Percepção e Realidade - Cognição

Algumas predisposições dominam inteiramente a consciência do percebedor.
| Psicopatologia |


Nossa percepção não identifica o mundo exterior como ele é na realidade, e sim como as transformações, efetuadas pelos nossos órgãos dos sentidos nos permitem reconhecê-lo. Assim é que transformamos fótons em imagens, vibrações em sons e ruídos e reações químicas em cheiros e gostos específicos. Na verdade, o universo é incolor, inodoro, insípido e silencioso, excluindo-se a possibilidade que temos de percebê-lo de outra forma.

Para a moderna neurociência, o real conceito de percepção começou a brotar, quando Weber e Fechner descobriram que o sistema sensorial extrai quatro atributos básicos de um estímulo: modalidade, intensidade, tempo e localização.

O ser humano se espalha pela Terra em muitas localidades geográficas, em diversas culturas e sociedades. Acompanhando essa diversidade existem também variações nos mundos percebidos pelas pessoas, há diferenças na maneira pela qual os mesmos objetos são percebidos em diferentes sistemas culturais.

Uma criança que vive em nossos centros urbanos, por exemplo, pode distinguir sem hesitação um grande número de diferentes marcas de carros ao presenciar o trânsito das ruas, enquanto uma criança que vive em regiões mais rurais e distantes desses grandes centros não veria senão maiores diferenças entre as marcas e modelos observando o movimento da mesma rua. Por outro lado, uma criança urbana ficaria maravilhada diante da facilidade com que seus colegas rurais reconhecem diferentes modelos de ninhos de aves e de sua capacidade para distinguir as menores variações nos tipos de árvores.

Sensopercepção
Hoje não mais se admite, como acontecia no passado, que o nosso universo perceptivo resulte do encontro entre um cérebro simples e as propriedades físicas de um estímulo. Na verdade, as percepções diferem, qualitativamente, das características físicas do estímulo, porque o cérebro extrai dele informações e as interpretam em função de experiências anteriores com as quais ela se associe. Nós experimentamos ondas eletromagnéticas, não como ondas, mas como cores e as identificamos pautados em experiências anteriores.

Experimentamos vibrações mas como sons, substâncias químicas dissolvidas em ar ou água como cheiros e gostos específicos. Cores, tons, cheiros e gostos são construções da mente, à partir de experiências sensoriais. Eles não existem, como tais, fora do nosso cérebro.

Assim, já se pode responder a uma das questões tradicionais dos filósofos: Há som, quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir ? Não, a queda da árvore gera vibrações e o som só ocorre se elas forem percebidas por um ser vivo capaz de identificar tais vibrações como estímulos sonoros.

A peculiaridade da resposta de cada órgão sensorial é devida à área neurológica onde terminam as vias aferentes provindas do receptor periférico. O sistema sensorial começa a operar quando um estímulo, via de regra, ambiental, é detectado por um neurônio sensitivo, o primeiro receptor sensorial. Este converte a expressão física do estímulo (luz, som, calor, pressão, paladar, cheiro ) em potenciais de ação, que o transformam em sinais elétricos. Daí ele é conduzido a uma área de processamento primário, onde se elaboram as características iniciais da informação: cor, forma, distância, tonalidade, etc, de acordo com a natureza do estímulo original.

Em seguida, a informação, já elaborada, é transmitida aos centros de processamento secundário do tálamo. Se a informação é originada por estímulos olfativos, ela vai ser processada no bulbo olfatório e depois segue para a parte média do lobo temporal. Nos centros talâmicos, à informação se incorpora à outras, de origem límbica ou cortical, relacionadas com experiências passadas similares.

Finalmente, já bastante modificada, esta informação é enviada ao seu centro cortical específico. A esse nível, a natureza e a importância do que foi detectado são determinados por um processo de identificação consciente a que denominamos percepção.

O que percebemos?
Na realidade, perguntas distintas podem ser feitas sobre essa questão: o que percebemos e o que sentimos. Para percebermos o mundo ao redor teremos de nos valer dos nossos sistemas sensoriais. Cada sistema é nomeado de acordo com o tipo da informação: visão, audição, tato, paladar, olfato e gravidade. Esta última ligada à sensação de equilíbrio. Portanto, vamos falar antes da Sensação e depois da Percepção.

Sensação
Em seu significado preciso, a sensação é um fenômeno psíquico elementar que resulta da ação de estímulos externos sobre os nossos órgãos dos sentidos. Entre o estado psicológico atual e o estímulo exterior há um fator causal e determinante ao qual designamos sensação, portanto, deve haver uma concordância entre as sensações e os estímulos que as produzem.

As sensações podem ser classificadas em três grupos principais: externas, internas e especiais. As sensações externas são aquelas que refletem as propriedades e aspectos de tudo, humanamente perceptível, que se encontra no mundo exterior. Para tal nos valemos dos órgãos dos sentidos; sensações visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis. A resposta específica (sensação) de cada órgão dos sentidos aos estímulos que agem sobre eles é conseqüência da adaptação desse órgão a esse tipo determinado de estímulo.

As sensações internas refletem os movimentos de partes isoladas do nosso corpo e o estado dos órgãos internos. Ao conjunto dessas sensações se denomina sensibilidade geral. Discretos receptores sensitivos, captam estímulos proprioceptivos, que indicam a posição do corpo e de suas partes, enquanto outros, que recebem estímulos denominados cinestésicos, são responsáveis pela monitorização dos movimentos, auxiliando-nos a realizar outras atividades cinéticas, segura e coordenadamente. Os receptores dessas sensações se acham localizados nos músculos, nos tendões e na superfície dos diferentes órgãos internos. Portanto, esse grupo engloba três tipos de sensações: motoras, de equilíbrio e orgânicas.

As sensações motoras nos orientam sobre os movimentos dos membros e do nosso corpo. As sensações de equilíbrio provêm da parte interna do ouvido e indicam a posição do corpo e da cabeça. As sensações orgânicas são, de fato, as proprioceptivas, e se originam nos órgãos internos: estômago, intestinos, pulmões etc. Seus receptores estão localizados na face interna desses órgãos. Outros sensores sutis são capazes de captar informações mais refinadas, tais como temperatura, excitação sexual e volume sanguíneo.

A sensação especial se manifesta sob a forma de sensibilidade para a fome, sede, fadiga, de mal-estar ou bem-estar. Essas sensações internas vagas e indiferenciadas que nos dão a sensibilidade de bem-estar, mal-estar, etc., têm o nome de cenestesia.

No processo do conhecimento e do auto-conhecimento objetivo as sensações ocupam o primeiro grau. São as sensações que nos relacionam com nosso próprio organismo, com o mundo exterior e com as coisas que nos rodeiam. O conhecimento do mundo exterior resulta das sensações dele captadas e quanto mais desenvolvidos forem os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso do animal, mais delicadas e mais variadas serão as suas sensações.

