recorrência dos sintomas e das lesões cutâneas durante ou após episódios traumáticos ou conflitivos intrafamiliares. Após três anos de psicoterapia grupal,  mantida a medicação que já faziam uso anteriormente, praticamente todas as pacientes se mostraram beneficiadas por este processo, fosse através de uma melhoria de suas enfermidades, fosse por uma atitude menos hipocondríaca, culpada ou submissa. E as exacerbações das lesões cutâneas que se seguiam aos estresses praticamente desapareceram.

O Herpes Simples é uma das viroses que mais tem estimulado estudos psicossomáticos. Amkraut e Solomon (1975) recordam que os anticorpos contra o vírus do Herpes coexistem tanto com a infecção aberta quanto com a inaparente (veja melhor o Herpes em Psiconeuroimunologia, Emoção e Imunidade 1, na seção Psicossomática). A doença se dissemina por transferência do vírus, célula a célula. Trata-se de uma falência da vigilância imunológica dos linfócitos T, os quais deveriam estar diuturnamente monitorando as células infectadas. Esses linfócitos podem destruir os vírus diretamente, por ação citotóxica, ou através da ativação de macrófagos da vizinhança.

Pois bem. O estresse perturba o equilíbrio presença de vírus-defesa do organismo, possibilitando a proliferação do vírus, o que também se dá por febre ou radiação ultravioleta. Um dos alvos sabidos do estresse são as células NK, ou células matadoras (natural killers) de vírus e de outras células neoplásicas.

Na prática médica, qualquer clínico experiente constata, facilmente, a interação entre situações de estresse e crises herpéticas. Até mesmo os próprios pacientes, com o tempo, aprendem a diagnosticar as situações de estresse que serão capazes de desencadear a recaída da doença. Não é raro encontrarmos crises de herpes genital relacionadas com a situação conjugal.

Atualmente a AIDS tem sido outro terreno muito fértil para a pesquisa psicossomática. Além de tratar-se de uma doença infecciosa, de uma virose, ela provoca várias situações somatopsíquicas. Desde o estresse representado por seu diagnóstico até as angústias sócio-culturais atreladas à doença.

Atualmente muito se tem pesquisado sobre as implicações do abuso de drogas, do excesso de parceiros e do coito anal na incidência da AIDS. Outro grupo procura estabelecer relações sobre o estresse cultural do homossexual, o qual vive numa sociedade homofóbica, e das comorbidades emocionais dos usuários de drogas, embora não se negue, de forma alguma, a capacidade imunossupressora dos opiáceos exógenos intravenosos. Se um sistema imunológico já está comprometido por opiáceos ou por infecção virótica, é compreensível que o estresse possa ser mais imunossupressor agravante.

DOENÇAS AUTO-IMUNES
Doenças Autoimunes
ou de auto-agressão são aquelas em que se desenvolvem certas reações imunológicos contra constituintes naturais do organismo (self), levando a lesões localizadas ou sistêmicas. Fazem parte deste grupo de doenças a artrite reumatóide, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose sistêmica progressiva, polimiosite-dermatomiosite, tireoidite autoimune, miastenia grave, colite ulcerativa e outras, como por exemplo, a esclerose sistêmica progressiva, polimiosite-dermatomiosite, tireoidite autoimune, a miastenia grave.

Essas doenças ocorrem devido à formação de anticorpos contra constituintes do próprio organismo passando. Nesse caso, tais constituintes passam a significar, erroneamente, agressores (antígenos) ao Sistema Imunológico. E quando o anticorpo adere ao antígeno há ativação de proteínas plasmáticas que estimulam uma cadeia de reações, a qual culmina na destruição celular e necrose do tecido, com muitas conseqüências sobre a função do órgão e sobre o próprio organismo.

Muitas indagações têm sido feitas no sentido de se determinar por que, de repente, um constituinte orgânico próprio do organismo passa a ser reconhecido como “corpo estranho”. Supõe-se este tipo de reação anômala seja facilitada por uma atividade diminuída de células imuno-supressoras. Assim sendo, a falência da atividade imuno-supressora explicaria o surgimento de certas doenças autoimunes e, como já vimos ao tratar das infecções e emoções, o estresse pode perfeitamente ser capaz de modificar as atividades das Células T, incluindo a atividade supressora.

Sabe-se também que os fenômenos autoimunes tendem a aumentar com o envelhecimento, e este fato tem, inclusive, sido aventado como de importância na etiologia do câncer. Outro aspecto já muito estudado diz respeito ao condicionamento genético destas doenças. Quando estudamos as causas das chamadas doenças autoimunes, veremos que se tratam de doenças tipicamente multifatoriais, de múltiplos fatores envolvidos em sua etiologia, e aqui se inserem o estresse e os fatores psicossociais no desenvolvimento, evolução, agravamento.

