Friederich Perls

A escola gestáltica causou enorme impacto em todo o campo da psicologia na metade do século XX.
| Teorias da Personalidade |


A teoria da Gestalt desenvolveu-se como protesto contra a análise atomística vigente no final do século XIX. A análise atomística tentava compreender a experiência da pessoa de forma que os elementos dessa experiência eram reduzidos aos seus componentes mais simples, sendo que cada componente era analisado separadamente dos outros e, a experiência total era entendida como uma soma destes componentes.

A chamada Gestalt-terapia surge no início da década de 50, a partir das reflexões de Friederich Perls, um psicanalista nascido em Berlim em 1893, que emigrou durante a década de 40 para a África do Sul e posteriormente para os Estados Unidos da América, onde juntamente com um grupo de intelectuais norte-americanos desenvolveu esta nova abordagem.

Crescimento Psicológico
Perls definia a saúde e a maturidade psicológicas como sendo a capacidade de emergir do apoio e da regulação ambientais para um auto-apoio e uma auto-regulação. O processo terapêutico representa um esforço na direção desta emergência. O elemento crucial no auto-apoio e na auto-regulação é o equilíbrio. Uma das proposições básicas da teoria da Gestalt é que todo organismo possui a capacidade de realizar um equilíbrio ótimo consigo e com seu meio. As condições para realizar este equilíbrio envolvem uma conscientização desobstruída da hierarquia de necessidades, que descrevemos anteriormente.

Uma apreciação plena desta hierarquia de necessidades só pode ser realizada através da conscientização que envolve todo organismo, uma vez que necessidades são experienciadas por cada parte do organismo e sua hierarquia é estabelecida por meio de sua coordenação.
Perls considera o ritmo de contato/fuga com o meio ambiente como componente principal do equilíbrio do organismo. A imaturidade e a neurose implicam uma percepção impropria do que constitui este ritmo ou uma incapacidade de regular seu equilíbrio.

Indivíduos auto-apoiados e auto-regulados se caracterizam pelo livre fluir e pelo delineamento claro da formação figura-fundo (definição de sentido) nas expressões de suas necessidades de contato e retraimento. Tais indivíduos reconhecem sua própria capacidade de escolher os meios de satisfazer necessidades à medida que estas emergem. Têm consciência das fronteiras entre e eles mesmos e os outros e estão particularmente conscientes da distinção entre suas fantasias sobre os outros (ou o ambiente) e o que experienciam através do contato direto.

Psicologia da Gestalt
Embora não haja equivalente preciso em português para a palavra alemã gestalt, o sentido mais geral que se pode dar ao termo seria uma espécie de disposição ou configuração de uma organização específica das partes que constituiria um todo particular.

O princípio mais importante da abordagem gestáltica é a afirmação de que a análise das partes nunca pode proporcionar uma compreensão do todo, uma vez que o todo será definido pelas interações e interdependências das partes. As partes de uma gestalt não mantêm sua identidade quando estão separadas de sua função e lugar no todo. Assim sendo, a teoria da Gestalt foi inicialmente formulada no final do século XIX na Alemanha e Áustria.

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Em 1912, Max Wertheimer publicou um trabalho considerado o fundamento da escola gestáltica, onde descrevia um experimento executado por Wertheimer e seus colegas, planejado para explorar certos aspectos da percepção do movimento. Numa sala escura, eles faziam reluzir em rápida sucessão dois pontos de luz próximos um do outro, variando os intervalos de tempo entre os clarões. Descobriram que quando o intervalo entre os clarões era menor que 3/100 de segundo, eles pareciam simultâneos. Quando o intervalo era de 6/100 de segundo, o observador dizia ver o clarão mover-se do primeiro ponto ao segundo. Quando o intervalo era de 20/100 de segundo ou mais, os pontos de luz foram observados como o eram de fato, ou seja, dois clarões de luz separados.

A descoberta crucial do experimento refere-se à percepção de movimento quando os clarões estavam separados por aproximadamente 6/100 de segundo. O movimento aparente não era função dos estímulos isoladamente, mas dependia das características relacionadas à organização neural e perceptiva do campo.

Os resultados deste experimento levaram a algumas reformulações fundamentais no estudo da percepção e, durante as décadas de vinte, trinta e quarenta do nosso século, a teoria da Gestalt foi aplicada ao estudo da aprendizagem, resolução de problemas, motivação, psicologia social e, até certo ponto, à teoria da personalidade.

A escola gestáltica causou enorme impacto em todo o campo da psicologia. Na metade do século XX, a abordagem desta escola tinha-se tornado tão intrínseca à corrente central da psicologia que a noção de um movimento gestáltico por si próprio e emancipado deixou de existir. Uma contribuição importante dos adeptos da Gestalt refere-se à exploração da maneira como as partes constituem e estão relacionadas com um todo.

Além disso, a teoria da Gestalt ofereceu algumas sugestões a respeito dos modos pelos quais os organismos se adaptam para alcançar sua organização e equilíbrio ótimos. Um aspecto desta adaptação envolve a forma pela qual um organismo torna suas percepções significativas, a maneira pela qual distingue figura do fundo. A escola gestáltica estendeu o fenômeno figura-fundo para descrever a maneira pela qual um organismo seleciona o que é ou não é de seu interesse num dado momento. Para um homem sedento, um copo de água colocado entre seus pratos favoritos emerge como figura principal contra o fundo menos importante constituído pela comida. A percepção adapta-se à necessidade, capacitando-nos a satisfazer nossas necessidades. Uma vez satisfeita a sede do exemplo, sua percepção da pessoa sobre o que é figura e o que é fundo provavelmente se modificará, de acordo com as mudanças nos interesses e necessidades dominantes.

Embora, por volta de 1940 a teoria da Gestalt já tivesse sido aplicada em muitas áreas da psicologia, foi em grande parte ignorada no exame da dinâmica da estrutura da personalidade e do crescimento pessoal. Além do mais, ainda não havia nenhuma formulação de princípios da Gestalt específicos para psicoterapia. Assim, a partir desse ponto podemos começar a ver o papel de Fritz Perls, responsável pela ampliação da teoria da Gestalt na psicoterapia e de uma teoria de mudança psicológica.