Unidade dos Sentidos
Para maior eficiência dos sentidos, os vários órgãos devem funcionar integradamente. A percepção do mundo objectual não depende exclusivamente do aparelho sensorial específico, através do qual os objetos são apreendidos, isto é, não depende exclusivamente do sentido da visão, ou da audição, o do tato, etc. Geralmente não é apenas um sentido que atua na percepção dos objetos, além disso, os sentidos funcionam juntos e se completam. O gosto de uma comida depende muito do funcionamento conjunto dos receptores do sabor e do aroma. É por isso que a comida parece insípida quando nosso nariz está entupido.

Uma determinada qualidade perceptual, como por exemplo a grandeza, pode ser a mesma para vários sentidos. Dessa forma, um objeto pode ser visto grande, soar grande, dar a impressão de grande ao tato e, talvez, até cheirar grande. Os estímulos devem ser localizados de maneira idêntica, através dos olhos, dos ouvidos e das mãos, objetos podem ser vistos, ouvidos e sentidos em movimento simultaneamente. A tendência de integração, cooperação e concordância dos vários sentidos é tanta que, as vezes, apesar das discrepâncias na situação física real, nosso sistema sensorial "dá um jeito" para que a situação se acomode. Quando vemos uma fita de cinema, por exemplo, ouvimos as vozes como vindo diretamente dos lábios em movimento dos autores, embora, na realidade, o som provenha dos alto-falantes colocados em lugares inteiramente diferentes. Basicamente, é através da ação cooperativa dos sentidos que conseguimos um quadro consistente, útil e realista do ambiente físico que nos cerca. As impressões dos vários sentidos são, de certa maneira, combinadas ou organizadas para apresentar um quadro mais ou menos estável da realidade à nossa volta.

Percepção
Ainda que dois seres humanos dividam a mesma arquitetura biológica e genética, talvez aquilo que um deles percebe como uma cor ou cheiro, não seja exatamente igual à cor e cheiro que o outro percebe. Nós damos o mesmo nome a esta percepção mas, com certeza, não sabemos se elas relacionam à realidade do mundo externo exatamente da mesma maneira que a realidade percebida por nosso semelhante. Talvez nunca saberemos.

O termo percepção designa o ato pelo qual tomamos conhecimento de um objeto do meio exterior. A maior parte de nossas percepções conscientes provém do meio externo, pois as sensações dos órgãos internos não são conscientes na maioria das vezes e desempenham papel limitado na elaboração do conhecimento do mundo. Trata-se, a percepção, da apreensão de uma situação objetiva baseada em sensações, acompanhada de representações e freqüentemente de juízos.

A percepção, ao contrário da sensação, não é uma fotografia dos objetos do mundo determinada exclusivamente pelas qualidades objetivas do estímulo. Na percepção, acrescentamos aos estímulos elementos da memória, do raciocínio, do juízo e do afeto, portanto, acoplamos às qualidades objetivas dos sentidos outros elementos subjetivos e próprios de cada indivíduo.

A sensação visual de um objeto arredondado, vermelho e com parte de seu corpo enegrecido, somente será percebido como uma maçã podre se a pessoa souber, antecipadamente, o que é uma maçã, e, dentro deste conhecimento, souber ainda que maçãs apodrecem e, quando apodrecem, adquirem certas características perfeitamente compatíveis com o estímulo sentido.

Poderíamos, a título de simplificação e a grosso modo, considerar que as sensações seriam determinadas por fatores exclusivamente neurofisiológicos, enquanto as percepções seriam determinadas por fatores psicológicos. Entretanto, nem isso podemos dizer. Ocorre que, em determinados estados emocionais, até as sensações podem estar comprometidas. É o que acontece, por exemplo, nos estados hístero-ansiosos com profundas alterações nas sensações corpóreas: anestesias, parestesias, hipoestesias, etc. Desta forma o mais correto seria considerar que as sensações, nas pessoas normais, envolvem predominantemente elementos neurofisiológicos e as percepções, envolvem predominantemente elementos psicológicos.

A percepção consiste na apreensão de uma totalidade e sua organização consciente não é uma simples adição de estímulos locais e temporais captados pelos órgãos dos sentidos. Nossa experiência (consciência) do mundo revela que não temos apenas sensações isoladas dele, ao contrário, o que chega à consciência são configurações globais, dinâmicas e perfeitamente integradas de sensações. Embora as sensações não nos ofereçam, em si mesmas, o conhecimento do mundo, elas representam os elementos necessários ao conhecimento sem os quais não existiriam percepções.

A percepção se relaciona diretamente com a forma da realidade apreendida, enquanto a sensação se relacionaria à fragmentos esparsos dessa mesma realidade. Ao ouvirmos notas musicais, por exemplo, estaríamos captando fragmentos mas, à partir do momento em que captamos uma sucessão e seqüência dessas notas ao longo de uma melodia, estaríamos captando a forma musical.

Há na verdade três percepções:

a percepção anterior à realidade consciente;
a percepção que se transforma na realidade consciente;
a percepção posterior à realidade consciente.

A percepção anterior à realidade consciente é a percepção despojada de toda e qualquer subjetividade, é a objetividade pura. Ela é anterior a toda e qualquer interpretação, anterior a toda e qualquer compreensão e anterior a toda e qualquer significação.

A percepção anterior à realidade permite a experiência da própria percepção em estado puro. Ela é radicalmente exterior ao sujeito, é a percepção do mundo exterior objetivo por excelência. É uma sensação vazia de subjetividade.

A percepção que se transforma na realidade consciente é a percepção que já remete à uma subjetividade ou à um significado consciente real. Ela não se permite circunscrever apenas ao mundo exterior e passa a pertencer ao mundo interior do sujeito. Trata-se da ponte que une o objeto ao sujeito (o mundo objectual ao sujeito), tal como uma porta que introduz o mundo exterior para dentro da subjetividade. Entretanto, esta percepção que se transforma na realidade consciente é somente uma porta de entrada, e é sempre ao mesmo tempo uma passagem do objeto ao sujeito, é tanto a porta quanto o trânsito através dela, e sempre no sentido que conduz da percepção à subjetividade.

A percepção posterior à realidade consciente é a percepção que não contém propriamente uma nova subjetividade mas toca nela à partir de estímulos atuais. Ela reforça a subjetividade pré-existente e, à partir dela, constrói novos elementos subjetivos.

Digamos que, enquanto a sensação oferece à pessoa o fundamental da realidade, na percepção esse fundamental se organiza de acordo com estruturas específicas, conferindo originalidade pessoal à realidade apreendida. A partir da percepção que se transforma na realidade consciente, o sujeito passa a oferecer às suas sensações um determinado fundo pessoal sobre o qual se assentarão as demais futuras sensações. Dessa forma, o objeto sensível está sempre se relacionando com esse fundo perceptivo individual e existirá sempre uma apreciável diferença subjetiva entre o objeto em si e o fundo pessoal sobre o qual ele se faz representar.

