John Locke

Filósofo que criou a idéia do Estado Natural e defendeu a idéia de Tabula Rasa
| Filosofia |


John Locke nasceu em Wrington, em Somerset, no sudoeste da Inglaterra, em 29 de agosto de 1632, e faleceu com 72 anos, em 1704. A família de John Locke era da linha puritana da religião anglicana, seu pai, também John Locke, era um pequeno proprietário e sua mãe, Agnes Locke, filha de um curtidor. Viviam em um chalé coberto de colmo num conjunto de moradias de famílias do mesmo nível da sua. John Locke era o filho mais velho de três e seu pai deu-lhe educação severa e correta, a qual Locke assim a reconheceu depois de adulto.

 

O período da infância e adolescência de Locke deu-se durante a ascensão de uma nova filosofia que resultaria no Iluminismo. As descobertas de Galileu já se tornavam conhecidas, Campanella publicava trabalhos em Paris e apareceram as primeiras publicações de Thomas Hobbes e René Descartes.

Nesta mesma época ocorre também uma guerra civil na Inglaterra, que durou de 1642 a1646, quando puritanos e presbiterianos escoceses aliam-se contra o Rei Carlos I. Foi neste conflito que Cromwell comanda os rebeldes. Condenado pelo Parlamento, o Rei Carlos I é executado em 1649. Seu filho, o príncipe de Gales, posteriormente Carlos II, fugiu para a França, refugiando-se em Paris.

 

John Locke está entre os filósofos chamados empiristas, por compatibilizarem a ciência junto à filosofia, valorizando a experiência como fonte de conhecimento. John Locke destaca-se pela sua teoria das idéias e pelo seu postulado da legitimidade da propriedade, inserido na sua teoria social e política. Para ele, o direito de propriedade é a base da liberdade humana "porque todo homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa". O governo, dizia, existe para proteger esse direito.

 

A reflexão

Segundo Locke, então, a mente não teria absolutamente idéias inatas. O que seria inatas eram as faculdades: a mente percebe, lembra, e combina a idéias que lhe chegam do mundo exterior. Ela também deseja, delibera, e quer, e estas atividades mentais são elas próprias a fonte de nova classe de idéias.

 

De acordo com Locke todas as idéias de Reflexão caem nas seguintes subcategorias:

1. Memória: a habilidade de chamar uma idéia ausente de volta à consciência;

2. Retenção: a habilidade de manter um pensamento na consciência;

3. Discernimento: a habilidade de reconhecer diferenças entre as coisas;

4. Comparação: a habilidade de reconhecer as semelhanças entre as coisas;

5. Composição: a habilidade de construir novas idéias tomando como material, outras idéias; e

6. Abstração: a habilidade de distinguir princípios de relação abstratos (tais como provas matemáticas), os quais jazem por trás de outras idéias e assim criar uma idéia de generalidade.

 

A experiência é pois dupla. Nossa observação tanto pode visar objetos externos da sensibilidade quanto operações internas da própria mente. No primeiro caso as idéias são de sensação, no segundo, de reflexão. No entanto, sem a sensação a mente não teria com que operar e portanto não poderia ter idéias de suas operações, ou seja, idéias de reflexão.

 

Locke estava interessado nos tópicos tradicionais da filosofia: o Eu, o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. É contemporâneo de Thomas Hobbes mas, ao contrário deste, é liberal e tem convicções parlamentaristas. As teses de Locke influenciaram enormemente as bases das democracias liberais, a tal ponto de, no século XVIII, os iluministas franceses terem buscado as principais idéias responsáveis pela Revolução Francesa em suas obras. Inclusive a teoria da separação dos três poderes de Montesquieu foi inspirada em Locke. Também influenciou significativamente os pensadores norte-americanos na elaboração da declaração de sua independência em 1776.

 

Formação

Após a vitória dos Parlamentaristas, aos 15 anos, Locke foi indicado e aceito na Westminster School, em Londres, o velho Colégio de São Pedro. Aí, Locke estudou principalmente grego e latim.

 

Em 1652, Locke foi aprovado para a Christ Church College, o principal colégio em Oxford. Completou seus estudos de bacharelado em artes, assistido por um tutor, conforme o sistema da escola, no decurso de três anos e meio. Locke buscou complementar sua educação com a leitura de obras contemporâneas de filosofia, particularmente de Descartes. Interessou-se, acima de tudo, pela nova ciência experimental criada por Roger Bacon e adquiriu formação médica. Seu interesse pela medicina o aproxima de Richard Lower, um dos pioneiros da fisiologia cardíaca e o primeiro a efetuar uma transfusão de sangue.

 

Os interesses principais de Locke recaíam sobre as ciências naturais e pela investigação social e política. Mas aquelas disciplinas básicas, no entanto, que constituíam o método escolástico, lhe foram úteis mais tarde, como filósofo. Em 1660, Locke foi eleito "Lecturer", um cargo próprio dos colégios ingleses, equivalente a tutor, orientador ou instrutor de alunos de Grego no Christ Church. Dois meses depois de sua nomeação seu pai faleceu, deixando-lhe algumas terras e alguns chalés perto de Pensford. Este patrimônio pode dotar o filósofo de uma renda suficiente para o resto de sua vida. Locke acabou por residir em Christ Church College por mais de trinta anos, tendo se afastado apenas vez ou outra para ir à Londres ou para viagens ao exterior.

