Variáveis de Risco para a Gravidez na Adolescência

Glaucia da Motta Bueno
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Variáveis de Risco para a Gravidez na Adolescência .

psicóloga Gláucia da Motta Bueno

Esta é uma dissertação de mestrado. Trata-se de um estudo sobre as variáveis de risco para a gravidez na adolescência. É um tema oportuno na medida em que passamos por, pelo menos, duas crises envolvendo essa questão: a procriação humana inconseqüente ou sem planejamento e, em segundo, a banalização da maternidade em idades cada vez mais precoces.

 

I - ADOLESCÊNCIA, SEXUALIDADE, GRAVIDEZ

1.1 – Adolescência e Comportamento Sexual

A adolescência é um período de vida que merece atenção, pois esta transição entre a infância e a idade adulta pode resultar ou não em problemas futuros para o desenvolvimento de um determinado indivíduo.

No entanto, para entender como a adolescência pode favorecer o aparecimento de problemas como a gravidez precoce, o alcoolismo, abuso de drogas, entre outros, é necessário uma breve revisão sobre este período.

A palavra adolescência vem do latim “adolescere” que significa “fazer–se homem/mulher” ou “crescer na maturidade” (Muuss, 1982 apud Kimmel & Weiner, 1995, p. 2), sendo que somente a partir do final do século XIX foi vista como uma etapa distinta do desenvolvimento (Reinecke, Dattílio & Freeman, 1999).

Atualmente, a adolescência se caracteriza como uma fase que ocorre entre a infância e a idade adulta, na qual há muitas transformações tanto físicas como psicológicas, possibilitando o surgimento de comportamentos irreverentes e desafiantes com os outros, o questionamento dos modelos e padrões infantis que são necessários ao próprio crescimento (Kahhale, Odierna, Galleta, Neder & Zugaib, 1997b; Banaco, 1995; Beaufort, 1996; Kimmel & Weiner, 1995; Muuss, 1996).

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a adolescência compreende um período entre os 11 e 19 anos de idade, desencadeado por mudanças corporais e fisiológicas advindas da maturação fisiológica (Kahhale, 1997).

Na literatura (Muuss, 1996), o término da adolescência é definido em termos sociais, ou seja, é marcado por rituais de passagem como, por exemplo, o casamento.

Contudo, no Brasil a adolescência possui diferentes configurações, pois depende da classe social em que o adolescente está inserido. Nas classes mais privilegiadas, é entendida como um período de experimentação sem grandes conseqüências emocionais, econômicas e sociais; o adolescente não assume responsabilidades, pois dedica-se apenas aos estudos, sendo essa a sua via de acesso ao mundo adulto. Enquanto nas classes mais baixas, que representam aproximadamente 70 milhões de adolescentes com menos de 18 anos, os riscos do experimentar, tentar, viver novas experiências são maiores e não há a possibilidade de se dedicar somente aos estudos, tornando a adolescência simplesmente, um período que antecederá a constituição da própria família (Kahhale et al, 1997b; Pereira, 1996).

As mudanças físicas ocorrem devido ao aumento da produção hormonal neste período, o que pode provocar uma alteração das emoções, portanto, explicando a perda de controle e desequilíbrio psicológico do adolescente (Kimmel & Weiner, 1995; Pereira, 1996).

No entanto, para a análise do comportamento, essa alteração das emoções no adolescente pode ser explicada através do papel do ambiente em sua vida, ou seja, seus comportamentos podem ser fruto de uma interação com um ambiente punitivo que não possibilita o aumento e a adequação do seu repertório comportamental. Muitos destes comportamentos são esquivas de um ambiente aversivo. Os problemas do adolescente está em sua relação com o mundo (Banaco, 1995).

Esta postura é compartilhada com a teoria da aprendizagem social que também acredita que o comportamento é primeiramente determinado pelos fatores sociais e ambientais, operando com o contexto situacional particular (Muuss, 1996).

Evidentemente as modificações biológicas são importantes, mas o desenvolvimento psicológico dos adolescentes é mais determinado pelo ambiente sócio-cultural em que vivem (Kimmel & Weiner, 1995), portanto este é o foco da análise do comportamento.

A maior contribuição das mudanças biológicas, do ponto de vista cultural, é a "transformação do estado não reprodutivo ao reprodutivo" (Schlegel & Barry, 1991 apud Muuss, 1996, p. 385), pois o amadurecimento do sistema reprodutivo impõe os limites para cada sexo (Kahhale, 1997); neste contexto, surge a sexualidade na adolescência; sendo esta temática de relevância mundial, pois tanto dificuldades como desafios que aparecem aos adolescentes ocorrem independentemente da diversidade cultural, étnica e social (Carvalho, 1999).

Acompanhando as alterações hormonais, o comportamento sexual do adolescente é um produto de fatores culturais presentes no ambiente, que cada vez mais erotiza as relações sociais (Silvares, 1999; Banaco, 1995; Muuss, 1996).

No entanto, o comportamento sexual tem como principal função a sobrevivência da espécie, ou seja, é um comportamento biologicamente determinado, encontrando-se social e culturalmente controlado, o que não permite dizer que o comportamento sexual do adolescente é controlado por um único conjunto de procedimentos (Skinner, 1998).

A sexualidade do adolescente pode se expressar através do relação heterossexual e/ou homossexual, da masturbação e de fantasias (Muuss, 1996; Masters, Johnson & Kolodny, 1988).
De acordo com alguns autores (Banaco, 1995; Strasburger, 1999; Muuss, 1996), este comportamento durante a adolescência deve-se às expectativas sociais e à modelação a partir da televisão, filmes e músicas que influenciam o espectador desde a mais tenra idade.

A modelação é definida por Bandura (1979) como a aprendizagem vicária de comportamentos, ou seja, através da observação de modelos, pode-se adquirir padrões de respostas autonômicas, motoras e/ou cognitivas, sendo que esses modelos podem ser reais ou simbólicos, tais como personagens de filmes e livros.

Porém, aprender por observação é diferente de aprender por imitação, pois a imitação não implica que o organismo que imita tenha aprendido alguma coisa sobre as contingências que estão operando no ambiente, sendo que nem toda imitação produz conseqüências muito vantajosas, ou seja, a imitação reproduz fielmente aquilo que o indivíduo observou (Catania, 1999).