Pessoas resistentes à idéia da relação das emoções com essas doenças autoimunes poderiam citar que algumas pesquisas atuais consideram, dentro desta multifatoriedade, algumas ações virais. Neste sentido, lembram, já se sabe que o antígeno da panarterite nodosa, doença do grupo das colagenoses, é o vírus da hepatite B e, quanto à artrite reumatóide, já se sabe que vírus do tipo Baar-Epstein, o mesmo da mononucleose infecciosa, ao parasitarem os linfócitos tipo B, produziriam o fator reumatóide, uma gamaglobulina presente no sangue destes pacientes. Também foi evidenciado a importância dos vírus HIV e outros tipos do tipo Picorna na poliomiosite, doença na qual os vírus Coxakie parecem desempenhar um papel patogênico em casos de crianças.

Mas esses argumentos não excluem, em absoluto, o envolvimento emocional, pois, como vimos acima, as emoções estariam fortemente presentes na vulnerabilidade imunológica e na suscetibilidade a infecções.

 

Ballone GJ - Da Emoção à Lesão - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2007

Bibliografia
- Greenfield NS. Ego strength and length of recovery fron infectious mononucleosis. J. Nervous Ment. Dis., n. 128. p. 125, 1959.
- Gruchow HW. Catecholamine activity and infections disease episodes, J. Hum. Stress, n. 128, p. 125, 1979.
- Jacobs MA et al. Incidence of psychosomatic predisposing factors in allergic disorders. Psychosom Med, n. 26, p. 679, 1966.
- Oliveira EL, Abulafia LA, Mello Filho J. Grupoterapia com pacientes de hanseníase. Informação Psiquiátrica. v. 7, n. 2, p. 64, 1988.
- Papi A. Comunicação pessoal. 1983. Fatores emocionais nas doenças do colágeno. Trabalho apresentado à 1a. Reunião Nacional da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Rio de Janeiro, 1965.
- Plaut SW, Friedman, SH. Psychosocial factors in infections disease. In: Psychoneuroimmunology, New York: Academic Press, 1981.
- Schindler R. Stress, affective disorders, and immune function. Medical Clinics of North America, n. 69, p. 505, 1985.
- Solomon, GF. Psychon innunologic approaches to research on AIDS, Am York Academy Sciences, n. 496, p. 647, 1987.
- Wittkower, ED, Durost, HS, Laing, WAR. A psychosomatic study of the course of pulmonary tuberculosis. Ann. Rev. Tuberc. Pulm. Disease, n. 71, p. 201. 1955.




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Do momento em que nasce em diante, o ser humano vive de acordo com o modo de se relacionar com o mundo ou com a realidade. Nossa situação existencial, aquieagora, física ou psíquica, depende de como nos relacionamos com o mundo, depende da qualidade com que nosso ser reage à realidade.

Quando a questão a ser considerada for, por exemplo, a alergia, estamos falando de uma maneira imunológica e particular da pessoa se relacionar com determinados objetos do mundo, “transformando-os” em alérgenos. Supondo que outras pessoas em contacto com os mesmos elementos não reagem alergicamente, então a alergia é uma forma característica da pessoa alérgica se relacionar com o mundo.

O mesmo raciocínio podese usar em relação ao obeso, que tem uma maneira muito particular de se relacionar com a comida (do mundo), ou do hipertenso, que se relaciona de forma particular com o sal e a água, ou do avarento com sua maneira de se relacionar com o dinheiro, e assim por diante.

As relações do sujeito com o objeto, da pessoa com o mundo e com ela mesma, tem sido a maneira mais didática para refletir sobre os efeitos emocionais da vida sobre a pessoa. Algumas pessoas adoecem, devido à maneira desarmônica de se relacionar com o mundo, enquanto outras, vivenciando as mesmas experiências e contactando o mesmo mundo, são mais adaptadas e sofrem menos.

Saber sobre as condições físicas e emocionais do sujeito aquieagora, implica em saber como ele se relaciona com o trânsito caótico das ruas, com as perdas, com os compromissos do cotidiano, com os poluentes, com seus vícios e suas dependências, com a saúde dos familiares, com sua autoestima, com seu próprio organismo e assim por diante.