 

O Protetorado de Cromwell durou de 1653 até a data em que morreu, em 1658. Com a morte de Cromwell, o Este casamento garantiu importantes vantagens comerciais para a Inglaterra, a qual, em troca, dava a Dom João IV o que ele mais desejava; a proteção contra a ameaça da Espanha de retomar seu domínio sobre Portugal.

 

O envolvimento inicial de Locke com a política começa em 1660, se considerava um monarquista e contrariando a vocação política paterna. Nesse ano, por temer o fracionamento do país depois da morte de Cromwell, o Parlamento chama de volta à Inglaterra o herdeiro do trono e restaura monarquia, aclamando Carlos II.

Nessa época a linha de pensamento de Locke tende ao autoritarismo, por temer a anarquia, segundo ele, e se alinha ao pensamento de Hobbes. Mais tarde suas convicções políticas, inclusive sua postura quanto à tolerância, haveria mudar, inclusive voltando-se radicalmente contra Hobbes.

 

Nas décadas seguintes Locke prosseguiu em seus estudos privados e avançou seus estudos médicos e científicos, assistindo aulas do fisiologista Thomas Willis, o qual tentava explicar o funcionamento do corpo por interações químicas. Nesse período Locke também colaborou com Robert Boyle, um dos fundadores da química moderna. Tanto quanto Locke, Boyle tinha preocupações religiosas, sustentando que o estudo científico da natureza era um dever religioso. Nesta época Locke faz outro amigo, Thomas Sydenham (o mesmo da Coréia de Sydenham), um eminente cientista médico. Sydenham foi o fundador da medicina clínica.

 

Como diplomata

Em 1663, Locke foi eleito censor de Filosofia Moral e manteve o cargo por um ano, ao fim do qual iria deixar Christ Church. Seu irmão morreu aquele ano em Pensford e Locke decidiu passar algum tempo fora, como diplomata. A experiência diplomática de Locke, apesar de curta, teve importante reflexo em sua filosofia. Ele foi o secretário da missão diplomática de Sir Walter Vane a Brandenburg em 1665.

 

Em Brandenburgo ficou impressionado com a tolerância entre as várias facções religiosas e escreveu a esse respeito uma carta para seu amigo Boyle, ressaltando que aquela paz devia-se, parte ao poder dos magistrados, parte à boa natureza e prudência do povo, o qual mantinha diferentes opiniões sem nenhum ódio secreto ou rancor.

 

Brandenburg havia se mantido neutro na Guerra dos Trinta Anos entre católicos, calvinistas e luteranos e Frederico Guilherme, o Grande Eleitor, assumindo o poder em 1640, iniciou um programa de reconstrução do principado, incluindo desde obras de fortificação militar a obras civis, como por exemplo a construção de canais de navegação. Frederico efetivou também a união da Prússia ao eleitorado, o que aumentava consideravelmente seu poder e importância no contexto político europeu.

Foi a partir dessa experiência democrática de Brandenburgo, que Locke começou a rejeitar a visão mais autoritária de Thomas Hobbes. Depois de sua missão Brandenburgo, foram oferecidas a ele numerosas oportunidades em outros diversos postos diplomáticos, os quais ele declinou devido ao seu interesse em medicina, retornando ao seu domicílio em Oxford.

 

Como Médico

Como médico, Locke conheceu e chamou a atenção de Lord Anthony Ashley Cooper, por intermédio de Sydenham. Locke desejava permanecer em Oxford e obter o grau de Doutor em Medicina sem ter que freqüentar todas as classes, o que foi conseguido mediante empenho de Lord Ashley junto ao Secretário de Estado. Foi permitindo a Locke estudar para o grau de Doutor em Medicina na Christ Church College sem as obrigações acadêmicas de aluno. Em seguida, Lord Ashley convidou-o para fazer parte da equipe de empregados de sua casa, servindo como médico da família. Locke aceitou e viajou para Londres.

 

Lord Ashley era um político ousado e oponente radical de Carlos II, o qual tentava refortalecer o absolutismo. Os ideais políticos de Lord Ashley eram a monarquia constitucional, a sucessão do trono por um protestante, liberdades civis, tolerância religiosa, governo através do parlamento e expansão da economia britânica. Como tais ideais eram afins aos defendidos por Locke, havia entre eles uma amizade e entendimento perfeito.

 

Locke encontrava-se ainda com representantes da escola de humanistas cristãos, os Platônicos de Cambridge, intelectuais que, apesar de simpáticos à ciência empírica, opunham-se ao materialismo por considerá-lo falho em explicar o elemento racional na vida humana. Tendiam a ser liberais em política e religião, porém, tanto quanto eles, ensinavam um Platonismo que se apoiava na crença de idéias inatas. Locke não poderia compactuava totalmente com essas idéias, mas a ênfase deles na prática dos costumes como uma parte da vida religiosa e a rejeição ao materialismo eram aspectos que Locke achava atraentes. Um desses humanistas, adepto da existência de idéias inatas, era Ralph Cudworth, cuja filha haveria de hospedar Locke em seus últimos anos e cuja obra "Verdadeiro Sistema Intelectual do Universo" influenciou consideravelmente seu pensamento. Apesar disso tudo, o Livro I do Ensaio de Locke é dedicado à crítica do inatismo (das idéias inatas) defendido por Cudworth.

 

A escola humanista estava próxima de um outro grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana, a do Latitudinarianismo, o qual também influenciou Locke nessa época. Para esse grupo, se um homem confessava Cristo, isto apenas deveria ser suficiente para habilitá-lo a ser membro da Igreja Cristã, e os demais acordos em coisas não essenciais não deveria ser requerido. Esses movimentos prepararam Locke para a escola antidogmática e liberal de teologia que ele encontraria mais tarde na Holanda, uma escola em rebeldia contra a estreiteza do Calvinismo tradicional.

