Psicodiagnóstico de Psicose Infantil

Angela Cristini Gebara e Glaucio Menoni Honorato
| Colaboradores |


Alguns aspectos que podem ser identificados no psicodiagnóstico de Psicose Infantil

Angela Cristini Gebara e Glaucio Menoni Honorato

I. Resumo
O presente artigo tem como principal objetivo apresentar alguns aspectos de funcionamento psicótico infantil que podem ser identificados no psicodiagnóstico, abordando questões relativas à psicose desde sua definição até alguns resultados obtidos na realização de um psicodiagnóstico de psicose infantil. A leitura desses aspectos será realizada dentro da abordagem analítica, trazendo as contribuições de Freud, Bion, Ballone, Laplanche e Pontalis, Bezzerra et al, Ajuriaguerra e Marcelli, Grassano e Efron et al.

Iniciaremos com a descrição de definições e características clínicas da psicose e discutindo a relação existente entre o desenvolvimento psíquico saudável e o relacionamento mãe-bebê, já que, distúrbios neste relacionamento podem implicar em patologias, como, por exemplo, o Autismo e a Esquizofrenia. Posteriormente, apresentaremos aspectos psicóticos observados por meio da Hora de Jogo Diagnóstico e dos Testes Projetivos, que, neste caso, são o Desenho da Casa, Árvore e Pessoa (HTP) e o Teste de Apercepção Infantil (CAT), que são alguns dos recursos que podem ser utilizados na realização do psicodiagnóstico infantil.

E faremos uma relação entre os aspectos teóricos levantados e um caso clínico atendido na disciplina de Atendimento Psicológico Infantil em Instituição (A. P. I. I.) do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba, apresentando parte do material clínico colhido no psicodiagnóstico infantil realizado pelos Estagiários de Psicologia do Grupo 4 sob supervisão da Psicóloga e Professora Angela Cristini Gebara.


II. Psicose – Definições Clínicas e Características
Segundo o Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1988): No decurso do século XIX o termo psicose espalha-se sobretudo na literatura psiquiátrica de língua alemã para designar as doenças mentais em geral, a loucura, a alienação, sem implicar aliás uma teoria psicogenética da loucura. (p. 502)

Para Freud (1924), as psicoses são distúrbios resultantes de conflitos entre Ego e realidade (mundo externo), refletem o fracasso no funcionamento do Ego em permanecer leal à sua dependência do mundo externo e tentar silenciar o Id frente a uma frustração da não realização de um daqueles desejos de infância “invencíveis” e profundamente enraizados na organização filogeneticamente (Refere-se à Filogênese: sucessão genética das espécies orgânicas (Do gr. philos, amigo + gênesis, formação.). Fonte: Grande Enciclopédia Larousse Cultural, nº 10, Editora Nova Cultural) determinada. O Ego, assim, é derrotado pelo Id e, portanto, arrancado da realidade.

Ainda segundo Freud (1924[1923]), numa psicose existe a predominância do Id e a perda presente da realidade. O afastamento do Ego da realidade é a primeira etapa de uma psicose e a segunda é a tentativa de reparação do dano causado e de restabelecer as relações com a realidade sem restrições ao Id, remodelando a realidade, pela indisposição do Id em adaptar-se às exigências, para criar um novo e imaginário mundo externo e o colocar no lugar da mesma – realidade externa. Por exemplo, cita a esquizofrenia, conhecida, segundo ele, como as formas de psicose que se inclinam a uma perda total de participação do mundo externo através, também, do delírio, que, para ele, é aplicado como remendo para uma “fenda” que apareceu na relação entre o Ego e o mundo externo, portanto, tal manifestação do processo patogênico está recoberta por uma tentativa de cura ou reconstrução.