As formações psíquicas advindas do ato perceptivo compõem as configurações conscientes da realidade e essas configurações contém mais do que a simples soma do fundamental sentido. A percepção proporciona dados sobre o fisicamente sentido, porém esses dados variam de acordo com as condições do fundo pessoal e a forma percebida passa a transcender o objeto simplesmente sentido.

Como veremos adiante, a percepção transcendente, ou seja, a forma da realidade apreendida, pode ser modificada em conseqüência de condições pessoais momentâneas. Dependendo da fadiga, da ansiedade ou do afeto, por exemplo, os estímulos externos podem ser captados como sensações agradáveis ou desagradáveis, assim como também se alteram pela ação de determinadas substâncias químicas ou em determinadas doenças orgânicas.

Em toda percepção existe um componente afetivo que contribui para a imagem representada. Algumas impressões podem ser captadas mais intensamente que outras, dependendo da atenção (interesse afetivo), dependendo da atitude pensada, do estado de ânimo e da situação emocional de quem percebe. A seleção das impressões sensoriais apreendidas depende de uma série de processos ativos que transforma a percepção numa função anímica por excelência.

No ato perceptivo se distinguem dois componentes fundamentais: a captação sensorial e a integração significativa, a qual nos permite o conhecimento consciente do objeto captado. Portanto, as percepções serão subjetivas por existirem em nossa consciência, e objetivas pelo conteúdo que estimula a sensação.

Alterações da Sensopercepção
A capacidade da pessoa perceber a realidade à sua volta e que se faz através dos cinco sentido, pode sofrer alterações sob duas bases distintas; uma base estritamente orgânica, referente à integridade do sistema sensorial e cujas vias pertencem à neurofisiologia e; uma base psíquica compreendida pelos elementos emocionais envolvidos na consciência da realidade. Há autores que preferem considerar verdadeiros distúrbios da sensopercepção somente aqueles possuidores de uma base orgânica. De fato, para a integridade da sensação há necessidade de três elementos:

1- receptores periféricos suficientemente íntegros para receber os estímulos provenientes do ambiente;
2- integridade dos nervos periféricos aferentes que conduzem estes estímulos periféricos ao SNC e;
3- integridade dos centros corticais no sistema nervoso central que recebem estes estímulos procedentes do exterior e processa-os em linguagem cognitiva.

1. - Alterações na Intensidade das Sensações
As alterações na intensidade das sensações das sensações referem-se ao aumento e à diminuição do número e da intensidade dos estímulos procedentes dos diversos campos da sensibilidade.

1.1 - Hiperestesia
Hiperestesia
sensorial é o aumento da intensidade das sensações. A hiperestesia se acompanha, em geral, de exaltação dos reflexos tendinosos, maior excitabilidade da sensibilidade fisiológica e aceleração do ritmo dos processos psíquicos. Nos estados de grande ansiedade, de fadiga ou esgotamento, por exemplo, onde a capacidade adaptativa está comprometida, a audição e o tato podem estar aumentados. A hiperestesia sensorial é freqüente nos pacientes afetivos, nos neuróticos, nos estados de excitação maníaca, no hipertiroidismo, no tétano, na raiva (hidrofobia), nos acessos de enxaqueca e, ocasionalmente, em alguns casos de epilepsia.

1.2 - Hipoestesia
Hipoestesia sensorial é a diminuição da sensibilidade. Na maioria dos estados de depressão pode ser observada diminuição da sensibilidade aos estímulos sensoriais, embora a propriocepção possa estar aumentada. Nesses casos há diminuição dos reflexos tendinosos, elevação da sensibilidade fisiológica e lentidão dos processos psíquicos.

Pode haver diminuição da sensibilidade sensorial em função de fatores emocionais, como no caso citado acima das depressões, também em situações neurológicas, como o estupor, nas síndromes que se acompanham de obnubilação da consciência, nos estados infecciosos e pós-infecciosas e em períodos pós-trauma.

1.3 - Anestesia
A Anestesia diz respeito à abolição de todas as formas de sensibilidade. Observa-se anestesia, geralmente, em afecções neurológicas focais e em seccionamentos de nervos periféricos aferentes. Na psiquiatria observamos anestesias regionais em pacientes conversivos. Nesses casos, as alterações da sensibilidade, tomando por base sua topografia e qualidade das alterações não obedecem os dermátomos neurofisiológicos nem as vias normais da sensibilidade.

2. - Alterações na síntese perceptiva - AGNOSIAS
A síntese das sensações de forma a constituir percepções conscientes dá-se nas zonas corticais do SNC. A anestesia, surdez ou cegueira podem resultar da lesão de um órgão sensorial periférico, do nervo aferente ou da zona cortical do SNC onde se projetam essas sensações determinando o desaparecimento delas.

Nos casos onde estão conservadas a integridade das vias nervosas aferentes e existem lesões corticais na vizinhança da área de projeção, nas chamadas áreas para-sensoriais, mantém-se a integridade das sensações elementares, porém, há alteração do ato perceptivo. Nesses casos, fala-se de AGNOSIA.

Assim sendo, Agnosia não é uma alteração exclusiva das sensações nem exclusiva da capacidade central de perceber objetos externos, mas uma alteração intermediária entre as sensações e a percepção. Em alguns casos, observa-se a perda da intensidade e da extensão das sensações, permanecendo inalteradas as sensações elementares, em outros há integridade e extensão, mas perda da capacidade de reconhecimento dos objetos.

2.1 - Agnosia Visual
As agnosias visuais podem ser de objetos, de formas, de cor e de espaço. Nos dois primeiros casos, o paciente se mostra incapacitado para identificar o objeto ou a forma deste, em virtude de se encontrar alterada a integração das sensações elementares. A sensação óptica nesses casos se constitui muito mais em contornos, superfícies e cores, luzes e sombras, do que na individualização do objeto em si. Com freqüência não se destacam bem entre si, carecem de definição clara e patente e de relação nítida com o que se acha próximo a eles no espaço óptico. Lesões do lobo occipital na região da cissura calcariana também podem produzir defeitos sensoriais fisiológicos.

A agnosia visual é, entre esses transtornos, a melhor conhecida em sua origem. Nesses casos as lesões neurológicas responsáveis quase sempre são bilaterais e afetam as áreas occipitais 18 e 19, contíguas à área 17 onde terminam as projeções visuais (áreas para-sensoriais).

2.2 - Agnosia Tátil
Agnosia Tátil se refere à incapacidade para reconhecer objetos mediante o sentido do tato, apesar da sensibilidade se encontrar conservada no fundamental. O transtorno recai sobre as qualidades dos objetos. O enfermo perde a possibilidade de discriminar as diferenças de intensidade e extensão das sensações táteis.

2.3 - Agnosia Auditiva
Agnosia Auditiva é quando o paciente ouve sons e ruídos, porém não consegue identificá-los, não os compreende.

