Alteração da Atividade Voluntária

Vontade é a atitude contrário à pulsão natural e biológica da qual os animais não conseguem safar-se.
| Psicopatologia |


A preocupação inicial é saber o que, exatamente, é uma atitude voluntária. Podemos dizer que um ato é voluntário quando é intencional, previsível, consciente tem uma determinada finalidade. Assim sendo, a atividade voluntária comporta uma série de processos psíquicos conscientes, tais como a percepção, representação, idéias e sentimentos que determinam a direção e a intensidade da ação. Inicialmente o ponto de partida do ato voluntário é constituído por uma representação intrapsíquica de finalidade, cujo objetivo será alguma modificação em nós mesmos ou no ambiente.

Desejo, Vontade e Afeto
Essa representação inicial é acompanhada de sentimentos que se transformam em estímulos para a realização do ato. Se voluntário é alguma coisa que decorre da vontade, então será imprescindível saber antes algo sobre a vontade.

Embora desde Aristóteles a vontade fosse reconhecida como uma categoria psicológica autônoma, sempre foi confundida com a afetividade na filosofia. Descartes, ao elaborar sua Teoria das Paixões, dizia que a vontade se encontra em íntima e estreita relação com a vida instintivo-afetiva, e, por outro lado, ela também se liga à esfera intelectual.

Como se vê, a filosofia sempre se preocupou em estabelecer divisões funcionais do aparelho psíquico. Condillac pleiteou, em seu Tratado das Sensações, uma total independência da afetividade, colocando-a à par das duas categorias aristotélicas tradicionais, o intelecto e a vontade e, no século XVIII se origina a assim chamada teoria intelectualista da atividade voluntária, segundo a qual a vontade faria parte da inteligência. O que gerava uma certa confusão entre a vontade a decisão. Dizia-se, na época, que ao homem sedento diante de uma fonte ocorria: "É preciso beber, diz-lhe o apetite; eis aí algo potável, adverte-lhe a inteligência; logo, bebamos".

Mas, refletindo melhor, quem assim procedesse não estaria executando, a rigor, nenhum ato-de-vontade. Estaria simplesmente intelectualizando um impulso natural instintivo-impulsivo, um desejo imperioso ao qual só nos resta obedecer. Equivaleria, enfim, a identificar a vontade ao desejo. Diante dessa situação, o verdadeiro ato de vontade seria a abstenção, contrário à pulsão natural e biológica da qual os animais não conseguem safar-se. Nesse caso, a vontade seria mais um prolongamento da afetividade que da inteligência.

Esse raciocínio obriga a admitir que o desejo ou a repulsa em relação a algo há de ser, necessariamente, precedido de um juízo de valor. Dessa maneira, querer ou não querer alguma coisa seria o mesmo que formular a conclusão de que tal coisa nos seria agradável ou desagradável, útil ou nociva, o que vem a colocar a vontade sob o domínio, tanto de fatores intelectuais quanto afetivos .

O desejo, por sua vez, pertence bem mais à esfera afetiva que volitiva, pois todo desejo pressupõe um certo interesse, o qual pode ser positivo ou negativo, consciente ou inconsciente, agradável ou desagradável e, além do mais, que se mostra realizável ou irrealizável. É duvidoso que possa haver volição sem desejo mas, é bem possível haver desejo sem volição. Podemos desejar conhecer o fundo do mar, sem termos a nítida vontade de começar agora os preparativos para essa jornada. Pode-se ainda desejar retrospectivamente, ou seja, desejar que algo desagradável não tivesse acontecido, ou prospectivamente, que uma feliz oportunidade nos venha a ser reservada.

Como vemos, o conceito de desejo é bem mais amplo que o de vontade (volição). Existem os desejos utópicos, fantasiosos, inviáveis, ao passo que a volição sempre envolve uma perspectiva de realização mais ou menos próxima. A vontade normalmente se manifesta através das expressões "eu quero" ou "eu não quero", onde em síntese dinâmica participa a totalidade da nossa vida consciente.

