Transtornos da Personalidade

Quando os traços são definitivos, inflexíveis e inadaptadas podem constituir um Transtorno de Personalidade.
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Pessoas explosivas, teatrais, sistemáticas, meticulosas, obsessivas, cismadas, muito emotivas e outros tipos difíceis de conviver sugerem, intuitivamente para todos nós, tratar-se de uma maneira de SER assim e não de ESTAR assim.  Ao longo da vida essas pessoas podem melhorar, através de muito empenho e vontade de morrer melhor do que nasceram. Outras estacionam, petrificadas para sempre, sofrendo e fazendo sofrer. 

Henri Ey  considera algumas pessoas portadoras de um Ego Patológico, caracterizando não apenas uma maneira de ESTAR no mundo, mas sobretudo, uma maneira de SER no mundo. Karl Jaspers  afirma serem anormais as personalidades que fazem sofrer, tanto a pessoa quanto quem a rodeia. Para Jaspers, as personalidades anormais representam variações não-normais da natureza humana, as quais podem perfeitamente ser entendidas como Transtornos de Personalidade (TP).

Diz a CID.10  que os transtornos de personalidade são estados e tipos de comportamentos característicos que expressam maneiras da pessoa viver e de estabelecer relações consigo mesma e com os outros. São distúrbios da constituição e das tendências comportamentais – continua dizendo a CID.10 – não diretamente relacionados a alguma doença, lesão, afecção cerebral ou a outro transtorno psiquiátrico. Isso tudo quer dizer que a pessoa simplesmente é desse jeito e será sempre assim.

Habitualmente os transtornos da personalidade se acompanham de sofrimento e de comprometimento no desempenho global da pessoa. Aparecem precocemente durante o desenvolvimento individual sob a influência de múltiplos fatores, sejam constitucionais, sociais ou existenciais. Depois de solidificado este conjunto de traços pessoais, tal como uma personalidade normal, persistirá indefinidamente.

Entretanto, dependendo da cognição, juízo crítico, conhecimento e disposição ao entendimento, tais estados supostamente pétreos podem seguir por caminhos mais favoráveis e de menor sofrimento, tanto para a pessoa deles portadora, quanto dos demais à sua volta. Sabendo lidar com essa questão a pessoa poderá se adaptar perfeitamente à sua maneira de ser, poderá disciplinar pulsões, esquemas de pensamentos, impulsos específicos desses transtornos, e tal manejo poderá ser de tal forma eficiente que a qualidade da vida emocional será muito melhorada.

De fato, o que denomina, classifica ou dá o nome ao transtorno da personalidade é a predominância de determinados traços, os quais todos nós os temos em dose diminuta. Todos temos algo de histéricos, uma pitada de paranóia, traços de ansiedade, e assim por diante. Entretanto, no transtorno da personalidade tais traços são predominantes e dominam tiranamente a maneira de ração dessas pessoas de forma a causar sofrimento (na pessoa e/ou naqueles próximos) e comprometer o desempenho.

Antes que alguém possa contestar esses conceitos alegando tratar-se de uma ânsia da psiquiatria em classificar pessoas, recordamos o que foi dito no capítulo sobre Temperamento e Caráter; as classificações sobre tipos de temperamento dizem respeito à forma da personalidade e não ao conteúdo psíquico e vivencial da pessoa. Quer dizer, as classificações descrevem maneiras do indivíduo ser e de reagir à sua vida, ou seja, COMO é funcionalmente esse indivíduo. Os conteúdos vivenciais definem QUEM é essa pessoa.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) trata do assunto sob o titulo de Transtornos da Personalidade e de Comportamento, especificando-os nos códigos F60 até F69 na CID-10. A OMS descreve tais transtornos da seguinte maneira:

“Estes tipos de condição abrangem padrões de comportamento permanentes e profundamente arraigados no ser que se manifestam como respostas inflexíveis a uma ampla série de situações pessoais e sociais. Elas representam desvios extremos ou significativos do modo como o indivíduo médio, em uma dada cultura, percebe, pensa, sente e, particularmente, se relaciona com os outros”.

Quando a OMS diz “...permanentes e profundamente arraigados no ser...” ela quer dizer que se trata de uma característica definitiva. Uma pessoa obsessiva, meticulosa, perfeccionista e rígida com problemas de adaptação, por exemplo, pode mudar sua maneira de ser para melhor refazendo algumas crenças pessoais e atitudes comportamentais no sentido de construir melhor relação consigo mesma, com os outros e com a vida, embora continue sendo menos obsessiva, menos meticulosa, menos perfeccionista e menos rígida. Acontecendo assim a pessoa deixará de ter um transtorno de personalidade para ter apenas traços obsessivos, traços perfeccionistas e assim por diante.

As características de personalidade por si só não caracterizam um Transtorno de Personalidade, elas são os traços, ou seja, padrões duradouros de percepção, relação e pensamento acerca do ambiente e de si mesmo, e são exibidos numa ampla faixa de contextos sociais e pessoais importantes. É somente quando as características de personalidade são inflexíveis e desadaptadas, causando um comprometimento significativo no desempenho da pessoa é que elas podem constituir-se em Transtornos da Personalidade.

Os Transtornos de Personalidade, ainda segundo a CID-10, são condições do desenvolvimento da personalidade que aparecem na infância ou adolescência e continuam pela vida adulta. Esta condição constitucional e biológica de desenvolvimento diferencia o Transtorno da Alteração da Personalidade. A Alteração da Personalidade ocorre durante a vida em conseqüência de algum outro transtorno emocional, dependência química, traumatismo craniano, tumores, infecções cerebrais, etc.

Enfatizando, os Transtornos de Personalidades são perturbações graves da constituição do caráter e das tendências comportamentais, portanto, não são adquiridas no meio tal como as Alterações da Personalidade. A CID-10 apresenta entre os títulos F60 e F69 uma grande variedade de subtipos de Transtornos de Personalidade. Procuraremos aqui compatibilizá-los todos com outras classificações de forma a abordar os tipos sinônimos com a mesma descrição.

A Associação Norteamericana de Psiquiatria, através de seus critérios de classificação e diagnóstico de transtornos mentais, o DSM.IV , fala sobre os Transtornos da Personalidade da seguinte forma:

"Um Transtorno da Personalidade é um padrão persistente de vivência íntima ou comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, é invasivo e inflexível, tem seu início na adolescência ou começo da idade adulta, é estável ao longo do tempo e provoca sofrimento ou prejuízo."

E qual seria a diferença entre o Transtorno da Personalidade e a Doença Mental franca? As doenças mentais ocorrem e se desenvolvem a partir de um momento definido da vida, tal como são as crises, reações, processos, episódios e surtos, enquanto os Transtornos da Personalidade, por sua vez, são maneiras problemáticas de ser, constantes e perenes. As doenças mentais surgem e os Transtornos da Personalidade são.

Na Esquizofrenia, por exemplo, assim como nos Transtornos do Humor e outros, a partir de um determinado momento na vida a personalidade, que já era chamada pré-mórbida , envereda por uma trajetória que se afasta mais e mais do normal resultando em um episódio agudo. Nos Transtornos da Personalidade o rumo da personalidade está e sempre esteve algo distante do normal, embora não tenha obrigatoriamente que piorar cada vez mais, como nos outros processos psicopatológicos.

Os Transtornos de Personalidade afetam todas as áreas da personalidade, o modo como o indivíduo vê o mundo, a maneira como expressa as emoções, o comportamento social. Caracteriza um estilo pessoal de vida mal adaptado, inflexível e prejudicial a si próprio e/ou aos que com ele convivem. Essas características, no entanto, apesar de necessárias não são suficientes para identificação dos Transtornos de Personalidade, pelo fato de serem muito vagas. A maneira mais clara como a classificação deste problema vem sendo tratada é através da subdivisão em tipos de transtornos de personalidade, com critérios de diagnóstico próprios e bem definidos, tanto pela CID.10, quanto pelo DSM.IV.