Ambiente, Circunstâncias e Personalidade
Essas comparações antropológicas do funcionamento perceptual entre diferentes culturas nos fazem supor que as diferenças na percepção nas propriedades dos objetos físicos fundamentam-se nos diferentes de nível de aprendizagem e diferentes experiências passadas com esses objetos, assim como em diferenças na capacidade para identificar tais objetos, embora essas diferenças não se fundamentem em diferenças mais profundas no processo geral de funcionamento da percepção.

Fatores Culturais
Os valores culturais atribuídos aos objetos, às relações e aos acontecimentos, também podem desempenhar um papel significativo na maneira pela qual os objetos são percebidos. Os habitantes das ilhas Trobriand (Nova Guiné), por exemplo, apegavam-se a uma crença básica, segundo a qual uma criança não poderia jamais ser fisicamente semelhante à sua mãe ou a seus irmãos e irmãs mas apenas ao seu pai. Mesmo quando, para um estranho, havia uma notável semelhança física entre dois irmãos, os nativos eram incapazes (ou não queriam ser capazes) de descobrir qualquer semelhança. Além disso, havia uma tendência inversa para exagerar o menor grau de semelhança facial entre o pai e os filhos.

Como existe considerável amplitude quanto aos aspectos de um objeto que a pessoa pode focalizar e acentuar, também podem existir notáveis diferenças a respeito desses aspectos entre várias culturas. As experiências perceptuais que se tem ao olhar um borrão de tinta, por exemplo, são descritas de maneiras bem diferentes, por pessoas de diferentes sociedades. Essas diferenças, na ênfase perceptual, podem ser interpretadas como reflexos dos valores culturais desses povos.

Personalidade e o Mundo Percebido
Ao falarmos de diferenças de personalidade estamos falando das variações de fenótipo (a pessoa aqui e agora) e englobam variações na constituição biológica, na capacidade sensorial e cerebral, na idade e na experiência, no contexto geográfico e cultural. A singular constituição da pessoa, suas habilidades específicas, seus motivos, seus valores e seus traços constituem sua personalidade. Há diferenças significativas na percepção do mundo, associadas a diferenças de personalidade. Na realidade, uma das maneiras pelas quais se tentam descrever e classificar as pessoas, sob o ponto de vista personal, é através do estudo de sua maneira de perceber o mundo.

Circunstâncias
A experiência com um objeto também leva a mudanças significativas na maneira pela qual este é percebido: seu reconhecimento se torna mais fácil, o objeto é organizado perceptivamente de maneira diferente, aparecem novas propriedades atreladas à ele... Na realidade, nossas capacidades sensoriais, capacidades para descobrir os estímulos e distingui-los uns dos outros, pode ser aperfeiçoada com a prática. As mudanças na percepção são aspectos essenciais no processo da aprendizagem.

 Há um conjunto cada vez maior de pesquisas sobre relações entre as características da personalidade e a maneira de perceber o estímulo físico. É de observação corrente, por exemplo, que nossa percepção das coisas pode ser alterada pelo nosso conhecimento, pela nossa motivação, por nosso estado emocional e por outras condições fisiológicas. Estes estados influenciam tanto a sensibilidade a objetos, como as propriedades percebidas neles.

 Ilusão (percepção)

Dependendo da motivação afetiva, por exemplo, as imagens percebidas podem ter representações diferentes (um cálice ou duas pessoas frente a frente... preparando-se para um beijo, se encarando, re refletindo...).  

A compreensão científica dos processos de motivação e emoção abrange o estudo da maneira pela qual os estados de motivação influem na percepção. O alimento, por exemplo, é notado mais rapidamente pelo faminto do que pelo saciado e, além disso, parece também mais apetitoso ao faminto; uma mulher pode ser percebida pelo homem de uma determinada maneira antes do ato sexual e de outra, bem diferente, depois do mesmo ato; a pessoa amedrontada tem uma consciência mais nítida de cada pequeno ruído, na casa solitária, enfim, dependendo da motivação as percepções podem ser modificadas.

Há também influências fisiológicas nas percepções, encontradas, por exemplo, em estados excepcionais associados à doença, à gravidez, à menstruação, etc. Na mulher grávida, por exemplo, a capacidade para perceber os aromas é diferente.

A experimentação científica concorda haver influências impressionantes na percepção, produzidas por drogas e pelo álcool. A maconha, por exemplo, pode fazer com que as cores sejam vistas com um brilho incrível. O sentido do tempo fica deformado. O alcoolismo agudo e crônico pode ser acompanhado por períodos em que ocorrem experiências perceptuais apavorantes, tais como as de ver ratos sanguessugas no quarto, ou sentir vermes que perfuram a pele. Ainda seja obscura a classificação desses fenômenos, não pode haver dúvida de que esses estados estão também associados a variações marcantes na percepção.

Fatores pessoais e percepção
A organização perceptual muitas vezes reflete os fatores pessoais do percebedor, tais como suas necessidades, emoções, atitudes e valores. A extensão em que isso ocorre depende do despertar, por esses fatores centrais, das predisposições adequadas.

NECESSIDADES. Quanto mais forte a necessidade de uma pessoa, mais fortemente estará perceptualmente predisposta para determinados aspectos significativos à essa necessidade no campo perceptual. Muitos estudos experimentais foram feitos a respeito desse fato aparentemente óbvio. Palavras incompletas (por ex., car__, re___, etc.) são mais comumente completadas como palavras referentes a alimento (por ex., carne, refeição e não carro ou reflexo) por pessoas com fome, do que por pessoas alimentadas. Também sujeitos com mais fome, ao olhar para imagens pouco estruturadas projetadas numa tela, tendem a ver mais objetos de alimentação do que os sujeitos com menos fome.

EMOÇÕES. O estado emocional da pessoa pode provocar uma predisposição que influi nos processos de percepção e de pensamento. Por exemplo, as crianças de um acampamento de verão julgaram as características de fisionomias em retratos de várias pessoas antes e depois de assistirem um filme assustador de assassinatos; os julgamentos feitos depois do filme mostraram maior proporção de características de maldade em algumas fisionomias de fotos do que quando as viram antes do filme.

Valores e Atitudes
Uma pessoa tem tendência para estar predisposta a perceber de acordo com seus valores éticos, morais, culturais e suas atitudes. Um teste que consta da projeção rápida de uma lista de palavras mostra maior facilidade para percepção de algumas palavras atreladas à valores da pessoa que as reconhecem. Há tendências nítidas para o reconhecimento mais rápido nas palavras relacionadas com os valores do indivíduo. Por exemplo, a palavra "sagrado" era mais rapidamente reconhecida por pessoas que apresentavam elevado valor religioso do que por pessoas com outros valores predominantes. Além disso, existia tendência para percepção distorcida de palavras estimuladoras dos valores da pessoa, por exemplo, havia maiores tendências em reconhecer palavra "scared" (atemorizado) pelas pessoas religiosas como se fosse a palavra "sacred" (sagrado).