Ato Voluntário e Involuntário
Jaspers
acreditava que somente são ações voluntárias quando há possibilidades de escolha, de reflexão e de decisão. Caso não haja esse conjunto circunstancial o ato será impulsivo, isto é, será mera descarga motora, sem direção e sem conteúdo, ou será ainda instintivo, sem considerações conscientes, embora dotadas de finalidade . Para se formar uma idéia geral do verdadeiro processo volitivo, temos que delimitar e identificar quatro etapas:

1. intenção ou propósito, fase onde se esboçam as inclinações ou tendências de ação, geralmente vivenciadas sob a forma de algum interesse e, normalmente, polarizando nossa atenção sobre determinado objeto;
2. deliberação, etapa que corresponde à ponderação consciente dos motivos mencionados acima, analisando-se o que será favorável ou desfavorável (apreciação), levando forçosamente a uma opção, isto é, a fazer ou deixar de fazer;
3. decisão, momento culminante do processo volitivo, instante que demarca o começo da ação, resultado da vantagem consciente dos motivos favoráveis;
4. execução, quando surgem as atitudes necessárias à consumação dos propósitos, dependente da performance da pessoa sob o ponto de vista global e sua capacitação à eficácia da ação.

Para a execução do ato voluntário exige-se um certo grau de consciência e de reflexão sobre finalidades, entretanto, a maior parte dos atos que executamos na vida diária são relativamente automáticos. Para a atividade voluntária cotidiana fazem parte uma série reflexos automáticos e instintivos os quais, na prática, não podem ser bem diferenciados. A freqüente repetição de atitudes voluntárias acaba por transformar atos volitivos em atos automáticos, portanto, todos atos automáticos foram antes atos volitivos.

Em nosso dia-a-dia pragmático, doméstico, social ou ocupacional, normalmente pensamos, sentimos e agimos de maneira automática, sem a participação da deliberação e da reflexão e entre a atividade voluntária e a atividade automática não há limites bem definidos . A natureza e a direção do ato volitivo dependem do conteúdo da representação na consciência, mas a intensidade da ação está subordinada à afetividade, já que a energia da ação está sempre ligada à intensidade dos sentimentos.

Alterações da Atividade Voluntária
Considerando que a volição necessita de uma certa energia para manifestar-se, as perturbações da vontade se darão tanto para mais como para menos. Em seu aspecto quantitativo teremos as seguintes alterações da vontade:

Hiperbulia
Denomina-se Hiperbulia ao aumento ou exacerbação da energia volitiva, dando lugar ao que se conhece vulgarmente por força de vontade. A Hiperbulia não deve ser confundida com as reações bruscas ou violentas dos que não dispõem ou não sabem usar suas inibições, como acontece na exaltação da euforia mas, freqüentemente, trata-se de um predicado positivo, que se manifesta no comportamento individual através da persistência e eficácia das ações, rendimentos e propósitos. Nobre de Melo diz que só devemos ver um caráter patológico na Hiperbulia quando produzir prejuízo nos demais, a exemplo do que sucede com certas personalidades anormais, do tipo fanático, tirânico ou despótico.

Hipobulia e Abulia
Por Hipobulia e Abulia entende-se, respectivamente, a diminuição e a total incapacidade do potencial volitivo. Esse enfraquecimento da vontade pode ocorrer, fugazmente em indivíduos normais, em estados de fadiga ou em conseqüência de trauma emocional intenso. Nessa situação há lentidão concomitante das ações e dos movimentos (bradibulia e bradicinesia).

A debilidade da vontade é observada em todos os estados de depressão e de inibição. A Hipobulia pode ser permanente nas esquizofrenias e em oligofrênicos apáticos. O tipo mais característico de debilidade volitiva é encontrado na depressão, na qual a vontade está inibida em todo o período de duração do acesso. Em estados depressivos a Hipobulia é duradoura, onde surge junto com a baixa volição as típicas dificuldade de decisão.

Na esquizofrenia, a aparente debilidade volitiva decorre mais de apatia do que de uma alteração volitiva. Em geral, nesses casos, existe indiferença afetiva e ausência de interesse pelo mundo exterior. Nas toxicomanias, particularmente no alcoolismo e nos traumatismos cranianos, observa-se certo grau de enfraquecimento da vontade.

Alguns autores tratam da Hipobulia sob o rótulo de Estupor. O Estupor já foi estudado como alteração quantitativa da consciência. Evidentemente, pode ser estudado também como alteração da atividade consciente, surgindo como um períodos em que as manifestações da atividade estão reduzidas ao grau mínimo ou mesmo abolidas. Neste quadro de Estupor há um prejuízo severo na capacidade de iniciativa e da reação diante dos estímulos externos. Nos estados estuporosos, o enfermo não reage ou reage pobremente aos estímulos do meio exterior, verificando-se habitualmente que ele não faz o menor movimento no sentido de atender às solicitações.