Convencionalmente os transtornos da personalidade foram divididos em três grupos:
1º. Grupo – Aqui estão as pessoas caracterizadas essencialmente por pensamentos estranhos, comportamentos excêntricos e mórbida tendência ao isolamento. Estão classificadas aqui as personalidades paranóides e esquizóides, as primeiras possuidoras de rígido padrão de suspeitas e desconfianças infundadas, as segundas são emocionalmente distantes e com dificuldade em estabelecer relações sociais.
2º Grupo – Os transtornos deste grupo têm em comum um comportamento com tendência à dramaticidade, apelação e emoções que se expressam intensamente. Os indivíduos histriônicos representam esse grupo, sendo muito excitáveis, demonstrativos, justificativos e egocêntricos. Também está aqui a chamada Personalidade Anti-Social, que manifesta expressiva incapacidade geral de adaptação aos padrões sociais estabelecidos e para relações afetivas estáveis.
3º. Grupo – Estão neste grupo as personalidades com marcantes traços de dificuldade no controle dos impulsos; transtorno explosivo ou impulsivo da personalidade, transtorno ansioso ou evitativo da personalidade, transtorno anancástico ou obsessivo-compulsivo da personalidade.

Transtorno Paranóide de Personalidade
O Transtorno Paranóide da Personalidade, como todos os outros tipos de transtornos da personalidade, independe da cultura e do grupo social que o indivíduo se insere, envolve um estilo global de pensar, sentir ou relacionar com a realidade e com os outros. Caracteriza uma maneira de ser do indivíduo, o qual geralmente concorda com essa sua forma de ser (ego-sintônica).

Tem normalmente início no final da adolescência ou no começo da idade adulta. Quase invariavelmente há uma crença de estar sendo explorado ou prejudicado pelos outros de alguma forma e, por causa disso, a lealdade e fidelidade das pessoas estão sendo sempre questionadas. Muitas vezes o portador deste Transtorno é patologicamente ciumento e questionador da fidelidade do cônjuge, ao ponto de causar situações francamente constrangedoras.

O portador deste distúrbio de personalidade pode interpretar acontecimentos triviais e rotineiros como humilhantes e ameaçadores, desde um erro casual no saldo bancário, até um cumprimento não efusivo podem significar atitudes premeditadamente maldosas. Há uma sensibilidade exagerada às contrariedades ou a tudo que possa ser interpretado como rejeição, uma tendência para distorcer as experiências, interpretando-as como se fossem hostis ou depreciativas, ainda que neutras e amistosas (pensamento paranóide). Estas pessoas podem sentir-se irremediavelmente humilhadas e enganadas, conseqüentemente agressivas e insistentemente reivindicadoras de seus direitos.

Essas pessoas supervalorizam sua própria importância, as suas idéias são as únicas corretas e seus pontos de vistas não devem ser contestadas, daí a facilidade em conquistar inimigos e a tendência em pensamentos auto-referentes. São desconfiadas, teimosas, dissimuladoras e obstinadas, vivem numa solidão freqüentemente confundida com timidez, como se não houvesse no mundo pessoas com quem pudessem partilhar sua prodigalidade, dignidade e seus sentimentos superiores.

As pessoas com Transtorno Paranóide da Personalidade são extremamente sarcásticas em suas críticas, irônicas ao extremo nos comentários e contornam as eventuais situações constrangedoras recorrendo a artimanhas teatrais e chantagens emocionais. Não toleram críticas dirigidas à sua pessoa e qualquer comentário neste sentido é entendido como declaração de inimizade.

Pelo entusiasmo com que valorizam suas idéias, sempre as únicas corretas, podem ser vistos como fanáticos nas várias áreas do pensamento; seja religioso, político, ético ou profissional. Gostam de fantasiar,  mas tem dificuldades em distinguir a fantasia da realidade. Pessoas com estes distúrbios são hiper-vigilantes e tomam precaução contra qualquer ameaça percebida. A afetividade, nestes casos, é muitas vezes restrita e pode parecer fria dado ao gosto destas pessoas em serem sempre objetivas, racionais e pouco emocionais.

 Recomenda-se, como critérios para este Transtorno, que sejam caracterizados por:

a) sensibilidade exagerada à contratempos e rejeições;
b) tendência a guardar rancores persistentemente, isto é, recusam à perdoar aquilo que julgam como insultos ou desfeitas:
c) desconfiança e tendência à interpretar erroneamente as experiências amistosas ou neutras;
d) obstinado senso de direitos pessoais em desacordo com a situação real;
e) suspeitas injustificáveis em relação à fidelidade (conjugal ou de amigos);
f) autovalorização excessiva;
g) pressuposições quanto à conspirações

Muitas vezes o portador deste transtorno é patologicamente ciumento e questionador da fidelidade do outro, a ponto de causar situações francamente constrangedoras. Como os outros tipos de transtornos da personalidade, esse transtorno tem início no final da adolescência ou no começo da idade adulta.

A característica essencial deste tipo de personalidade é uma tendência persistente e injustificável para interpretar as ações dos outros como se fossem deliberadamente hostis, ameaçadoras e mal intencionadas. Há, na personalidade paranóide, sempre algo de desconfiança, cisma, interpretações de esquemas de complôs. As opiniões em sentido contrário às suas interpretações não mudam seu ponto de vista, menosprezando assim o bom senso.

A personalidade paranóide já havia sido descrita por Kraepelin em 1915, designando indivíduos querelantes, encrenqueiros e criadores de caso .  Essa forma de personalidade constitui o que se chama personalidade pré-mórbida para um quadro mais grave, a Paranóia, que é um transtorno delirante persistente e incurável. O Transtorno Paranóide da Personalidade ocorre entre 0,5 - 2,5% da população geral, sendo mais comum em pessoas do sexo masculino.

As pessoas com transtorno paranóide da personalidade costumam ser reservadas, silenciosas e têm uma percepção bastante acurada do ambiente. São pessoas dotadas de boa sensibilidade em questões de hierarquia e poder, contestando sempre e apresentando dificuldade no relacionamento com autoridades. Há também grande possibilidade de serem patologicamente ciumentas. Na personalidade paranóide se constata, sobretudo, uma hipertrofia do ego que se reflete no orgulho, a certeza de ter razão, o desprezo, desqualificação ou exploração dos outros, a rigidez e intolerância e a supervalorização de suas idéias que se aproxima do fanatismo.

Há nesse transtorno da personalidade uma alteração da cognição responsável pela pessoa ver o mundo de maneira especial, com sensibilidade exagerada às contrariedades ou a tudo que possa ser interpretado como rejeição. Há uma notável tendência para distorcer os fatos, interpretando-os como se fossem hostis, traiçoeiros, desleais ou depreciativos, mesmo que sejam neutros e amistosos. Por causa desse psiquismo paranóide, tais pessoas podem se tornar agressivas, resultando em atitudes despropositadamente hostis e violentas, comprometendo significativamente o controle dos impulsos.

Estas pessoas supervalorizam sua própria importância, consideram suas idéias as únicas corretas e seus pontos de vistas não devem ser contestados. Costumam ser insistentemente reivindicadoras de seus direitos. As pessoas com essa forma de personalidade são sempre desconfiadas, teimosas, dissimuladas e obstinadas, tendem a viver em solidão (confundida com timidez), como se não houvesse no mundo pessoas com quem pudessem partilhar sua prodigalidade, dignidade e seus sentimentos superiores.

O sarcasmo, as críticas ácidas e amargas, a ironia constante são características que tornam a convivência com as pessoas paranóides muito desagradável. Além de tudo isso elas não toleram críticas à sua pessoa, nem sob a forma brincadeiras, embora elas mesmas sejam mordazes nas críticas aos outros.

Não é raro que a pessoa com o transtorno paranóide da personalidade tenha uma vida conjugal cheia de competitividade em várias áreas da atividade, sabotagem e contrariedade ao eventual sucesso do outro, escassas manifestações de afeto, planejamento de estratégias que possam diminuir o outro e enaltecer sua pessoa, intransigência aos erros dos outros e exaustivas justificativas para os seus pontos de vista, acreditando serem sempre os mais corretos.

Essa atitude implicante e pouco humilde transforma essas pessoas em fanáticas nas várias áreas do pensamento; religioso, político, ético, profissional, moral, jurídico, etc. Há, por conta dessas características e de sua inabalável rigidez, grande desadaptação, resultando em isolamento e resistência sociais.

Resumidamente, embora o diagnóstico de transtorno paranóide da personalidade não necessite satisfazer todos os critérios abaixo, o quadro se caracteriza por:

a) sensibilidade exagerada a contratempos e rejeições;
b) tendência a guardar rancores, isto é, recusam perdoar aquilo que julgam como insultos ou desfeitas;
c) desconfiança e tendência a interpretar erroneamente as experiências amistosas ou neutras;
d) obstinado senso de direitos pessoais em desacordo com a situação real;
e) suspeitas injustificáveis em relação à fidelidade e lealdade;
f) autovalorização excessiva;
g) pressuposições sobre conspirações, complôs, esquemas.