Bion (1957) fez duas modificações na descrição de Freud (1924[1923]). A primeira é que, ao invés do afastamento do Ego, a realidade é mascarada através do predomínio de uma fantasia onipotente na mente e nas ações do paciente, a qual visa destruir a realidade e a consciência de realidade para, assim, alcançar um estado que não é vida e nem morte. A segunda é que, ao invés de fato, o afastamento da realidade é uma ilusão resultante do emprego da identificação projetiva contra o aparelho mental, essa ilusão é tão dominadora que para o paciente seu aparelho de percepção pode realmente ser fragmentado em pequenos pedaços e projetado no interior dos objetos.

Para Bion (1957), um aspecto simultâneo ao ódio à realidade assinalado por Freud são as fantasias de ataques sádicos feitos pelo bebê psicótico ao seio, descritas por Melanie Klein como integrantes da fase esquizo-paranóide, na qual o psicótico despedaça os objetos e fragmenta em pedaços mínimos todo o setor de sua personalidade que leva a tomar conhecimento da realidade por ele odiada, o que faz com que tenha a sensação de não poder restaurar seus objetos e seu próprio Ego, comprometendo todas as características de personalidade que proporcionariam a base para a compreensão intuitiva de si mesmo e dos demais. O paciente psicótico não se move dentro de um mundo de sonhos, mas sim num mundo de objetos que são de costume conteúdo dos sonhos.

Em seu artigo na Cérebro e Mente, Ballone (2000) descreve a psicose como uma doença mental caracterizada pela distorção do senso de realidade, uma inadequação e rebaixamento de harmonia entre pensamento, sentimento e afetividade que compromete todo o comportamento e performance existencial do indivíduo, pois tais atributos psíquicos – pensamento, sentimento e afetividade – encontram-se qualitativamente alterados. Nas psicoses o vínculo com a realidade é mais tênue e frágil e os aspectos da realidade são negados totalmente e substituídos pela formação de idéias particulares e peculiares que atendem unicamente às características da doença. Ao paciente é imposto pelo processo psicótico uma maneira patológica de representar a realidade, elaborar conceitos e relacionar-se com o mundo objetal, o que é algo novo e qualitativamente diferente das variações permitidas entre as pessoas “normais”, ou seja, subjetivo, é algo essencialmente patológico, mórbido e sofrível.

Segundo o autor, tem importância na formação e estruturação de uma psicose fatores como: constituição, temperamento, caráter, peculiaridades de ordem tipológica, experiências anteriores vividas e ambiente familiar e/ou social. E é unânime na clínica psiquiátrica a aceitação da associação de determinadas configurações de personalidade predispostas, que são chamadas de Personalidades Pré-morbidas, que, pela psicopatologia, são variações do existir humano e traduzem possibilidades mais acentuadas para o desenvolvimento de certa vulnerabilidade psíquica.


III. Psicose Infantil – Histórico, Definições e Características
Segundo os estudos realizados por Bezerra, Chalegre, Guimarães e Camilo (s/d), as psicoses infantis foram ignoradas e negadas em sua existência durante séculos. Tiveram seus estudos impedidos por causa de superstições relacionadas a possessões diabólicas e bruxaria. Algumas crianças psicóticas foram encarceradas em jaulas destinadas a enfermos mentais e, na maioria dos casos, foram segregadas para fora das cidades, às vezes, sendo abandonadas por completo e à sua própria sorte. Foi tardiamente que os distúrbios mentais em crianças começaram a ser objeto de investigação empírica, por exemplo, o trabalho psicanalítico com crianças somente começou a partir da década de 10, principalmente, no final desta, com os trabalhos de Melanie Klein e de Ana Freud. Antes da Segunda Guerra Mundial, alguns autores observavam os transtornos psiquiátricos infantis pretendendo encontrar nas crianças os mesmos sintomas encontrados nos adultos, até que, em 1943, Kanner introduziu o conceito de autismo, rompendo com a tradição da psiquiatria infantil, pois para ele não é suficiente pesquisar na criança o que se encontra no adulto ou estudar esquizofrenia infantil, é necessário partir-se de um trabalho que possa ser qualificado como experimental e, com isto, expor os traços comuns entre essas crianças.