A abordagem gestáltica inspirou-se em formulações da psicologia e da filosofia, adotando alguns referenciais, tais como, a percepção gestáltica de que "o todo é diferente da soma das partes". A percepção gestáltica propõe que todo fenômeno psíquico seja visto como um todo, em suas relações e dinamismos.

Por essa razão a Gestalt não considera o comportamento da pessoa isoladamente. Ela procura explorar a situação em que se deu, sua importância e significado naquele momento e situação. Considera o homem como um ser em relação, seu organismo é um sistema em equilíbrio, ou em constante busca de equilíbrio e auto-regulação em sua relação com o meio. O terapeuta gestáltico é especialmente atento à forma como se expressa o cliente, não só em termos de verbalização, mas também em termos de linguagem gestual, corporal. motora. Perls mostra que a agressividade também desempenha um papel construtivo na maneira como a pessoa se relaciona com o mundo e consigo mesma.

Existencialismo e Fenomenologia
Perls descreveu a Gestalt-terapia como uma terapia existencial, baseada na filosofia existencial e utilizando-se de princípios considerados existencialistas e fenomenológicos. Embora a Gestalt-terapia não se tenha desenvolvido diretamente a partir de antecedentes fenomenológicos e existenciais particulares, vários aspectos do trabalho de Perls equiparam-se àqueles desenvolvidos em muitas escolas do existencialismo e fenomenologia. A influência destas escolas foi difusa, porém substancial.

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Em geral, Perls contestava de forma ferrenha a idéia de que se poderia abranger o estudo do ser humano através de uma abordagem científico-natural-mecanicista inteiramente racional, como recomendava o positivismo. A partir disso, Perls associou-se à maioria dos existencialistas, insistindo que o mundo vivencial de um indivíduo só pode ser compreendido por meio da descrição direta que o próprio indivíduo faz de sua situação única.

Do mesmo modo, Perls sustentou que o encontro do terapeuta com um paciente, constitui um encontro existencial entre duas pessoas e não uma variante do clássico relacionamento médico-paciente. O primeiro livro publicado por Friederich Perls, antes mesmo do nascimento da Gestalt-terapia, foi "The Ego, Hunger and Aggression"(1942), onde expressa de forma condensada sua crítica à teoria de Freud.

A idéia de que mente e corpo constituem dois aspectos diferentes da existência diferentes e completamente separados, era uma noção que Perls, assim como os existencialistas, achavam intolerável. De acordo com suas objeções, assim como não poderia haver cisão entre mente e corpo, abandonou também a idéia da cisão entre sujeito e objeto e, mesmo, a da cisão entre organismo e meio.

Ao invés de considerar que cada ser humano encontra um mundo que ele experiencia como sendo completamente separado de si mesmo, Perls acreditava que as pessoas criam e constituem seus próprios mundos. Dessa forma o mundo existe para um dado indivíduo como sua própria descoberta do mundo.

O conceito de intencionalidade é básico, tanto para o existencialismo e fenomenologia quanto para o trabalho de Perls. A mente ou consciência é entendida como intenção e não pode ser compreendida à parte do que é pensado ou pretendido. Os sentidos dos atos psíquicos ou intenções devem ser alcançados em seus próprios termos, fenomenologicamente, e em termos de sua própria intenção particular. Assim, a crítica existencialista da noção freudiana de instintos é a mesma de Perls, e a libido constitui um ato psíquico, nem mais básico nem mais universal que qualquer outro. Todo ato psíquico é intenção, e toda intenção deve ser compreendida em seus próprios termos, e não em termos de um ato psíquico mais básico.

Entre o pensamento existencialista, dois temas são da maior importância; a experiência do nada e a preocupação com a morte e o medo. Ao examinar a visão que Perls tem da neurose, veremos que esses mesmos temas também constituem elementos importantes em sua teoria sobre o funcionamento psicológico.

O método fenomenológico de compreender através da descrição é básico no pensamento de Perls. Todas as ações implicam escolha, todos os critérios, de escolha são eles próprios selecionados e explanações causais não são suficientes para justificar as escolhas ou ações de alguém. Além disso, a confiança fenomenológica na intuição para o conhecimento das essências assemelha-se à confiança de Perls naquilo que ele chama de inteligência ou sabedoria natural do organismo.

Finalmente, o próprio modo de Perls propor sua abordagem inclui, como qualquer descrição fenomenológica, as características fenomenológicas e existenciais descritas acima. Seus livros não são argumentações descrevendo um ponto de vista particular, uma vez que, na estrutura fenomenológica, a argumentação perde o sentido a não ser que o leitor, fora do contexto de sua própria experiência, decida aceitar as premissas de Perls desde o início. O estilo de Perls é imaginativo e pessoal, e sua tentativa é existencial no sentido em que propõe uma teoria do desenvolvimento psicológico que é inseparável do envolvimento de Perls com seu próprio desenvolvimento.

O Organismo como um Todo
Um conceito fundamental subjacente ao trabalho de Perls tem sua formulação explícita, como vimos, a partir do trabalho dos psicólogos da Gestalt. Na teoria de Perls, a noção de organismo como um todo é central, tanto em relação ao funcionamento orgânico quanto à participação do organismo em seu meio para criar um campo único de atividades.

No contexto do funcionamento intra-orgânico, Perls insistia em que os seres humanos são organismos unificados e em que não há nenhuma diferença entre o tipo de atividade física e mental. Perls definia atividade mental como atividade da pessoa toda que se desenvolve num nível mais baixo de energia que a atividade física.

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Esta concepção dos níveis de atividades do comportamento humano levou Perls a sugerir que qualquer aspecto do comportamento de um indivíduo pode ser considerado como uma manifestação do todo, do ser total da pessoa. Assim sendo, na terapia, o que o paciente faz ou como ele se movimenta, fala e assim por diante, fornece tanta informação a seu respeito quanto o que ele pensa ou diz.