Assim, pode-se entender melhor o que acontece no comportamento sexual do adolescente, parece que algumas vezes comporta-se por imitação e não pela modelação, pois muitos comportamentos que emitem, resultam em conseqüências mais punitivas que reforçadoras, a exemplo a própria gravidez na adolescência.

De acordo com Bandura (1979), quando o comportamento de imitação é positivamente reforçado e respostas divergentes não são recompensadas ou são punidas, o comportamento dos outros começa a funcionar como estímulo discriminativo para o reforçamento no controle das respostas sociais.

Dessa maneira, talvez os processos de modelação também possam ser utilizados no controle da gravidez na adolescência. Embora em alguns casos, a gravidez possa trazer conseqüências reforçadoras, como o casamento precoce entre adolescentes, muitas vezes traz conseqüências punitivas a curto e longo prazo, como o convívio com condições econômicas precárias devido ao despreparo social e psicológico dos adolescentes para exercerem a paternidade e o abandono aos estudos (Cunha et al,1999; Wong & Melo, 1987; Fávero & Mello, 1997).

A análise skinneriana dos fenômenos da modelação apóia-se sobre o paradigma dos três termos Sd * R * Sr, onde Sd representa o estímulo discriminativo modelado, R uma resposta manifesta de emparelhamento e Sr o estímulo reforçador (Bandura, 1979).

É difícil notar como esse esquema de aprendizagem pode ser aplicado na aprendizagem por observação, a qual o observador não desempenha manifestamente as respostas do modelo durante a fase de aquisição, em que os reforços não são administrados quer ao modelo, quer ao observador e em que o primeiro aparecimento da resposta adquirida pode ser retardado por dias, semanas e meses (Bandura, 1979).

No último caso, que é uma das maneiras predominantes de aprendizagem social, dois dos eventos (R * Sr) do paradigma dos três termos estão ausentes durante a aquisição, e o terceiro elemento (Sd ou estímulo modelador) está tipicamente ausente na situação em que a resposta aprendida por observação ocorre (Bandura, 1979).

Em relação ao comportamento sexual do adolescente, considerando essa análise, pode-se dizer que filmes, músicas ou novelas atuam como estímulo discriminativo modelador para que o adolescente inicie precocemente sua vida sexual, obtendo como reforço imediato o prazer de experimentar tal situação, resultando em uma comportamento modelado pelas contingências.

Durante as décadas de 70 e 80, a produção de filmes com a "exploração sexual" de adolescentes foi grande; Hollywood apelou para os adolescentes por serem o maior segmento da população que vai aos cinemas. Muitos são os filmes que lidam com o sexo na adolescência, porém de maneira inadequada, pois nestes, a relação sexual e a contracepção estão muito distantes, além de favorecerem a promiscuidade (Strasburger, 1999).

Estes filmes podem ser vistos como incentivadores ao adolescente para que inicie sua vida sexual sem medidas contraceptivas, favorecendo em conseqüência disto, a gravidez na adolescência quando os processos de modelação são considerados na instalação de novos comportamentos no repertório do indivíduo, pois o adolescente sem discriminar as contingências implicadas, preocupa-se apenas com a obtenção do reforço imediato - o prazer das relações sexuais - sem pensar nas conseqüências aversivas que podem ocorrer em virtude do seu comportamento.

Um estudo realizado por Corder-Bolz (1981 apud Strasburger, 1999) mostrou que as gestantes adolescentes apresentavam-se duas vezes mais propensas a pensar que os relacionamentos da televisão são como aqueles da vida real do que as adolescentes não-grávidas, e que as personagens não usariam contracepção, se envolvidas em um relacionamento sexual, o que demonstra a falta de discriminação da complexidade desta situação.

Assim, o comportamento sexual do adolescente pode ser visto como sendo mais um produto de contingências ambientais do que meramente um efeito derivado de mudanças hormonais, pois é no ambiente que se pode encontrar as condições que favoreçam a sua manifestação.


1.2 - Gravidez na Adolescência

A gravidez é uma fase da vida que não depende da idade da mulher (Sarmento, 1990), pode ocorrer a qualquer momento desde de que haja as condições fisiológicas e ambientais apropriadas para propiciá-la.

Durante anos, em todo o mundo, atribuiu-se demasiada importância à fertilidade, evitando-se a esterilidade, pois ter filhos era a maneira do casal prevenir-se da velhice e transmitir o seu nome (Ramos & Cecílio, 1998).

Com a gravidez, tanto o homem como a mulher, encontram a maneira ideal para definirem-se e identificarem-se como tal, através dela é que se confirma a potencialidade do homem e da mulher permitindo a continuidade da família e a criação de algo próprio (Kahhale, 1997). Dessa forma, pode-se dizer que a gravidez representa um período de relativa importância e muitos significados.

As sociedades indígenas, valorizavam muito a fertilidade feminina e quando a mulher não podia ter filhos, trazia-se outra para tê-los em seu lugar (Ramos & Cecílio, 1998). Ao longo dos tempos a gravidez assumiu diversas caracterizações; antigamente a mulher engravidava várias vezes, tendo um grande número de filhos; atualmente ainda há famílias que vêem a gravidez com entusiasmo e alegria, obviamente isso depende de como cada gravidez é vista e vivida no meio familiar, o qual é fortemente influenciado pelos aspectos socioeconômicos e culturais (Ramos & Cecílio, 1998).

No entanto, nos dias de hoje a mulher opta por ter poucos filhos, ou tê-los em idade mais avançada, ou ainda, não tê-los em alguns casos.

A gravidez continua tendo um papel parental biologicamente determinado, assim como o parto e a amamentação, podendo servir como um dos eventos socializadores da mulher, pois estabelece novas relações com as figuras parentais, amigos e familiares (Eiras, 1983; Kahhale, 1997). Atualmente, a inserção feminina no mercado de trabalho também pode ser vista como um evento socializador, o que há alguns anos atrás ocorria somente entre os homens. Essa transformação da mulher aconteceu em função do custo de vida elevado da atualidade, levando-a a trabalhar fora, deixando de cuidar apenas dos filhos e da casa como antes fazia.

Por essa razão, entre outras, a gravidez na adolescência causa preocupações à sociedade, pois os jovens muitas vezes encontram-se despreparados para enfrentar o mercado de trabalho, o que pode torná-los marginalizados agravando o quadro de pobreza do país (Cunha et al, 1999; Wong & Melo, 1987; www. uol. com.br/psicopedagogia/artigos/ gravidez.htm, 1999).