 

A Filosofia acabou por afastar Locke por certo tempo da medicina. Em 1668, Benjamin Whitcote, o teólogo latitudinário líder da Cambridge School e vigário da St. Lawrence Jewry, em Londres, atraiu Locke para sua congregação. Esta congregação professava uma forma de cristianismo que considerava a teologia como racional. Essa visão da teologia reacendeu o interesse de Locke pela religião e pelas escrituras, sobre o que publicaria mais tarde um trabalho.

 

Interessou-se Locke também por Economia, preparando o trabalho que publicaria anos mais tarde com o título Algumas Considerações sobre a Redução dos Juros e o Aumento do Valor da Moeda. Porém retornou ao interesse médico quando Ashley adoeceu subitamente. Ele salvou a vida do estadista por meio de uma habilidosa cirurgia, quando este adoeceu em maio de 1668. Então Locke teve que por de lado qualquer projeto para se entregar inteiramente a dar-lhe cuidado médico.

 

Diagnosticou a doença como problema do fígado. Fez um cirurgião drenar um cisto, inserindo um tubo de prata. Ashley recuperou maravilhosamente e concluiu que devia sua vida a Locke.

 

Locke era conselheiro pessoal de Ashley não apenas em matéria médica mas também em assuntos gerais. Fez os acertos para o casamento do herdeiro de Ashley com a filha do duque de Rutland, assistiu sua nora em 1671 no seu resguardo e dirigiu a alimentação e educação do recém nascido, o qual viria a ser o 3º Conde de Shaftesbury, o famoso autor de Characteristics of Man, Manners, Opinions, Times, obra que despertou grande interesse entre os intelectuais europeus, inclusive de Kant. Assessorou Lord Ashley em vários assuntos políticos importantes e conviveu com os mais altos círculos intelectuais e políticos da época. Devido a Lord Ashley ter direitos de propriedade na Carolina, Estados Unidos, Locke participou da elaboração de uma constituição para aquele futuro estado americano. Nesta época começa também a redigir o que seria "O Ensaio sobre o Entendimento Humano" no que trabalhou por mais de 20 anos.

 

Nos anos passados em Londres, Locke tornou-se também membro da Sociedade Real, onde se procedia a discussões, experiências e demonstrações científicas. A sociedade fora fundada cinco anos antes e, como membro, Locke estava em dia com os avanços científicos. Seus próprios aposentos pessoais eram uma extensão da Sociedade. Seus amigos certamente ansiavam por aquelas horas de alheamento das preocupações diárias em que, na mais cálida amizade, se reuniam nos aposentos de Locke para conversar sobre achados científicos e sobre questões filosóficas. O próprio Locke iniciava os debates e assim discutiu e anotou os pontos de vista sobre o conhecimento humano como rascunho do que 19 anos mais tarde seria o seu famoso "Ensaio".

 

Como Político

A partir 1667 Lord Ashley ganhou poder, dando um passo na direção do mais alto cargo do reino ao integrar o grupo de cinco membros do ministério do Rei conhecido como a "Cabal", um trocadilho porque as primeiras letras dos nomes de seus cinco membros formavam a palavra cabal, o mesmo que "cabala".

 

Em 1672 Ashley foi feito Primeiro Conde de Shaftesbury e ao final desse mesmo ano foi nomeado Lord Chanceler da Inglaterra, o mais alto do governo. Na ocasião Locke vinha sofrendo muito com a fumaça e a neblina de Londres; no inverno Locke tossia dia e noite e tinha cada vez maior dificuldade para respirar. Apesar de necessitar sempre da assistência de Locke, Lord Ashley permitiu-lhe umas férias na França. Locke decidiu viajar com um grupo para a França, em caráter de lazer.

Da França Locke foi chamado de volta à Inglaterra por Ashley. Primeiro na função de secretário de benefícios "Secretary of Presentations", onde lhe cabia supervisionar assuntos eclesiásticos que eram afetos à chancelaria de Ashley e, no ano seguinte, como secretário do Conselho do Comércio e Agricultura que Ashley havia criado.

 

Após dois anos na secretaria do Conselho do Comércio, Locke, incomodado pela asma de que sofria, deixou Londres, voltando para Oxford e decidido a finalizar os estudos requeridos para o bacharelado em Medicina, o que obteve em fins de 1674. No início do ano seguinte foi indicado para uma das duas residências de medicina do colégio. No entanto, receoso da grave situação política, Locke decidiu deixar a Inglaterra e passar uma temporada na França.

 

Residia em Montpellier e o diário que escreveu desse período contém suas observações sobre lugares, costumes e instituições do país. Contém também muitos pensamentos que depois tomariam forma de postulados no seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano". Em Montpellier recebeu a notícia de que Lord Ashley havia sido preso na Torre de Londres. Se estivesse na Inglaterra, teria sido preso com ele, do mesmo modo que outros auxiliares imediatos seus foram detidos.

 

A permanência de Locke na França deixou de ser apenas interesse seu, quando se tornou tutor do jovem filho de um amigo de Lord Ashley. No caminho entre Montpellier e Paris, onde iria encontrar o jovem discípulo, Locke sofreu o contratempo de uma febre alta e precisou de um mês para recuperar-se e concluir a viagem até a Capital, onde o jovem o aguardava. Em Paris, Locke fez contactos que influenciaram profundamente sua visão da Metafísica e da Epistemologia, principalmente com a escola seguidora de Gassendi e com seu líder François Vernier.