A pobreza de movimentos e a imobilidade podem ser observadas em diversos quadros clínicos:

1. Estupor depressivo - Verifica-se inibição global da atividade mental. Os movimentos são lentos e de pequena amplitude, falta a capacidade de decisão e de estímulos normais da vontade e a fala é bastante lentificada. Nos graus mais intensos de estupor, os pacientes se mantêm completamente imóveis e rígidos, necessitando de cuidados intensivos.
2. Estupor histérico - Manifesta-se, habitualmente, de modo súbito como reação intencional (embora involuntária) à vivências causadoras e psicodinamicamente compreensíveis. O paciente apresenta pobreza de ideação, desorientação, ausência de iniciativa e de espontaneidade, grande prejuízo mnêmico e de contacto. Entretanto, o Estupor histriônico ou psicogênico não impede que o paciente mantenha boas condições de higiene pessoal, mude com freqüência de posição e aceite alimentos.
3. Estupor catatônico - Nesses casos, há imobilidade psicomotora, falta de reação aos estímulos intensos e desinteresse total em executar movimentos de defesa. O fechamento contraído das pálpebras ou o desvio da cabeça é, na maioria das vezes, a única resposta a estímulos dolorosos. O paciente catatônico se mantém rígido mesmo que a posição seja incômoda. O contacto com o meio encontra-se abolido no Estupor Catatônico.
4. Em casos de Psicoses Orgânicas Notadamente em pacientes epilépticos e em lesões cerebrais infecciosas ou tóxicas é possível observar uma forma de bloqueio psicomotor estuporoso, acompanhado de obnubilação acentuada da consciência e desorientação. Também na hipertensão intracraniana por hidrocefalia interna podemos encontrar casos de Estupor.

O estado estuporoso com rigidez da mímica, acompanhada alguma vezes de rigidez muscular geral e grande pobreza de movimentos, pode ser observado na síndrome estriada, sobretudo em certas lesões cerebrais exógenas, encefalite infecciosa, intoxicação pelo monóxido de carbono.

Impulsos Patológicos
As perturbações qualitativas da vontade constituem as também chamadas Disbulias ou Parabulias, que estudaremos a seguir.

Os Impulsos Patológicos são ações isoladas, súbitas, involuntárias e, normalmente, desprovidas de finalidade objetiva. São ações psicomotoras automáticas ou semi-automáticas, de natureza explosiva, instantânea e fulminante, caracterizadas sobretudo, pela subitaneidade e incontrolabilidade com que se desencadeiam e se processam. Todo impulso é funda-mentalmente psicomotor e suas motivações psicológicas nem sempre são evidenciadas conscientemente ou pressentidas.

Algumas vezes, os atos impulsivos representam verdadeiras explosões emocionais, acompanhadas de acessos de riso ou de lágrimas. Outras vezes, porém, os atos impulsivos se caracterizam pela impetuosidade, rapidez e falta de consideração para com o próprio indivíduo ou para com os demais.

Tendo em vista a automaticidade dos atos impulsivos, o que se observa neles é a perda do controle voluntário das ações. Há impulsos patológicos espontâneos e aparentemente imotivados, isto é, sem estimulação interna ou externa identificável, por isso dando a impressão de se tratarem de atos motores puros, organicamente condicionados. Na verdade podem conter uma base vivencial interna e profunda, em cujo processamento intervêm mecanismos específicos da dinâmica inconsciente.

Apesar dos eventuais componentes psicodinâmicos inconscientes implicados no ato impulsivo patológico, não se deve negar a possível existência de ações impulsivas dependentes de mecanismos neurofisiológicos, isto é, orgânicos, responsáveis pela momentânea supressão da função reguladora do córtex sobre as formações mesodiencefálicas e a conseqüente liberação dos automatismos, dos atos irrefletidos, disparatados ou absurdos.

Impulsos Agressivos-Destrutivos
Vejamos agora os impulsos que podem ser qualificados de agressivo-destrutivos englobados nas classificações atuais como fazendo parte do Transtorno Explosivo Intermitente (DSM.IV). Tais impulsos, esporádicos ou iterativos, tanto podem fazer-se contra objetos como contra pessoas, inclusive a própria, configurando assim todas as formas e graus de hetera e auto-agressividade, passíveis de observação. Trata-se de um fracasso em resistir a impulsos agressivos, resultando em sérias agressões e destruição de propriedade.

A característica essencial do Transtorno Explosivo Intermitente é a ocorrência de episódios definidos de fracasso em resistir a impulsos agressivos, acarretando sérios atos agressivos ou a destruição de propriedades. O grau de agressividade expressada durante um episódio é amplamente desproporcional a qualquer estressor desencadeante .