Segundo as mesmas autoras, em 1960, psiquiatras britânicos conceituaram a psicose infantil através de critérios diagnósticos como: relacionamento prejudicado com as pessoas, confusão de identidade pessoal e inconsciência do eu, preocupação anormal com objetos, resistência a mudanças no ambiente, rebaixada ou elevada sensibilidade aos estímulos sensoriais, reação de ansiedade excessiva ou de ajuda em resposta a menor mudança, perturbação da linguagem e da fala, hiperatividade ou hipoatividade e desempenho não correspondente nos testes de inteligência entre a área de funcionamento normal a superior intercaladas e as áreas de atraso no desenvolvimento intelectual.

Para Ajuriaguerra e Marcelli (1986) a psicose infantil é um transtorno de personalidade dependente do transtorno da organização do eu e da relação da criança com o meio ambiente. As características do psicótico infantil listadas são: dificuldade para se afastar da mãe; problemas para compreender o que vê; alterações significativas na forma ou conteúdo do discurso, repetindo de imediato palavras e/ou frases ouvidas (fala ecolálica), ou empregando-se de forma idiossincrática estereotipias verbais ou frases ouvidas anteriormente, sendo comum a inversão pronominal, referindo-se a ela mesma usando a terceira pessoa do singular ou o seu nome próprio; alterações significantes na produção da fala com relação ao volume, ritmo e modulação; habilidades especiais; conduta socialmente embaraçosa; e negação da transformação da alimentação líquida para sólida ou bulimia não diferenciada incorporando qualquer objeto pela boca.

Colaborando com os aspectos teóricos apresentados, citaremos, para ilustrar, algumas informações colhidas nas entrevistas com os pais para realização do psicodiagnóstico infantil de R. (5 anos). Segundo os pais, até aquele momento, R. apresentava: conduta agressiva e inadequada tanto no contexto social como familiar, agredindo seriamente outras crianças (por exemplo, quebrou o dente do irmão com um soco, quebrou o braço de uma prima mais nova e rasgou com uma mordida a orelha de um vizinho de idade semelhante depois que foi confrontado enquanto brincavam) e urinando e manuseando fezes pela casa; falta de sensibilidade à dor, nunca reclamando de machucados graves ou injeções, ao paladar, chegando a consumir escondido um remédio de gosto muito forte e comer os produtos de maquiagem da mãe, ao olfato, percebendo e sentindo atração por odores fortes de combustíveis e esmalte, o que faz com que os pais pensem que ele é capaz de consumi-los; fala de um bebê às vezes, o que foi evidenciado nas sessões, sendo difícil de compreendê-lo; exigência dos cuidados da mãe, não admitindo que ela deixasse a casa para trabalhar; conduta inadequada em locais públicos, por exemplo, gritar dentro do ônibus para chamar a atenção; ingestão de pequenos e estranhos objetos, sendo necessária intervenção médica, o que gerou uma lista desses objetos no hospital.

Na concepção de Winnicott**, citado no trabalho de Bezerra et al (s/d), o desenvolvimento afetivo-emocional da criança constitui-se da subjetividade do sujeito a partir de uma relação saudável entre mãe e bebê, o qual apresenta uma relação visceral com a mãe em seu primeiro ano de vida, considerando-a, junto com o ambiente, uma extensão do seu próprio corpo, pois neste período não há ainda a divisão do “não-eu” e do “eu” do bebê. Portanto, para a formação saudável da psique do bebê é necessário que ambos, mãe e ambiente, sejam suficientemente bons, caso isto não ocorra ou não sejam corrigidas as falhas de não suprimir as necessidades do bebê estabelece-se na relação mãe-bebê uma espécie de carência/deficiência, que acarreta para o bebê uma grande ansiedade e, por isto, um comprometimento na constituição da sua subjetividade. Assim, a ocorrência de distorções no relacionamento mãe-bebê seria a origem dos quadros de psicose.