Esta concepção dos níveis de atividades do comportamento humano levou Perls a sugerir que qualquer aspecto do comportamento de um indivíduo pode ser considerado como uma manifestação do todo, do ser total da pessoa. Assim sendo, na terapia, o que o paciente faz ou como ele se movimenta, fala e assim por diante, fornece tanta informação a seu respeito quanto o que ele pensa ou diz.

Além do holismo ao nível orgânico, Perls acentuou a importância do fato de considerar o indivíduo como parte perene de um campo mais amplo, o qual inclui o organismo e seu meio. Assim como Perls protestava contra a noção de divisão corpo-mente, protestava também contra a divisão interno-externo. Ele considerava que a questão das pessoas serem dirigidas por forças internas ou externas não tinha nenhum sentido em si, uma vez que os efeitos causais de um são inseparáveis dos efeitos causais do outro.

Há, no entanto, um limite de contato entre o indivíduo e seu meio e é esse limite que define a relação entre eles. Num indivíduo saudável este limite é fluido, sempre permitindo contato e depois afastamento do meio. Contatar constitui a formação de uma gestalt e afastar-se representa seu fechamento. Num indivíduo neurótico as funções de contato e afastamento estão perturbadas, e ele se encontra frente a um aglomerado de gestalten que estão de alguma forma inacabadas ou nem plenamente formadas nem plenamente fechadas.

Perls sugeriu que as pistas para este ritmo de contato e afastamento são ditadas por uma hierarquia de necessidades. As necessidades dominantes emergem como ou figura contra o fundo da personalidade total. A ação efetiva é dirigida para a satisfação de uma necessidade dominante. Os neuróticos são freqüentemente incapazes de perceber quais de suas necessidades são dominantes ou de definir sua relação com o meio, de forma a satisfazer tais necessidades. Assim, a neurose acarreta alterações nos processos funcionais de contato e afastamento, e acabam causando uma distorção na existência do indivíduo enquanto organismo unificado.

Ênfase no Aqui e Agora
A visão holística levou Perls a dar ênfase particular à importância da auto-percepção presente e imediata que um indivíduo tem de seu meio. Os neuróticos são incapazes de viver no presente, pois carregam cronicamente consigo situações inacabadas (gestalten incompletas) do passado. Sua atenção é, pelo menos em parte, absorvida por essas situações e eles não têm nem consciência nem energia para lidar plenamente com o presente.

Visto que a natureza destrutiva destas situações inacabadas aparece no presente, os indivíduos neuróticos sentem-se incapazes de viver com sucesso. Assim, a Gestalt-terapia não investiga o passado com a finalidade de procurar traumas ou situações inacabadas, mas convida o paciente simplesmente a se concentrar para tornar-se consciente de sua experiência presente, pressupondo que os fragmentos de situações inacabadas e problemas não resolvidos do passado emergirão inevitavelmente como parte desta experiência presente. À medida que estas situações inacabadas aparecem, pede-se ao paciente que as represente e experimente de novo, a fim de completá-las e assimilá-las no presente.

Perls definiu ansiedade como a lacuna, a "tensão entre o agora e o depois". A inabilidade das pessoas para tolerar essa tensão, sugeria Perls, leva-as a preencher a lacuna com planejamentos, ensaios e tentativas de tornar o futuro seguro. Isto não apenas desvia a energia e a atenção do presente, criando assim situações inacabadas perpetuamente, mas também impede o tipo de abertura para o futuro, decorrente do crescimento e da espontaneidade.

Além da natureza estritamente terapêutica deste enfoque ligado à conscientização do presente, uma tendência subjacente ao trabalho de Perls é a apologia de viver com a atenção voltada para o presente, ao invés do passado ou futuro, como algo bom que leva ao crescimento psicológico. Aqui vemos mais uma vez como o trabalho psicológico de Perls está fortemente baseado num contexto filosófico, num tipo de weltanschauung que pressupõe que a experiência presente de uma pessoa, num dado momento, é a única experiência presente possível e que a condição para se sentir satisfeito e realizado a cada momento da vida é a simples aceitação sincera desta experiência presente.

A preponderância do Como sobre o Porquê
Uma conseqüência natural da orientação fenomenológica de Perls e de sua abordagem holística é a ênfase na importância da compreensão da experiência de uma maneira descritiva e não causal. Estrutura e função são idênticas e se um indivíduo compreende como faz alguma coisa, esta pessoa está na posição de compreender a ação em si. Segundo Perls, o determinante causal, ou seja, o porquê da ação, é irrelevante para qualquer compreensão plena da mesma.

Perls considera que toda ação tem causas múltiplas, assim como toda causa tem causas múltiplas, e as explicações de tais causas nos distanciam mais e mais da compreensão do ato em si. Além disso, uma vez que todo elemento da existência de alguém só pode ser compreendido como parte de uma das várias gestalten, não há qualquer possibilidade deste elemento ser compreendido como sendo "causado" separadamente de toda a matriz de causas da qual participa. Uma relação causal não pode existir entre elementos que formam um todo; todo elemento causa e é causado por outros. Assim, na prática da Gestalt-terapia, a ênfase está em ampliar constantemente a consciência da maneira como a pessoa se comporta, e não em esforçar-se para analisar a razão pela qual a pessoa se comporta de tal forma.

Conscientização
Os três principais conceitos da abordagem de Perls examinados até agora, o organismo como um todo, a ênfase no aqui e agora, e a preponderância do Como sobre o Porquê, constituem os fundamentos para entender a conscientização, o ponto central de sua abordagem terapêutica. O processo de crescimento, nos termos de Perls, é um processo de expansão das áreas de autoconsciência e o fator mais importante que inibe o crescimento psicológico é a fuga da conscientização.

Perls acreditava plenamente no que ele chamava de sabedoria do organismo. Considerava o indivíduo maduro e saudável um indivíduo auto-apoiado e auto-regulado. Via o cultivo da autoconscientização como sendo dirigido para o reconhecimento da natureza auto-reguladora do organismo humano. Segundo a teoria da Gestalt, Perls sugeriu que o princípio da hierarquia e necessidades está sempre operando na pessoa. Em outras palavras, a necessidade mais urgente, a situação inacabada mais importante, sempre emerge se a pessoa estiver simplesmente consciente da experiência de si mesma a todo momento.