 

O já falecido Pierre Gassendi, filósofo e cientista, havia criticado a super-especulação na filosofia racionalista de Descartes e defendera o retorno à doutrina de Epicuro, isto é, o retorno ao empirismo, enfatizando a experiência dos sentidos, o hedonismo (sustentando ser o prazer o bem), e a física corpuscular (com a realidade feita de partículas atômicas). Gassendi, como empirista, sustentava que o conhecimento do mundo exterior depende dos sentidos, porém o homem pode, através da razão, derivar muita informação além da evidência ganha empiricamente.

 

Como Exilado

Após quatro anos na França Locke retornou à Inglaterra e imediatamente para a casa de Lord Ashley. Este havia ficado preso um ano na Torre mas, ao tempo da volta de Locke, já estava livre e fazendo política novamente como presidente do Conselho Privado, enquanto seus inimigos estavam prisioneiros em seu lugar. Locke era novamente seu braço direito.

 

Lord Ashley, agora Conde de Shaftesbury, como sempre, estava do lado do Parlamento e opondo-se às medidas de Carlos II, defensor do absolutismo. Por outro lado, o herdeiro do trono, James, irmão de Carlos II, era católico, e a maioria protestante liderada por Shftesbutry queria excluí-lo da sucessão.

 

Em 1681, por não conseguir conciliar os interesses do rei com os do Parlamento, Lord Ashley foi demitido e Carlos II dissolveu o parlamento. Com essa medida as disputas entre realistas e parlamentaristas reacendeu e Lord Ashley pensou organizar uma revolta, mas seus planos foram descobertos e ele e seus auxiliares e amigos passaram a ser muito vigiados. Espiões foram designados para vigiar inclusive Locke. Pelo final do ano o governo tinha evidências suficientes para prender Lord Ashley de novo, mas acabou sendo absolvido por um jure de Londres. Lord Ashley fugiu para a Holanda, onde veio a falecer no início de 1683.

 

A fama de Hobbes, morto em 1679, foi logo sucedida pela de John Locke, mas sua permanência na Inglaterra tornou-se politicamente insustentável. Em 1683 uma carta enviada da Corte ao reitor do Christ Church College advertia que Locke, que era da casa do Lord Ashley, havia se comportado em várias ocasiões desobedientemente para com o governo. Locke apresentou sua defesa em uma carta e recebeu de um amigo, Lord Pembroke, a garantia de que havia limpado seu nome com o Rei. Porém, Locke decidiu refugiar-se na Holanda por garantia, confiando a um amigo íntimo, o parlamentar Edward Clarke, seus interesses na Inglaterra.

 

No ano seguinte seu nome foi incluído numa lista enviada ao governo holandês de 84 traidores procurados pelo governo Inglês. Para escapar de ser preso e deportado, Locke prudentemente mudou de nome, fazendo-se chamar Dr. Van der Linden. Para se proteger melhor, Locke mudava-se de uma cidade para outra e visitava furtivamente seus amigos.

 

No exílio sua saúde melhorou e fez muitos amigos entre os intelectuais holandeses, podendo dedicar-se mais à medicina. Lá fez amigos e teve tranqüilidade para colocar em ordem seus pensamentos sobre as questões filosóficas que o preocupavam e, principalmente, escrever mais alguns capítulos do Essay Concerning Human Understanding e do Letters on Toleration. Foi nessa época, em 1686, que Isaac Newton comunica à Royal Society de Londres sua hipótese sobre a gravitação universal e Leibniz escreve obras importantes (o Discurso de Metafísica e o Systema Theologicum).

 

Locke permaneceu na Holanda até 1688, quando Jaime II, coroado em 1685, foi derrubado. O casamento de Carlos II não deu filhos. Pouco antes dele morrer, Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica. Parecia que o exílio na Holanda iria ser longo para Locke. O rei católico, irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs, obrigando-o a fugir para a França. Foi a célebre "Revolução Gloriosa".

 

Essa "Revolução sem sangue e gloriosa" ("the glorious bloodless revolution") havia cumprido os ideais de Shaftesbury e Locke e, finalmente, a Inglaterra se tornara monarquia constitucional, controlada pelo Parlamento. A partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa. Após esta revolução tornaram-se maiores a liberdade do indivíduo nas cortes de justiça, a tolerância religiosa e a liberdade de pensamento e expressão. Encorajado a voltar para a Inglaterra pela mudança política, Locke pôs seus negócios em ordem, fez as malas e partiu para a Inglaterra em 1689.

 

Por ocasião de seu regresso à Inglaterra Locke contava cinqüenta e sete anos e, devido aos seus problemas de saúde motivados pela poluição de Londres, deixava a cidade tantas vezes quanto possível para ir ao interior. Por causa dessas viagens Locke acaba por se hospedar na mansão de Oates, uma pequena propriedade rural pertencente Sir Francis e Lady Masham.

 

Sua anfitriã era filha de Ralph Cudworth, professor platonista de Cambridge, a quem Locke admirava pelo tipo de teologia liberal. Uma crescente afinidade intelectual com essa família levou-o a aceitar a oferta de moradia em casa de Lady Masham. Sua saúde melhorou e de lá continuou a manter uma certa influência política como líder intelectual dos parlamentaristas Whigs. A maior tarefa deste último período de sua vida, no entanto, seria a publicação de seus trabalhos, os quais eram o produto de longos anos de gestação. Encontrou editor para seus dois grandes trabalhos logo que retornou; o famoso Ensaio Sobre o Entendimento Humano, e o igualmente importante Dois Tratados Sobre o Governo Civil. Publicou este último trabalho anonimamente e, de tão determinado a ocultar sua autoria dessa obra destruiu todas as cartas e manuscritos a ela referentes.