Todavia, é complexo e difícil afastar as variáveis de tais experimentos, pelo fato das palavras mais valorizadas serem também aquelas que, provavelmente, também são as que mais freqüentemente aparecem na experiência da pessoa.

Portanto, há certas predisposições perceptuais determinadas pelo desejo, vontade ou necessidade da pessoa que variam quanto a saliência, especificidade, duração, relação com outras predisposições.

Algumas predisposições dominam inteiramente a consciência do percebedor. Se alguém está insistentemente em busca de chave perdida numa gaveta em desordem, tem uma saliente predisposição para ver a chave entre as coisas esparsas da gaveta. Outras predisposições são menos salientes. Ao procurar a chave, a pessoa pode encontrar imediatamente uma caneta que procurava há muitos dias, embora possa não observar outros objetos. Nesse caso, a predisposição para a chave era a mais saliente, a predisposição para a caneta a menos saliente, e não existia predisposição para outros objetos.

As predisposições variam quanto ao seu grau de especificidade ou generalidade. A pessoa pode estar a procura de uma chave específica para sua garage, ou pode estar em busca de qualquer tipo de chave que possa ser usada como peso de papel, por exemplo.

As predisposições diferem também quanto à sua duração. Algumas são extremamente rápidas e outras mais duradouras. A mãe, por exemplo, está predisposta durante 24 horas por dia, para ouvir o choro de seu nenê, e pode ouvi-lo mesmo quando em meio a outros ruídos ou quando outras pessoas não conseguem ouvi-lo.

Alterações na Representação
Os dois principais Distúrbios da Sensopercepção tratados aqui serão as Ilusões e as Alucinações Em relação às Ilusões parece haver um consenso acerca de seu estudo pertencer ao campo da sensopercepção, entretanto, quanto às Alucinações, alguns autores preferem vê-las como Distúrbios da Representação. Por razões didáticas aceitamos ambas como transtornos da sensopercepção.

1 - ILUSÕES
Segundo Bleuler, as ilusões são percepções reais falsificadas e estudadas sob o título engano dos sentidos. Trata-se, na realidade, da interpretação distorcida de um objeto real, uma falsificação da percepção de um objeto que, de fato, existe. É uma percepção enganosa de um objeto real.

Nesta caricatura do processo de percepção nossos sentidos são simplesmente enganados por alguma variável circunstancial (iluminação, distância, efeitos ópticos, etc.) ou deixam-se superar por alguma emoção. É o caso, por exemplo, de um ruído qualquer, parecer-nos passos misteriosos, das manchas num papel serem percebidas como símbolos religiosos, de um barulho indefinido soar-nos como alguém nos chamando e assim por diante. Sem dúvida, tais acontecimentos estão impregnados pelo medo, pela necessidade religiosa, pela saudade ou por qualquer outro tipo de emoção.

Por si só a ilusão não constitui um estado mórbido, mas pode denotar um estado emocional mais ou menos intenso; desde pequenas oscilações do normal até situações patológicas. Os enganos da ilusão podem afetar os cincos sentidos.

Organicamente a desfiguração de objetos pode surgir como um incômodo sintoma de certas epilepsias de lobo temporal. Nestes casos as pessoas, por exemplo, podem adquirir a configuração de monstros, demônios, caveiras, etc. As Ilusões podem acontecer em qualquer doença mental, entretanto, elas são mais freqüentes nas alterações da tonalidade afetiva. Podem estar presentes na Psicose Maníaco Depressiva, em determinadas neuroses ou ainda, em ocorrências fortuitas do cotidiano emocional de quem atravessa momentos de forte tensão. Tudo isso deve sugerir que o contacto com a realidade, a impressão que elaboramos do mundo à nossa volta é sempre decorrente da integridade do aparelho psíquico, mais do que uma simples conseqüência da normalidade fisiológica.

2 - ALUCINAÇÕES
Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente, ou seja, são percepções sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado, portanto, será real para a pessoa que está alucinando.

Sendo a percepção da alucinação de origem interna, emancipada de todas variáveis que podem acompanhar os estímulos ambientais (iluminação, acuidade sensorial, etc.), um objeto alucinado muitas vezes é percebido mais nitidamente que os objetos reais de fato.

Tudo que pode ser percebido pode também ser alucinado e isso ocorre, imaginativamente, com maior liberdade de associações de formas e objetos. Na alucinação, por exemplo, um leão pode aparecer de asas, ou um caracol que cavalga um ouriço. O indivíduo que alucina pode ter percebido isoladamente cada umas das formas e, mentalmente, combinado umas com as outras.

As alucinações podem manifestar-se também através de qualquer um dos cinco sentidos, sendo as mais freqüentes as auditivas e visuais. O fenômeno alucinatório tem conotação muito mais mórbida que a Ilusão, sendo normalmente associado à estados psicóticos que ultrapassam a simplicidade de um engano dos sentidos. Na Alucinação o envolvimento psíquico é muito mais contundente que nos estados necessários à Ilusão.

Segundo o modelo organodinâmico, as alucinações podem surgir quando fracassam os mecanismos de integração das estruturas psíquicas com os sistemas perceptivos e sensitivo. Trata-se de uma desestruturação do campo da consciência e do próprio ser consciente, cujas necessidades subjetivas superam a realidade objetiva.

Por causa disso há necessidade de construção de uma nova realidade, a qual, defensivamente, se constitui de alucinações várias com o propósito de atender um psiquismo exigente. As alucinações com estas características, ou seja, aquelas originadas de um dinamismo psíquico desestruturado, porém, não necessariamente psicótico, têm sido consideradas por alguns como uma espécie de Mecanismo de Defesa do Ego extremamente patológico.

A partir da idéia de Alucinações como um Mecanismo de Defesa extremamente patológico, autores mais ousados acreditam que, de um modo geral, as alucinações seriam uma espécie de defesa do ser social ante uma cultura esquizofrenizante; uma tentativa de criação de um mundo próprio de sons e imagens que enriqueceriam a personalidade. Esse malabarismo ideológico tem se mostrado apenas um alinhavo retórico ficcioso de conteúdo pouco científico e muito duvidoso.

A loucura, com suas alucinações, sempre existiu em todas as épocas e em todos os lugares na civilização humana, fato que deveria sugerir, então, nunca ter existido uma cultura não-esquizofrenizante.

O fenômeno alucinatório, sem nenhuma sombra de dúvida, é um acontecimento extremamente mórbido, doentio, patológico, alienante e causador de grandes sofrimento tanto para quem alucina quanto para aqueles que com ele convivem. Tal ocorrência jamais poder ser entendida como algo benéfico e produtor do crescimento da personalidade. Em se tratando de um tipo de Mecanismo de Defesa da personalidade extremamente patológico, por se tratar de algo "extremamente patológico", poderíamos suspeitar do enorme grau de desestruturação psíquica do ser que alucina.