O portador de Transtorno Explosivo Intermitente pode descrever os episódios agressivos como surtos ou ataques nos quais o comportamento explosivo é precedido por um sentimento de tensão ou excitação, sendo imediatamente seguido por uma sensação de alivio. Posteriormente, o paciente pode sentir remorso, arrependimento ou embaraço pelo comportamento agressivo.

Os pacientes portadores de personalidade obsessivo-compulsiva, paranóides ou esquizóides podem estar especialmente propensos a manifestar surtos explosivos de raiva e agressividade quando sob tensão. Esse transtorno impulsivo pode ter como conseqüência prejuízos ocupacionais e escolares, separações conjugais, dificuldades no relacionamento interpessoal, acidentes ou envolvimentos policiais.

Pode haver achado electrencefalográfico inespecífico ou evidência de anormalidade na testagem neuropsicológica em portadores desses transtornos impulsivos, como por exemplo, dificuldade com inversão de letras e lentificação no eletroencefalograma. Sinais de alterações do metabotismo da serotonina também têm sido encontrados no liquor de alguns indivíduos impulsivos e sujeitos a ataques coléricos.

Alguns desses Impulsos Patológicos dirigidos contra pessoas são chamados de episódios de Furor. Eles têm sempre características de subitaneidade é irresistibilidade, independente da existência ou não de motivações externas. Os atentados contra a vida, quando praticados por portadores de Transtorno Explosivo Intermitente ou Impulsivos-Agressivos, notadamente aqueles que surgem durante episódios de Estado Crepuscular, revestem-se, em geral, de grande violência, consumando-se, de súbito, sem prévio aviso ou premeditação, de modo cego, automático, imprevisível, insopitável. Não raro, em meio de um Estado Crepuscular ou de uma crise de Furor ou ainda em plena lucidez e calma aparente, deflagra-se o impulso, durante o qual, todavia, apaga-se quase totalmente a claridade de consciência, donde a amnesia Iacunar consecutiva .

Impulsos suicidas também se observam em pacientes com as caracterísiticas acima e com na mesma natureza de subitaneidade e irresistibilidade, quase sempre sob a forma de precipitação de lugar alto ou sob veículos em marcha, sob o metrô, ateando-se fogo.

Em alguns neuróticos e em personalidades psicopáticas, também podem ocorrer impulsos homicidas e suicidas, quase sempre associados ao ciúme patológico e em momentos de crise passional violenta. Tais episódios transcorrem geralmente com certo grau de obnubilação ou estreitamento da consciência. Também nos esquizofrênicos podem surgir impulsos agressivo-destrutivos importantes, mas quase sempre inusitados, extravagantes e absurdos. Auto-mutilações, inclusive a castração, e mesmo suicídios que se processam por meios quase sempre estranhos e surpreendentes. Nos estados depressivos graves a agressividade é, quase sempre, voltada contra si mesmo.

Frangofilia
Dentre os impulsos dirigidos contra objetos, destacamos a chamada Frangofilia, o impulso ao estraçalhamento de roupas, vestes, travesseiros, colchões, móveis, etc., numa expressão de hostilidade ativa e incontida ao mundo material. A Frangofilia pode ocorrer nos episódios de euforia do Transtorno Afetivo Bipolar, no caso de oligofrênicos, na agitação catatônica e em estados demenciais, senis e pré-senis. Quando ocorre na excitação maníaca a Frangofilia transcorre sem obnubilação da consciência.

Outras vezes, o impulso tem caráter seletivo e simbólico por deslocamento afetivo, a exemplo do que se verifica em certas personalidades desajustadas ou imaturas especialmente de tipo histérico, ou em personalidades explosivas e paranóides, todos eles propensos a ruminações de sentimentos de humilhação e de vingança, seguidos de explosões irrefreáveis. Em tais casos, o impulso agressivo se desloca, em função quase sempre da covardia moral ou da debilidade física do indivíduo, condições que desestimulam a ação pessoal direta contra o próximo, a quem originalmente se dirigia a agressividade.

Piromania
Piromania
é o impulso a atear incêndios, entretanto, isso não significa que todo incendiário seja um pirômano. A verdadeira piromania é rara em sua forma típica. Alguns casos ocorrem em oligofrênicos que ateiam incêndios apenas pelo prazer de ver a chama. Uma incidência mais alta pode ser vista na epilepsia psicomotora ou não-convulsiva e em personalidades psicopáticas.