A gravidez é um período de vida da mulher, no qual ocorrem profundas transformações endócrinas, somáticas e psicológicas que repercutem em sua vida. Essas mudanças ocorrem da mesma maneira durante a adolescência, o que de acordo com alguns autores (Galletta et al, 1997; Kahhale, 1997a; Sarmento, 1990; Maldonado, 1997) favorece o agravamento da crise comum a ambas as fases do desenvolvimento, pois alegam que gravidez e adolescência são períodos críticos de vida.

O termo crise diz respeito àqueles períodos de transição inesperados como àqueles aspectos inerentes ao desenvolvimento; as crises são precipitadas por mudanças internas ou externas, tendo como principal característica o fato de constituir uma encruzilhada para a saúde mental (Maldonado, 1997).

Nesse sentido, a gestante adolescente merece toda atenção dos profissionais da saúde com o intuito de amenizar as dificuldades deste período, como no programa do Adolescente da Secretaria Estadual da Saúde que já atendeu mais de 220 mil garotas. O programa foi instalado no Hospital das Clínicas de São Paulo e em 112 postos de saúde, nos quais mais de 500 profissionais de 150 cidades do Estado de São Paulo receberam treinamento inicial para a formação de equipes e a metodologia empregada atraiu o interesse de profissionais da saúde de países como a Itália, Estados Unidos e França. As gestantes adolescentes passam por diversas etapas de atendimento que compõem um diagnóstico ágil que enfatiza os aspectos educacionais, desenvolvem atividades artesanais, além de receberem atendimento ginecológico básico e quando necessário podem passar por fonoaudiólogos, terapeutas, nutricionistas e até dentistas, orientações quanto à contracepção, atividade sexual e estímulo à auto-estima (Órgão Oficial do Cremesp, 1999).

Para Sarmento (1990), a vivência da maternidade durante a adolescência torna-se mais complicada, pois as exigências que aparecem na busca da identidade do adolescente, acrescenta-se à grande exigência do "tornar-se mãe".

Este quadro pode ser mais grave quando ocorrido em um ambiente menos favorável. No Brasil, onde a adolescência possui diferentes configurações, por exemplo, uma jovem de classe baixa que engravida encontra maiores dificuldades devido as suas condições socioeconômicas precárias e à falta de apoio, muitas vezes, da própria família e do parceiro (Kahhale et al, 1997b; Cunha et al, 1999; Wong & Melo, 1987 & Mahfouz et al, 1995).

Em 1998, no Brasil, foi registrado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quase 700 mil partos de mães com idade entre 10 e 19 anos, tendo gasto cerca de R$153 milhões em gestações de adolescentes (www. uol.com.br/psicopedagogia/artigos/gravidez.htm, 1999); isso deve-se à completa falta de informação, de educação sexual e a insegurança do adolescente em utilizar métodos contraceptivos (Órgão Oficial do Cremesp, 1999). Assim, a gravidez, que na maioria dos casos não foi planejada, aparece em destaque entre os problemas sociais e de saúde pública (Carvalho, 1999).

Sabe-se que o número de adolescentes que engravidam aumenta progressivamente e em idades cada vez mais precoces, pois a idade da menarca tem se adiantado por volta de quatro meses por década do século XX, sendo que a idade média para que ocorra é de 12,5 a 13,5 anos, expondo a adolescente a engravidar cada vez mais cedo (www. geocities.com/ Heartland/Plains/8436/ gravidez/html, 1997).

A revolução sexual das décadas de 60 e 70 em conseqüência do movimento feminista (Fávero & Mello, 1997), favoreceu o aumento da gravidez na adolescência, não somente no Brasil, mas em outros países como os Estados Unidos, onde na década de 70 ocorreu uma "epidemia" de adolescentes grávidas (Goldenberg & Klerman, 1995).

De acordo com Wong & Melo (1987), a crescente tendência da liberação do comportamento social, especificamente, o sexual, contribui para o aumento da gravidez na adolescência, devido à falta de conhecimento do próprio corpo enquanto função reprodutora, vinda da falta de uma educação esclarecedora tanto no âmbito familiar como no escolar e social.

Nesse contexto, é interessante que as escolas, tanto públicas quanto particulares, enfatizem a educação sexual para os jovens, esclarecendo suas dúvidas e lhes oferecendo toda orientação a respeito do assunto.

Em 1996, 29.520 garotas de 11 anos de idade engravidaram no Brasil (www. geocities.com/ Heartland/Plains/8436/ gravidez/html, 1997). Atualmente, no Brasil, a cada quatro milhões de mulheres que engravidam anualmente, um quarto delas são gestantes adolescentes (Galletta et al, 1997; www.uol.com.br/psicopedagogia,artigos/gravidez.htm, 1999). Além disso, o parto normal tem sido a primeira causa de internação de jovens entre 10 e 14 anos de idade nos hospitais conveniados com o Sistema Único de Saúde (SUS) em todos os estados do país (www. planetabrasil.com. br/gravidez.htm, 1998).

Nos Estados Unidos, em 1992, 12,7% dos bebês nascidos vivos eram de jovens com menos de 20 anos de idade (Goldenberg & Klerman, 1995). De acordo com Rome et al (1998), a gravidez na adolescência tornou-se um grande problema nesse país, pois a cada um milhão de adolescentes que engravidam 84% não querem ser mães, o que favorece o aparecimento de um outro problema - o aborto, algo que também ocorre no Brasil, principalmente nas classes sociais mais privilegiadas que vêem nele, a solução para o problema da gravidez da jovem adolescente (Cunha et al, 1999).

No entanto, isso ocorre sem os pais adolescentes assumirem, mais uma vez, a responsabilidade sobre a decisão de ter ou não o bebê, reproduzindo os possíveis determinantes do crescimento da gravidez na adolescência: a falta de responsabilidade e desorientação dos jovens (Cunha et al, 1999).

Um outro inconveniente da gravidez durante a adolescência, diz respeito às funções fisiológicas, ou seja, as adolescentes representam um grupo de alto risco obstétrico, pois apresentam um elevado nível de complicações quando comparadas às demais, além de favorecer o nascimento de bebês prematuros ou quando a mãe possui idade inferior a 13 anos, tem duas vezes e meia a mais possibilidade de gerar um bebê com baixo peso (Goldenberg & Klerman, 1995; Mahfouz et al, 1995; Du Plessis, Beel & Richards, 1997; Phipps-Yonas, 1980; Masters, Johnson & Kolodny, 1988; www. geocities. com/ Heartland/ Plains/ 8436/gravidez.htlm, 1997).