As alucinações não podem ser consideradas patognomônicas desta ou daquela psicopatia, não são exclusivas de nenhum transtorno mental específico, porém, de um modo geral, estão estatisticamente mais associadas às ocorrências psicóticas, notadamente à Esquizofrenia. Para o iniciante na lide com a Doença Mental, tem sido incontrolável a tendência em argumentar com o paciente que alucina, através de elementos da lógica, num esforço racional para demover do paciente este distúrbio. A possibilidade de se suprimir uma alucinação através da argumentação sensata é decididamente nula e, caso isso aconteça, não estaremos diante de uma alucinação genuína, mas de um engano sensorial. A alucinação verdadeira é irremovível pela lógica, daí o fato de ser considerada REAL para a pessoa que alucina.

Segundo a visão de Jung, aliás muito interessante, na doença mental o inconsciente começa a sobrepor-se à consciência. Nessa situação rompem-se as barreiras de contenção e as alucinações apresentam claramente à consciência uma parte do conteúdo inconsciente. Assim sendo, as alucinações (como também os delírios) não surgiriam de processos conscientes, mas sim, inconscientes, cujos fragmentos brotariam na consciência tal qual no sonho, ou seja, dissociados. Isso nos leva a afirmação metafórica de que a loucura pode ser entendida como um sonhar acordado, ou, por outro lado, que o sonho é uma espécie de loucura dos lúcidos. A Doença Mental, para Jung, faria acionar um mecanismo previamente existente e que funciona normalmente nos sonhos.

A psicopatologia, honestamente, não pode descartar esta possibilidade junguiana, a do sonhar acordado para a loucura, tal como uma espécie de ebulição e erupção do material inconsciente traduzindo-se em alucinações na consciência. Entretanto, somente uma ocorrência francamente patológica seria capaz de produzir tamanha revolução do inconsciente, ao ponto de perder-se o contacto com a realidade e não saber mais onde termina o sonho e começa o real. Apesar destas reflexões psicodinâmicas atenderem satisfatoriamente nossa compreensão do fenômeno, é bom termos sempre em mente outras considerações fisiopatológicas, como é o caso das alterações neuromoleculares, atualmente relacionadas solidamente à ocorrência dos sintomas alucinatórios.

2.1 - Alucinações Auditivas
Como as mais freqüentes, podem aparecer sob forma de Alucinações Auditivas Elementares, quando a percepção diz respeito a sons inespecíficos, tais como chiados, zumbidos, ruídos de sinos, roncos, assobios, etc. Em se tratando de patologia mais séria, aparecem como Alucinações Auditivas Complexas, onde se percebem vozes bem definidas. Essas vozes podem ter as mais variadas características: diálogos entre mais de um interlocutor, comentários sobre atos do paciente, críticas sobre a pessoa que alucina, podem ainda, por outro lado, proferir injúrias e difamações, comunicar informações fantásticas, sonorizar o pensamento do próprio paciente ou de terceiros. Tais vozes ouvidas podem ser provenientes, na idéia do doente, do além, do sobrenatural, dos demônios ou de Deus.

O fenômeno de perceber uma voz que não existe (percepção de objeto inexistente) é a Alucinação propriamente dita e, interpretá-la como sendo a voz do demônio, de Deus, dos espíritos mortos ou uma audição telepática já faz parte do delírio. Este, freqüentemente, acompanha o fenômeno alucinatório. Ouvir vozes faz parte da sensopercepção e atribuir a elas algum significado faz parte do pensamento, cujos distúrbios veremos adiante.

Algumas vezes as vozes alucinadas podem determinar ordens ao paciente, o qual as obedece mesmo contra sua vontade. Diante desta situação, de obediência compulsório às ordens ditadas por vozes alucinadas, chamamos de Automatismo Mental. Esta situação oferece alguma periculosidade, já que, quase sempre, as ordens proferidas são eticamente condenáveis ou socialmente desaconselháveis.

Normalmente, a Alucinação Auditiva é recebida pelo paciente com muita ansiedade e contrariedade pois, na maioria das vezes, o conteúdo de tais vozes é desabonador, acusatório, infame e caluniador. Quando elas ditam antecipadamente as atitudes do paciente falamos em Sonorização do Pensamento, como se ele pensasse em voz alta ou como se alguma voz estivesse permanentemente comentando todos seus atos: " lá vai ele lavar as mãos", "lá vai ele ligar a televisão" e assim por diante.

2.2 - Alucinações Visuais
São percepções visuais, como vimos, de objetos que não existem, tão claras e intensas que dificilmente são removíveis pela argumentação lógica. Mesmo o paciente referindo ter visto apenas vultos, tais vultos são muito fielmente percebidos, portanto são reais para a pessoa que os percebe. Tal qual nas Alucinações Auditivas, aqui também elas podem ser consideradas Elementares, quando o objeto alucinado não tem uma forma específica: clarões, chamas, raios, vultos, sombras, etc. Serão Complexas quando as formas se definem em figuras nítidas: pessoas, monstros, demônios, animais, santos, anjos, bruxas.

Há determinadas ocasiões onde o transtorno visual alucinatório adquire a consistência de uma cena, uma situação como, por exemplo, ver uma carruagem passando pela paciente e dela descer um príncipe. Neste caso falamos em Alucinações Oniróides, como se transcorresse num sonhar acordado. No Delirium Tremens do alcoolista, por exemplo, as Alucinações Visuais tem uma temática predominantemente de bichos e animais peçonhentos (cobras, aranhas, percevejos, jacarés, lagartos) e, neste caso, damos o sugestivo nome de Zoopsias, promovedoras de grande ansiedade e apreensão.

Nas situações onde o paciente se vê fora de seu próprio corpo falamos em Alucinações Autoscópicas e, quando ele consegue ver cenas e objetos fora de seu campo sensorial, como enxergar do lado de fora da parede, teremos as Alucinações Extracampinas.

O conteúdo das alucinações é extremamente variável, porém, guarda sempre uma íntima relação com a bagagem cultural do paciente que alucina. Não é possível alucinar com alguma coisa que não faça parte do mundo psíquico do paciente. Um físico nuclear pode alucinar com um certo brilho atômico a revestir seus inimigos, enquanto um cidadão menos diferenciado, com um espírito do morto a rondar sua casa, ambos porém, independentemente do nível sócio-cultural têm a mesma probabilidade de alucinar. A sofisticação e exuberância do material alucinado dependerá da bagagem cultural de quem alucina mas não interfere na valorização semiológica do fenômeno.

2.3 - Alucinações Táteis
A percepção de estímulos táteis sem que exista o objeto correspondente é observada principalmente nas psicoses tóxicas e nas psicoses delirantes crônicas, como veremos adiante. Nestes casos, principalmente no Delirium Tremens ou na dependência de cocaína, o paciente sente-se picado por pequenos animais, insetos esquisitos, vermes que caminham sobre a pele, pancadas, alfinetadas, queimaduras, estranhos carrapatos que penetraram em algum orifício fisiológico, etc. Não são raros os casos de alucinação tátil que se caracteriza pela sensação de ter-se as pernas puxadas à noite ou estrangulamento, sufocação ou opressão antes de conciliar o sono.