Nolan Lewis e Yarnell, num dos trabalhos mais completos e bem documentados sobre o assunto, segundo Nobre de Melo, notaram que a grande maioria dos casos de Piromania resultavam da expressão final de conflitos neuróticos agudos, com forte ansiedade paroxística e que culminaram numa descarga impulsiva, não raro facilitada pelo abuso ocasional ou intencional de bebidas alcoólicas.

A característica essencial da Piromania, segundo o DSM.IV, é a presença de múltiplos episódios de provocação deliberada e proposital de incêndios. Os indivíduos com este transtorno experimentam tensão ou excitação afetiva antes de provocarem um incêndio e existe uma fascinação, interesse, curiosidade ou atração pelo fogo e seus contextos situacionais.

Os pirômanos costumam ser espectadores regulares de incêndios nos arredores, podem acionar alarmes falsos contra incêndio e podem sentir prazer a partir de instituições, equipamentos e pessoal associados com incêndios. O comportamento incendiário não visa obter ganhos monetários, expressar uma ideologia sócio-política, encobrir uma atividade criminosa, expressar raiva ou vingança, melhorar as próprias condições de vida, nem são em resposta a um delírio ou uma alucinação.

Dromomania
Outro Impulso Patológico é chamada Dromomania ou Poriomania, que às vezes se efetua sob a forma de fuga, de automatismo deambulatório; outras vezes, de simples corrida súbita, imotivada e precipitada (fenômeno que caracteriza a chamada crise procursiva, própria das epilepsias ditas psicomotoras). A Dromomania ou Poriomania típica tem sido registrada, sobretudo, nas epilepsias, em certos desajustamentos neuróticos infanto-juvenis, na histeria e, mais raramente, em psicoses orgânicas do tipo tumoral e demência senil.

Dipsomania
Semelhante à Dromomania, pela subitaneidade com que aparece na vida aparentemente normal da pessoa, temos a Dipsomania que é o impulso periódico à ingestão de grandes quantidades de bebidas alcoólicas. Alguns raríssimos casos de Dipsomania são dirigidoa ao consumo impulsivo de qualquer outra substância, inclusive gasolina, querosene, etc. Na Dispomania é característico o paroxismo incoercível com que se processa a ingestão de bebidas alcoólicas, ao mesmo tempo em que não se observam outras contingências associadas ao alcoolismo crônico comum.

O verdadeiro dipsômano é uma pessoa normal, subitamente invadido por um estado de ânimo indefinível e penoso, o qual acaba sempre por arrasta-lo à ingestão copiosa de bebidas alcoólicas, mesmo contra seus desejos e propósitos. Pode beber um dia inteiroou durante vários dias ou semanas, ininterruptamente. Em dado instante, quase sempre bruscamente e após um sono prolongado, a crise é superada e a pessoa volta à situação anterior de normalidade, normalmente com amnésia do ocorrido.

A Dipsomania era, anteriormente, considerado um transtorno de natureza epiléptica mas, atualmente já tem sido identificado também em pacientes neuróticos, em quadros depressivos graves, no início das esquizofrenias e em algumas afecções orgânicas do sistema endócrino, especialmente da hipófise.

Cleptomania
Cleptomania é o impulso ao roubo de objetos alheios, pouco importando o valor do objeto em si. Segundo o DSM.IV, a característica essencial da Cleptomania é o fracasso recorrente em resistir a impulsos de furtar objetos, embora esses não sejam necessários para o uso pessoal ou por seu valor monetário. Esse transtorno é singularmente mais freqüente no sexo feminino, manifesta-se de preferência à época do período pré-menstrual e durante a gravidez, o que levou certos autores a admitirem a conivência de um fator endócrino, jamais demonstrado todavia.

A verdadeira Cleptomania pode ser considerado um ato compulsivo, precedido de forte ansiedade, que somente se alivia após a sua consumação, quando o paciente sente satisfação ou alívio ao cometer o furto. Portanto, fisiopatologicamente poderíamos incluir a Cleptomania dentro dos Transtornos Obsessivos-Compulsivos.

Às vezes, o portador de Cleptomania pode colecionar os objetos furtados ou devolvê-los disfarçadamente depois. Embora esses pacientes evitem furtar quando uma detenção imediata é provável, quando um policial está por perto, por exemplo, eles não costumam planejar seus furtos de antemão nem levam em conta as chances de serem presos.