Em sua obra Grassano (1977/1984) cita que, Melanie Klein indicou como origens do desenvolvimento psicótico a interação de um modo exagerado de inveja constitucional e, simultaneamente, a presença de uma mãe ou substituta incapaz de empatia com as necessidades bio-psíquicas da criança. E que, Bion retomou as formulações de Melanie Klein, privilegiando a interação entre bebê com alta quantia de constitucional inveja e mãe incapaz de metabolizar as intensas situações de pânico, nos quais ela não consegue conter o medo de morte do bebê, privando-se do desejo de vida e devolvendo-o ao bebê como um terror de mesma intensidade e carente de sentido (terror sem nome). Conseqüentemente no bebê, uma intensa dor psíquica e a incapacidade de tolerar a frustração provocam um ataque à parte do aparato psíquico que contém a percepção de necessidade e dor, ou seja, além do terror sentido, são atacadas as funções psíquicas que possam estabelecer contato com a realidade externa e interna numa tentativa de evitar a dor, porém, à custa da destruição do aparato psíquico.

Então, para Grassano (1977/1984), o conflito central da psicose é a necessidade de construir um aparato mental como único meio de sair do fechamento persecutório do terror criado, ao mesmo tempo em que, qualquer função psíquica necessária a essa construção é temida, pois podem despertar consciência de dor e enfermidade, e necessita submeter-se a novos e ativos ataques hostis, invejosos e despojantes. Assim, faltam precondições mínimas para estabelecer contato com a realidade e desenvolver vínculos e qualquer função de síntese e integração.


IV. Na Hora de Jogo Diagnóstico
Segundo Efron, Frainberg, Kleiner, Sigal e Woscoboinik (1979), a Hora de Jogo Diagnóstico é um recurso técnico utilizado no processo psicodiagnóstico com o objetivo de conhecer a realidade da criança a ser consultada e que implica no vínculo transferencial breve para conhecer e compreender a criança. As possibilidades de comunicação são mediadas utilizando-se a atividade lúdica, por meio de um brinquedo a criança pode expressar aquilo que vivencia no momento.

Nessa técnica existem alguns indicadores importantes para fins diagnósticos e prognósticos, como: Escolha de Brinquedos e Brincadeiras, conforme a idade da criança; Modalidade de Brincadeira, pela qual pode-se detectar plasticidade, rigidez e/ou estereotipia e perseverança; Personificação, que demonstra o equilíbrio entre Superego, Id e Realidade; Motricidade, que demonstra o desenvolvimento neurológico e de fatores psicológicos e ambientais; Criatividade, que exige um Ego plástico, tolerante e aberto para experiências novas; Tolerância à Frustração, que está relacionada ao princípio de prazer e de realidade; Capacidade simbólica, que demonstra capacidade intelectual e qualidade do conflito; e Adequação à Realidade, que permite a avaliação das possibilidades egóicas.

Ainda segundo Efron et al (1979), o brincar com dificuldade da criança psicótica, que vai desde a inibição total ou parcial até a desorganização da conduta, é indicativo de perturbações sérias, já que isso exige a possibilidade de simbolizar e no psicótico o significante é a mesma coisa que o significado (equação simbólica), assim a possibilidade de expressão de conflitos depende da quantidade, qualidade e inter-relação das partes mais preservadas da personalidade ou que conseguiram uma organização não psicótica. Assim, uma estrutura psicótica de personalidade na criança é evidenciada por: carência de adequação à realidade, em conseqüência do predomínio do processo primário, que ocasiona a distorção na percepção do mundo externo e, no psicodiagnóstico, na relação ou no vínculo com o Psicólogo; predomínio de equações simbólicas, nas quais as fantasias atuam diretamente, com personagens extremamente cruéis, terroríficos e onipotentes, o que corresponde a um Superego primitivo de características terroríficas e sádicas, que para Melanie Klein, citada pelos autores, é um dos fatores básicos do transtorno psicótico; perseverança ou estereotipia na conduta verbal e pré-verbal, produzindo brincadeiras estereotipadas e rígidas; escolha de brinquedos e brincadeiras intencionalmente; movimentos e atitudes bizarras e bruscas; produção sem criatividade; tolerância mínima à frustração, em conseqüência do predomínio do princípio de prazer; e dificuldades de aprendizagem.

