Lidando com o Luto

Os sentimentos de perda afetam todas as pessoas durante a vida.
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A sensação de perda (luto) é um sentimento que, inegavelmente, mais cedo ou mais tarde todos experimentarão, pois todos se defrontam com a morte de alguém querido durante a vida. Talvez pelo fato desse sentimento aparecer habitualmente com certa surpresa, a possibilidade das perdas não costuma habitar a consciência das pessoas afetivamente bem. Dessa forma, o mais comum é que as pessoas estejam despreparadas para a perda.

Fisiologicamente a angústia ocorre após qualquer tipo de perda, entretanto ela é mais forte depois da morte de alguém que amamos. O luto não é apenas um sentimento, mas uma série de sentimentos característicos e que levam certo tempo para passar, além de não se poder apressá-los.

Apesar das diferenças entre as pessoas, a ordem em que estes sentimentos aparecem durante o luto é bastante semelhante. A tristeza é o sentimento mais comumente experimentado após a morte de alguém com forte vínculo afetivo. A reação de luto pode ser menor em pessoas que tiveram abortos espontâneos, partos de natimortos ou naquelas que perderam os bebês muito precocemente. Mas mesmo em alguns desses casos, apesar de não terem ainda construído um forte e intenso vínculo afetivo com a pessoa perdida, há sofrimento semelhante ao luto em grau variável e pode também necessitar de atenção.

1. – Dormência Emocional
Em poucas horas após o conhecimento da morte de alguém querido, a maioria das pessoas sente uma espécie de atordoamento emocional, como se não pudesse acreditar que realmente aconteceu. Esse sentimento existe, ainda que em grau geralmente diminuído, mesmo que a morte estivesse sendo esperada. Apesar de fisiológica, essa sensação de irrealidade pode se tornar um problema se durar por muito tempo.

Compreensivamente, se a pessoa emocionalmente dormente se confrontar com o corpo da pessoa falecida poderá começar a ultrapassar esta fase de entorpecimento. Em geral, o enterro ou a cerimônia funerária são ocasiões em que a realidade do que aconteceu realmente começa a firmar-se. De fato, pode ser angustiante ver o corpo ou a assistir ao funeral, mas estas são maneiras de tomar pé da realidade e mentalmente dizer adeus à pessoa querida. Apesar de essas coisas parecerem demasiadamente dolorosas, se não forem realizadas poderão resultar em um sentimento de profundo pesar nos próximos anos.

2. – Inquietação ansiosa
Logo, porém, esta dormência emocional desaparece e pode ser substituída por uma terrível sensação de inquietação, de suspiros e sensação de querer ter a pessoa morta de volta, mesmo que isso seja claramente impossível. Essa sensação torna difícil relaxar ou concentrar-se e pode dificultar dormir adequadamente. Os sonhos podem ser extremamente perturbadores.
Nesta fase algumas pessoas sentem vontade de "ver" sua pessoa amada onde quer que estejam - na rua, no parque, ao redor da casa, principalmente nos lugares que passaram juntos. A fase de inquietação ansiosa pode ser dividida em outras sub-fases:

Raiva
Muitas vezes as pessoas sentem raiva nesta fase do luto – principalmente dos médicos, enfermeiros e outros profissionais que não impediram a morte, até de amigos e parentes que não fizeram o suficiente para evitar a morte, ou mesmo da pessoa “deixou-se” morrer.

Culpa
Outro sentimento comum é a culpa. As pessoas reviram mentalmente tudo o que gostariam de ter dito ou feito para a pessoa falecida. Entre o que poderia ter sido feito, algumas pessoas chegam a considerar algumas coisas capazes de ter evitado a morte. A pessoa enlutada pode precisar ser lembrada do fato da morte ser, geralmente, inexorável. A culpa também pode surgir diante da sensação de alívio emocional que se sente depois de alguém morrer, geralmente depois de uma doença crônica, demorada e dolorosa. Este sentimento de alívio é muito natural, extremamente compreensível e comum.

3. – Tristeza ou Depressão
Este estado de agitação é mais forte cerca de duas semanas após a morte, e é geralmente seguida por tristeza ou depressão, reclusão e silêncio. Estas mudanças súbitas de emoção podem parecer confusas para amigos ou parentes, mas são partes da trajetória normal do luto.