Nos casos de Cleptomania chamada de Ego-distônica, caso onde o paciente não aprova suas próprias atitudes, os roubos são seguidos de depressão e arrependimento.

Jogo Patológico
A característica essencial do Jogo Patológico é um comportamento de inclinação irresistível ao jogo, recorrente e persistente, capaz de perturbar os planos e empreendimentos pessoais, familiares ou ocupacionais. O portador de Jogo Patológico pode manter uma preocupação com o jogo e suas circunstâncias, como por exemplo, planejar a próxima sessão de jogatina, pensar em modos de obter dinheiro para jogar, etc.

Como boa parte dos pacientes com Jogo Patológico afirma estar mais em busca de ação ou de excitação do que de dinheiro, propriamente dito, as apostas ou riscos podem ser cada vez maiores para continuarem produzindo o nível de excitação desejado.

Os indivíduos com Jogo Patológico freqüentemente continuam jogando, apesar de repetidos esforços no sentido de controlar, reduzir ou cessar esse comportamento. Pode haver inquietação ou irritabilidade, ao tentar reduzir ou parar de jogar. Alguns pacientes podem ter no jogo uma forma de fugir de seus problemas, dos sentimentos de impotência, de culpa, ansiedade ou depressão.

Normalmente esses pacientes desenvolvem um certo padrão de recuperação das perdas de seus jogos e, em conseqüência disso, desenvolvem uma necessidade impulsiva de continuar jogando. Embora todos os jogadores possam tentar recuperar suas perdas por curtos período, é mais característica a busca de recuperação do prejuízo a longo prazo.

Normalmente o paciente com Jogo Patológico mente para familiares, terapeutas ou outras pessoas na tentativa de encobrir a extensão de seu envolvimento ou de suas perdas com o jogo. Quando não tem mais a quem pedir dinheiro emprestado, alguns pacientes podem recorrer ao comportamento anti-social de fraude, furto ou estelionato para obter mais dinheiro. Os prejuízos do Jogo Patológico pode dar-se no relacionamento social, no emprego e na família. Sérias distorções do pensamento podem estar presentes no Jogo Patológico, como por exemplo, a negação, apego exagerado à superstições, excesso de confiança ou sentimentos de poder e controle.

Muitos indivíduos com Jogo Patológico acreditam que o dinheiro é tanto a causa quanto a solução para todos os seus problemas. São também pessoas altamente competitivas, cheias de energia, inquietas e facilmente entediadas.

Estados de Excitação
No Transtorno Afetivo Bipolar os Estados de Excitação são caracterizados pela elevada quantidade, multiplicidade e velocidade da atividade psicomotora. O paciente exagera em suas atividades comunicativas, fala muito, gesticula muito, grita, dança, corre, salta, pode rasgar as vestes (Frangofilia) e destruir objetos que encontra ao seu alcance.

O Estado de Excitação não é caótico, e os movimentos são realizados com determinado objetivo, representando a expressão de uma necessidade de atividade. Os gestos e atitudes do paciente, assim como seus movimentos expressivos, são adequados aos pensamentos, ao estado de ânimo e aos desejos existentes em cada momento. Nesses casos, a agitação motora é acompanhada de elevação do humor e de aceleração do ritmo do pensamento.

A Excitação pode também aparecer nos casos orgânicos, quando então diferem algo da agitação maníaca. Nos casos orgânicos não há multiplicidade de movimento, havendo grande tendência à repetitividade e à estereotipia da linguagem. A excitação orgânica se caracteriza pela tendência caótica dos movimentos e execução de atos sem qualquer objetivo. Pode ser possível observar-se nesses pacientes com lesões orgânicas cerebrais, a existência de sintomas fociais, distúrbios da linguagem, contração de grupos musculares ou outros sintomas neurológicos.

A Excitação costuma aparecer inesperadamente e vir em forma de crises passageiras na esquizofrenia. Na esquizofrenia catatônica, por exemplo, o quadro de agitação chama-se Excitação Catatônica, e se caracteriza por uma série de movimentos extravagantes, intempestivos, bizarros e despropositados. Nessas crises o paciente pode correr de um lado para outro, gritar, insultar, agredir, morder e destruir os objetos ao seu alcance. Evidentemente essas crises não têm motivação psicológica e, procurando saber com os pacientes o porquê de tais crises, eles nos dizem somente que se sentiam obrigados a agir daquela maneira.