Perls desenvolveu a noção de um continuum de consciência como um meio de encorajar esta autoconscientização. Manter um continuum de consciência parece demasiadamente simples, apenas estar consciente do que estamos experienciando a cada instante. No entanto, a maioria das pessoas interrompe o continuum quase de imediato, e esta interrupção em geral é causada pela conscientização de algo desagradável.

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Perls desenvolveu a noção de um continuum de consciência como um meio de encorajar esta autoconscientização. Manter um continuum de consciência parece demasiadamente simples, apenas estar consciente do que estamos experienciando a cada instante. No entanto, a maioria das pessoas interrompe o continuum quase de imediato, e esta interrupção em geral é causada pela conscientização de algo desagradável.

Assim, estabelece-se a fuga em relação a pensamentos, expectativas, recordações e associações de uma experiência à outra. Nenhuma dessas experiências associadas são de fato experienciadas, elas são tocadas de leve, em flashes sucessivos, sem que haja assimilação do material. O sujeito deixa a conscientização desagradável inicial tão fora do contexto quanto o resto do material.

Esta fuga de uma conscientização contínua, esta auto-interrupção, impede o indivíduo de encarar e trabalhar com a conscientização desagradável. Ele ou ela permanece empacado numa situação inacabada. Estar consciente é prestar atenção às figuras perpetuamente emergentes da própria percepção. Evitar a tomada de consciência é enrijecer o livre fluir natural do delineamento figura e fundo.

Perls sugeria que para cada indivíduo existem três zonas de consciência: consciência de si mesmo, consciência do mundo e consciência do que está "entre", um tipo de zona intermediária da fantasia. Ele considerava o exame desta última zona (que impede a conscientização das outras duas) como a grande contribuição de Freud. Sugeriu, contudo, que Freud concentrou-se tão completamente na compreensão desta zona intermediária que ignorou a importância de trabalhar para o desenvolvimento da capacidade de conscientizar-se nas zonas de si mesmo e do mundo. Em contraste, a maior parte da abordagem de Perls inclui uma tentativa muito deliberada de ampliar a conscientização e obter contato direto consigo e com o mundo.

Ao acentuar a natureza do auto-apoio e da auto-regulação do bem-estar psicológico, Perls não quer dizer que o indivíduo pode existir, de algum modo, separado de seu meio ambiente. Na verdade, o equilíbrio orgânico supõe uma constante interação com o meio. O ponto crucial para Perls é que podemos escolher a maneira como nos relacionamos com o meio. Somos auto-apoiados e auto-regulados quanto ao fato de que reconhecemos nossa própria capacidade de determinar como nos apoiamos e regulamos dentro de um campo que inclui muito mais do que nós mesmos.

Perls descreve vários modos pelos quais se realiza o crescimento psicológico. O primeiro envolve o completar situações ou resolver gestalten inacabadas. Ele também sugere que a neurose pode ser vagamente considerada como um tipo de estrutura em cinco camadas, e que o crescimento psicológico (e eventualmente a libertação da neurose) ocorre na passagem através destas cinco camadas.

Perls denomina a primeira camada de camada dos clichês ou da existência dos sinais. Ela inclui todos os sinais de contato: "bom dia", "oi", "o tempo está bom, não é?" A segunda camada é a dos papéis ou jogos. É a camada do "como se" em que as pessoas fingem que são aquelas que gostariam de ser. Assim, o homem de negócios sempre competente, a menininha sempre bonitinha, a pessoa muito importante.

Depois de termos reorganizado essas duas camadas, Perls sugere que alcançamos a camada do impasse, também denominada camada da anti-existência ou do evitar fóbico. Aqui experienciamos o vazio, o nada, é o ponto em que, geralmente, interrompemos nossa tomada de consciência e retrocedemos à camada dos papéis para evitarmos o nada. Se, no entanto, formos capazes de manter nossa autoconsciência neste vazio, alcançaremos a morte ou camada implosiva. Esta camada aparece como morte ou medo da morte, pois consiste numa paralisia de forças opostas. Experienciando esta camada contraimo-nos e comprimimo-nos, ou seja, implodimos.

No entanto, se pudermos ficar em contato com esta morte, alcançare-mos a última camada, a camada explosiva. Perls sugere que a tomada de consciência deste nível constitui a emergência da pessoa autêntica, do verdadeiro self, da pessoa capaz de experienciar e expressar suas emoções. E Perls adverte:

"Agora, não se apavorem com a palavra explosão. A maior parte de vocês sabe dirigir um carro. Existem milhares de explosões por minuto dentro do cilindro. Isto é diferente da violenta explosão do catatônico: esta seria como a explosão num tanque de gasolina. Outra coisa, uma única explosão não quer dizer nada. As assim chamadas quebras de couraça da teoria reichiana tem tão pouca utilidade quanto o insight da psicanálise. As coisas ainda precisam ser trabalhadas."

Existem quatro tipos de explosões que o indivíduo pode experienciar ao emergir da camada da morte. Existe a explosão em pesar, que envolve o trabalho com uma perda ou morte que não tinha sido previamente assimilada. Existe a explosão em orgasmo em pessoas sexualmente bloqueadas. Existe a explosão em raiva, quando sua expressão foi reprimida e, por fim, existe a explosão de alegria e riso, alegria de viver.

A estrutura de nossos papéis é coesiva, pois destina-se a absorver e controlar a energia destas explosões. A concepção errônea básica de que essa energia precisa ser controlada deriva de nosso medo do vazio e do nada (terceira camada). Interpretamos a experiência de um vazio como sendo um vazio estéril e não um vazio fecundo. Perls sugere que as filosofias orientais, a filosofia Zen em particular, têm muito a nos ensinar a respeito da experiência do nada, positiva e geradora de vida, e a respeito da importância de permitirmos a experiência do nada sem interrompê-la.