Colaborando com os autores, traremos um exemplo do brincar psicótico observado no atendimento em A. P. I. I. do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba. R. na Hora de Jogo Diagnóstica: não apresentava espontaneidade na inter-relação com outras crianças e/ou Supervisora e Estagiários, sendo agressivo em algumas atitudes, como jogar os brinquedos quando ajudava a guardá-los, ou nos ataques anais-explusivos com tinta e massa de modelar; seus desenhos eram, segundo o mesmo, partes de animais (pernas, cabeça etc.), objetos fragmentados ou animais que reagiam com ataques anais ou orais; sua produção era sem criatividade ou confusa, ou seja, apresentava dificuldade na simbolização; e reagia agressivamente quando se frustrava, uma conduta com conteúdos perversos, quebrando materiais e sujando a sala de atendimento ou fazendo ameaças com gestos/atitudes agressivas quando confrontado.


V. Nos Testes Projetivos – HTP e CAT
Para Grassano (1977/1984), a partir da perspectiva da Teoria das Relações Objetais, os diferentes testes projetivos oferecem estímulos com estruturação ambígua ou formas muito definidas e pouco usuais, sendo possível, através das condutas verbais, gráficas ou lúdicas do examinando, a observação da capacidade do mesmo para dar forma, organização e sentido emocional ao aspecto da realidade que o estímulo projetivo representa. Pranchas ou instruções atuam na situação projetiva como mediadores das relações vinculares pessoais, que mobilizam e reeditam vários aspectos da vida emocional, sendo toda produção projetiva, assim, produto de uma síntese pessoal.

Segundo a mesma autora, as produções que correspondem ao funcionamento psicótico são, pelo fracasso em obter algum grau de sentido e integração, de características como quebrado, desintegrado, desarticulado e desvinculado. A prancha ou a folha em branco aciona a Identificação Projetiva de aspectos minúsculos e fragmentos do corpo e do aparato mental do entrevistado, ocasionando produções confusas e fragmentadas, com predomínio do processo primário ao invés do processo secundário pelo qual os mecanismos de ordenação e integração atuam. Assim, na visão do entrevistado a prancha do CAT é povoada de partes minúsculas e desagregadas (olhos, dedos, pernas, partes de animais etc.), que são resultado da projeção de partes de sua personalidade. E a folha em branco no HTP é usada para evacuações minúsculas, que são base de fragmentação e dispersão dos elementos, com objetos desorganizados e de características pouco próximas da realidade, os desenhos são estranhos, parciais e confusos (partes do corpo, objetos e/ou partes de animais) sem relações lógico-formais entre si, o que indica a necessidade de evacuar fragmentos persecutórios e a intensidade dos mecanismos de splitting (divisão), que levam a confusão e desintegração, e identificação projetiva evacuativa, estes dois últimos – mecanismos de splitting e identificação projetiva – desorganizam o Ego e o objeto e provocam as vivências de esvaziamento e a despersonalização. Os ajustes perceptuais ou as possibilidades de reparação são bloqueados em conseqüência de prejuízo das funções de percepção, discriminação, juízo e teste de realidade, provocando elevada distorção na interpretação dos objetos projetivos e da situação de teste com claras situações delirantes, que nem sempre são de forma manifesta. O fracasso de qualquer tentativa de vinculação, ou seja, falta de capacidade de fazer desde sínteses mais evoluídas até estabelecer sentidos mínimos mais primitivos, ocasiona, freqüentemente, alucinações durante a aplicação do teste.