Na epilepsia psicomotora podemos observar agitação que se acompanha de obnubilação da consciência, alucinações e idéias deliróides. Em alguns casos de excitação epiléptica, os enfermos podem se tornar extraordinariamente perigosos, agressivos e violêntos. Como vimos acima, esses quadros chamam-se Crises de Furor. Acompanha-se de sentimentos angustiosos ou de ira, que podem conduzir a ações brutais contra si ou contra as pessoas do ambiente. Essa Excitação surge de modo súbito e costuma desaparecer rapidamente mas, em alguns poucos casos pode durar alguns dias.

Estereotipias
As Estereotipias são definidas como a impulsos motores de duração anormal, quer se trate da contração permanente de um certo grupo de músculos, quer da repetição freqüente de um mesmo movimento. Quando a estereotipia implica na duração anormal da ausência de movimentos são chamadas de estereotipias acinéticas, quando então os pacientes ficam na mesma posição durante um longo tempo. Isso se pode observar em pacientes com catatonia.

Nos casos onde existem repetitividade de movimentos, chamados de estereotipias de movimento ou paracinéticas, o paciente realiza de forma constante um dado movimento, qualquer que seja ele, durante muito tempo. Esses movimentos podem ser mais simples ou mais elaborados, podem variar desde simples movimentos dos dedos até marchas estereotipadas. Em geral, o mesmo doente conserva, de maneira constante, por anos seguidos, os mesmos movimentos estereotipados desde o início.

Alguns autores consideram os maneirismos esquizofrênicos como uma modalidade especial de estereotipia. Consistem os maneirismos numa alteração dos movimentos expressivos; as atitudes, as expressões mímicas, a entonação da voz e os gestos se tornam afetados, extravagantes.

 

Ballone GJ - Alterações da Atividade Voluntária in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2008



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TOC e Jogo Patológico
No XX Congresso Brasileiro de Psiquiatria (2002), Corregiari, Cabral, Bernik, Bravo do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria, HC-FMUSP, apresentaram um trabalho sobre as características clínicas e epidemiológicas de pacientes com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) resistente aos antidepressivos inibidores de recaptação de serotonina

Para o TOC foram pesquisados 8 homens com idade de 37+-8 anos, 88% brancos e 12% pardos. Estado civil: 100% eram solteiros com média de 11 anos de estudo e 75% com situação trabalhista desempregado, 12,5% empregados e 12,5% aposentados. A idade de início da doença foi de 17 +-8 anos.

O curso da doença em 75%, foi de manifestações episódicas com períodos de melhora parcial e 25% fásico com períodos de remissão. Os autores concluíram que a predominância em homens contrasta com os dados da literatura, a qual sugere prevalência semelhante entre nos dois sexos.

No XX Congresso Brasileiro de Psiquiatria foi apresentado "Um Estudo Piloto Sobre a Prevalência de Jogo Patológico em São Paulo", de autoria de Oliveira, Bizeto, Carvalho, Collakis, Cravo, Lobato, Moura e Steigledel do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. O objetivo foi verificar a freqüência de jogo patológicos (JP) em uma amostra da população do município de São Paulo e caracterizá-la quanto a variáveis sócio-demográficas e comportamentos relacionados a jogos de azar.

Foram entrevistadas 73 pessoas em uma estação ferroviária metropolitana na cidade de São Paulo. A maioria dos entrevistados era do sexo masculino (83,6%), casada (60,3%), católica (58,9%), trabalhava regularmente (68,5%), com grau de escolaridade elevado (mais de 8 anos de educação, 58,9%).

A média de idade foi de 36 anos e a renda familiar aproximada foi de R$1.914,28. Observou-se uma importante freqüência de jogadores patológicos na amostra da pesquisa, em níveis superiores tos descritos na literatura.

Outro trabalho, de Oliveira, Bizeto, Carvalho, Collakis e Korn, de 2002, mostrou que a maioria dos JP era do sexo masculino (62%), casada (64,7%), católica (68%), trabalhava regularmente (57,5%), com grau de escolaridade elevado (mais de 8 anos de educação, 61,4%).

A média de idade foi de 42 anos (dp = 10) e a mediana da renda familiar foi de R$ 2000,00. A escala SOGS teve pontuação média de 13,24 (dp = 3,44). Os jogos mais praticados na vida foram bingo (96,6%), loteria (94,6%), jogos eletrônicos (80,4%), jogos de carta a dinheiro (68,5%) e esportes (66,4%), sendo que a procura por tratamento deveu-se, principalmente, a problemas relacionados a bingo e jogos eletrônicos.