Em todas suas descrições de como um indivíduo se desenvolve, Perls mantém a idéia de que a mudança não pode ser forçada e que o crescimento psicológico é um processo natural e espontâneo.

Dinâmica Patológica
Perls considera a fuga da conscientização e a conseqüente rigidez da percepção e do comportamento como os maiores obstáculos ao crescimento psicológico. Os neuróticos (aqueles que interrompem seu próprio crescimento) não podem ver claramente suas necessidades e tampouco podem distinguir de forma apropriada entre eles e o resto do mundo. Em conseqüência, são incapazes de encontrar e manter um equilíbrio adequado entre eles próprios e o resto do mundo. A forma que este desequilíbrio geralmente toma é a pessoa sentir que os limites sociais e ambientais penetram muito fundo dentro dela mesma; a neurose consiste em manobras defensivas destinadas ao equilíbrio e proteção contra este mundo invasor.

Perls sugere que existem quatro mecanismos neuróticos básicos, ou distúrbios de limites capazes de impedir o crescimento: introjeção, projeção, confluência e retroflexão. (Na estrutura em cinco camadas da neurose, estes mecanismos de defesa operam basicamente na segunda e terceira camadas).

Entre as teorias de Freud e de Perls alguns dos correlatos podem ser facilmente encontrados. Esses pontos de congruência podem ser vistos: na Catexia de Freud, correspondendo à figura-fundo de Perls; na libido de Freud, correspondendo à excitação básica de Perls; na associação livre de Freud, correspondendo ao continuum de consciência de Perls; na consciência de Freud, conscientização de Perls, no enfoque de Freud na resistência e o enfoque de Perls na fuga da conscientização; na compulsão à repetição de Freud e as situações inacabadas de Perls; na regressão de Freud, correspondendo ao retraimento do meio ambiente de Perls; no terapeuta que permite e encoraja a transferência em Freud, e no terapeuta que é um "habilidoso frustrador" em Perls; na configuração neurótica de defesa contra impulsos de Freud, e na formação rígida da gestalten de Perls; na projeção transferencial de Freud e na projeção de Perls, e assim por dìante.

Introjeção

Introjeção ou "engolir tudo" é o mecanismo pelo qual os indivíduos incorporam padrões, atitudes e modos de agir e pensar que não são deles próprios e que não assimilam ou digerem o suficiente para torná-los seus. Um dos efeitos prejudiciais da introjeção é que os indivíduos introjetivos acham muito difícil distinguir entre o que realmente sentem e o que os outros querem que eles sintam, ou simplesmente o que os outros sentem. A introjeção também pode constituir uma força desintegradora da personalidade, uma vez que quando os conceitos e as atitudes engolidos são incompatíveis uns com os outros, os indivíduos introjetivos se tornarão divididos.

Projeção

Outro mecanismo neurótico é a projeção que, num certo sentido, é o oposto da introjeção. A projeção é a tendência de responsabilizar os outros pelo que se origina no self. Envolve um repúdio de seus próprios impulsos, desejos e comportamentos, colocando fora o que pertence ao self.

Perls chama a atenção para a distinção entre a projeção como processo patológico e a suposição baseada na observação, que é normal e saudável. Na doença a pessoa seria governada pelas projeções, falhando em reconhecê-las como hipóteses, perdendo os próprios limites e confundindo-se em termos de identidade pessoal.

O conceito de projeção enquanto uma disfunção de contato do sujeito com o objeto, tem sido motivo de estudos aprofundados por parte dos teóricos da Gestalt-terapia, desde que Perls a definiu como sendo uma tendência para se desapropriar dos próprios impulsos, uma inclinação em negar e não aceitar as partes da nossa personalidade que consideramos difíceis, ofensivas ou sem atrativos. Com a Projeção esperamos nos livrar de aspectos intoleráveis do self (de nós mesmos) e de nossos conflitos íntimos. A pessoa que projeta não pode aceitar seus sentimentos e ações e por isso os atribui a uma outra pessoa e aí, então, pode reconhecê-los e até criticá-los.

O trabalho do terapeuta é ajudar a pessoa a recuperar pedaços de sua própria identidade, pedaços estes que se encontram projetados muito outros.

Confluência

O terceiro mecanismo neurótico é a Confluência. Na confluência, os indivíduos não experienciam nenhum limite entre eles mesmos e o meio ambiente. A confluência torna impossível um ritmo saudável de contato e de fuga, visto que tanto o primeiro quanto o segundo pressupõem um outro. Este mecanismo também impossibilita a tolerância das diferenças entre as pessoas, uma vez que os indivíduos que experienciam a confluência não podem aceitar um senso de limites e, portanto, a diferenciação entre si mesmo e as outras pessoas.

Retroflexão

O quarto mecanismo neurótico é a retroflexão, que significa voltar-se de forma ríspida contra. As pessoa retroflexoras voltam-se contra si mesmas e, ao invés de dirigir suas energias para mudança e manipulação de seu ambiente, dirigem essas energias para si próprios. Dividem-se e tornam-se sujeito e objeto de todas suas ações e passam a ser o alvo de seu comportamento.

Perls diz que todos estes quatro mecanismos raramente agem isolados um do outro, embora as pessoas tendem a equilibrar suas tendências neuróticas entre esses mecanismos em variadas proporções. A função crucial desses mecanismos é preencher a confusão do neurótico na discriminação de limites. Dada esta confusão de limites, o bem-estar de um indivíduo, ou seja, sua capacidade de ser auto-apoiado e auto-regulado, estaria seriamente limitado.

A visão de Perls destes quatro mecanismos é básica na maior parte de sua abordagem psicoterapêutica. Ele considerava a Introjeção como sendo central na luta entre o dominador e o dominado. O dominador se manifesta por um pacote de padrões e atitudes introjetados e, segundo Perls, enquanto o dominador (ou o Superego, de acordo com Freud) permanece introjetado e não assimilado, as exigências expressas pelo dominador continuarão a ser irracionais e impostas a partir de fora.