Grassano (1977/1984) cita algumas possíveis características nos desenhos dos Testes Gráficos, que, segundo a mesma, oferecem maior evidência de gravidade e são os primeiros a detectarem desordens psicóticas, pois estão menos sujeitos à possibilidade e controle racional do entrevistado. Esses se apresentam: quanto à organização gestáltica, desorganizados, quebrados, sujos, com falhas na organização da forma e sem coerência e movimento harmônico; com alterações lógicas de situação espacial, volume etc; ocupados por objetos diversos sem conexão entre si ou vazios de conteúdo; não havendo adequada delimitação entre mundo interno e mundo externo, com limites vagos e/ou débeis, zonas abertas e expressão de indiscriminação ou, ao contrário, com excessiva rigidez e intensidade quando predominam mecanismos de controle obsessivo da desorganização; figura humana com aspecto desumanizado, vazio, inexpressivo, despersonalizado ou sinistro, persecutório com alterações na relação de partes entre si e de limite, tamanho exagerado e projeção de traços estranhos; casa e árvore com alterações de mesmo grau no aspecto e organização (quebrado, destruído, caído, sujo etc.) e com falhas na inter-relação de partes, o que resulta na casa-teto ou casa-fachada e árvores caídas, mortas ou com animais destrutivos.

Um fato clínico significativo foi observado no caso de R. atendido em A. P. I. I., os desenhos do HTP eram carentes de detalhes essenciais e regredidos para sua idade cronológica, as figuras eram vazias, mutiladas/fragmentadas e com conteúdos mórbidos (doenças, tiros e agressividade), confirmando que efetivamente R. possui um funcionamento emocional psicótico como situação problema no psicodiagnóstico.

Grassano (1977/1984) cita algumas características de psicose infantil, no caso, a esquizofrenia infantil, que podem aparecer no CAT: percepções distorcidas, com adições maciças ou substituições, ambas indiscriminadas; negações perceptuais exageradas; associações fracas; histórias confusas, vagas, afastadas das histórias elaboradas comumente, apresentando, junto com as descrições das pranchas, desajustes em relação ao estímulo por serem projeções totais da criança; fabulações e contaminações com elementos da mesma ou de outra prancha; conteúdos inusitados criados em pranchas anteriores podem perseverar, evidenciando a necessidade de evitar mudanças; predomínio de personagens com elevado grau de perseguição e maldade (bichos, fantasmas, animais ferozes, devoradores, sanguinários) junto com outros excessivamente idealizados, mas impotentes, que são perseguidos, atacados, devorados ou mortos; podem aparecer os impulsos sexuais ou agressivos diretamente na verbalização, voltando-se para temas sádicos-orais (devorar ou ser devorado) ou anais-expulsivos (sujo, desordenado, mal cheiroso); expressão da agressão de maneira punitiva e brutal (sangue, vísceras, interior do corpo destruído) com os personagens se devorando e/ou se matando; personagem infantil confuso, perseguido e carente de condutas coerentes para proteger-se ou satisfazer suas necessidades, geralmente indo mal e terminando destruído ou permanece sendo perseguido; tentativa de controlar a preocupação através de defesas do tipo obsessivo com situações extremamente ritualistas, como contar os objetos da prancha e/ou descrever parte por parte de cada elemento que compõem o estímulo.

Retomando o caso de R., atendido para psicodiagnóstico, nas histórias do CAT estavam presentes: distorções de percepção; omissões, em conseqüência da pouca produção, que é indicativo de rebaixada capacidade de fantasiar e criar; mecanismos de dissociação e repressão; a linguagem utilizada, apesar de exata, é carente de riqueza; conteúdos criados que perseveraram de uma prancha para outra; personagens que perseguem e atacam outros, por exemplo, na prancha 3: “… o leão vai ver o rato e correr atrás, o leão vai comer o rato, come o rato e senta…” e na prancha 7: “… esse leão vai comer o macaco…”, o que, também, implica a expressão de impulsos sexuais ou agressivos, em conseqüência dos ataques sádicos-orais.