 

Em março de 1690 apareceu o longamente esperado "Ensaio sobre o Entendimento Humano" (Essay concerning Human Understanding), sobre o qual havia trabalhado intermitentemente desde 1671. O livro alcançou sucesso imediato e provocou uma volumosa literatura de ataque e resposta. De uma parte os jovens queriam introduzi-lo na universidade e de outro, as elites se reuniram para descobrir um meio de suprimi-lo. Uma versão simplificada do Ensaio foi publicada como introdução para estudantes universitários. Novas edições revistas surgiram em 1694, 1695, e 1700.

 

Parece que a partir do simples gosto por cuidar da saúde das crianças, Locke desenvolveu um interesse por normas úteis à sua educação. Ele havia escrito a Clarke, da Holanda, uma série de cartas aconselhando-o quanto à melhor educação de seu filho. Estas cartas formaram a base de seu influente Alguns Pensamentos Relativos à Educação, saído em 1693, criando novos ideais no campo da educação.

 

Em 1695 Locke publicou um tratado religioso com um elevado apelo por um cristianismo menos dogmático, intitulado The Reasonableness of Christianity, onde vê as escrituras como uma coleção de escritos destinados por Deus para a instrução do grosso analfabeto da humanidade no caminho da salvação, e, portanto, de modo geral e nas questões principais, para ser entendida no sentido pleno e direto de palavras e frases. Publicou essa obra anonimamente.

 

Retornou ainda uma vez à vida pública quando, em 1696, foi escolhido pelo Rei para ser um dos Comissários para Comércio e Agricultura. Para cumprir suas obrigações Locke foi forçado a mudar-se de Oates para Londres, a despeito do agravamento de sua asma. Neste cargo Locke tratava de assuntos de comércio com as colônias e agricultura, exercendo uma mão firme dentro do conselho. Quatro anos mais tarde decidiu afastar-se do Conselho devido principalmente a sua saúde decadente.

 

Nos anos seguintes Locke raramente deixou Oates. e ocupou-se, principalmente, de responder a críticas ou revisar edições de seus trabalhos. Uma das críticas teve repercussão maior; foi a de Edward Stillingfleet, bispo de Worcester que, em seu Vindication of the Doctrine of the Trinity (1696), atacou a nova filosofia. Sua crítica chamou atenção para um dos pontos menos satisfatórios do "Ensaio", a explicação da idéia de "substância". Locke respondeu no início de 1697 em A Letter to the Bishop of Worcester. Stillingfleet retrucou poucos meses depois e Locke aprontou logo uma segunda carta. Stillingfleet fez nova replica em 1698 e uma extensa carta de Locke apareceu em 1699, ano em que a polêmica foi interrompida pela morte do bispo.

 

Ao fim de sua vida Locke ficou extremamente doente ao ponto de não poder levantar-se do leito. Faleceu a 28 de outubro de 1704, aos 72 anos. Foi enterrado na igreja paroquial de High Laver.

 

A Origem das idéias

A principal preocupação de Locke em sua teoria do conhecimento foi combater doutrina difundida por Descartes, da existência de idéias inatas na mente do homem. Para Locke a mente humana era como uma folha em branco que receberia impressões através dos sentidos, a partir das experiências do indivíduo (empirismo), sem trazer consigo do nascimento, quaisquer idéias tais como a de "extensão", de "perfeição" e outras, como pretendia Descartes. Locke achava que o conhecimento, a formação de idéias, começava pelos sentidos, conforme se vê na descrição "Das idéias simples", em seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano".

 

Disse: "Somente são imagináveis as qualidades que afetam aos sentidos."..."E se a humanidade houvesse sido dotada de tão somente quatro sentidos, então, as qualidades que são o objeto do quinto sentido estariam tão afastadas de nossa noticia, de nossa imaginação e de nossa concepção, como podem estar agora as que poderiam pertencer a um sexto, sétimo ou oitavo sentidos"...que talvez existam em outras criaturas "em alguma outra parte deste dilatado e maravilhoso universo". Para ele todas as idéias viriam ou da experiência de sensação ou da experiência de reflexão.

 

A sensação

Sobre a sensação ele diz: "Em primeiro lugar, nossos sentidos, que têm trato com objetos sensíveis particulares, transmitem respectivas e distintas percepções de coisas à mente, segundo os variados modos em que esses objetos os afetam, e é assim como chegamos a possuir essas idéias que temos do amarelo, do branco, do calor, do frio, do macio, do duro, do amargo, do doce, e de todas aquelas que chamamos qualidades sensíveis. ...a chamo sensação".

 

Locke utiliza o termo "idéia" com um significado amplo. Inclui todos os diferentes modos da experiência de consciência: representação e imagem, percepção, conceito ou noção, sentimento, etc. um uso muito diverso do que, por exemplo, faz Platão.

 

Idéias de qualidades primárias e secundárias

Locke chama de qualidades primárias, aquelas idéias que concebemos por influência direta do objeto. "Assim consideradas, as qualidades nos corpos são, primeiro, aquelas (idéias) inteiramente inseparáveis do corpo, qualquer que seja o estado em que se encontre. Por exemplo, tomemos um grão de trigo e dividamo-lo em duas partes; cada parte tem (a idéia de) solidez, extensão, forma e mobilidade. ... e si se segue dividindo até que as partes se tornem imperceptíveis, reterão necessariamente, cada uma delas, todas essas qualidades."