Os erros de julgamento próprios da personalidade paranóide alimentam atitudes megalômanas, de perseguição, de ciúme, ou erotomaníacas , etc. Essas interpretações falsas (erros de cognição) quando muito distantes da circunstância real são chamadas de cognições delirantes, e podem estar ligadas a acontecimentos fortuitos, irrelevantes, os quais funcionam como ponto de partida para a construção mórbida e alienada da realidade. O eventual comportamento anti-social da personalidade paranóide é causado por um desejo de vingança e não por um desejo de ganho pessoal, como na perturbação anti-social da personalidade.

O transtorno paranóide da personalidade deve ser diferenciado da paranóia e da esquizofrenia paranóide na medida em que nestas existem sintomas psicóticos persistentes, como idéias delirantes francas e alucinações, as quais não fazem parte da personalidade paranóide. 

Este tipo não-normal de personalidade é muito semelhante ao anterior e é típico das pessoas que exibem um padrão de afastamento social persistente, um constante desconforto nas inter-relações humanas, isolamento social, introversão, excentricidade de comportamento e de pensamento.

Os traços esquizóides de personalidade se revelam desde a infância e os indivíduos são solitários, estranhos, têm poucos amigos ou até nenhum; são excêntricos, pouco simpáticos, por vezes sisudos e nutrem pouco ou nenhum afeto, assim como respeito pelos outros.

A pessoa esquizóide nos dá a impressão de desinteresse, reserva e falta de envolvimento com os acontecimentos cotidianos e com as preocupações alheias. Normalmente ela tem pouca necessidade de vínculos emocionais e em adequar-se às normas e regras gerais.

A natural inclinação para a solidão da pessoa esquizóide se reflete na opção por trabalhos solitários e atividades não competitivas. Preferem passar o tempo consigo próprias escolhendo atividades solitárias ou divertimentos que não envolvam os outros. Preferem investir grande interesse em assuntos que não envolvam seres humanos, como por exemplo, por máquinas e equipamentos, computadores e assuntos do mundo animal.

Os portadores desse tipo de personalidade freqüentemente se absorvem obsessivamente em práticas incomuns, tais como dietas esdrúxulas, programas de saúde alternativos, movimentos religiosos e filosóficos incomuns, esquemas de aperfeiçoamento sócio-culturais, associações mais ou menos secretas, assuntos esotéricos, óvnis, Atlântida, auras e energias obscuras. O diagnóstico dessa forma de personalidade implica em alguns dos critérios abaixo:

Critérios estabelecidos pelo DSM-IV e pelo CID-10 para o diagnóstico de Transtorno Esquizóide da Personalidade

a) um padrão de indiferença às relações sociais e uma variação pobre da expressão emocional;
b) indiferença aos sentimentos alheios;
c) questionamento, indisposição e desrespeito às normas e obrigações sociais;
d) pouco interesse em relações sexuais;
e) preferência quase invariável por atividades solitárias;
f) preocupação excessiva com fantasias e introspecção;
g) falta de amigos íntimos, relacionamentos confidentes e a falta de desejo de tais relacionamentos;
h) raramente vivenciam emoções fortes, como raiva e alegria;
i) indiferença à elogios e críticas.

As pessoas Esquizóides sentem-se freqüentemente incompreendidas, o que reforça mais ainda a tendência ao isolamento e ao afastamento dos mortais comuns. Este ausente sentimento de companheirismo normalmente é compensado com o zelo apaixonado pela leitura, pelos animais ou alguma outra expressão artística de difícil compreensão.

 

Tal como em outros transtornos da personalidade, a pessoa esquizóide também é desadaptada, provoca sempre um mal estar familiar, profissional e social, além de angustiante sofrimento pessoal. As áreas perturbadas da personalidade começam por se manifestar na adolescência e persistem na vida adulta, provocando maior ou menor grau de incapacidade pessoal e social, agravando-se consideravelmente em situações de maior stress. A pessoa esquizóide possui traços rígidos, excêntricos e inadequados, impedindo adaptação saudável às mudanças do ambiente e bom relacionamento interpessoal.

 

Esquizóides são normalmente pessoas desinteressantes, inconstantes, incoerentes e desinteressadas nas atividades do dia a dia. Trata-se de uma personalidade pré-mórbida ao desenvolvimento de uma patologia mental franca. Cerca de 10% das pessoas com personalidade do tipo esquizóide poderão vir a desenvolver uma esquizofrenia, porém, acontece que este tipo de personalidade agrava-se com o tempo, vindo a resvalar na esquizofrenia.

 

Pessoas com essa forma de personalidade aparentam não desejar intimidade, portanto, podem ter pouco interesse em experiências sexuais e têm prazer em nenhuma ou em poucas atividades. São geralmente pessoas indiferentes às oportunidades de relações de proximidade, não parecem ter satisfação em fazer parte de uma família ou grupo social. Existe, geralmente, uma experiência reduzida de prazer em experiências sensoriais, corporais ou interpessoais, tais como caminhar na praia ao pôr-do-sol ou fazer sexo, por exemplo.
Ao contrário das pessoas paranóides que rejeitam e se mobilizam muito com quaisquer críticas, as esquizóides são alheias à aprovação ou crítica dos outros. Geralmente elas não se importam com o que eventualmente possam pensar delas, não prestam atenção às sutilezas da interação social parecendo superficiais e egoístas.

 

Transtorno Explosivo da Personalidade

Na CID-10 o Transtorno Explosivo da Personalidade aparece como Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável e no DSM.IV como Transtorno Explosivo Intermitente. Alguns autores preferem denominar esse tipo de personalidade como Síndrome de Descontrole Episódico. Aqui, a característica marcante é a tendência para agir impulsivamente e desprezando as eventuais conseqüências do ato impulsivo, junto com esse tipo de comportamento existe instabilidade afetiva. É um transtorno que se caracteriza por episódios de completo fracasso em resistir a impulsos agressivos, resultando em agressões ou destruição de propriedades.

Os freqüentes acessos de raiva podem levar à violência ou a explosões comportamentais e tais crises podem ser agravadas quando essas atitudes impulsivas são criticadas ou impedidas pelos outros. A agressão neste transtorno de personalidade pode ser física ou verbal, mas elas sempre fogem ao controle. Por outro lado tais pessoas não têm conduta anti-social e, pelo contrário, fora das crises são simpáticas, bem falantes, sociáveis e educadas. São constantes também o extremo sarcasmo, a ironia, explosões verbais e, algumas vezes, implicância e persistente amargura.

Alguns autores denominam esse tipo de transtorno da personalidade como passivo-agressiva, tendo em vista alguns traços encontradiços nas pessoas explosivas . Um desses traços é a tendência à procrastinação, isto é, ao adiamento da realização daquilo que precisa ser feito. Diante dessa característica os prazos costumam não ser cumpridos.

As pessoas com esse tipo de transtorno da personalidade reagem agressivamente diante das frustrações, as quais levam ao desencadeamento de um impulso cujo objetivo é o de ferir alguma pessoa ou algum objeto. Não é raro que descarreguem sua ira em aparelhos eletrônicos ou outros objetos inanimados tomando-os como se tivessem vida própria.

A extrema sensibilidade aos aborrecimentos causados pelos pequenos estímulos ambientais produz, nos explosivos, respostas de súbita violência e incontida agressividade. Normalmente chamamos estas pessoas de pavio-curto ou de cinco-minutos. Estes episódios de explosividade geralmente são seguidos de arrependimentos ou auto-reprovação, os quais são capazes de produzir variados graus de depressão, como uma espécie de ressaca moral pelos procedimentos cometidos.

Este tipo de transtorno de personalidade pode ser causa de homicídios não planejados, ataques sem sentido a pessoas estranhas, agressões físicas desproporcionais, direção criminosa de veículos, destruição brutal de propriedades e ataques selvagens a animais. Mesmo fora das crises de agressividade essas pessoas costumam ser ressentidas e muito críticas, tendendo mais para a querelância do que para a convivência harmônica. Um cuidado especial diante desse tipo de transtorno da personalidade é quanto ao uso de bebidas alcoólicas. Há aqui uma propensão ao desenvolvimento de “embriaguez patológica” mesmo após a ingestão de pequena quantidade de álcool.