Os efeitos da gravidez na adolescência quanto aos resultados clínicos causam controvérsias (Goldenberg & Klerman, 1995), como exemplo dessa polêmica, pode-se citar um estudo realizado na Arábia Saudita (Mahfouz et al, 1995) que aponta os mesmos riscos para jovens e mulheres entre 20 e 35 anos para desenvolverem anemia e hipertensão.

Esses autores alegam que a adolescência não aumenta os riscos obstétricos, já que neste país é muito comum o casamento antes dos 20 anos de idade e que a taxa de concepção entre as jovens não foi, neste estudo, diferente àquelas com idade entre 20 a 35 anos de idade. Preocupam-se com os aspectos sociais e econômicos, ou seja, para eles em uma sociedade que provê suporte socioeconômico e um bom acesso aos cuidados pré-natais, a adolescência não pode ser considerada um grupo de alto risco para a gravidez.

Acredita-se, atualmente que os riscos da gravidez durante a adolescência seja mais determinado por fatores psicossociais relacionados ao ciclo da pobreza e educação existente, e fundamentalmente, a falta de perspectivas na vida dessas jovens sem escola, saúde, cultura, lazer e emprego; para elas, a gravidez pode representar a única maneira de modificarem seu status na vida (www. uol.com.br/psicopedagogia/artigos/gravidez.htm, 1999).

Sabe-se que em sociedades pré-industrializadas, a atividade sexual e conseqüentemente a gravidez são fenômenos seguidos geralmente da menarca; porém, o Brasil não se trata de uma sociedade pré-industrializada e sim, apesar de dependente, uma sociedade capitalista ligada a muitas circunstâncias que deveriam tender a prorrogar a entrada no casamento e o intercurso sexual (Wong & Melo, 1987).

Mais uma vez pode-se notar o impacto do ambiente na gravidez durante a adolescência e que esta depende de variáveis culturais, sociais e individuais presentes em cada comunidade, as quais serão apresentadas a seguir.

II - VARIÁVEIS DE RISCO

2.1 - Variáveis Culturais

Skinner (1990) argumenta que o comportamento de um organismo é um produto de três tipos de variação e seleção, que são: a seleção natural, o condicionamento operante e a cultura. As culturas, em geral, possuem as funções dos meios sociais, como oferecer modelos, dizer e ensinar; através delas seus membros solucionam os próprios problemas.

A cultura é o próprio ambiente social que exerce controle sobre o comportamento do grupo que a pratica (Skinner, 1974).
Baum (1999) define cultura como um comportamento aprendido que consiste em um operante, verbal ou não, que é adquirido como resultado de pertencer a um grupo.

No entanto, as heranças genéticas diferem grandemente e os ambientes possuem uma maior probabilidade em mostrar mais diferenças que semelhanças, das quais um grande número pode ser atribuído às variáveis culturais. Por esse motivo, não se pode dizer que um único conjunto de procedimentos controla o comportamento sexual dos adolescentes, que atualmente é influenciado por técnicas conflitivas que mostram a transição de um procedimento cultural a outro (Skinner, 1998).

A cultura é a característica mais forte que diferencia um indivíduo de outro, pois possui importante influência para determinar os costumes cotidianos de uma dada população, que são compartilhados e passados pelo grupo de geração à geração (Baum, 1999). No entanto, seu aspecto fundamental é de que ela evolui e sobrevive de acordo com a eficácia que possui para determinado grupo para solucionar problemas a partir da emissão do comportamento (Skinner, 1974).

Assim, nota-se a importância das contingências ambientais para que o indivíduo se comporte. Nesse sentido, pode-se dizer que o fato de engravidar durante a adolescência pode estar sob controle de tais variáveis.

Um estudo realizado por Young, Jensen, Olsen & Cundick (1991) mostrou que a estrutura familiar da jovem gestante possui grandes influências para que tenha engravidado.

A família é o grupo social no qual o indivíduo pode se expressar com intimidade e espontaneidade, sendo um importante elemento para a saúde de seus membros; em uma família na qual a falta de afeto, agressão, indiferença e comunicação inadequada imperam, promovem-se péssimos resultados a ela própria; assim a comunicação entre seus integrantes possui fundamental importância para o bem-estar emocional dos mesmos (Rey, 1993). Dessa maneira, o contexto familiar pode influenciar grandemente o comportamento dos adolescentes.

De acordo com Sidman (1995), vários jovens convivem com um ambiente familiar punitivo promovendo, de alguma maneira, para que estes deixem seus lares; deixar a família para estudar longe de casa ou para trabalhar são vistos pela sociedade como algo altamente aceitável; pais coercitivos colaboram para que seus filhos saiam de suas casas assim que puderem.
No entanto, são muitos os adolescentes que vêem na gravidez e conseqüentemente em um casamento precoce, a possibilidade de esquivarem-se de um ambiente familiar escasso em reforçamento positivo compensatório (Sidman, 1995).

Sidman (1995, p.125) argumentou que a esquiva dos filhos da convivência dos pais pode ser explicada, muitas vezes, pelo modelo oferecido pelos pais aos próprios filhos, quando estes se afastam da família seja devido a doenças psiquiátricas incapacitantes, alcoolismo, excesso de trabalho ou de televisão, ou ainda através do divórcio. Para ele, "podemos fugir do ambiente coercitivo de nossa família, mas, a menos que tenhamos um outro modelo para seguir, criamos nossa própria cópia. E então, nossos filhos mantêm a tradição coercitiva viva", mostrando o quão importante é a estrutura familiar para a instalação do repertório comportamental dos seus integrantes.

Um estudo realizado ente jovens hispânicos (Adolph et al, 1995) mostrou que a comunicação efetiva entre pais e filhos sobre questões sexuais pode deter a gravidez na adolescência. De acordo com o estudo, as adolescentes cujas mães conversam sobre sexo possuem menor probabilidade para engravidar.

É comum adolescentes engravidarem devido as suas próprias mães terem engravidado durante a adolescência ou iniciado precocemente sua vida sexual. As jovens gestantes repetem padrões de comportamento de suas mães ou de alguma parente muito próxima (www.geocities. com/ Heartland/Plains/8436/ gravidez. html,1997; Órgão Oficial do Cremesp, 1999), o que pode ser explicado pela teoria da aprendizagem social de Bandura (1979) descrita anteriormente neste trabalho.