Perls sugeria que a Projeção é crucial na formação e compreensão de sonhos. Sob seu ponto de vista, todas as partes de um sonho são projetadas, fragmentos desapropriados de nós mesmos. Todo sonho contém pelo menos uma situação inacabada que envolve estas partes projetadas. Trabalhar com o sonho é recuperar tais partes e, portanto, completar a Gestalt inacabada.

Corpo
Perls
considera a cisão mente-corpo da maioria das psicologias como arbitrária e falaciosa. A atividade mental é simplesmente uma atividade que funciona em nível menos intenso que a atividade física. Assim, nossos corpos são manifestações diretas de quem somos e pela simples observação de nossos comportamentos físicos, tipo postura, respiração, movimentos, etc., podemos aprender muito sobre nós mesmos.

Relacionamento Social
Perls
considera o indivíduo como participante de um campo do qual ele é, embora diferenciado, também inseparável. As funções de contato e fuga são cruciais na determinação da existência de um indivíduo e esse aspecto de contato e fuga do meio ambiente inclui o relacionamento com outras pessoas. Na verdade, o sentido de pertencer a um grupo, segundo Perls, é o nosso principal impulso de sobrevivência psicológica. A neurose resulta da rigidez na definição do limite de contato em relação às outras pessoas e de uma inabilidade em encontrar e manter o equilíbrio com eles.

Vontade
Perls
acentua muito a importância da pessoa estar consciente de suas preferências e ser capaz de agir sobre elas. O conhecimento de suas próprias preferências leva ao conhecimento de suas necessidades; a emergência da necessidade dominante é experienciada como preferência pelo que satisfará a necessidade.

A discussão de Perls sobre preferência está muito próxima do que se chama de vontade. Ao usar o termo "preferência", Perls está enfatizando a qualidade natural e organísmica da vontade saudável. O "querer" é simplesmente uma das várias atividades mentais; acarreta a limitação de consciência a certas áreas específicas a fim de completar um conjunto de ações dirigidas para a satisfação de algumas necessidades determinadas.

Emoções
Perls
considera a emoção como a força que fornece energia a toda ação. Emoções são a expressão de nossa excitação básica, as vias e modos de expressar nossas escolhas, assim como de satisfazer nossas necessidades. A emoção se diferencia de acordo com situações variadas, como por exemplo, pelas glândulas suprarenais em raiva e medo ou pelas glândulas sexuais em libido. A excitação emocional mobiliza o sistema muscular. Se a expressão muscular da emoção for bloqueada, criaremos a ansiedade, que é a contenção da excitação. Uma vez ansiosos, tentamos dessensibilizar nossos sistemas sensoriais a fim de reduzir a excitação criada; é nesse ponto que sintomas como frigidez, se desenvolvem. Essa dessensibilização emocional é a raiz da fuga da conscientização que Perls considera básica na neurose.

Intelecto
Perls
acreditava que o intelecto foi supervalorizado e superutilizado em nossa sociedade, em particular nas tentativas de compreender a natureza humana. Acreditava profundamente no que chamava de sabedoria do organismo, porém via esta sabedoria como sendo um tipo de intuição baseada mais na emoção que no intelecto, e mais em sistemas naturais do que em conceituais.

Perls freqüentemente afirmava que o intelecto foi reduzido a um mecanismo de computação usado para tomar parte numa série de jogos de encaixe. A preocupação em perguntar por que as coisas acontecem impede as pessoas de experienciarem como elas acontecem, assim sendo, a consciência emocional genuína é bloqueada em função do fornecimento de explicações. Explicar, de acordo com Perls, é propriedade do intelecto e constitui muito menos que compreender.

Perls ridiculariza expressões do intelecto, como a produção verbal, por exemplo. Achava esses elementos particularmente supervalorizados em nossa cultura. Ele sugeria existirem três níveis em tal produção: cocô-de-galinha (bate-papo social), cocô-de-boi (desculpas ou racionalizações) e cocô-de-elefante (teorizar, especialmente de modo filosófico e psicológico).

Self
Perls
não tinha nenhum interesse em enaltecer o conceito de self a fim de incluir qualquer coisa além do cotidiano, manifestações óbvias de quem nós somos. Somos quem somos. Maturidade e saúde psicológica envolvem o sermos capazes de proclamar isto, ao invés de sermos tomados pelo sentimento de que somos quem deveríamos ser ou quem gostaríamos de ser. Nossos limites estão constantemente mudando na interação com nossos ambientes. Podemos, dado um certo nível de consciência, confiar em nossa sabedoria organísmica para definir estes limites e dirigir o ritmo de contato e fuga em relação ao meio ambiente.

A noção de "self ou "eu", para Perls, não é estática e objetivável. O "eu" é simplesmente um símbolo para uma função de identificação. O "eu" identifica-se com qualquer que seja a experiência emergente da figura em primeiro plano; todos os aspectos do organismo saudável (sensorial, motor, psicológico e assim por diante) identificam-se temporariamente com a gestalt emergente, e a experiência do "eu" é essa totalidade de identificações. Função e estrutura, como já vimos antes, são idênticas.

Terapeuta
Perls
sugere que o terapeuta é, basicamente, uma tela de projeção na qual o paciente vê seu próprio potencial ausente; a tarefa da terapia é a recuperação deste potencial do paciente. 0 terapeuta é sobretudo um habilidoso frustrador. Embora dê satisfação ao paciente dando-lhe atenção e aceitação, o terapeuta frustra-o recusando-se a dar-lhe o apoio de que carece.

O terapeuta age como um catalisador que ajuda o paciente a passar pelos pontos da "fuga" e do impasse; o principal instrumento catalisador do terapeuta consiste em ajudar o paciente a perceber como ele ou ela constantemente se interrompe, evita a conscientização, desempenha papéis e assim por diante. (As projeções que estão envolvidas na relação do paciente com o terapeuta fornecem um aspecto bastante significativo da fuga daquele, mas, como mencionamos anteriormente, outros aspectos além dos elementos transferenciais da relação paciente-terapeuta também são considerados importantes.).

Finalmente, o terapeuta é humano e seu encontro com o paciente envolve o encontro de dois indivíduos, o que inclui mas também vai além do encontro definido de papéis terapeuta-paciente.