Denomina-se embriaguez patológica um quadro onde ocorre súbita alteração da personalidade depois da ingestão de álcool, transformando totalmente a pessoa. Nestes episódios de embriaguez patológica a pessoa fica possuída por grande furor, agindo inconseqüentemente e de forma muito agressiva, quer contra pessoas, quer contra objetos. Depois de passado o episódio é comum a pessoa não ter uma lembrança nítida do que aconteceu. Para essas pessoas as bebidas alcoólicas devem ser definitivamente abolidas, tendo em vista os graves riscos à própria pessoa e a terceiros.

Há hipóteses segundo as quais todo ser humano tem algum potencial agressivo, entretanto, a maioria deles tem também, em contrapartida, um mecanismo inibitório dessa agressão. Assim, a pessoa com personalidade explosiva teria inibições muito baixas ou ineficientes para conter o potencial agressivo.

O grau de agressividade manifestada pelas pessoas com transtorno explosivo da personalidade durante os episódios agudos é amplamente desproporcional ao estímulo desencadeante. Tais crises normalmente acarretam atos violentos ou destruição de propriedades. A agressão neste tipo de transtorno de personalidade pode ser física ou verbal, porém, as explosões sempre fogem ao controle. Quando há envolvimento policial durante uma crise de agressividade na embriagues patológica, a pessoa agressiva corre sério risco de sofrer severas conseqüências por não conseguir controlar suas atitudes.

Apesar das crises de furor, as pessoas com transtorno explosivo da personalidade não têm conduta anti-social ou sociopática, pelo contrário, fora das crises são simpáticas, bem falantes, sociáveis, de boa índole e educadas. São constantes nelas também o extremo sarcasmo, ironia e críticas ácidas. De um modo geral, felizmente, a expressiva maioria das pessoas portadoras desse transtorno não chega a agressividade extrema, a ponto de provocar homicídios. Atualmente adota-se a classificação onde o transtorno explosivo da personalidade, chamado explosivo intermitente pelo DSM.IV, está incluído dentro dos transtornos do controle dos impulsos (Quadro 1).

Quadro 1 - Os cinco principais transtornos do controle dos impulsos

Transtorno Explosivo Intermitente

Episódios de fracasso em controlar impulsos agressivos, resultando em agressões ou destruição de propriedades.

Cleptomania

Fracassos recorrentes em resistir a impulsos de furtar objetos desnecessários para uso pessoal ou destituídos de valor monetário.

Piromania

Fracasso em controlar o impulso incendiário, cujo comportamento de faz  por prazer, gratificação ou alívio de ansiedade.

Jogo Patológico

Incapacidade persistente e recorrente em resistir ao impulso para jogos de azar e apostas.

Tricotilomania

Impossibilidade em controlar o impulso de arrancar os pelos do próprio corpo, ocasionando falhas perceptíveis.



Esse transtorno costuma ter sérias conseqüências sociais e familiares, tais como a perda do emprego, suspensão escolar, divórcio, dificuldades com relacionamentos interpessoais, acidentes variados e em especial os de trânsito, hospitalizações e envolvimentos policiais. Nos casos mais característicos pode haver alterações eletroencefalográficas inespecíficas, como por exemplo, lentificação da atividade difusa ou, predominantemente no lobo frontal.

Sempre houve na psiquiatria uma linha de pesquisa tentando relacionar esse tipo de transtorno da personalidade a alguma alteração estrutural ou funcional do Sistema Nervoso Central. De fato parece haver alguma evidência sugerindo que as lesões focais irritativas (foco eletricamente irritativo), particularmente nos lobos temporal e frontal, estariam relacionadas ao potencial explosivo-agressivo. Esses casos respondem muito bem ao tratamento com estabilizadores do humor anticonvulsivantes.

O DSM-IV cita como possibilidade para uma das causas (ou apenas concomitância) ao transtorno explosivo da personalidade, certas condições neurológicas, como por exemplo, traumatismos cranianos e episódios de inconsciência ou convulsões febris na infância. Imagens funcionais obtidas por PET (tomografia por emissão de pósitrons) têm sido usadas para investigar possíveis alterações na função do cérebro das pessoas portadoras de distúrbios caracterizados por excessiva violência e agressividade.

Algumas pesquisas nessa área têm mostrado porcentagem alta de um nível diminuído do funcionamento cerebral no córtex pré-frontal em pessoas violentas em relação às pessoas normais. Isso pode ser um indício de algum déficit neurológico relacionado à violência. O dano funcional no córtex pré-frontal pode resultar em impulsividade, perda do autocontrole, imaturidade, emotividade alterada e incapacidade para modificar o comportamento, o que pode facilitar os atos agressivos.

De qualquer forma, tendo ou não uma correspondência neurológica, a pessoa com transtorno explosivo da personalidade sabe perfeitamente a natureza de seu ato agressivo. Nos casos de embriaguês patológica, embora depois do episódio a pessoa não tenha uma lembrança nítida do que aconteceu, ela sabe perfeitamente dos efeitos desastrosos do álcool em seu psiquismo, sabe também que deve evitá-lo a qualquer custo, sendo de seu arbítrio o ato de usá-lo.

Não são todas as pessoas explosivas portadoras do transtorno explosivo da personalidade. Muitas outras situações e circunstâncias podem resultar em uma baixa tolerância às frustrações, como por exemplo, o ciúme exagerado, estados de estresse (ou “esgotamento”), autoestima baixa e insegurança alta, e assim por diante.

Para o diagnóstico do transtorno explosivo da personalidade é necessário que o tipo de comportamento explosivo, irritável e pouca consideração para com as conseqüências do ato agressivo seja bastante duradouro, que se manifeste em vários contextos vivenciais e, eventualmente, piora muito com o uso de álcool.

Transtorno Histriônico da Personalidade
A pessoa com transtorno histriônico tem como traço básico da personalidade uma desadaptação às possibilidades existenciais normais, reagindo sempre com um exagero, com um faz-de-conta para os outros e para si mesma.

As vivências da personalidade histriônica são sempre teatrais, seja na vida de relação, seja consigo mesma. Seus relacionamentos são mais dramáticos, há mais ciúme, mais inveja, mais mágoa, mais atração, mais sedução... Seus sintomas são mais exuberantes, suas queixas mais contundentes, sua sensibilidade mais exaltada.

A maneira histriônica, teatral e fabricada, de se relacionar com a vida não é conscientemente determinada, embora tenha certa intencionalidade. Quando a pessoa histriônica questiona sobre a origem de seus sintomas perguntando se “você acha que eu quero estar doente?”, é bom lembrar que as atitudes histriônicas são involuntárias e intencionais, ou seja, a pessoa não opta para agir e sentir a vida histrionicamente, isso vem de sua personalidade, não obstante, pode haver um propósito ou objetivo inconsciente para sua teatralidade.

Paralelo à teatralidade, a personalidade histriônica se aproxima da mentira e se afasta da afetuosidade autêntica. Isso, algumas vezes, dificulta relacionamentos afetivos estáveis ou mais profundos. Boa parte dos problemas psicológicos ou orgânicos da pessoa histriônica é conseqüência da inclinação a enganar a si mesma sobre a natureza de seus próprios sentimentos. Trata-se de um auto-engano, sufocando ou ocultando de si mesma seus sentimentos autênticos.

Personalidade histriônica é sinônimo de personalidade histérica, um termo criado possivelmente para ludibriar as pessoas que usam o termo histérico quando querem depreciar alguém. O transtorno histriônico de personalidade é caracterizado por um comportamento colorido, dramático e extrovertido, enfim, sempre exuberante. Está classificado no 2º. grupo dos transtornos de personalidade, onde estão os casos que apresentam comportamento com tendência à dramaticidade, apelação e emoções que se expressam intensamente.

As pessoas histriônicas tendem a exagerar seus pensamentos e sentimentos, apresentam acessos de mau humor, lágrimas e acusações sempre que percebem não ser o centro das atenções, quando não recebem elogios e aprovações. Por outro lado, freqüentemente são pessoas animadas e dramáticas, tendem a chamar as atenções sobre si mesmas e podem de início, devido ao seu entusiasmo, encantar as pessoas com as quais travam conhecimento.

As pessoas com esse tipo de transtorno da personalidade manifestam pronunciados traços de vaidade, egocentrismo, exibicionismo e dramaticidade. Atrai muito a personalidade histriônica os estímulos externos potentes, os escândalos, as sensações, as celebridades, enfim, tudo que impressiona, que seja desmedido, incomum ou extremo. No afã de representar um papel mais glorioso, os histriônicos fazem teatro para si e para todos os outros, sua grande platéia. Pode haver momentos onde já não sabem onde termina a realidade e começa a fantasia, passando a acreditar em seus próprios mitos e em suas próprias encenações.