Grande parte chegou ao tratamento endividada (79,2%), sendo que 25% relatou já ter cometido algum ato ilícito para obter dinheiro para jogar. Dos JP 51,1% já pensou em se matar e 17,7% relatou já ter tentado suicídio.

Tiraram como conclusão que os jogadores procuram ajuda quando se encontram bastante comprometidos. Os autores enfatizam a necessidade de pesquisas sobre prevalência de jogo patológico e sobre o perfil do jogador brasileiro para subsidiar estratégias de prevenção e de tratamento mais eficazes. (Fonte: Revista Brasileira de Psiquiatria, vol.24, suppl.2,São Paulo, Oct. 2002)

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TOC
Ricardo Alexandre Bayão Santos fala sobre Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) na internet. Escolhemos um trecho que diz o seguinte:

"Mais de 50% dos pacientes com TOC experimentam um início súbito dos sintomas e 50 a 70% dos pacientes têm início dos sintomas após um acontecimente estressante.

O transtorno em questão não se deve a efeitos de drogas ou condição médica geral.

A pessoa que sofre de TOC sente um forte desejo de lhe resistir. Entretanto, cerca da metade dos pacientes oferece pouca resistência à compulsão.

Aproximadamente 80% dos pacientes percebem que a compulsão é irracional ou absurda.

A obsessão mais comum é a de contaminação seguida de lavagens ou de fuga compulsiva do objeto (fezes, urina, poeira) supostamente contaminado.

A segunda obsessão mais comum é a dúvida seguida de uma compulsão de verificação (achar que esquecer de desligar o fogão e voltar várias vezes em casa para verificar).

O terceiro padrão mais comum é o de pensamento obsessivo meramente intrusivo sem uma compulsão.

Essa obsessão, geralmente, consiste de pensamentos repetitivos sobre algum ato sexual ou agressivo repreensível aos olhos do paciente.

O quarto padrão mais comum é a necessidade de simetria ou precisão, que pode levar a uma compulsão de lentidão.

Em 50% dos casos existem sintomas depressivos associados."
veja tudo
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Obsessões, Compulsões e Fobias
Obsessões são pensamentos ou idéias (p. ex. dúvidas), impulsos, imagens, cenas, que invadem a consciência de forma repetitiva, persistente e estereotipada seguidos ou não de rituais destinados a neutralizá-los. São experimentados como intrusivos, inapropriados ou estranhos pelo paciente em algum momento, ao longo do transtorno, causando ansiedade ou desconforto acentuados. A pessoa tenta resistir a eles, ignorá-los ou suprimi-los com ações ou com outros pensamentos, reconhecendo-os, no entanto, como produtos de sua mente e não como originados de fora. Não são simplesmente medos exagerados relacionados com problemas reais.

Compulsões são comportamentos repetitivos (p.ex.lavar as mãos, fazer verificações), ou atos mentais (rezar,contar, repetir palavras ou frases) que a pessoa é levada a executar em resposta a uma obsessão ou em virtude de regras que devem ser seguidas rigidamente. Os comportamentos ou atos mentais são destinados a prevenir ou reduzir o desconforto gerado pela obsessão, prevenir algum evento ou situação temidos e em geral não possuem uma conexão realística ou direta com o que pretendem evitar, ou são claramente excessivos .

A Fobia é um sentimento de medo que se intromete persistentemente no campo da consciência e se mantém aí independentemente do reconhecimento de seu caráter absurdo. A característica essencial da Fobia consiste num temor patológico que escapa à razão e resiste a qualquer espécie de objeção, temor este dirigido a um objeto (ou situação) específico .

A Fobia é um medo específico intenso o qual, na maioria das vezes, é projetado para o exterior através de manifestações próprias do organismo. Essas manifestações normalmente tocam ao sistema neurovegetativo, tais como: vertigens, pânico, palpitações, distúrbios gastrintestinais, sudorese e perda da consciência por lipotimia. As manifestações autossômicas externadas pela fobia têm lugar sempre que o paciente se depara com o objeto (ou situação) fóbico.

O pensamento fóbico é tão automático quanto o obsessivo e o paciente tem plena consciência do absurdo de seus temores ou, ao menos, sabem-no como completamente infundados na intensidade que se manifestam. Resistem, os temores, a qualquer argumentação sensata e lógica. Aliás, o medo só será fóbico quando considerado injustificável pelo próprio paciente e, concomitantemente, for capaz de produzir reações adversas comandadas pelo sistema nervoso autônomo.
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