Na medida em que a inquietação ansiosa diminui, os períodos de depressão tornam-se mais freqüentes e atingem o seu auge entre quatro e seis semanas mais tarde. Crises de aflição podem ocorrer a qualquer momento, comumente desencadeadas por pessoas, lugares ou alguma coisa capaz de mobilizar lembranças da pessoa morta.

Normalmente as pessoas enlutadas podem surpreender as outras quando, de repente, explodem em lágrimas sem uma razão imediata aparente. Nesta fase, pode ser indicado manter a pessoa em luto afastada de outras que não a compreendem ou compartilham do sofrimento.

Tem sido considerado benéfico tentar voltar às atividades normais após duas semanas. Quando isso não acontece pode aparecer aos outros que a pessoa enlutada passa muito tempo sentada, quieta e sem fazer nada. Essa apatia e desinteresse refletem, na verdade, pensamentos recorrentes sobre a pessoa perdida.

Com o passar do tempo, o sofrimento do luto feroz cede e começa a dissipar-se. Diminuem os sintomas depressivos e a pessoa sente ser possível começar a pensar em outras coisas, a olhar novamente para o futuro. No entanto, a sensação de ter perdido uma parte de si mesmo costuma demorar muito tempo ainda ou nunca desaparecer totalmente.

Estas diferentes fases do luto, muitas vezes se sobrepõem e se mostram de maneiras diferentes em pessoas diferentes. A maioria se recupera de um grande luto dentro de um ou dois anos. A fase final do luto é um "abrir mão" da pessoa que morreu e início de um novo tempo de vida. A depressão pode desaparecer completamente, o sono e a energia voltam ao normal. Sentimentos e funções sexuais podem ter desaparecido por algum tempo, mas voltam nesta fase final.

Mesmo considerando a fisiologia dessas fases do luto, isso não quer dizer que haja um modelo “standard” de luto. As pessoas são diferentes e diferentemente reagem à vida, tanto nos momentos bons como nos sofrimentos.

Também as pessoas de variadas culturas lidam com a morte de maneiras distintas. Desde a pré-história nossos ancestrais vêem lidando de maneiras diferentes com a morte nas mais diferentes épocas e culturas. Ao longo dos séculos as pessoas em diferentes partes do mundo elaboram suas próprias cerimônias para lidar com a morte.

Em algumas comunidades a morte é vista apenas como uma etapa de um ciclo contínuo e não como um 'ponto final' da existência. Os rituais e cerimônias de luto tanto podem ser de natureza pública e demonstrativa, como privados e íntimos. Em algumas culturas o período de luto é fixo, em outras não se reconhece um tempo determinado, mas de qualquer forma os sentimentos vivenciados pelas pessoas enlutadas podem ser semelhantes nas mais diferentes culturas. Não se deve confundir a qualidade desses sentimentos relativos às perdas, muito semelhantes entre os seres humanos, com suas mais diversas formas de expressão.

Luto em Crianças
Embora as crianças não possam compreender o significado da morte antes dos três ou quatro anos, eles podem sentir a perda de parentes próximos da mesma forma que os adultos, podem chorar e sentir uma grande angústia. Porém, em crianças, diferentemente dos adultos, as fases do luto podem transcorrer mais rapidamente. Em idade escolar as crianças podem experimentar o sentimento da culpa mais intensamente, podem se sentir responsáveis pela morte de um parente próximo e, dessa forma, necessitar de uma atenção mais especial.

Os jovens podem não falar ou se queixar de sua dor, com medo de adicionar sofrimentos adicionais aos adultos à sua volta. Assim, um apelo especial se faz sobre o sofrimento das crianças e adolescentes e de suas necessidades diante do luto. Em geral a recomendação psicológica é para que escolares e adolescentes devam ser naturalmente incluídos na cerimônia funeral.

Solidariedade Terapêutica
Familiares e amigos podem ajudar passando algum tempo com a pessoa enlutada. Nesses casos, não tanto pelas palavras de conforto necessárias, mas sim a presença solidária durante o tempo de sua dor e de sua angústia. Um ombro amigo, compreensivo e mesmo silencioso expressará grande apoio quando as palavras não são suficientes. É importante dar para as pessoas tempo suficiente para se lamentarem.

Ajudar com a limpeza, compras ou cuidar de crianças pode aliviar o fardo inicial de estar sozinho. Idosos enlutados podem precisar de ajuda com as tarefas que o falecido companheiro fazia - lidar com contas, cozinhar, doméstico, ficando o carro à oficina e assim por diante.