Para a personalidade histriônica atrair as luzes dos refletores ela necessita representar sempre um papel interessante, mesmo que isso custe o mal estar de outras pessoas e ainda que essas outras pessoas sejam entes queridos. Quando não chama atenção pela doença, o faz através do papel de mártir, de sofredora. A representação teatral como vítimas, menosprezadas, coitadinhas, enfim, esse papel de “a grande sofredora desinteressada” tem o nome de messianismo.

Uma das marcas mais características das pessoas com Transtorno da Personalidade Histriônica é tentar controlar as outras pessoas através da manipulação emocional ou sedução. Por causa disso, e depois de algum tempo, eles tendem afastar os amigos com as exigências de constante atenção.

As mães com esta personalidade podem idealizar manobras que fazem seus filhos se compadecerem de seu estado "lastimável" e provocar arrependimentos vários. São pessoas que estão sempre a se queixar de incompreensão dos outros, mas jamais tentam compreender os outros ou entender que os outros não têm obrigação de compreendê-los.

Devido ao fato das pessoas histriônicas cultuarem a doença e as queixas somáticas elas acabam atribuindo todos seus fracassos ou limitações a eventuais transtornos orgânicos que as perturbam, apesar de sua “sempre presente boa vontade”. A somatização, dissociação e repressão são os mecanismos de defesa mais intensamente utilizados pelos histriônicos.

Sexualmente a personalidade histriônica determina nas pessoas um comportamento sedutor, provocante e com tendência a erotizar mesmo as relações não sexuais do dia-a-dia. As fantasias sexuais com as pessoas pelas quais estão envolvidos são comuns e, embora sejam volúveis, o arremate final do jogo sexual costuma não ser satisfatório. Essa característica de desempenho sexual problemático faz com que as pessoas histriônicas sejam consideradas pseudo-hiper-sexuais.

O DSM-IV  e o CID-10 recomendam como critérios para o diagnóstico do Transtorno Histriônico da Personalidade, um padrão generalizado de excessiva emotividade e busca de atenção, indicado pelas seguintes características: .

 Critérios estabelecidos pelo DSM-IV e pelo CID-10 para o diagnóstico de Transtorno Histriônico da Personalidade

a) busca constante ou exigência de afirmação, aprovação ou elogios;
b) autodramatização, teatralidade e expressão exagerada das emoções;
c) alta sugestionabilidade, facilmente influenciada pelos outros ou por certas circunstâncias;
d) sedução inapropriada em aparência ou comportamento;
e) preocupação excessiva com a atratividade física;
f) expressão de emoções exageradamente;
g) expressão de emoções rapidamente mutável;
h) egocentrismo nas satisfações;
i) intolerância severa às frustrações e à não-satisfação;
j) discurso impressionista e superficial.

O Transtorno da Personalidade Histriônica proporciona um alto grau de sugestionabilidade. Suas opiniões e sentimentos são facilmente influenciados pelos outros e por tendências do momento. Muitas vezes a pessoa histriônica considera os relacionamentos mais íntimos do que são de fato, dirigindo-se a qualquer pessoa recém conhecida como "meu querido, meu amigo" ou chamando pessoas que deveriam determinar um relacionamento formal pelo seu prenome sem nenhum cuidado com a titularidade.

As pessoas com Transtorno Histriônico da Personalidade costumam ter intolerância ou frustração mais forte que os demais, costumam não se adaptar em situações que envolvem adiamento da gratificação (não sabem esperar), sendo que suas ações freqüentemente são voltadas à obtenção de satisfação imediata.

Personalidade Hipocondríaca

Um dos subtipos do transtorno histriônico da personalidade é a personalidade hipocondríaca. O traço fundamental desse tipo de personalidade é o medo ou preocupação exagerada de ter alguma doença, geralmente grave. O medo de ficar doente ou a preocupação de ter uma doença (que muitas vezes se confunde com o desejo de ficar doente) faz a vida consciente de um corpo normal transformar-se em uma vida com um corpo falsamente doente.

O fenômeno da hipocondria é, de fato, classificado no DSM.IV e na CID.10 como um transtorno emocional somatoforme, ou seja, aqueles estados onde as emoções saltam do psíquico para o orgânico, e está incluído no mesmo capítulo onde estão outros estados ansiosos.

Por outro lado, qualquer reflexão mais responsável sobre psiquiatria mostra a hipocondria mais como um sintoma do que uma doença, ou seja, como uma maneira mal adaptada da pessoa reagir conseqüente a alguma outra coisa; seja um estado emocional, como por exemplo, a ansiedade ou a depressão, seja como conseqüência a algum traço de personalidade.

Interessa aqui lidar com a hipocondria traço de personalidade, já que o nosso objetivo não é lidar com as patologias ansiosas e depressivas. Se for uma maneira da pessoa reagir trata-se de um atributo da personalidade, entretanto, dependendo das circunstâncias vivenciais há momentos na vida onde essa característica fica muito mais intensa, chegando então a necessitar de tratamento médico.

A hipocondria se manifesta por interpretações irreais ou errôneas do paciente sobre sintomas ou sensações físicas, levando ao medo e preocupações obsessivas por doenças sérias, embora não possam ser encontradas em exames médicos. As preocupações da pessoa resultam em sofrimento significativo e prejudicam sua capacidade para funcionar em papéis pessoais, sociais e ocupacionais.

Os critérios diagnósticos do DSM.IV para a hipocondria exigem que o paciente esteja preocupado com a falsa crença de ter uma doença séria, e que a falsa crença esteja baseada em uma interpretação errônea de sinais ou sensações físicas. Os critérios exigem que a crença da doença exista apesar da ausência de achados patológicos em exames médicos.

A semelhança que permite considerar a pessoa hipocondríaca uma variante da personalidade histriônica não é a teatralidade, a qual pode ser nula ou estar bastante diminuída aqui, mas a evidente direção da atenção para si própria, ao próprio ego (egocentrismo). E é essa a característica que faz a pessoa hipocondríaca “perceber-se” pessimistamente, continuadamente e exageradamente, ao contrário da personalidade narcisista, que também é egocêntrica, porém, não se percebe pessimistamente.

Não é normal que a pessoa necessite ter uma preocupação obsessiva com seu próprio corpo, nem que seja compelido a uma observação contínua e meticulosa do funcionamento de seu organismo. O normal e mais sadio é que não se perceba o próprio corpo na maior parte do tempo. As múltiplas queixas físicas ou somáticas na hipocondria representam uma preocupação exagerada com o próprio corpo, uma reflexão obsessivamente dirigida ao orgânico.

É importante ter em mente que a pessoa hipocondríaca não simula a doença, ela se sente verdadeiramente doente, sofre como se estivesse doente de fato. Enquanto a personalidade histriônica falseia seus próprios sentimentos, na hipocondria o auto-engano é em relação ao próprio corpo. Assim como acontece no transtorno histriônico, na hipocondria a dor é mais dolorida, o cansaço é mais extenuante, os desconfortos são praticamente invalidantes, as palpitações e faltas de ar denunciam sempre um infarto iminente, assim como a tontura com certeza são indícios de um AVC.

Diante de uma doença franca e evidente é o médico quem dá o diagnóstico, muitas vezes surpreendendo o próprio paciente que nem sabia estar doente. Diante da hipocondria é o próprio paciente que se atribui um diagnóstico estabelecido por ele mesmo. Consultado o médico, nada se confirma, exceto a própria hipocondria.

Pensamos em traço hipocondríaco como uma aquisição biológica da personalidade. Kaplan  refere evidências de prevalência aumentada de hipocondria entre gêmeos univitelínicos, fato este que fala a favor do componente genético do traço. A existência desse traço potencialmente hipocondríaco não significa que a pessoa será obrigatoriamente hipocondríaca e o tempo todo. Como outras potencialidades da personalidade, esse traço é também oportunista e se manifesta em situações favorecedoras.

Por isso não é raro encontrar a hipocondria como uma espécie de compensação a sentimentos de culpa por erros passados ou como expressão de uma autoestima baixa. Algumas vezes ela reflete também uma agressividade que não encontra meios de se exteriorizar senão através da sensação de doença. O “escape” dessa dinâmica psíquica para a hipocondria seria o modo de uma forma específica de personalidade reagir, como poderia resultar em reações depressivas, histéricas, obsessivas e assim por diante em outras conformações de personalidade.