De acordo com Barnett, Papini & Gbur (1991), as adolescentes que engravidam percebem a família como pouco unidas, com baixo nível de comunicação entre seus membros e normalmente, os pais não vivem juntos, acarretando baixa renda familiar; enquanto àquelas jovens que não engravidam, percebem um grande senso de união e força familiar. Enfim, famílias que possuem comunicação e um relacionamento adequados, parece ser menos provável que a gravidez na adolescência ocorra.
Young et al (1991), argumentam que filhas de pais separados ou solteiros possuem maior probabilidade para engravidarem durante a adolescência, atribuindo tal fato à ausência do pai na família, embora o mesmo não ocorra quanto ao intercurso sexual dos garotos.

Estes mesmos autores identificam diferenças quanto ao gênero e à raça para a iniciação na atividade sexual. Concluem que as garotas cujos pais vivem juntos e são brancos possuem maior possibilidade em se manterem virgens, retardando o início à vida sexual. No entanto, uma vez iniciada a atividade sexual, esta possui altos níveis tanto quanto às adolescentes negras cujos pais também vivam juntos.

Entre jovens negros o nível de atividade sexual é o mesmo para os meninos e meninas; enquanto entre jovens brancos, os meninos iniciam a atividade sexual mais precocemente que as meninas (Young et al, 1991).

As normas culturais e as variáveis sociais parecem ser mais rígidas e comuns às garotas, pois quando o status social é uma questão importante para a família, a possibilidade de algumas restrições quanto ao comportamento sexual das meninas é maior que para os meninos, a preocupação dos pais com uma gravidez precoce contribui para que restrinjam a atividade sexual de suas filhas (Muuss, 1996). Nestes casos, é que se pode notar como os tabus e normas sociais obsoletas ainda se fazem presentes na sociedade.

Quando à atividade sexual é definida em termos de ter uma vida sexual ativa, as jovens negras são mais sexualmente ativas que as brancas; e quando a atividade sexual é definida em termos de freqüência de atividade sexual, as adolescentes brancas são mais ativas (Young et al, 1991).

De acordo com Haggerty, Sherrod, Garmezy & Rutter (1996), as taxas de nascimentos entre as jovens mães são maiores para as negras, no entanto não fornecem argumentos que expliquem tal ocorrência. Talvez uma variável importante que corrobore tal afirmação, seja as condições socioeconômicas precárias que vivem essa população. Nota-se, que há grandes diferenças étnicas e raciais entre as adolescentes como alegam Coley & Chase-Lansdale (1998).

Uma outra razão que leva muitas jovens a engravidar é o abuso sexual (Órgão Oficial do Cremesp, 1999), que pode ser definido como um envolvimento de crianças ou adolescentes em uma atividade sexual contra a própria vontade (Kenney et al, 1997).

Todos os níveis de abuso podem ter conseqüências psicológicas devastadoras e os resultados físicos desta violência são: fraturas, contaminação por doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez (Emery & Laumann-Billings, 1998).

Um estudo com 535 jovens mães que engravidaram na adolescência relata que 66% delas tinham sido sexualmente abusadas, 55% molestadas, 42% havia sofrido tentativa de estupro e 44% tinham sido estupradas, concluindo que mulheres sexualmente abusadas e que engravidam têm maior probabilidade para desenvolver comportamentos-problema que àquelas que são abusadas e não engravidam, como: uso de álcool e drogas, envolvimento em relacionamentos promíscuos e com parceiros mais velhos e menor adesão aos métodos contraceptivos (Boyer & Fine, 1992 apud Kenney et al, 1997).

Em uma cidade do interior paulista, realizou-se um estudo através do Centro Regional de Atenção Maus Tratos à Infância - CRAMI - (Barison, 1999), no qual seis famílias foram entrevistadas devido ao abuso sexual estar ocorrendo. Em duas destas famílias as jovens engravidaram dos seus próprios pais.

Outra instituição social que pode exercer um certo controle nas adolescentes é a escola. A escola possui importância fundamental na educação de um indivíduo, normalmente, serve como uma continuação ou complementação da educação recebida no âmbito familiar, possibilitando conhecimentos não só acadêmicos, como também orientações quanto ao próprio desenvolvimento do jovem (Rey, 1993).

No entanto, os indicadores nacionais mostram uma situação calamitosa quanto ao perfil das jovens gestantes; quando muitos possuem o primeiro grau incompleto, a escolaridade da adolescente mostra-se altamente defasada em relação à própria idade (Órgão Oficial do Cremesp, 1999).
O nível econômico parece ser um fator quase determinante para a ocorrência da gravidez, é nas classes econômicas menos favorecidas que há uma elevada incidência de adolescentes grávidas devido ao abandono e promiscuidade dessa população, maior desinformação e menor acesso aos métodos anticoncepcionais (Órgão Oficial do Cremesp, 1999).

Contudo, de acordo com Galletta (1999), a gravidez na adolescência quando ocorre na classe média deve-se mais à falta de perspectiva de vida do que somente à falta de orientação sexual ou conhecimento dos anticoncepcionais.

Uma outra variável importante na gravidez durante a adolescência é a influência religiosa exercida sobre o comportamento sexual dos adolescentes. Carvalho (1999) realizou um estudo que visou a identificar essa influência e concluiu que a afiliação religiosa possuía forte impacto na população estudada, que se dividiu em quatro grupos religiosos: os evangélicos, católicos, espíritas e não-engajados a nenhuma religião; mostrando que os não-engajados evidenciaram-se como os mais avançados quanto às carícias e atividade sexual. Os evangélicos caracterizaram-se por regras rígidas de conduta, enquanto os espíritas advogaram o questionamento sobre as próprias ações e responsabilidade quanto às conseqüências.

Dessa maneira, fica claro o importante papel orientador que as instituições religiosas recebem, já que são poderosos meios de comunicação e formadores de opinião. No entanto, há o desafio em se tornarem aliadas as práticas preventivas das instituições de saúde pública destinadas aos adolescentes (Carvalho, 1999); enfatizando a questão da responsabilidade em assumir uma vida sexual ativa, de uma forma não preconceituosa para que o adolescente, futuro adulto, possa desfrutar de uma vida sexual saudável.