Ter alguém do lado é importante quando as pessoas enlutadas sentem vontade de chorar ou falar sobre seus sentimentos de dor e sofrimento. Embora os sentimentos do luto acabem passando com o tempo, antes disso muitas pessoas pesarosas precisam falar e chorar. Quando não se sabe o que dizer para a pessoa enlutada é importante ser honesto e dizer isso para ela. Isto lhe dará a chance dela própria dizer o que quer.

As pessoas muitas vezes deixam de mencionar o nome da pessoa que morreu para a pessoa em luto por medo de que seja perturbador. No entanto, para a pessoa enlutada isso pode parecer que os outros estão se esquecendo de sua perda. Alguns podem achar difícil entender por que a pessoa enlutada quer continuar no mesmo lugar, na mesma casa em que viva com a pessoa querida antes da morte, mas isso é parte do processo de resolução da dor e não deve ser desencorajado.

Também deve ser lembrado que ocasiões comemorativas (não só da morte, mas também aniversários e casamentos) são particularmente dolorosas quando amigos e parentes fazem um esforço especial para estar junto. Nessas ocasiões a pessoa enlutada deve resolver o que será melhor para si.

Existem pessoas que não parecem sofrer tanto e impressionam a todos. São pessoas que não choram no funeral, evitam qualquer menção de sua perda e voltam à sua vida normal com rapidez impressionante. Isso pode não significar falta de sofrimento, mas sim uma forma particular de lidar com perdas e danos, um mecanismo de defesa contra o sofrimento. Algumas pessoas não se permitem lamentar com franqueza seus sentimentos, outras não têm essa oportunidade devido às pesadas exigências de cuidar de uma família ou de uma empresa. Outras pessoas podem manifestar sentimentos mais exuberantemente e até mesmo sofrer estranhos sintomas físicos de origem emocional ou quadros de depressão que se repetem ao longo dos anos seguintes.

Devido as reações vivenciais não-normais (veja na coluna ao lado) alguns enlutados podem começar a desenvolver um luto crônico e persistente. As sensações iniciais de choque e de descrença podem durar anos, com notável dificuldade em acreditar que a pessoa amada está morta. Outros podem continuar incapazes de pensar em outra coisa além da perda, muitas vezes fazendo o quarto da pessoa morta uma espécie de santuário para a sua memória.

A depressão, comum a quase todos os lutos, pode tornar-se muito mais grave, e um sinal disso pode ser quando a comida e a bebida são recusadas, assim como quando pensamentos de suicídio aparecem. Ocasionalmente, noites insones podem continuar por muito tempo e tornar-se um problema sério. Se a depressão continua por muito tempo, fugindo à norma da fisiologia do luto normal, pode haver necessidade de tratamento médico à base de antidepressivos e psicoterapia por algum tempo.

O luto vira o mundo da pessoa de cabeça para baixo e é uma das experiências mais dolorosas. Pode ser estranho, terrível e avassalador. Apesar disto, é uma parte da vida que todas as pessoas estão fadadas e geralmente não requer atenção médica. Entretanto, ao perceber-se agravamento do quadro depressivo, notadamente em pessoas com antecedentes de transtorno afetivo ou do humor, recomenda-se pronta intervenção terapêutica.

 

 

para referir:
Ballone GJ - Lidando com o Luto - in. PsiqWeb, Internet - disponível em http://www.psiqweb.med.br/,  2010.

 

 




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Reação Vivencial; como Reagimos à Realidade
Poderíamos chamar esse capítulo de Interação do Sujeito Com a Realidade ou Interação do Sujeito com o Objeto. A todo contacto do sujeito com a realidade haverá sempre, por parte do sujeito, uma reação à ela na forma de emoções e sentimentos. Esta reação esboçada pelo sujeito ao interagir com a realidade chamamos de Reação Vivencial.

Para entender melhor devemos considerar o que e como são essas Reações Vivenciais e, antes disso, considerar até o que são, de fato, as Vivências. As experiências subjetivas acerca daquilo que vivemos devidamente valorizado e particularmente representado dentro de nosso ser são as nossas Vivências.
Estas são, então, nossos conteúdos conscientes dos dados perceptivos, representativos, ideativos e emotivos em nossa mente, ou seja, de fato o que estamos vivendo ou foi por nós vivido.

Perder o emprego, por exemplo, pode simplesmente ser um dado objetivo, tal qual o significado (de demissão) no dicionário. Por outro lado, se pode tratar de uma Vivência, quando perder o emprego diz respeito ao meu emprego. Neste caso seu significado ultrapassa o dicionário porque está acontecendo conosco, fazendo parte de nossa vida, sendo representado particularmente em nosso interior. Aqui, perder o emprego será minha Vivência.