Perls acreditava que a terapia individual era obsoleta, tanto ineficiente quanto via de regra ineficaz. Sugeria que o trabalho em grupos tinha muito mais a oferecer, quer o trabalho envolva explicitamente o grupo inteiro, quer assuma a forma de uma interação entre o terapeuta e um indivíduo dentro do grupo. Sugeria que o grupo pode ser extremamente valioso ao fornecer uma situação de mundo microcósmica na qual as pessoas podem explorar suas atitudes e comportamentos uns em relação aos outros. O apoio do grupo na "emergência segura" da situação terapêutica também pode ser bastante útil ao indivíduo, assim como a identificação com os conflitos de outros membros e sua resolução dos mesmos.

Referência
Ballone GJ - Friederich Perls, in. PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005

* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980


  



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Psicologia da Gestalt
A Psicologia da Gestalt é uma das tendências teóricas mais coerentes e coesas da história da Psicologia. Seus articuladores se preocuparam em construir não só uma teoria consistente, mas também uma base metodológica forte, que garantisse a consistência teórica.

No final do século XIX muitos estudiosos procuravam compreender o fenômeno psicológico em seus aspectos naturais (principalmente no sentido da mensurabilidade). A Psicofísica estava em voga. Ernst Mach (1838-1916), físico, e Chrinstiam von Ehrenfels (1859-1932), filósofo e psicólogo, desenvolviam uma psicofísica com estudos sobre as sensações de espaço-forma  (o dado psicológico) e tempo-forma (o dado físico) e podem ser considerados como os mais diretos antecessores da Psicologia da Gestalt.

Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka, baseados nos estudos psicofísicos que relacionaram a forma e sua percepção, construíram as bases de uma teoria eminentemente psicológica.

Eles iniciaram seus estudos pela percepção e sensação do movimento. Os Gestaltistas estavam preocupados em compreender quais os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito com uma forma diferente do que ele é na realidade.

É o caso do cinema. Uma fita cinematográfica é composta de fotogramas com imagens estáticas. O movimento que vemos na tela é uma ilusão de ótica causada pelo fenômeno da pós-imagem retiniana (qualquer imagem que vemos demora um pouco para se apagar em nossa retina). As imagens vão se sobrepondo em nossa retina e o que percebemos é um movimento. Mas o que de fato é projetado na tela é uma fotografia estática, tal como uma seqüência de slides. (Texto adaptado de Ana Maria Bock, Psicologias. Uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 1989. pág. 50-57)

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A Gestalt surgiu nas primeiras décadas deste século como uma espécie de resposta ao atomismo psicológico, escola que pregava uma busca do todo psicológico através da soma de suas partes mais elementares; o complexo viria pura e simplesmente da reunião de seus elementos mais simples, era uma escola de adição. A Escola da Forma dizia o contrário: não podemos separar as partes de um todo pois dele elas dependem e não fazem sentido, pelo menos o mesmo, senão enquanto partes formadoras daquele todo.

Em seu início, havia duas correntes na Gestalt, a dos dualistas e a dos monistas: os primeiros acreditavam existir uma percepção mental que diferiria da sensorial. Sendo assim, perceberíamos os elementos separadamente e só então eles formariam o todo através de uma ação do espírito, de uma percepção mental. Um desenho, por exemplo, não é um todo, mas o que estaria produzindo a forma total que percebemos, o que ligaria seus elementos seria o espírito. Encontram-se nessa corrente muitos resquícios do atomismo psicológico, enquanto que os monistas realmente romperam com eles, ao sustentarem que as partes dependem mais do todo que ele destas, que é ele quem as determina. Para os monistas o esquema da percepção seria, basicamente: estímulos sensoriais -> forma -> sensação.

Para os monistas, forma e matéria não são separáveis, os elementos de uma forma não existem em si, singularmente, isso só seria possível através de abstração. Todos os elementos aparecem ao mesmo tempo, e um observar um ou outro, um tomar um ou outro como figura ou fundo tornaria a experiência diferente. Cada parte é percebida como elemento formador do todo, pertencente a ele.

A Gestalt como teoria filosófica
Em um âmbito filosófico (a Gestalt chegou a ser considerada uma filosofia da forma), pode-se dizer que foi deixado de lado o ego cogito cartesiano para, como Husserl (que foi, de fato, mestre de Koffka, um dos papas desta escola), adotar-se um ego cogito cogitatum: não há uma ruptura entre consciência - ou sensação, no caso da escola da forma - e mundo. O "resíduo" a que se pode chegar por uma redução, uma dissecação do real - ou de uma forma - não é o "eu penso", mas a correlação entre o eu penso e o objeto de pensamento (o ego cogito cogitatum). Em suma, não existiria consciência enquanto tal, mas toda consciência seria consciência de.

Isso, porém, não se dá de forma separada, como pretendiam os associacionistas (escola da psicologia que predominou no século XIX), mas concomitante: tomemos como exemplo um carro na estrada, seguindo em direção contrária a você. Para os associacionistas, há um intervencionismo do pensamento, ou seja, suas sensações lhe dizem que o carro está diminuindo à medida em que se afasta, mas, sendo conhecedor das leis da física, ou mesmo já tendo passado por esta experiência, seu pensamento reagiria, corrigindo o equívoco. O dado sensorial seria menos real que a percepção, e interpretado de acordo com a experiência.

Já para a Gestalt, isso tudo aconteceria de uma só vez e não através da experiência, mas de acordo com o que é dado na situação em si. Cada vez seria diferente, se apenas um dos elementos formadores diferisse; o todo seria o que há de mais importante, o que vale aqui não é a experiência, todavia o agora e o que é dado nesse agora. Percebe-se de maneira diferente de acordo com o contexto em que o objeto/excitante está inserido, nossa sensação é global e varia dependendo do evento/forma.

Essa foi a concepção que acabou, por assim dizer, "triunfante" em relação à outra, e seus defensores, Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfgang Köhler, acabaram por se tornar figuras de maior importância na Escola da Gestalt.