Quando esta percepção falseada diz respeito aos órgãos internos ou ao esquema corporal falamos em Alucinações Cenestésicas. Nestes casos os doentes sentem como se tivessem seu fígado revirado, esvaziado seu pulmão, seus intestinos arrancados, o cérebro apodrecido, o coração rasgado, e assim por diante. As Alucinações Cenestésicas devem ser diferenciadas das Alucinações Cinestésicas que não dizem respeito à sensação tátil, mas sim aos movimentos (cine-movimento). Nas cinestesias os pacientes percebem as paredes movendo-se ou eles próprios movendo-se no espaço.

Um paciente delirante crônico sentia que seu cérebro estava infestado de germes, os quais, esporadicamente, escorriam-lhe pelo nariz. Neste caso, trata-se de uma Alucinação Tátil Cenestésica. Outro queixava-se de inúmeros percevejos que furavam-lhe a pele o tempo todo. Era um portador de Delirium Tremens, e, inclusive, mostrava os insetos que conseguia apanhar para o médico (o qual, evidentemente, não os via). Trata-se de Alucinações Táteis puras. Outro, já idoso, que sabia ter seus pulmões corroídos por vermes provenientes de carne suína, tossia seguidamente e vivia submetendo-se a freqüentes exames de raios X. Neste último caso, uma Alucinação Cenestésica pura.

2.d - Alucinações Gustativas e Olfativas
Normalmente, as Alucinações Olfativas e Gustativas estão associadas e são raras. Estados delirantes cujo tema diz respeito à putrefação, o gosto e os odores podem ser muito desagradáveis e são percebidos, como é típico de todas alucinações, sem que exista o objeto correspondente ao gosto e ao cheiro.

Algumas auras epilépticas determinam o aparecimento de Alucinações Gustativas e/ou Olfativas. Em geral os gostos alucinados aparentam ser de sangue, terra, catarro ou qualquer outra coisa desagradável; os odores podem ser desde perfumes exóticos até de fezes.

 

Portanto, como vimos, em termos de percepção da realidade, deve ser evidente o envolvimento das estruturas neurológicas necessárias, primeiramente à sensação e, em seguida, à integração e organização destas impressões apreendidas da realidade objetiva. Isso tudo se faz no sentido de favorecer a construção do conhecimento do mundo e do próprio indivíduo. No entretanto, essa função totalizadora e integradora das sensações que formam e constroem a percepção individual da realidade, envolve mecanismos subjetivos muito além da objetividade neurofisiológica da sensação.

para referir:
Ballone GJ - Percepção e Realidade in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005




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Sensopercepção
Os texto abaixo, sobre Sensopercepção, é do professor Eunofre Marques, retirado de suas brilhantes páginas na internet. Veja um trecho:

"... Essa atividade nós chamamos de percepção objetiva, isto é, a percepção do mundo objetivo, incluindo o corpo. Esta percepção é sempre e unicamente intermediada pela sensorialidade, que a possibilita porém também a limita. Não se trata apenas da apreensão de informações sensorialmente determinadas, que é o que ocorre na neuropercepção. Ela é uma atividade intrinsecamente psíquica, que se vale das informações fornecidas pela neuropercepção mas que vai além, que integra as imagens e as representa na consciência. A esta percepção do mundo nós damos o nome de sensopercepção. Sensopercepção é, pois, a atividade de incorporar o mundo objetivo ao mundo interno, é trazer o mundo físico para o mundo mental, é colocar-nos em contato direto, intrapsíquico, com o que pudemos apreender do mundo que nos cerca, ao qual não temos acesso direto.

Com a sensopercepção podemos construir em nosso mundo próprio todo um modelo nosso do universo, sem as limitações físicas deste, mas submetido a essas limitações, isto é, podemos analisar, sintetizar, desmembrar, unificar, como se estivéssemos manipulando o mundo objetivo, de um modo que, diretamente nele, não seria possível. A sensopercepção nos permite, assim, uma nova conquista do mundo, além das suas próprias possibilidades. Se ela não fosse razoavelmente fiel ao mundo externo, isto é, se as suas referências básicas não viessem da realidade objetiva, o nosso mundo interno seria uma imaginação delirante e irreal. Exatamente por se tratar de uma atividade muito confiável, apesar das suas limitações, podemos nos valer dela para lidar com a realidade fora da realidade e, daí, descobrirmos como tornar real o resultado do nosso trabalho.

Fazemos questão de ressaltar essa propriedade exclusivamente intrapsíquica da sensopercepção e as possibilidades que ela nos apresenta justamente para distingui-la de uma simples reprodução ou representação da realidade ou uma mera atividade sensorial. Na percepção do mundo temos, na verdade, três níveis: o nível sensorial, onde obtemos informações possibilitadas pelas limitações da cada sensorialidade, o nível neuropsíquico, que nos fornece informações sem conteúdo, e o nível sensoperceptivo, que nos abre todas as potencialidades que o conhecimento da realidade pode oferecer. A primeira é um campo puro da neurologia, a segunda da neuropsicologia e a terceira é restrita à psicologia (médica) e à psicopatologia. O fato de representarem campos profissionais completamente distintos é também um dado que revela o quanto tais atividades se diferenciam entre si.
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Sobre a influência do estado emocional na intensidade das percepções, Eunofre Marques é muito didático. Veja um trecho de sua página:

"... O grau de interesse pelo objeto que esteja no foco da consciência pode aumentar ou reduzir a acuidade perceptual para ele. Isto também vale para os objetos a ele relacionados e a todo o ambiente possível no campo perceptual. Se eu estiver apenas interessado num único objeto, no livro que estou lendo, por exemplo, eu posso "apagar" todos os registros perceptuais de todos os sentidos, só permanecendo o foco visual de meu interesse. Se estou num ambiente novo, onde tudo me interessa, o meu campo perceptual se amplia até os limites possíveis da sensorialidade, com um grau de acuidade muitas vezes semelhante àquele que eu costumo ter apenas no foco da consciência. Aqui se trata, na verdade, de uma alteração intencional do grau de lucidez da consciência e da contração ou expansão dos seus foco e campo. Isto quer dizer que o interesse do indivíduo pelo objeto altera a sua acuidade perceptiva via consciência.