Algumas evidências sugerem que a pessoa com transtorno hipocondríaco, assim como a histriônica, teria um traço de personalidade responsável por uma tolerância menor ao desconforto, logo, sentiria com maior intensidade e incômodo as sensações corpóreas triviais, representando-as como indícios de doenças mais graves.

Personalidade Narcisista

Devido às características egocêntricas e de imaturidade este transtorno só poderia ser uma variável do transtorno histriônico, senão um subtipo do mesmo. A denominação narcisista é originária do nome do jovem da mitologia grega, Narciso, o qual se apaixonou por sua própria imagem quando se viu refletido nas águas de um lago. Ficou tão concentrado, obcecado e enamorado da sua imagem refletida na água, que um dia caiu nela e se afogou. Por causa desse episódio mitológico o nome Narciso nomeia o transtorno da personalidade cuja característica mais forte é o egocentrismo.

Como nos demais transtornos de personalidade, todos temos em doses diferentes os mesmos traços observados em exagero nessas pessoas, assim sendo, todos temos uma dose de narcisismo.  Além disso, o narcisismo é uma condição natural do ser humano e uma certa dose dele é fundamental para nosso amor próprio. Gostar de si mesmo, cuidar-se, arrumar-se e ter boa auto-estima é fundamental para nosso bem estar emocional. O aspecto mórbido do narcisismo está exatamente em sua dose, em sua prevalência sobre outros atributos. No transtorno narcisista da personalidade há um excesso de amor próprio.

Todo pessoa com transtorno narcisista da personalidade tem uma atitude de grandiosidade, tanto em suas fantasias quanto em seu comportamento, necessidade de admiração e falta de empatia. Tais condições surgem muito cedo na vida, mais exatamente na primeira infância.

Os critérios de diagnóstico para o transtorno narcisista da personalidade devem começar, obrigatoriamente, por sentimentos de grandiosidade ou de auto-importância. Essas pessoas exageram na descrição de suas realizações e de seus talentos a ponto de mentirem quase compulsivamente. Querem sempre ser reconhecidos como superiores aos demais.

A pessoa com transtorno narcisista da personalidade distorce a representação do mundo que a rodeia sentindo que muitos a amam por sua beleza, por seus encantos, por suas qualidades e por todos seus dons excepcionais.

Tais pessoas têm obsessão por fantasias de sucesso, fama e poder. Muitos querem parecer brilhantes intelectualmente, outros buscam obsessivamente a beleza estética ou um desempenho sexual glorioso. Tudo isso se completa por forte aspiração de autovalorização, por absoluta necessidade de atenção, de elogios e bajulação. Além de egocêntricas essas pessoas são também egoístas, ignorando os sentimentos e necessidades dos outros, portanto, são individualistas.

As pessoas narcisistas estão firmemente convencidas serem únicas e especiais. Por isso, só podem ser compreendidos, relacionarem-se ou associarem-se com pessoas especiais ou com pessoas que tenham um status social muito alto.

Na realidade, pessoas com esse tipo de personalidade podem muito bem estar inseridas dentro dos transtornos histriônicos sem nenhum prejuízo de entendimento, pois, não se vê na prática clínica uma pessoa puramente narcisista.

 

Transtorno Ansioso da Personalidade
A marca característica deste Transtorno de Personalidade é a persistência e continuidade de tensão e apreensão. Como conseqüência disso o portador deste tipo psicológico experimenta a crença freqüente de ser socialmente inapto, desinteressante e desagradável, portanto, inferior aos demais. Na realidade, a ansiedade aparece com maior exuberância sempre que tais pessoas vislumbrem a possibilidade de serem objeto de apreciação por parte dos demais.

Normalmente, devido aos sentimentos supra-referidos, há isolamento social e, como o próprio nome do transtorno diz uma constante evitação social. O que, de fato, eles evitam é a possibilidade de experimentarem sentimentos desagradáveis de desapreço ao se submeterem ao jugo público. Com freqüência se utilizam de mentiras com a intenção de dissimularem sua real situação existencial, pois, de qualquer forma, acham que se os interlocutores souberem como eles são realmente, perderão todo interesse em suas pessoas.

Assim sendo, a pessoa com este transtorno está sempre dissimulando sua verdadeira performance social, interpessoal ou psicológica, procurando aparentar aquilo que, decididamente, não é. Isso tudo por que, como dissemos, tem uma preocupação excessiva em estar sendo criticada ou rejeitada em quase todas as situações sociais. Há também, aqui, uma severa relutância no envolvimento com outras pessoas, sempre motivada pelo medo da crítica, como dissemos. Poderão envolver-se caso tenham certeza absoluta de sua apreciação.

 Os critérios do DSM.IV para o diagnóstico de Transtorno Ansioso da Personalidade

a) sentimentos persistentes e invasivos de tensão e apreensão;
b) crença constante de ser socialmente inepto, pessoalmente desinteressante ou inferior aos demais;
c) preocupação excessiva em ser criticado ou rejeitado em situações sociais;
d) relutância em se envolver com pessoas, a não ser quando absolutamente certo de ser apreciado;
e) restrições ao estilo de vida devida à necessidade de segurança física;
f) evitação de atividades sociais e ocupacionais que envolvam contacto interpessoal significativo por medo de opiniões a seu respeito

 

Transtorno Obsessivo-Compulsivo da Personalidade (Anancástico)
Há, neste transtorno da personalidade, um padrão generalizado de perfeccionismo e inflexibilidade. Trata-se da personalidade obsessivo-compulsiva e as pessoas assim se preocupam com a observância das normas, das regras, com a organização das coisas e com os detalhes do cotidiano.

Normalmente essas pessoas são escravizadas pelo simétrico, pela limpeza e pela ordem das coisas, desde a arrumação de seus pertences pessoais, como guarda-roupas, gavetas, mesas, até a organização extremamente cuidadosa de coisas relacionadas à ocupação e profissão. As pessoas portadoras do transtorno anancástico da personalidade sofrem com tudo que contraria suas próprias regras, determinações e manias, por isso são exigentes e inflexíveis consigo próprias e com os que lhes são mais próximo.

As pessoas obsessivo-compulsivas têm dificuldades para expressar sentimentos de ternura, compaixão e compreensão aos sentimentos e comportamentos dos outros. Essa dificuldade em manifestar e compreender afetos e sentimentos sublimes dá-nos a impressão de falta de generosidade, de compaixão e de tolerância para com os outros.

Há prejuízo (ou negação) do prazer. Quando as pessoas anancásticas se dão ao luxo do lazer e recreação, fazem isso com tanto planejamento e meticulosidade que acabam sacrificando o próprio prazer em benefício das regras e normas. Anancásticas são pessoas excessivamente escrupulosas com a produtividade, ao mesmo tempo em que tendem a excluir o prazer. É comum ouvirmos de pacientes assim que só se sentem felizes se estão produzindo e, de fato, elas acabam descobrindo alguma coisa “produtiva” mesmo quando estão passando férias na praia.

As características das pessoas anancásticas passam pela presença de sentimentos de dúvida e cautela excessivos. Isso acaba fazendo com que tenham a necessidade constante de se certificarem sobre estar fazendo a coisa certa. Perguntas repetitivas neste sentido e conferência continuada de tudo que fazem é a regra. Por conta disso estão sempre contando e recontando, além de evitarem tomar decisões, principalmente por reavaliarem seguidamente a questão das prioridades.

Há exagerada preocupação com detalhes, regras, listas, ordem, organização e esquemas. A preocupação com que as coisas saiam perfeitas e muito bem planejadas acaba por comprometer substancialmente a execução dessas mesmas coisas.  Aqui nota-se também inflexibilidade, rigidez e teimosia. É comum as pessoas obsessivo-compulsivas perderem muito tempo alinhando coisas, papeis, livros, roupas. Caso essas coisas não estejam “no lugar certo” perturbam-se significativamente.

Há uma aderência excessiva das pessoas obsessivo-compulsivas a algumas convenções sociais e, como se não bastasse sua própria valorização sobre essas normas e regras, insistem fortemente para que os outros se submetam também aos seus conceitos de valor.

Por conta disso são pessoas excessivamente controladoras em suas famílias, seja nos comportamentos ou nos gastos. Aliás, comumente elas são grandes poupadoras, fazendo contas sobre a economia pessoal ou familiar constantemente.

Embasadas em regras sociais ou culturais tais pessoas têm grande dificuldade em se descartar de objetos usados, geralmente sem utilidade. Esse fenômeno se chama “colecionismo” e pode comprometer importante espaço na casa das pessoas obsessivo-compulsivas. Armazenar alimentos mais que o necessário, obviamente muito bem organizados e no “lugares certos”, também acontece.