Essa teoria da forma não se manteve apenas dentro dos limites da psicologia, mas pretendeu se estender à Física e à Filosofia, admitindo a existência de formas fisiológicas e de formas físicas, além das formas psicológicas: as primeiras dizem respeito aos organismos vivos, que funcionariam do todo para o uno; as células seriam dependentes do organismo e não o contrário porque este teria a capacidade de se adaptar.

As segundas tratam do mundo físico: este tenderia, também, a um equilíbrio total, uma busca da boa forma, mais homogênea e simétrica. Finalmente, as formas psicológicas, que são colocadas de uma maneira bem materialista: os gestaltistas não admitem a existência de um espírito, de alma, mas que tudo se reduz à matéria bruta, sendo as formas psicológicas o subjetivo das fisiológicas e estas apenas reduzidas às formas físicas.

Organização Perceptual - Assimilação e Contraste; Figura e fundo

Somos bombardeados por estímulos físicos todo o tempo e, para compreendê-los, formamos organizações perceptuais (termo que se aplica tanto ao processo de organização quanto ao resultado em si).

Há várias maneiras de se organizar esses estímulos, e, de fato, o fazemos, mas de tal modo que exista sempre apenas uma: nunca há dois tipos de organização em um só momento. Esse empreendimento se dá de maneira espontânea, inerente ao indivíduo, porém o consciente pode exercer um papel nesse processo, pois a organização perceptual ocorre dentro e fora da consciência: se a pessoa quiser, poderá criá-la conscientemente, mas se não o fizer, o inconsciente agirá.

Um ponto importante no processo de organização perceptual é a diferenciação do campo perceptual. A maneira com que a forma é apresentada pode, por exemplo, suscitar fenômenos como a associação e o contraste.

O primeiro destes princípios diz respeito a uma homogeneização das partes da forma a que somos compelidos quando não há fronteiras entre elas, ou quando não as percebemos. Os contornos se tornam importantes neste sentido: tendemos a tornar cada parte homogênea em matéria de luz; a assimilação pode acontecer quando há proximidade, especialmente quando estas áreas próximas não estão delimitadas. Já o contraste consiste em perceber-se uma diferença maior do que ela realmente é, e ocorre quando há uma separação das partes, quase de maneira contrária à assimilação.

Porém deve-se sempre lembrar que, tanto assimilação como contraste são "regidos" pela organização perceptual total, podendo, até mesmo haver a ocorrência dos dois fenômenos em um mesmo objeto, dependendo de, por exemplo, qual o fundo sob o qual está a figura. Estes dois conceitos, fundo e figura, são os mais simples da forma de organização perceptual: em qualquer campo diferenciado, uma das partes sempre parece "saltar", se salientar em relação às outras. A ela damos o nome de figura, sendo o fundo todo o resto.

O que nos permite diferenciá-los, enxergar uma separação entre ambos é o contorno: uma fronteira física que mais parece pertencente à figura, conferindo forma a ela. Se há uma inversão, se a figura passa a parecer fundo e vice-versa, então o contorno passará, logicamente, a parecer pertencer à nova figura. A figura sempre parece possuir o contorno.

Se, em uma forma, não fica muito clara essa separação (sendo que sempre veremos uma parte como figura e outra como fundo; o que pode não ficar claro é o que qual das partes é definitivamente), há uma flutuação, percebemos alternadamente os elementos como figura e fundo; porém, sempre um de cada vez, e sempre um. Bom, nesse caso, ao acontecer essa flutuação, o contorno passa a nos parecer completamente diferente em cada um dos casos.

Pode acontecer, também, de algo ser definido como figura embora não haja um contorno, uma linha física que o delimite: esse fenômeno é conhecido como fechamento e é muito comum, posto que certas formas estão de uma maneira que nos pareça completa, não cabendo ali nenhum tipo de modificação; é como se elas se bastassem, fossem suficientes, enfim, completas em si.

Na determinação de o que é figura e fundo influem diversos fatores, como tamanho e localização, ou, caso esses sejam os mesmos, a área que for menor ou mais fechada.

Geralmente, o que pode ser agrupado com mais facilidade, pareça seguir uma "linha", for mais homogêneo, ou até mesmo o que for mais conhecido para quem observa (e aí entra a questão da subjetividade na percepção) passará a ser visto como a figura. Há até mesmo a influência do sistema nervoso e outros processos do tipo nessa determinação.

Figura e fundo são diferenciados não só em formas visuais, vale lembrar; tendemos a separá-los em todas as experiências de percepção. Na chamada música pop, por exemplo, geralmente percebemos a voz do cantor como figura e o instrumental como fundo, como acompanhamento.

Essas tendências ou princípios, dependendo de sua intensidade podem produzir efeitos diferentes, devemos sempre lembrar que, para a Escola da Forma, o todo não é apenas a soma das partes, sua essência depende da configuração das partes.

A partir disso, podemos trazer ainda algumas considerações e conceitos finais: a transposição das formas, por exemplo, é de um valor muito grande dentro do que foi dito no parágrafo anterior; podemos transpor a mesma forma a partir de elementos diferentes, de modo que a forma original ainda possa ser reconhecida.

Ou em uma melodia cujas notas sejam aumentadas todas em um tom, ou seja, o todo é a configuração de seus elementos, mas também difere de acordo com os elementos em si. Porém, não podemos nos esquecer da parte-todo, isto é, que as partes dependem da natureza do todo.

Por último, vale falar, mais uma vez, sobre a subjetividade na percepção: deve-se levar em conta a experiência vivida pelo sujeito, o seu nível de conhecimento ou familiaridade com o assunto tratado et sic per omnia.

Enfim, a Escola da Gestalt não se limitou apenas à percepção, mas expandiu suas teorias a várias áreas de conhecimento, revolucionando a psicologia e influenciando diretamente muitos pensadores. Pode-se dizer, por exemplo, que o behaviorismo de Skinner bebe basicamente da fonte da Gestalt. Esta foi e continua sendo uma escola revolucionária e de um imenso valor histórico. (Fonte

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