Segundo Grassano (1977/1984) ainda, nos quadros pré-psicóticos a produção verbal é altamente pobre, predominando mecanismos de dissociação e isolamento afetivo, controle da fantasia, descarga emocional e algumas condutas inadequadas na manipulação das pranchas, como dar voltas com elas, tocá-las, raspá-las etc. E quando existe iminência de crises psicóticas (surtos) as figuras humanas apresentam-se aterrorizadas como manifestação de pânico frente à percepção dessas crises.


VI. Conclusão
Apesar da ausência de alucinações e/ou delírios, auditivos e/ou visuais, foi percebido no caso apresentado (R. – 5 anos) que a criança possui um funcionamento emocional psicótico, pois, em função da presença da fragmentação do Self, no material clínico de psicodiagnóstico estão presentes utilização maciça/obcecada do mecanismo de defesa Identificação Projetiva e figuras percebidas como terroríficas e seguidas de ansiedade persecutória nos Testes Projetivos (HTP e CAT), dificuldade na simbolização, produção fragmentada e rebaixada tolerância à frustração na Hora de Jogo Diagnóstico, percepções da realidade interna e externa distorcidas e seguidas de ataques violentos contra objetos internos e externos, como, por exemplo, relataram os pais sobre as agressões que investiu contra o irmão, prima e vizinho, sobre a ingestão de objetos pequenos e estranhos e sobre a pouca percepção a dor. Colaborando com a descrição do funcionamento de Freud (1924[1923]), Bion (1957), Ballone (2000), Bezzerra et al (s/d), Ajuriaguerra e Marcelli (1986), Grassano (1977/1984) e Efron et al (1979), um dado significativo é que a criança do caso apresentado estabelecia um contato externo perverso, apesar de possuir um funcionamento emocional psicótico, no qual a figura de autoridade continha parcialmente seus ataques.

Com a elaboração do presente artigo foi possível verificar a importância da utilização de técnicas, como a Hora e Jogo Diagnóstico, e de Testes Projetivos, como o Desenho da Casa, Árvore e Pessoa (HTP) e o Teste de Apercepção Infantil (CAT), pelo profissional de Psicologia na elaboração do psicodiagnóstico infantil, seja de psicose ou não, pois, em princípio, a ausência de tais aspectos apresentados indica outra forma ou ausência de transtorno na criança, sendo, por isso, necessário o estudo de aspectos que podem ser identificados em outros transtornos ou em quadros sem transtornos. Inclusive, a técnica e os testes apresentados neste artigo não são os únicos recursos que o profissional dispõe.

Portanto, como neste artigo foram apresentados alguns aspectos que podem ser identificados no psicodiagnóstico de psicose infantil através da Hora de Jogo Diagnóstico, HTP e CAT, fica a cargo dos próximos estudos apresentarem ainda mais outros possíveis aspectos psicóticos ou não psicóticos através dos mesmos recursos ou de outros que podem ser úteis para elaboração do psicodiagnóstico infantil.


Angela Cristini Gebara - Professora e Supervisora do Centro e Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba; Mestre em Psicologia da Saúde UNESP; Doutoranda em Psicologia Clínica da PUC-SP.
Glaucio Menoni Honorato - Graduando do 4º ano do Curso de Psicologia e Estagiário do Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista Campus de Sorocaba em 2002.

 

 

para referir:
Honorato GM, Gebara AC - Alguns aspectos que podem ser identificados no psicodiagnóstico de Psicose Infantil, in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2004.

 

 

Bibliografia:
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B.
(1982): Vocabulário da psicanálise. Editora Martins Fontes. 1992. p. 502.

FREUD, S. (1924): Neurose e psicose. In: Obras Completas Vol. XIX. FREUD, S. Editora Imago. 1976. p. 189-193.

FREUD, S. (1924[1923]): A perda da realidade na neurose e na psicose. In: Obras Completas Vol. XIX. FREUD, S. Editora Imago. 1976. p. 229-234.