Portanto, é fundamental que tanto a família quanto a escola assumam a responsabilidade de formar e informar às jovens para que consolidem uma visão positiva da própria sexualidade e tornem-se capazes para tomadas de decisões maduras e responsáveis (www. planetabrasil.com.br/gravidez.htm, 1998).

2.2 - Variáveis Comportamentais

Devido a todas transformações psicológicas, fisiológicas e sociais que ocorrem durante a adolescência, é muito comum que os jovens exibam alguns comportamentos de risco, tais como: fumar, usar drogas e/ou álcool, manter relações sexuais sem nenhuma medida contraceptiva (Banaco, 1995; Rome et al, 1998).

Iñesta (1990) definiu os comportamentos instrumentais como ações de um indivíduo que, direta ou indiretamente, diminuam ou aumentem a probabilidade de contrair doenças. Dessa maneira, os comportamentos instrumentais de risco são aqueles que favorecem o aumento de tal probabilidade.
Os comportamentos instrumentais de risco foram divididos em duas categorias que os classificam como diretos ou indiretos. Os diretos produzem contato com um agente patogênico, como as doenças sexualmente transmissíveis, doenças parasitárias, exposições a agentes cancerígenos, entre outros; porém, podem ser facilmente modelados desde que os aspectos socioculturais possam contribuir.

Enquanto, os comportamentos instrumentais de risco indiretos são àqueles que mesmo sem produzir um contato específico, aumentam a vulnerabilidade do organismo diante à ação destes agentes, por exemplo, a prática inadequada de exercícios físicos, auto-medicação, consumo de drogas, etc (Iñesta, 1990).

De acordo com Banaco (1995), os comportamentos-problema que os adolescentes apresentam são uma esquiva e se ocorrem, deve-se à presença de algum estímulo aversivo no ambiente. Para ele, a gravidez na adolescência, tem sido uma das principais razões que levam os pais a procurar por um terapeuta.

Os comportamentos-problema foram definidos por Rome et al (1998) em um estudo realizado nos Estados Unidos mais especificamente em Ohio, como àqueles comportamentos de risco que provocam as sanções formais ou informais da sociedade, o que é muito comum entre os adolescentes. Este estudo mostrou que a gravidez na adolescência ocorre com maior freqüência em jovens que se engajam em comportamentos de risco, como o porte de arma, uso de álcool e/ou de cocaína, já ter sido portadora de uma doença sexualmente transmissível, início precoce da atividade sexual, entre outros. Assim, a gravidez na adolescência pode ser considerada uma conseqüência da emissão de um comportamento de risco da adolescente, como manter relações sexuais sem medidas contraceptivas, utilizá-las inadequadamente ou iniciar precocemente a atividade sexual.

Um outro aspecto que favorece a gravidez em jovens diz respeito à escolarização, ou seja, estudos da década de 70 sugeriram que as adolescentes no momento que engravidavam, encontravam-se abaixo da média no desempenho escolar e nos resultados das avaliações antes da gravidez; atribuem o abandono à escola ou às baixas aspirações educacionais como variáveis precipitantes da gravidez da adolescente (Fávero & Mello, 1997). Estes fatos dividem-se em duas grandes linhas para a interpretação da questão: a gravidez devido ao baixo rendimento escolar e/ou o abandono à escola; e a gravidez como resultado de fraco desempenho escolar e às mínimas aspirações acadêmicas da adolescente (Fávero & Mello, 1997).

Nesse sentido, pode-se dizer que a escola possui uma grande importância na questão da gravidez durante a adolescência, seja a respeito do desempenho da jovem nas atividades acadêmicas ou quanto às informações que recebem para se evitar uma gravidez.
O desconhecimento dos métodos contraceptivos tem sido uma das principais causas da gravidez, principalmente na população mais carente, na qual há rapazes e moças completamente desinformados em relação ao funcionamento do corpo humano e aos meios contraceptivos (www. planetabrasil.com. br./ gravidez. htm, 1998).

Em alguns casos, quando a adolescente conhece as maneiras de evitar uma gravidez, muitas vezes, recusa-se a usá-las, pois isto implica em assumir sua vida sexual diante da família e da própria sociedade, algo extremamente aversivo para a maioria das adolescentes (www. planetabrasil.com.br/ gravidez. htm, 1998; www. geocities.com/Heartland/ Plains/8436/ gravidez.html, 1997; Fávero & Mello, 1997).

Nesses casos são comuns os pensamentos "mágicos" com relação à contracepção: "tomar anticoncepcional me transforma; se me transforma, denuncia minha vida sexual; como isto não pode acontecer, então não devo tomar anticoncepcional" (Fávero & Mello,1997, p.134).

Outras variáveis individuais que favorecem a gravidez na adolescência são: o fato de a jovem confiar na própria sorte, ou seja, é muito comum desenvolver o pensamento mágico de que a gravidez não acontecerá com ela, esquivando-se de tal possibilidade; a utilização incorreta de anticoncepcionais; o uso de álcool ou drogas; o desejo de agredir a família, estar perdidamente apaixonada pelo rapaz; não pensar no risco de engravidar; usar um método contraceptivo de baixa eficiência, desejo de antecipar o casamento e não possuir vida sexual ativa que justifique o uso continuado do contraceptivo (www. planetabrasil.com.br/gravidez.htm,1998; www.geocities.com/Heartland/Plains/8436/gravidez. html, 1997).

As variáveis que contribuem para a gravidez na adolescência, parecem variar de indivíduo para indivíduo e/ou de situação para situação. O motivo que levou uma jovem a engravidar não é, necessariamente, o mesmo que de uma outra adolescente, como também à motivação para a gravidez. Dessa maneira, remete-se ao conceito de motivação a fim de melhor compreender as variáveis individuais e comportamentais que levam uma jovem a engravidar na adolescência.

A motivação tem sido considerada como fator determinante do comportamento humano, mas explicações tradicionais sobre o assunto enfatizam o papel dos processos internos. Porém, na análise do comportamento o papel dos processos internos minimizam-se a favor das causas ambientais do comportamento (Cunha, 1995).

Keller & Schoenfeld (1966) foram os primeiros a tratar da necessidade do conceito de motivação como uma variável importante para o comportamento, pois de acordo com eles, muitas são as operações que estabelecem o comportamento de um indivíduo além do reforçamento. No entanto, introduzem o termo operação estabelecedora relacionando-o com o conceito de impulso, que significa uma palavra para reconhecer quais são as as funções do comportamento que podem depender de reforçamento e estas por sua vez, podem ser modificáveis por outras influências como as exercidas pelas ocorrências que não envolvem reforçamento, ao invés de classificá-lo como um evento unicamente interno.