Do nascimento em diante tem início um processo contínuo e dinâmico entre dois elementos; o sujeito, representado por tudo aquilo que seu organismo trouxe ao mundo em termos de constituição biológica, em termos de probabilidades e vulnerabilidades genéticas, e o objeto, representado por tudo aquilo que não é ele ou seja, por tudo aquilo que a vida oferecerá ao seu organismo. Desse momento em diante começará uma sucessão de eventos produzidos pelas relações entre o sujeito e o objeto, entre o ser e o mundo.

No berçário da maternidade já é possível observar diferenças individuais de relacionamento sujeitoobjeto; como o recém nascido se relaciona com o objeto comida? Como esse pequeno sujeito se relaciona com a falta da comida ou fome (outro objeto). Como o bebê se relaciona com o objeto luz, ar, frio, calor, colo, ausência de colo, barulho, chupeta, etc, etc.

As diferenças do berçário já mostram algumas características da futura personalidade, antes mesmo que o ambiente possa atuar tão incisivamente. Alguns berram diante do objeto “fome”, refletindo uma baixa tolerância a frustrações, enquanto outros são naturalmente mais complacentes e tolerantes, alguns reagem alergicamente ao leite, ao cobertor, sabonete, outros já se adaptam bem a todos esses objetos.

Assim sendo, ao longo desse trabalho vamos ter que considerar sempre o Sujeito, o Objeto e as relações entre eles. Como será que o paciente fóbico se relaciona com situações ansiosas? Como a pessoa introvertida se relaciona com o objeto “falar em público”?

Há pessoas, por exemplo, que ficam completamente transtornadas e furiosas quando usam bebidas alcoólicas, outras ficam divertidas e alegres, outras ainda, ficam sexualmente desinibidas, outras tristes, enfim, são todas maneiras variadas de relacionamento sujeitoálcool. Seriam maneiras psicológicas ou biológicas de relacionamento?

Reavaliar periodicamente o objeto é uma necessidade imperiosa para viver melhor. Só odiamos aquilo que nos é importante, só nos magoamos com aquilo que tem algum valor para nós, da mesma maneira para aquilo que tememos, que evitamos, que nos aborrecemos e assim por diante.

A idéia básica que se pretende transmitir, é sobre as possíveis atitudes do sujeito, no que se refere a (re)valorizar o objeto (a realidade), de forma a melhorar sua adaptação ao mundo em que vive.

Transportando essa idéia para a medicina geral, apenas para exemplo, seria como descobrir uma hipotética maneira da pessoa alérgica ao fungo do mofo, por exemplo, desenvolver uma maneira de revalorizar o objeto (mofo), de forma a descaracterizálo como agressivo (alérgeno) e, assim, poder compartilhar harmonicamente uma existência simultânea sujeitoobjeto no mundo.

O propósito desse trabalho será mostrar que, uma vez compreendidas nossas reflexões, possa a pessoa corrigir a maneira de se relacionar com o mundo. Ao invés de dizer que o trânsito me irrita, fulano me ofende, beltrano me aborrece e assim por diante, possamos redimensionar o discurso para eu me irrito com o trânsito, eu me ofendo com fulano, eu me aborreço com beltrano.

A diferença de postura pode ser brutal, na medida em que trazemos para nós a maior parte da responsabilidade sobre nossos sentimentos e não, como estamos acostumados, a atribuir nossas emoções e sentimentos exclusivamente ao mundo, ao destino, aos outros...

Enfim, o que se verá aqui, antes de um compêndio de psiquiatria ou uma tese metodologicamente esmerada, será uma espécie de jornalismo psiquiátrico, procurando remeter o leitor a algumas reflexões capazes de aliviar seu sofrimento na lide com o mundo e, não obstante, consigo mesmo. (Introduçaõ do livro "Da Emoção à Lesão", de Geraldo José Ballone, Ida Ortolani e Eurico Pereira Neto)

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BOM HUMOR E SAÚDE
Veja um trecho de matéria da revista Veja sub-intitulada O bom humor e as emoções positivas fortalecem o organismo e ajudam a chegar à velhice com o ânimo da mocidade.

"Ter alegria de viver é um bom caminho para envelhecer bem. Até parece conversa de guru de auto-ajuda, mas não é. A importância do bom humor e dos sentimentos positivos está documentada cientificamente.

Um dos trabalhos mais recentes a respeito do assunto foi conduzido por pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Seus resultados mostram que nossas expectativas em relação à velhice determinam o modo como envelheceremos. A pesquisa envolveu 660 homens e mulheres com mais de 50 anos. Todos haviam sido entrevistados 23 anos antes.