BION, W. R. (1957): Diferenciação entre a personalidade psicótica e a não-psicótica. In: Estudos Psicanalíticos Revisados. BION, W. R. Editora Imago. 1988. p. 45-61.

BALLONE, G. J. (2000): Psicoses. In: Cérebro e Mente Revista nº 10, Jan-Março/2000. Publicação Núcleo de Informática Biomédica. Disponível na World Wide Web: .

BEZERRA, A. R. C.; CHALEGRE, C. T.; GUIMARÃES, D. S. L.; CAMILO, D. I. S. (s/d): Intervenção terapêutica-ocupacional na psicose infantil. Disponível na World Wide Web: .

AJURIAGUERRA, J.; MARCELLI, D. (1986): Manual de psicopatologia infantil. Editora Artes Médicas. 1991.

GRASSANO, E. (1977/1984): Indicadores psicopatológicos nas técnicas projetivas. Editora Casa do Psicólogo. 1996.

EFRON, A. M.; FRAINBERG, E.; KLEINER, Y.; SIGAL, A. M.; WOSCOBOINIK, P. (1979): A hora de jogo diagnóstico. In: O Processo Psicodiagnóstico e as Técnicas Projetivas. OCAMPO, M. L. Editora Martins Fontes. 1987. p. 169-190.




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O Jornal da AME, Edição Nº 14 Mar/Abr-99 em artigo da psiquiatra Cecília das Neves Assumpção intitulado “Psicose Infantil: o que é e como tratar” diz o seguinte:

A psiquiatra Cecília das Neves Assumpção é parceira da AME há alguns anos. Para ela são encaminhados os casos para avaliação psiquiátrica, visando estabelecer diagnóstico
e prestar acompanhamento médico, quando necessário. A médica, que é especializada em psicose infantil, afirma que uma criança com psicose é portadora de um transtorno psíquico manifestado de formas diferenciadas, variando desde alteração no comportamento
até insônia e dificuldades na fala e de comunicação.

" ... parece haver um consenso entre os que atuam com crianças psicóticas: o meio ambiente e a relação com a família são decisivos na instalação ou agravamento do transtorno
psíquico.

Outro dado importante a ser ressaltado é que há maior incidência em crianças do sexo masculino do que nas do sexo feminino. Em cada dois meninos, uma menina é acometida de psicose, ou, em cada três, uma. "As estatísticas são variáveis: na França e
EUA, muitos casos de psicose estão mascarados como deficiência,
devido à dificuldade de diagnóstico
", afirma a médica.

A família e a reabilitação
A participação da família é fundamental para a recuperação e integração social da criança com psicose. "Ao longo da infância, os pais também têm que receber atendimento.
É prioritário porque as terapias realizadas trazem mudanças na vida da criança. Ela começa a melhorar com muito mais intensidade. Quando a família recebe tratamento paralelo, a recuperação ou integração da criança é mais rápida
", esclarece, acrescentando que a medicação também é importante na medida em que ameniza alguns sintomas que atrapalham a vida da criança, como insônia ou agitação.

Tratamento
"A criança precisa de amparo, monitoramento, proteção da família, porque observa-se que ela apresenta algumas características de autismo, fica isolada, não tem desenvoltura", ressalta a médica.

Cecília sugere que as crianças com psicose sejam inseridas o mais rápido possível num modelo "hospital-dia", que são instituições voltadas para atendimento em saúde mental. "O ideal seria se, nesses hospitais, a criança ficasse de um a dois anos e depois passasse para atividades, em meio período, em oficinas, nas quais houvesse identificação. Por exemplo, algumas crianças gostam muito das oficinas de culinária, brinquedos ou esportes. Se a criança pudesse ficar meio período nessas oficinas, haveria chance de uma recuperação mais rápida. Num outro momento, seria possível o desligamento do hospital-dia e a criança poderia passar a receber atendimento em postos de saúde ou consultório, além de freqüentar escolas normalmente", explica." veja tudo