O motivo é um conjunto de relações entre operações que o estabelecem e as modificações no comportamento que o acompanham. Então, o que estabelece os impulsos são a privação e a estimulação do organismo; estas operações têm efeitos sobre o comportamento que indicam a efetividade do reforçamento e a mudança de freqüência do comportamento seguido por tal evento reforçador (Keller & Schoenfeld, 1966).

Skinner (1998) embora não utilize o termo operação estabelecedora, refere-se à motivação como uma questão que depende da privação ou saciação de um organismo para explicar o comportamento.
Assim, Michael (1982) desenvolveu o conceito de operação estabelecedora para compreender o que leva um organismo a se comportar; no entanto, o termo "motivação" é virtualmente seu sinônimo, exceto ao que se refere a algo existente dentro do organismo. Dizer que um indivíduo está motivado é o mesmo que dizer que algo ambiental está lhe servindo como reforçador (Amaral, 1998).

Uma operação estabelecedora é um evento ambiental que afeta um organismo, primeiro pela alteração momentânea na eficácia de um reforçador (ou punidor) de outro evento, estímulo ou objeto; e segundo, pela alteração momentânea na força daquelas partes do repertório do organismo que foram reforçadas ou punidas por aqueles outros eventos; enquanto o estímulo discriminativo é um estímulo para dada resposta e não um estímulo para dado reforço. Ela pode ser incondicionada, ou seja, de origem filogenética e varia de espécie para espécie, ou condicionada com origem ontogenética, portanto, relacionada diretamente com a história do indivíduo (Michael, 1983,1993).

Portanto, motivação não é uma força ou impulso a ser encontrado dentro de um organismo, é um termo aplicado a muitas variáveis orgânicas e ambientais que tornam vários estímulos relevantes ao organismo (Catania, 1999).

Com relação à gravidez na adolescência, é interessante avaliar quais são as operações estabelecedoras da adolescente para engravidar; é importante o conhecimento dos motivos para a ocorrência de uma gravidez na adolescência, ou seja sob que tipo de privação ou saciação estas jovens estão submetidas que as levam em alguns casos a optar ou mesmo decidir pela gravidez, realmente a desejando e planejando; e em outros casos, isso ocorrer em função da própria alienação e à falta de conhecimento da responsabilidade que envolve uma gravidez seja em qualquer idade.

CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS


* Conhecimento de algumas possíveis variáveis concorrentes para a gravidez na adolescência da amostra estudada.
* Não permitiu concluir qual a variável de maior impacto para a gravidez dos sujeitos ocorrer na adolescência.
* Limitações nos instrumentos utilizados.
* Falta de orientação e educação sexual dos sujeitos.
* Desenvolvimento de programas de prevenção da gravidez na adolescência.
* Necessidade de pesquisas nacionais sobre o tema.

O presente estudo permitiu o conhecimento de algumas possíveis variáveis concorrentes para a gravidez na adolescência da amostra estudada, que foram: estar apaixonada sem avaliar a possibilidade de engravidar, não prevenir a gravidez, não planejar a gravidez, repetir padrões de comportamento, ausência do pai e privação de informações sobre sexo e gravidez pelos pais, desejo do parceiro pela gravidez, escolarização, influência dos meios de comunicação nos adolescentes em geral, não utilizar corretamente os métodos contraceptivos e estar sob controle do reforçamento imediato - o prazer das relações sexuais.

De acordo com os resultados obtidos através dos instrumentos utilizados, alguns itens se destacaram.

Na Categoria 1, variáveis relacionadas ao conceito de gravidez na adolescência, obteve-se exatamente o que os sujeitos do estudo pensavam sobre a gravidez durante essa etapa da vida e algumas variáveis envolvidas para a ocorrência da própria gravidez. Foi interessante notar a contradição existente entre a experiência de engravidar e o conceito de gravidez na adolescência. Quanto à própria gravidez, essa foi vista como positiva enquanto o conceito sobre a gravidez na adolescência foi analisado como negativo.

Nesta categoria, os itens que mais se destacaram foram: estar apaixonada pelo parceiro sem pensar na possibilidade de engravidar, não se prevenir em relação à gravidez e não planejar a gravidez. Pelo fato de estarem apaixonados, a maioria dos sujeitos do estudo relatou não avaliar a possibilidade da ocorrência da gravidez. A falta de prevenção apareceu com alta freqüência de respostas a dois itens que foram: "Por que você engravidou" e "A que você atribui o fato de ter engravidado" revelando-se como uma importante variável para a ocorrência da gravidez.

Este resultado possibilitou concluir o quanto os sujeitos do estudo estavam despreparados ou até mesmo desorientados quanto às responsabilidades que envolvem a manutenção de uma vida sexualmente ativa, mostrando que, apesar de todas as alterações fisiológicas que ocorrem durante a adolescência, essa população parece não possuir maturidade suficiente para assumir uma vida sexual ativa. Destaca-se aqui a importância da educação sexual esclarecedora e sem preconceitos tanto por parte da escola como da família. O não planejamento da gravidez refletiu a mesma imaturidade acerca do comportamento sexual.

A questão do abuso sexual aparece com alta freqüência de respostas negativas. Portanto, entre a amostra estudada o abuso sexual não ocasionou nenhuma gravidez, assim como não houve ocorrência de gravidez como forma de antecipar o casamento dos sujeitos. Somente um entre todos os sujeitos da pesquisa fez da gravidez um motivo para se casar.

Na categoria 2, no que diz respeito às variáveis relacionadas à família destacou-se a repetição de padrões de comportamentos dos sujeitos com relação aos de suas mães. Estas, também, em sua maioria engravidaram durante a adolescência. Além delas, parentes próximos engravidaram recentemente, fazendo com que o parceiro e até a própria adolescente sentisse vontade de ser mãe. O fato de ter um filho mostrou-se reforçador, e este fato pode estar apontando para uma escassez de fontes de reforçamento nesta população, ou de necessidades de elos afetivos mais próximos.

A privação de informações pela falta de comunicação com os pais e/ou a ausência do pai podem ser as operações estabelecedoras do comportamento sexual da maioria dos sujeitos do estudo. O conceito de operação estabelecedora foi desenvolvido por Michael (1982) para compreender o que leva um organismo a se comportar considerando aspectos do seu ambiente externo.