 Os critérios para o diagnóstico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo da Personalidade

a) sentimentos de dúvida e cautela exagerados;
b) preocupação com detalhes, regras listas, ordem, organização e esquemas;
c) perfeccionismo que interfere na conclusão de tarefas;
d) escrupulosidade excessiva com a produtividade, concomitante à quase exclusão do prazer;
e) aderência excessiva à algumas convenções sociais;
f) inflexibilidade, rigidez e teimosia;
g) insistência para que os outros se submetam aos seus conceitos de valor em relação à maneira de fazer as coisas;
h) evitam tomar decisões acreditando haver sempre outras prioridades;
i) falta de generosidade e de sentimentos de compaixão e tolerância para com os outros;
j) dificuldade em descartar-se de objetos usados.

Transtorno Antisocial da Personalidade
Antes de falar sobre esse tipo de transtorno da personalidade convém esclarecer que os termos Sociopata, Psicopata, Personalidade Psicopática, Personalidade Anti-social ou Dissocial são considerados sinônimos. O DSM.IV  chama esses casos de Personalidades Anti-sociais e a CID.10  de Personalidades Dissociais.

A característica essencial desse transtorno da personalidade é uma inclinação natural e persistente de desrespeito e violação aos direitos dos outros, iniciando-se na infância ou começo da adolescência e continuando indefinidamente na idade adulta. O engodo e a manipulação são aspectos centrais desse transtorno da personalidade e, além da violação dos direitos básicos ou sentimentos dos outros, também há contravenção de normas ou regras sociais importantes.

Na prática essas pessoas podem mentir repetidamente, usar nomes falsos, ludibriar ou fingir. Há também um padrão de impulsividade e explosividade com tendência à irritabilidade e/ou agressividade. Também se observa um fracasso em planejar o futuro, sendo as decisões tomadas ao sabor do momento, de maneira impensada e sem considerar as conseqüências para si mesmo ou para outros.

As características mais marcantes e causadoras de maior impacto social são as seguintes:
a. - Sedução e manipulação. Embora não seja uma regra absoluta os psicopatas serem encantadores, é expressivo o grupo deles que utilizam o encanto pessoal e a capacidade de manipulação de pessoas como meio de sobrevivência social. Através do encanto superficial o psicopata acaba usando as pessoas certas e na medida de suas utilidades, descartando-as depois.

b. - Mentiras sistemáticas e comportamento fantasioso. A personalidade anti-social utiliza a mentira como ferramenta de trabalho. Normalmente a pessoa com esse transtorno está tão habilitada e habituada a mentir que é difícil perceber quando mente. Ela é capaz de mentir olhando nos olhos e com atitude completamente neutra e relaxada. Essa frieza ao mentir é a responsável pela sistemática capacidade para ludibriar as máquinas detectoras de mentira.

c. - Ausência de Sentimentos Afetuosos. Desde criança se observa na pessoa psicopata um acentuado desapego aos sentimentos e um caráter marcado pelo fingimento. A pessoa sociopata não manifesta nenhuma sensibilidade por nada, normalmente mantendo-se indiferente. Elas têm grande dificuldade para entender os sentimentos dos outros, mas, por outro lado, podem fingir magistralmente esses sentimentos quando socialmente desejável.

d. – Amoralidade. Os psicopatas têm grande insensibilidade moral, faltando-lhes totalmente juízo e consciência morais, bem como noção de ética.

e. – Impulsividade e Incorrigibilidade. A ausência de sentimentos éticos e altruístas, unidos à falta de sentimentos morais, impulsiona o psicopata a cometer brutalidades, crueldades e crimes. A pessoa psicopata nunca aceita os benefícios da reeducação, da advertência e da correção, mas podem disfarçar durante algum tempo seu caráter torpe e anti-social.

f. - Falta de Adaptação Social. Desde criança a pessoa anti-social manifesta certa crueldade e tendência a atividades delituosas, como por exemplo, o maltrato aos animais, às pessoas mais novas, mentiras continuadas, fugas, etc. A adaptação interpessoal também fica comprometida, tendo em vista a tendência acentuada do psicopata ao egocentrismo e egoísmo.

 

 

Ballone GJ, Meneguette JP - Transtornos da Personalidade, PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2009.

 

 

Referências:
1.Adler A - A Ciência da Natureza Humana, Ed. Companhia Nacional, 1939.
2.Allport GW - Personalidade, EDUSP, 1973, SP.
3.CID.10 é a 10a. revisão da classificação internacional de doenças, da Organização Mundial de Saúde.
4.DSM.IV é a 4a. revisão da classificação de doenças mentais da Associação Norteamericana de Psiquiatria.
5.Ey H, Bernard P, Brisset C - Manual de Psiquiatria, Ed. Massom, 5a.ed., RJ., 1981.
6.Gunderson JG, Phillips KA – Transtornos da Personalidade. In: Kaplan HI, Sadock BJ – Compêndio de Psiquiatria, 9a. Ed, Artes Médicas, Porto Alegre, 2007.
7.Jaspers K – Psicopatologia Geral, Ed. Atheneu, 1997.
8.Jung CG - Tipos Psicológicos, Vozes, 1984, Petrópolis.
9.Kaplan HI, Sadock BJ – Compêndio de Psiquiatria, Artes Médicas, 8ª. Ed., 2000, P. Alegre.
10.Nietzsche F - Humano, Demasiado Humano, Ed. Martins Fontes, 1973.
11.Schopenhauer A - O Mundo Como Vontade E Como Representação, Ed. UNESP, 2007.




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TRANSTORNO DE PERSONALIDADE E DOENÇA MENTAL FRANCA
Os Transtornos de Personalidade são importantes porque eles podem representar propensões, podem ser preditivos ou prenunciar transtornos emocionais mais específicos.

Pessoas com Transtornos de Personalidade inegavelmente têm maior risco para os diversos transtornos psíquicos, incluindo os transtornos afetivos ou do humor, transtornos de ansiedade, dependência química, esquizofrenia, entre outros.

As pessoas com Personalidades Esquizotípica, por exemplo, estão em risco aumentado de esquizofrenia e aqueles com personalidades anancástica estão em maior risco de transtorno obsessivo-compulsivo. A presença de um Transtorno de Personalidade também complica a evolução da maioria dos transtornos mentais, seja por razões psicopatológicas propriamente ditas, seja pelas dificuldades de inter-relacionamento pessoal (portanto, com terapeutas e instituições também). Por causa disso podem ser chamados de personalidade pré-mórbida, sempre que evoluírem para transtornos psíquicos francos.

Além dos psiquiatras estarem atentos à presença de transtorno de personalidade, devem também ampliar o conceito classificatório desses transtornos, pois, frequentemente o distúrbio pode não corresponder a qualquer um dos tipos descritos nos manuais ou listados em glossários psiquiátricos.  

Outra questão incômoda à psiquiatria é decidir se os transtornos de personalidade são passíveis de tratamento e se as pessoas com esse diagnóstico devem ser reconhecidos como doentes.

Se transtornos de personalidade não devem ser considerados como doenças mentais, apesar da sua indiscutível relevância para a prática clínica, a alternativa seria considerá-los como sérios fatores de risco e/ou fatores complicadores para outros transtornos mentais, da mesma forma que a obesidade é considerada um risco fator para outras doenças, como por exemplo, diabetes, infarto do miocárdio, cálculos biliares, entre outras.

A Organização Mundial de Saúde (CID-10) inclui os Transtornos de Personalidade nos transtornos mentais e do comportamento. O termo transtorno é usado na CID-10 para indicar a existência de um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecíveis e classificáveis, na maioria dos casos associados com sofrimento e com interferência nas funções pessoais.

O Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM-IV) da Associação Norteamericana de Psiquiatria, embora faça uma descrição detalhada de Transtornos de Personalidade, ele não estipula que o comportamento desviante ou os conflitos entre a pessoa e a sociedade sejam, automaticamente, consideradas perturbações mentais, a menos que o desvio ou conflito seja um sintoma de disfunção do indivíduo.

Arriscando atribuir alguma diferença entre Transtornos da Personalidade e a Doença Mental pode-se dizer, sem muita convicção, que as doenças mentais ocorrem e se desenvolvem a partir de um momento definido da vida, tal como são as crises, reações, processos, episódios e surtos, enquanto os Transtornos da Personalidade, por sua vez, são maneiras problemáticas de ser, constantes e perenes. As doenças mentais surgem e os Transtornos da Personalidade são.