Assim sendo, Reação Vivencial é a resposta emocional ou sentimental a uma determinada vivência, ou seja, a maneira pela qual o aparelho psíquico reage às estimulações vivenciais. Um fato típico e fundamental é apresentado ao indivíduo e a partir daí determina uma experiência interna e subjetiva, individual e particular.

Tomando-se por base um fato, considerado aqui um objeto, ao ser experimentado por um ser humano passa a fazer parte de seu "eu" e será, então, introduzido em sua consciência. Uma vez introjetado na consciência este fato jamais ficará isolado do universo íntimo de cada um. Fará parte do dinamismo que compõe nosso ser e pertencerá de alguma maneira, à nossa pessoa.

Como vimos, tal como se passasse por “óculos individuais” que fazem cada um enxergar o mundo a sua maneira, qualquer que seja o fato introduzido em nossa consciência, receberá sempre um tratamento representativo e particular de cada um. Em termos práticos, consideramos as categorias mais cotidianas e atuantes na valorização da realidade a anímica e a vital. Ambas dizem respeito à tonalidade e estado afetivo, portanto, passamos a considerar o afeto como o principal elemento que atribui significado e valor à realidade.

O fato tratado pela afetividade será chamado de Vivência, algo individual e particular a cada um de nós, de acordo com as particularidades de nossos traços afetivos. Os fatos podem ser os mesmos entre as várias pessoas, as Vivências, porém, serão sempre diferentes. Fazendo uma analogia com o modelo médico, a Vivência determina uma Reação Vivencial tal como um alérgeno é capaz de determinar uma resposta imunológica (reação alérgica).

Para que uma Reação Vivencial possa ser considerada normal, Jaspers recomenda 3 ingredientes: uma relação causal, uma relação proporcional e temporal .

1 - Relação Causal
Não se concebe uma Reação Vivencial normal sem que haja uma vivência causadora. A mãe, por exemplo, tendo sido surpreendida por uma febre alta em seu filho durante a noite, dever reagir emocionalmente a esta "causa" com sentimentos de angústia, ansiedade, apreensão, etc., enfim, sentimentos dentro da expectativa da concordância cultural para este evento. A febre do filho é a vivência causadora.

Há pessoas, emocionalmente instáveis, capazes de manifestar uma crise de angústia, choro ou desespero diante da possibilidade de vir a ser demitido, de vir a perder seus pais, etc. Obviamente, trata-se de possibilidades, entretanto, não é normal viver experimentando sistematicamente tais sentimentos antecipados. As pessoas portadoras de algum transtorno de ansiedade podem experimentar desagradáveis sentimentos de tensão muito antecipadamente, tomando o evento futuro como ameaça. Esta é uma maneira particular de valorizar a realidade.

2 - Relação Proporcional
Em situações normais, os sentimentos determinados pela Reação Vivencial devem guardar uma compreensiva proporcionalidade com a vivência causadora, ou seja, o conteúdo da reação acha-se numa relação compreensível com sua causa. Essa proporcionalidade é também argüida pela concordância cultural.

Utilizando o exemplo anterior, não devemos esperar que a mãe do filho com febre se atire janela abaixo ou se descabele histericamente diante dessa situação. Igualmente, não se espera que ela manifeste sentimentos de exaltação e alegria transbordante, mas, será compreensível ela apresentar sentimentos de ansiedade, medo, angústia ou inquietação proporcionais à causa.

Na tentativa de avaliar a tonalidade afetiva podemos considerar as Reações Vivenciais. Uma boa atitude semiológica seria imaginar como reagiria a maioria das pessoas diante de determinada situação vivenciada pelo paciente.

3 - Relação Temporal
Em seu curso temporal a Reação Vivencial deve depender da permanência da Vivência causadora, esmaecendo e, finalmente cessando algum tempo depois de desaparecer a causa.

Ainda usando o mesmo exemplo anterior da mãe com filho febril, sua ansiedade e angústia deverão desaparecer quando a saúde do filho for restabelecida. O mesmo acontece, por exemplo, em relação à ansiedade de determinadas pessoas, ao aguardarem o resultado de um exame laboratorial ou o atraso indesejável da menstruação. Tal sentimento dever desaparecer tão logo os resultados sejam satisfatórios.