 

Em segundo lugar, há idéias de qualidades tais que em verdade não correspondem a nada nos objetos mesmos, mas sim, a poderes que os objetos têm de produzir indiretamente em nós diversas sensações. Sua aparência, forma, volume, textura e ou movimento de suas partes imperceptíveis, e assim são as cores, os sons, os gostos, cheiros, etc.

 

A estas, Locke chama "qualidades secundárias", e teoria que, do mesmo modo como as coisas produzem em nós as idéias de qualidades primárias, também produzem as idéias das qualidades secundarias, ou seja, pela operação de partículas imperceptíveis sobre nossos sentidos. As qualidades secundárias dependeriam das qualidades primarias.

 

Quando Locke disse tocante às cores e cheiros, pode entender-se também respeito a gostos, sons e demais qualidades sensíveis semelhantes, as quais, qualquer que seja a realidade que equivocadamente lhes atribuímos, não são nada em verdade nos objetos mesmos, sino poderes de produzir em nós diversas sensações, e dependem de aquelas qualidades primarias, a saber: volume, forma, textura e movimento de suas partes, como já disse.

 

As idéias das qualidades primárias são semelhanças com algo que está nos corpos, mas as qualidades secundárias, nada há nos corpos que se lhes assemelhem. Nos corpos somente há as ditas qualidades primárias que, no entanto, podem, por variação de volume, forma e movimento das partes imperceptíveis dos corpos mesmos produzir em nós essas sensações que são secundárias; como a idéia de doce, azul, quente, etc.

 

Classificação das idéias.

Essa classificação geral em idéias de sensação e de reflexão tem duas categorias cada uma: Idéias simples e idéias complexas.

 

Idéias simples

São aquelas que não podem ser distinguidas em diferentes idéias, como quente, frio, branco, etc., e Idéias complexas as que são produzidas pelo entendimento por repetição, comparação, união de idéias simples. E nada há mais claro para um homem que a percepção clara e distinta que tem das idéias simples; a frialdade e a dureza, que um homem sente em um pedaço de gelo, são, na mente, idéias tão distintas como o aroma e a brancura de um lírio, ou como o sabor do açúcar e o aroma de uma rosa. No entanto, tem sido demonstrado por alguns autores que certos exemplos de idéias simples dados por Locke são na verdade idéias complexas.

 

Idéias complexas

A mente tem o poder de considerar as varias idéias unidas, como uma só idéia. As idéias complexas são aquelas produzidas pelo conhecimento repetindo, comparando ou unido idéias simples. Às idéias assim feitas de varias idéias simples unidas Locke chama "idéias complexas". Exemplo: beleza, gratidão, um homem, um exército, o universo. As idéias simples são os elementos das idéias compostas, seja combinada na idéia de uma coisa única, como por exemplo, a idéia de homem ou de ouro, seja combinada em idéias de coisas compostas, mas que continuam representando coisas distintas, como são as idéias de relação, como a de filiação, que une, sem alterá-las as idéias de pai e filho.

 

Qualquer que seja a maneira como as idéias complexas se compõem e descompõem, e ainda quando seu número seja infinito, e não tenha término a variedade com que enchem e ocupam os pensamentos dos homens, sem embargo me parece que podem compreender se todas dentro de estes três capítulos:

1) Os modos.

2) As substancias.

3) As relaciones.

 

Modos

Desculpando-se por usar a palavra em um sentido um tanto diferente do significado habitual, Locke chama "modos" as idéias complexas originárias de qualquer combinação, e que não subsistem por si mesmas. Tais são as idéias significadas pelas palavras triângulo, gratidão, assassinato, poder, identidade, ou um número, por exemplo.

 

Subdivisão dos modos.

Locke distingue duas classes de modos, simples e compostos ou mistos.

Nos primeiros a idéia simples combina-se consigo mesma, como a idéia de número, que resulta da combinação das idéias de unidades; ou a de espaço, proveniente da combinação das idéias de partes homogêneas. A idéia do Infinito é um modo simples, resultante da repetição ilimitada da unidade homogênea de número, duração e espaço. Também a idéia de Poder é um modo simples, formado pela repetida experiência de modificações comprovadas nas coisas sensíveis e no próprio homem por um determinado agente. Os modos compostos, ou mistos, derivam da combinação de várias idéias simples diferentes, heterogêneas. Exemplos: a idéia de beleza, que consiste em uma certa composição de várias idéias de cor e forma que produz gozo no espectador.

 

Substância

Locke define Substâncias segundo diz a própria palavra, coisas que subsistem por si; seria o caso da idéia de homem entre outras. A Substância não é mais que o conjunto de idéias simples, que a experiência mostra sempre de forma agrupadas: o ouro é dúctil, denso, amarelo, etc. O substrato daquilo que os sentidos nos transmitem é incognoscível. A substância, como coisa em si, existe, mas não se pode saber o que seja, e a única investigação possível é a pesquisa experimental das idéias de qualidade que lhes atribuímos: conjunto de idéias simples de sensação.