Entre uma dezena de questões, a eles foi perguntado: "À medida que os senhores ficam mais velhos, a vida fica melhor, pior ou igual ao que imaginavam quando eram jovens?". Ao comparar os depoimentos do passado com os óbitos registrados no grupo, os pesquisadores perceberam que aquelas pessoas com uma visão mais otimista da velhice tendiam a viver, em média, sete anos e meio a mais que os pessimistas.

A conclusão é que o impacto do otimismo sobre a longevidade equivale aos benefícios de não fumar e manter o colesterol e a pressão arterial em patamares saudáveis. Os primeiros estudos sobre a importância do bom humor para a saúde datam do fim da década de 70. Um dos marcos dessa nova frente de investigação da medicina foi o lançamento, em 1979, do livro A Anatomia de uma Doença. Nele, o editor americano Norman Cousins relata como conseguiu, graças ao prazer de viver, superar uma afecção gravíssima.

Quinze anos antes, ele havia recebido o diagnóstico de que era vítima de uma doença degenerativa que ataca a coluna vertebral. Os médicos lhe deram poucos meses de vida. Depois de passar um tempo no hospital, já com o corpo quase todo paralisado, Cousins se deu alta, contratou uma enfermeira e mudou-se para um hotel.

Todas as tardes, ele recebia visita de amigos. Eles conversavam, jogavam cartas e assistiam a comédias na televisão. Cousins percebeu que, depois de cada um desses momentos agradáveis, ele dormia melhor, comia com mais apetite e ganhava ânimo para a fisioterapia. Cousins conseguiu uma sobrevida espantosa. Morreu aos 75 anos, em 1990.

As emoções positivas inibem a produção de dois hormônios que, em excesso, são extremamente danosos à saúde – o estradiol e a adrenalina. Essas substâncias baixam as guardas das defesas do organismo, propiciando o aparecimento de infecções e dificultando o tratamento de uma série de doenças, inclusive a recuperação de infartos.

Em grandes quantidades, elas também elevam a pressão arterial, facilitando a manifestação de problemas cardiovasculares. A negatividade, por sua vez, justamente por estimular a produção de estradiol e adrenalina, tem o impacto de uma bomba atômica sobre o organismo.

Os sentimentos positivos, enfim, têm um efeito multiplicador, ao facilitar o relacionamento entre as pessoas. Já está provado que uma convivência tranqüila com parentes e amigos e um casamento feliz fazem um bem danado à saúde. "A alegria dilata e aquece o organismo", diziam os médicos do século XVI. Já a tristeza contrai e esfria o corpo". (Revista Veja, 30/10/02).

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Trata-se de um trecho de artigo publicado no jornal Correio Braziliense, de 24 de janeiro de 2003, com o título Doentes de Emoção e que ilustra bem essa questão psicossomática. Veja:

"Médicos e psiquiatras são unânimes ao afirmar que qualquer pessoa está sujeita a desenvolver uma doença psicossomática. Algumas até já sofrem do mal sem perceber. A asma e a artrite (dores nas articulações), por exemplo, têm um forte fator emocional. Crianças que só começam a ter dificuldades para respirar depois de completar 5 ou 6 anos sofrem de asma psicossomática.

A falta de ar é uma maneira de atrair a atenção dos pais. Para ter certeza de que uma doença tem origem psicológica, deve-se descartar todas as causas orgânicas primeiro. Por isso, recomenda-se uma série de exames antes de fechar o diagnostico. É importante esclarecer que, apesar de a enfermidade ser emocional, o paciente precisará de tratamento médico. ‘‘Os sintomas que ela apresenta não são imaginários e, portanto, exigem cuidados especiais’’, ensina o psiquiatra.

Outras doenças psicossomáticas comuns são a psoríase (descamação da pele), o vitiligo (perda do pigmento da pele) e a alopécia (perda espontânea de pêlos do corpo). O fato de todas afetarem a pele não é coincidência. ‘‘Depois do cérebro, a pele é o órgão com o maior número de terminações nervosas do corpo’’, explica o dermatologista Francisco Leite. ‘‘Isso quer dizer que a pele está intimamente ligada ao sistema nervoso central e, conseqüentemente, às emoções.’’

Em princípio, os pacientes nem imaginam que as irritações na pele e queda de cabelo têm fundo emocional. Mas, ao conversar com o dermatologista, acabam percebendo: o problema surgiu após um forte estresse.

A melhor maneira de acabar com o problema é tratando, simultaneamente, a pele e a mente. Por isso, além dos medicamentos tradicionais, recomenda-se terapia. Quando a pessoa ficar de bem consigo mesma, os sintomas tendem a regredir.

O doente citado acima, por exemplo, controlou a doença logo após o novo matrimônio. O fato de se sentir amado novamente ajudou na cura". Veja o artigo todo.