Existem estados normais que exacerbam a acuidade perceptiva. Assim, se estou à noite caminhando numa rua estranha de um bairro suspeito, o medo pode tornar a minha acuidade perceptiva muito maior do que aquela que costumo apresentar em condições normais. Tal fenômeno não vem acompanhado de hiperlucidez, isto é, a reação de alerta produzida pelo medo não altera a sensopercepção pela via da consciência, mas de modo direto, primário. Outra condição que pode exacerbar a acuidade perceptiva é o êxtase, um estado afetivo especial que altera as condições da consciência, gerando um estado de hiperlucidez. Este fenômeno é completamente diferente do que ocorre no medo e trataremos dele mais tarde. Se estou muito cansado, a fadiga pode reduzir drasticamente a minha acuidade perceptiva. A fadiga não costuma vir acompanhada de variação da lucidez, indicando que a influência da fadiga na acuidade é direta e primária. A sonolência também reduz a acuidade perceptual. Esta, diferente da anterior, influi na sensopercepção através da variação da lucidez, pois a sonolência é um estado de hipolucidez, isto é, depende do estado da consciência. Existem muitas condições normais que produzem variações da acuidade perceptual para mais ou para menos. Não se tratam de distúrbios da sensopercepção, mas apenas variações das suas condições habituais, sendo, portanto, fenômenos absolutamente normais. As variações no sentido de aumento da acuidade sensoperceptiva são chamadas de hiperestesias e para menos de hipoestesias. Alguns autores guardam esses termos apenas para as variações quantitativas patológicas, outros as usam indiferentemente também para as variações normais.
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Em relação ao desenvolvimento da capacidade cognitiva e simbólica do ser humano, Renato da Silva Queiroz, professor do departamento de antropologia da USP, comenta um livro chamado A Pré-História da Mente, de Steven Mithen, onde destaca o tópico “As origens da arte, da religião e da ciência”

“A mente dos humanos modernos produz conhecimentos e os redireciona para propósitos diversos daqueles aos quais se aplicavam originalmente. Tal capacidade mental requer um cérebro poderoso e multifacetado, organizado de tal modo que os processos cognitivos em seu interior, a despeito de especializados, possam fluir e recombinar-se sem restrições. Disso decorrem a flexibilidade e a criatividade do comportamento humano. O surgimento desse tipo de mente, única entre os seres viventes, é produto de um longo trajeto evolucionário, cuja pormenorizada reconstituição encontra-se neste instigante livro de Steven Mithen, arqueólogo inglês que, para tanto, recorre a saberes da biologia, antropologia e psicologia, entre outras disciplinas científicas.

Todavia é o método arqueológico que o conduz pelas sendas das demonstrações. "Se quiserem conhecer a mente, não procurem apenas psicólogos e filósofos: certifiquem-se de também procurar um arqueólogo", adverte Mithen, enfatizando que a mente humana resulta tanto da nossa história evolutiva quanto dos contextos em que os indivíduos se desenvolvem. A mente dos humanos modernos é fruto do processo de expansão cerebral, conhecido como "encefalização", e do desenvolvimento de inteligências especializadas, cujos conhecimentos, antes nelas aprisionados, se integraram graças ao mecanismo gerenciador exercido pela consciência.

Essas inteligências múltiplas -e o autor propõe a existência de pelo menos quatro delas: social, naturalista, técnica e lingüística-, que se foram desenvolvendo de forma mais ou menos estanque ao longo do processo evolucionário, em resposta a numerosas pressões seletivas, se integraram, finalmente, na transição do Paleolítico Superior ao Médio. Pode-se identificar o período em que se deu tal integração, caracterizada por uma enorme fluidez cognitiva, observando-se as primeiras manifestações de percepção estética traduzidas em obras de arte (figuras esculpidas e pinturas rupestres) e a emergência de representações religiosas.

Escassas são as peças que se oferecem à reconstituição da pré-história da mente humana. Até o aparecimento das primeiras modalidades de escrita, surgidas há uns 5.000 anos, os vestígios que nos foram legados pelos nossos ancestrais nos últimos 2,5 milhões de anos não vão muito além de utensílios de pedra, restos de alimentos, figuras fixadas em pequenas esculturas e pinturas rupestres. Entretanto esse exíguo material, submetido ao rigoroso exame do autor e por ele confrontado com o comportamento de chimpanzés e grupos de caçadores-coletores modernos, conferiu suporte às suas convincentes interpretações. Um dos fundamentos da reconstituição empreendida por Mithen é o princípio da recapitulação, segundo o qual a ontogenia recapitula a filogenia, postulando o autor que se podem vislumbrar nas etapas de desenvolvimento mental da criança as fases da evolução cognitiva dos nossos ancestrais. Nessa medida, tem-se, num primeiro período evolucionário, uma inteligência geral, indiferenciada, incapaz de sustentar a elaboração de padrões complexos de comportamento, inteligência suficiente apenas para a aquisição de condutas relativamente simples, sujeitas a erros freqüentes e dependentes de um ritmo lento de aprendizado. Depois, despontam as inteligências especializadas, cada uma delas tomando conta de um domínio comportamental específico, com o que se amplia a capacidade das operações cognitivas.

Ocorre, porém, que nessa etapa intermediária os conhecimentos pertinentes a cada um dos domínios ainda estão contidos em seus módulos específicos (a imagem é a das lâminas de um canivete suíço), não se verificando, pois, significativo fluxo de informações entre eles. Finalmente, adquire-se a fluidez cognitiva, donde a dramática ampliação das capacidades mentais e a plena configuração da mente do homem moderno -criativa, flexível e imaginativa.

SELEÇÃO NATURAL
O mais importante arquiteto da mente, a seleção natural, processo lento e gradual, desprovido de direção ou de objetivos predeterminados, terminou por favorecer a integração das inteligências múltiplas, dando margem à riqueza dos processos mentais, que se traduzem em metáforas e analogias, e à nossa inesgotável imaginação. Dessa perspectiva, a capacidade simbólica e os estados mentais que se expressam por meio da arte, da religião e da ciência, criações exclusivas do homem moderno, já germinavam nas mentes de nossos ancestrais. Steven Mithen rastreou o percurso da construção dessa mente dotada de fluidez cognitiva, sem a qual os humanos seriam incapazes de construir e representar o ambiente culturalmente complexo que fizeram para si mesmos.

Em seus comportamentos se entranham dimensões práticas e simbólicas, neles interligando-se profundamente a manipulação e a transformação de objetos físicos, coordenadas pela inteligência técnica, a interação com o mundo natural, orientada pela inteligência naturalista, a habilidade de reconhecer indivíduos e inferir os seus estados mentais, favorecida pela inteligência social, e a aquisição e os múltiplos usos da linguagem, possibilitados pela inteligência linguística. O autor data as primeiras formas de expressão artística em aproximadamente 40 mil anos, situando-as no continente europeu e na "explosão criativa" do Paleolítico Superior.

Contudo novas descobertas parecem localizá-las em terras africanas, há uns 80 mil anos. Mesmo estando corretas essas derradeiras estimativas, vê-se que a emergência do homem moderno é bastante recente. Logo, prematura pareceria qualquer conclusão quanto à capacidade dessa mente, tão complexa e cognitivamente tão fluida, de prover a nossa espécie não só das artes de subsistência como também -e sobretudo- de uma ciência que nos proteja da extinção."

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