 

Objeta-se a Locke que tomar "substância" como um substrato que imaginamos para as coisas é uma simplificação inaceitável. Ao contrário dos modos, subsistem por si mesmas e são singulares ou coletivas. Substâncias singulares são aquelas combinações de idéias simples que se supõe representam distintas coisas particulares que subsistem por si mesmas. Assim, se a substancia se une a idéia simples de um certo cor esbranquiçado apagado, com certos grados de peso, de dureza, de ductibilidade e de fusibilidade, teremos a idéia do chumbo. Substâncias coletivas são aquelas combinações de idéias reunidas, como um exército de homens, ou um rebanho de ovelhas; essas idéias coletivas de varias substancias assim reunidas, são, elas mesmas, uma idéia única, complexa, como o é, por exemplo, a de homem.

 

Alma

Analogamente a substância, é um conjunto de idéias de reflexão.

 

A relação

Terceiro, a última espécie de idéias complexas é a que Locke chama "relação", que consiste na consideração e comparação de uma idéia com outra. Assim são as propriedades de relações matemáticas como quadrado, triangular, etc. São relações em termos de propriedades relacionais matemáticas como o quadrado, o triângulo, etc.

 

A verdade

O conhecimento é a "percepção das conexões de um acordo, ou desacordo e repugnância entre nossas idéias". Este acordo ou desacordo pode ser de quatro tipos: identidade ou diversidade, relação, coexistência ou conexão necessária, existência real. O conhecimento humano, segundo Locke, se apóia:

 

1. na experiência do mundo exterior adquirida através dos sentidos e

2. sobre aquilo do mundo interior de fatos psíquicos obtidos através da introspecção (ou reflexão).

 

No primeiro caso, o acordo ou desacordo é percebido imediatamente, por intuição; no segundo, ele é percebido através da demonstração, mediante a mediação de uma terceira idéia, porém cada passo na demonstração é ela mesma uma intuição, uma vez que o acordo ou desacordo entre duas idéias comparadas será imediatamente percebido. Isto reduz todo o processo à pura intuição estruturada em reflexão e a própria certeza é intuitiva.

 

Portanto, apesar de que o conhecimento se origina na experiência sensível e introspectiva, isto é apenas o começo; porque muitos outros fatores têm que ser cuidados também - fatores tais como o raciocínio, o qual habilita uma pessoa a deduzir, de proposições empiricamente baseadas, conclusões mais gerais a respeito do mundo, tanto físico quanto mental. Tal raciocínio pode ser indutivo (parte do particular para as leis gerais) ou ele pode ser dedutivo (o geral rege o particular).

 

O raciocínio matemático, por exemplo, é dedutivo; e este tipo de conhecimento é somente para ser entendido. Locke adverte que as proposições da Matemática e da Ética são demonstráveis, porém se referem à combinação de idéias complexas geradas na própria mente: não são garantia de qualquer coisa fora da mente. Os conhecimentos matemático e ético envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real. Por isso suas proposições não são garantia de qualquer coisa fora da mente. Assim, os conhecimentos matemáticos e éticos podem ser firmemente estabelecidos, porque envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real.

 

A intuição, permite discernir as relações entre afirmações (relações) que garantem a extração de inferências. Através de tais intuições intelectuais, o conhecimento necessário e universal é possível. Porém, a dedução permite a certeza em apenas dois casos; quando se trata do conhecimento de coisas que realmente existem, só existem duas certezas: nossa existência, por intuição, e a existência de Deus, por demonstração. Quanto ao Eu, a certeza intuitiva é proveniente da reflexão (um encadeamento de intuições), que o homem tem de sua própria existência: certeza da existência do nosso Eu (Descartes). Locke concorda com Descartes em que a existência do Eu está implicada em cada estado de consciência.

 

Quanto a Deus, se existem seres inteligentes, deve existir uma causa inteligente. É a certeza demonstrativa da existência de Deus por demonstração: da existência do efeito (o mundo) se infere a existência da causa que o produziu (prova a posteriori). Locke concluiu que, no caso dos seres humanos, o conhecimento intuitivo está limitado em extensão na maioria dos casos, conhecimento é somente provável, e Locke examinou os graus de probabilidade e a natureza da evidência.

 

A respeito da existência de Deus, sua prova está em nossa própria existência. Uma pessoa sabe intuitivamente que ela é algo que existe. Ela sabe que o nada não pode produzir qualquer coisa e então, se ela existe, esta é uma demonstração de que, por toda a eternidade antes dela, existiu aquele que a criou e criou todas as coisas. Esse argumento é do tipo cosmológico.

 

Além do conhecimento propriamente (intuitivo e demonstrativo) Locke reconhece um terceiro grau de conhecimento, que não faz jus estritamente a esse nome. Este é nossa apreensão sensível das coisas externas, ou de objetos reais além de nós mesmos e Deus: é a certeza por sensação referente aos corpos exteriores ao homem: certeza da existência das coisas externas por meio da sensação. À esta certeza proveniente da correspondência das idéias à realidade Locke faz corresponder também a verdade encontrada na área das ciências experimentais, área do conhecimento na qual a certeza das ciências ideais (matemáticas e morais) não está presente.

 

Locke reconheceu que as ciências naturais não podem dar certeza completa. O conhecimento empírico derivado dessa fonte é incerto e nunca propicia mais que probabilidade, enquanto o ideal do conhecimento é a certeza. A certeza no domínio das ciências experimentais, dependeria do critério de verificação da adequação entre as idéias que estão na mente humana e a realidade exterior a ela. No entanto, cuidadoso raciocínio, com a aplicação de raciocínio matemático onde possível, irá aumentar a probabilidade de atingir conhecimento verdadeiro nesse campo.