Os itens "Ela ou alguém da sua família pediu para você engravidar" e "Você quis agredir sua família através da gravidez" destacou-se pela unanimidade de respostas negativas, mostrando que foram variáveis que não controlaram nenhum sujeito do estudo para engravidar.

Na categoria 3, as variáveis relacionadas ao parceiro mostraram que a principal contribuição do parceiro para a gravidez foi o seu desejo em relação à mesma, pedindo em alguns casos que o sujeito engravidasse, revelando a importância desse relacionamento para a maioria dos sujeitos do estudo que acataram a vontade de seus parceiros. Estes resultados podem estar indicando uma irresponsabilidade quanto ao futuro, pouca capacidade de análise de situação a longo prazo, e uma resposta controlada por um reforço imediato (o prazer de ter um filho), com pouca análise das conseqüências futuras. Isto indica o baixo autocontrole que esta população desenvolve.

A literatura mostrou-se praticamente inexistente quanto ao relacionamento afetivo entre adolescentes e quanto ao envolvimento do parceiro na gravidez durante a adolescência, remetendo-se a necessidade de pesquisas a esse respeito.

De acordo com os resultados obtidos na categoria 4, ou seja, em relação às variáveis relacionadas ao ambiente sociocultural pode-se concluir que a escola para a maioria dos sujeitos foi negligente quanto à educação sexual, mostrando o quanto esta se faz urgente, devendo ser iniciada o quanto antes, orientando e esclarecendo os jovens em relação ao comportamento sexual. É importante que esta educação sexual seja feita de maneira clara e sem preconceitos os conscientizando das responsabilidades. É necessário esclarecer que apesar do sexo ser um reforço primário, e portanto ter forte potencial controlador do comportamento a curto prazo, em longo prazo pode acarretar conseqüências desastrosas.

Alguns itens se destacaram pela alta freqüência de respostas negativas nesta categoria, nenhum sujeito alegou ter engravidado porque a amiga havia engravidado recentemente, somente um sujeito disse que trabalhava e nenhum possuía independência econômica.

A necessidade de pesquisas sobre o aspecto cultural e o comportamento sexual do adolescente é grande, já que não foram encontradas na literatura revista, pois de acordo com Skinner (1998), a cultura é o próprio ambiente social que exerce controle sobre o comportamento de quem a pratica.

Na categoria 5, variáveis relacionadas à mídia, ficou clara a influência dos meios de comunicação no comportamento sexual dos jovens em geral. No entanto, para os sujeitos do presente estudo esta não foi a principal variável que favoreceu a gravidez, pois a maioria argumentou não ter recebido esta influência no próprio comportamento sexual, embora concordaram com o fato de influenciarem negativamente os jovens. Quanto à questão da produção independente, os sujeitos dividiram-se homogeneamente quanto à influência que pode exercer no comportamento dos jovens em relação a sua divulgação pela mídia, também não se tratando de um aspecto importante que possa ter contribuído para a gravidez dos sujeitos deste estudo.

Pesquisas que abordem a mídia e o comportamento sexual dos adolescentes são necessárias, pois a literatura mostrou-se escassa sobre o assunto.

Na categoria 6, variáveis relacionadas a comportamentos de risco, o comportamento de risco mais emitido pelos sujeitos do estudo que favoreceu a ocorrência da gravidez foi o fato de manterem relação sexual sem a utilização de métodos contraceptivos ou utilizá-los esporadicamente e incorretamente. Muitos sujeitos do estudo alegaram não saber o que eram métodos contraceptivos, o que mostra mais uma vez a necessidade de esclarecer os jovens quanto aos aspectos envolvidos na sexualidade. Além disso, o que pareceu controlar o comportamento dos sujeitos, foi à manutenção da relação sexual para a obtenção do reforçamento positivo imediato - o prazer proporcionado, mostrando que a preocupação em satisfazer-se era maior que qualquer outra.

Poucos sujeitos alegaram já ter experimentado drogas como maconha, cocaína e crack. Destes, somente uma disse ainda continuar usando, embora o faça raramente. No entanto, todos os sujeitos do estudo afirmaram que nunca usavam drogas para manter relação sexual. Com estes resultados, concluiu-se que usar drogas não foi um comportamento de risco que pudesse ter favorecido a gravidez dos sujeitos neste estudo específico.

Este estudo não permitiu concluir qual a variável com maior impacto para a gravidez dos sujeitos ocorrer na adolescência, apenas possibilitaram conhecer àquelas que de acordo com os instrumentos, se destacaram, pode-se apenas descrever as variáveis envolvidas para a gravidez na adolescência da amostra estudada.

É importante considerar que os motivos que contribuíram para os sujeitos do estudo engravidarem, variaram entre eles, ou seja, o motivo que levou um sujeito a engravidar necessariamente não foi o mesmo para um outro sujeito. Os resultados que se destacaram em cada categoria foram àqueles que mais apareceram para o maior número de sujeitos.

Ao analisar e discutir as categorias, pode-se dizer que o nível de concordância entre os juízes foi satisfatório, pois facilitou o prosseguimento do estudo.

Os instrumentos utilizados limitaram o estudo, pois muitas lacunas foram deixadas pelos sujeitos, dispersando alguns dados, e pelo fato da restrição a outros motivos que levaram os sujeitos a engravidar, devido à escolha da Autora em estruturá-los de acordo com um grupo de variáveis. Uma outra limitação para o estudo foi o escasso repertório verbal dos sujeitos.

O que este estudo deixou muito claro foi à falta de orientação e educação sexual dos sujeitos envolvidos, mostrando o quanto se fazem necessárias. O psicólogo enquanto profissional habilitado acerca do comportamento humano pode desenvolver junto à comunidade programas de prevenção à gravidez na adolescência, já que os índices deste problema aumentam a cada ano, contribuindo para a marginalização dessa população; o professor enquanto educador muito pode oferecer, no entanto para isso necessita do apoio e investimento dos governantes, e a família, também, é muito importante neste processo, pois de acordo com a literatura, um ambiente familiar coercitivo aumenta a probabilidade de problemas como este ocorrerem (Sidman, 1995).

Enfim, este estudo permitiu concluir que há muito a ser feito para os adolescentes no que diz respeito ao suporte familiar, educacional, cultural e comportamental, remetendo-se à necessidade de pesquisas nacionais acerca da gravidez durante a adolescência, fato que deveria mobilizar toda a sociedade.





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