Definições de Doença ou Distúrbio

A questão mais controversa é se a doença ou o transtorno, considerados sinônimos pela Organização Mundial de Saúde, são termos médicos ou sócio-políticos, segundo um juízo de valor. Há divergências entre a opinião dos médicos e dos cientistas sociais.

No entanto, do ponto de vista médico, quanto sócio-psicológico, existem fortes evidências de que os Transtornos de Personalidade sejam prejudiciais (Drake & Vaillant, 1985). Como esse tipo de discussão envolve áreas além da psiquiatria, parece quase impossível decidir se os Transtornos de Personalidade são transtornos mentais francos ou não.

Uma das características comuns entre Transtornos de Personalidade e Doença Mental franca é em relação ao curso e evolução dos dois quadros. Algumas doenças mentais que se caracterizam pela cronicidade, tanto quanto Transtornos de Personalidade parecem ser estáveis ao longo do tempo e da vida adulta. É o que acontece com algumas doenças esquizofrênicas e afetivas, por exemplo.

Além de muitos sintomas em comum, parece também cada vez mais claras as evidências de bases genéticas para os distúrbios de personalidade afetiva e os transtornos do humor, assim como para o transtorno de personalidade esquizotípico e a esquizofrenia.

O chamado transtorno de personalidade afetiva pela antiga CID-9 foi substituído na CID-10 por dois “novos” transtornos de humor, a ciclotimia e a distimia, e ambos evidenciam componentes familiares geneticamente relacionados aos distúrbios de humor, além da mesma indicação de tratamento para todos eles.

As dificuldades de separação entre doença mental franca e Transtornos de Personalidade aumentam quando se vê que o transtorno esquizotípico é classificado como um transtorno de personalidade no DSM-IV e, na CID-10, é classificado junto com a esquizofrenia e transtornos delirantes.

Na mesma linha de constatações dúbias, o transtorno de personalidade esquiva também tem muito em comum com um transtorno ansioso chamado de fobia social generalizada,  ambos manifestando sintomas iguais ou semelhantes.

Outro fator que acaba confundindo a distinção entre Transtornos de Personalidade e doença mental franca é a resposta aos tratamentos eficazes, sejam psicoterápicos ou, principalmente, medicamentosos. Havia um antigo e engraçado ditado que dizia o seguinte: “a medicina é tão mais útil e eficaz, quanto mais doente está a pessoa”, logo, em sentido inverso, as situações incômodas, mórbidas ou mal adaptadas que se modificam e melhoram pela influência do tratamento devem ser doenças.

Tanto quanto o distúrbio de personalidade, também a obesidade não é considerada uma doença genuína atualmente. Em relação à obesidade, tendo em vista os medicamentos e tratamentos cada vez mais eficazes para reduzí-la, é muito provável que venha a ser considerada uma desordem metabólica. De outra forma, ninguém poderia indicar, uma orientação nutricional, um ansiolítico ou outros medicamentos e até uma cirurgia para algo que nem doença é. O mesmo poderá acontecer com Transtornos de Personalidade.

Na verdade, isso já acontece em relação à eficácia de alguns antidepressivos para reduzir a irritabilidade, impulsividade e agressividade em pessoas com algum transtorno de personalidade (Coccaro & Kavoussi, 1997). Por outro lado e usando o mesmo raciocínio, para que o transtorno de personalidade anti-social ou sociopatia fosse aceito como doença mental franca, tal como se faz em relação à esquizofrenia, deveria responder a alguma forma de tratamento que não seja simplesmente o ambiente disciplinado das instituições correcionais. 

Coccaro EF, Kavoussi RJ - Fluoxetine and impulsive aggressive behavior in personality-disordered subjects. Archives of General Psychiatry, 54, 1081 -1088, 1997.
Drake RE, Vaillant GE - A validity study of Axis II of DSM-III. American Journal of Psychiatry, 142, 553 -558, 1985.

Ballone GJ  - Transtornos da Personalidade e Doença Mental Franca, PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2011.


 





Os Transtornos de Personalidade afetam todas as áreas de influência da personalidade de um indivíduo, o modo como ele vê o mundo, a maneira como expressa as emoções, o comportamento social. Caracteriza um estilo pessoal de vida mal adaptado, inflexível e prejudicial a si próprio e/ou aos que com ele convivem.

Essas características no entanto apesar de necessárias não são suficientes para identificação dos Transtornos de Personalidade, pois são muito vagas. A maneira mais clara como a classificação deste problema vem sendo tratada é através da subdivisão em tipos de personalidade patológica.

Agressividade e Personalidade
Os impulsos agressivos e destrutivos podem fazer parte do Transtorno Explosivo Intermitente (DSM.IV). Tais impulsos, esporádicos, tanto podem fazer-se contra objetos como contra pessoas, inclusive contra a própria pessoa, configurando assim todas as formas e graus de hétera e/ou auto-agressividade.

Na realidade, contrário do que alguns pacientes acham e até dizem com uma ponta de orgulho que "quando fico nervoso fico fora de mim" ou "sou calmo até que não mexam comigo", esse comportamento não é uma atitude corajosa ou meritosa. Trata-se, de fato, de um fracasso e incompetência em resistir aos impulsos agressivos, resultando em sérias agressões e destruição de propriedade.

Assim sendo, a característica do Transtorno Explosivo Intermitente é a ocorrência de episódios definidos de fracasso em resistir a impulsos agressivos, acarretando sérios atos agressivos ou a destruição de propriedades. O grau de agressividade expressada durante um episódio é amplamente desproporcional a qualquer estressor desencadeante (
veja mais).

Histeria é o termo que designa genericamente as neuroses com sintomatologia corporal exuberante. Atualmente o termo Histérico tem sido substituído por Histriônico.

Trata-se de uma neurose causada por conflitos psicológicos, e que se caracteriza por grande expressividade somática ou corporal das idéias, imagens e afetos conflitantes e, normalmente, inconscientes.

O termo é derivado do grego "histerum" (útero) porque, a princípio, pensou-se que essa doença se originava em distúrbios desse órgão).

É um transtorno emocional caracterizado por um exagero considerável da sugestionabilidade evidenciada por surpreendente plasticidade da personalidade.

Desse fato decorre uma série de manifestações funcionais de aparência orgânica, tais como, paralisias, perturbações sensoriais, crises nervosas, sono, catalepsia etc. E outros distúrbios psíquicos típicos: mitomania, onirismo, amnésia, automatismo psicomotor etc.

Considerada como expressão orgânica de conflitos inconscientes, a histeria é a neurose de conversão dos psicanalistas ("funcionais" é quando a alteração se dá na função do órgão e não em sua anatomia). Estudos mais sistematizados sobre o assunto começaram com Jean Marie Charcot (I825-1893) que empreendeu uma investigação metódica dos sintomas histéricos graças ao método de observação clínica.

Personalidade Anancástica é o mesmo que Obsessivo-Compulsiva.

O Transtorno Anancástico da Personalidade corresponde às características obsessivas-compulsivas da conduta, pensamento ou personalidade.

No caso dos Pensamentos Anancásticos, pode se tratar de pensamentos, imagens mentais ou impulsos para agir, quase sempre angustiantes para a pessoa. As idéias obsessivas (ou anancásticos) são pensamentos, representações ou impulsos, que se intrometem na consciência da pessoa de modo repetitivo e estereotipado.

Em regra geral, elas perturbam muito o sujeito, o qual tenta, freqüentemente resistir-lhes, mas sem sucesso. A pessoa reconhece, entretanto, que se trata de seus próprios pensamentos, mas estranhos à sua vontade e em geral desprazerosos.

Os comportamentos e os rituais compulsivos são atividades estereotipadas repetitivas. A pessoa com esse transtorno não tira prazer direto algum da realização destes atos os quais, por outro lado, não levam à realização de tarefas úteis por si mesmas.

O comportamento compulsivo tem por finalidade prevenir algum evento objetivamente improvável, freqüentemente implicando dano ao sujeito ou causado por ele, que ele(a) teme que possa ocorrer.

O sujeito reconhece habitualmente o absurdo e a inutilidade de seu comportamento e faz esforços repetidos para resistir-lhes. O transtorno se acompanha quase sempre de ansiedade. Esta ansiedade se agrava quando o sujeito tenta resistir à sua atividade compulsiva.

Às vezes trata-se de hesitações intermináveis entre várias opções, que se acompanham freqüentemente de uma incapacidade de tomar decisões banais mas necessárias à vida cotidiana.


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