 

A Vontade

Um outro aspecto da mente humana com a qual lida Locke é o da Vontade. Locke reconhece a existência da vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar as sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de um movimento no sentido de um ou movimento de afastamento do outro. Ele escreve: "A dor tem a mesma eficácia que o prazer tem e, costumeiramente nos predispõe ao trabalho, estando nós tão prontos a empregar nossas faculdades para evitar a dor, como a perseguir o prazer". Porém mais adiante, no entanto, expressa o pensamento de que o homem é capaz de escolher por si mesmo o que é agradável ou penoso, apesar de possuir instalado pelo criador o mecanismo que dirige o homem para o prazer e para fugir da dor.

 

Natureza Humana

Em todos essas questões sociais e políticas Locke via que o fator último é a natureza do homem. Locke tinha consciência deste ponto ao escrever seu trabalho sobre a Lei da Natureza em 1662. Locke explica a vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de buscar um ou fugir do outro. Para entender o homem, no entanto, não é suficiente observar suas ações, é necessário também perguntar pela sua capacidade de conhecimento. Para Locke, os homens nascem livres e com direitos iguais: "nascemos livres na mesma medida em que nascemos racionais". O governo e o poder político são necessários, mas assim também é a liberdade do cidadão: e em um tipo de governo democrático, monarquia constitucional, um tipo de governo é possível no qual o povo ainda é livre.

 

Estado natural

Em primeiro lugar, no Estado Natural não tem governo como nas sociedades políticas, falta uma lei estabelecida, fixa e conhecida; mas os homens estão sujeitos à lei moral, que é a lei de Deus. No entanto, apesar de que a lei natural é clara e inteligível para todas as criaturas racionais, os homens, sem embargo, têm tendência a não considerá-la como obrigatória quando se refere a seus próprios casos particulares. Em segundo lugar, falta no estado de natureza um juiz público e imparcial, com autoridade para resolver os pleitos que surjam entre os homens, segundo a lei estabelecida. Em terceiro lugar, falta no estado de natureza um poder que respalde e dê força a uma causa justa. Aquele que por injustiça cometa alguma ofensa, lhes é possível fazer que sua injustiça impere por meio da força.

 

No Estado Natural os homens seriam iguais, independentes e governados pela razão. Porque no estado de natureza (omitindo agora a liberdade que se tem para desfrutar de prazeres inocentes), um homem possui dois poderes:

 

1 - O primeiro é o de fazer tudo o que lhe pareça oportuno para a preservação de si mesmo e dos outros, dentro do que lhe permite a lei da natureza. Por virtude dessa lei, que é comum a todos eles, ele e o resto da humanidade são uma comunidade, constituem uma sociedade separada das demais criaturas. E se não fora pela corrupção e maldade de homens degenerados, não haveria necessidade de nenhuma outra sociedade, e não haveria necessidade de que os homens se separassem desta grande e natural comunidade para reunir-se, mediante acordos declarados, em associações pequenas e afastadas umas das outras.

2 - O outro poder que tem o homem no estado de natureza é o poder de castigar os crimes cometidos contra essa lei. A ambos poderes renuncia o homem quando se une a una sociedade política particular ou privada, se podemos chama-la assim, e se incorpora a um Estado separado do resto da humanidade.

 

Propriedade

Locke argumenta que, quando os homens se multiplicaram a terra se tornou escassa, fizeram-se necessárias leis além da lei moral ou lei da natureza. Isto o leva a querer unir-se em sociedade com outros que, tanto quanto ele, tenha a intenção de preservar suas vidas, sua liberdade e suas posses, e a tudo isso Locke chama de propriedade. Mas não é esta a causa imediata da constituição do governo.

 

O direito à propriedade seria natural e anterior à sociedade civil, mas não inato. Sua origem residiria na relação concreta entre o homem e as coisas, através do processo do trabalho. O trabalho é a origem e justificação da propriedade. Se, graças a este o homem transforma as coisas, pensa Locke, o homem adquire o direito de propriedade.

 

Locke considera que, no seu estado natural, o homem é senhor de sua própria pessoa e de suas coisas, e não está subordinado a ninguém. O resultado que está sujeito constantemente à incerteza e à ameaça dos demais pois no estado natural um é rei tanto quanto os demais, e como a maior parte dos homens não observa estritamente a equidade e a justiça, o desfrute da propriedade que um homem tem em uma situação dessas é sumamente inseguro.

 

Origem da sociedade

Porque o homem teria criado a sociedade? Devido à ameaça à propriedade, à conservação da liberdade e a aspiração de igualdade. Para evitar a concretização dessas ameaças o homem teria abandonado o estado natural e criado a sociedade política. A sociedade civil tem origem quando a lei moral não é mais respeitada e o homem precisa exercer seu direito natural de punir os transgressores.

 

Faz-se necessária então a administração da Lei conferida, por via de um compromisso social ou contrato a oficiais autorizados. Por traz destes postulados está a idéia da independência do indivíduo. No primeiro e no segundo "Tratado sobre o Governo Civil", Locke sustenta que o estado da sociedade e, conseqüentemente, o poder político, nascem de um pacto entre os homens. Antes desse acordo os homens viveriam em estado natural, tal como pensava Hobbes. Ao entrar em sociedade, os homens renunciam à igualdade, à liberdade e ao Estado Natural.

 

Segundo Hobbes, no Estado Natural, todos os homens teriam o destino de preservar a paz e a humanidade e evitar ferir os direitos dos outros (deveres que Locke considera próprio do estado natural). O pacto social primordial seria apenas um acordo entre indivíduos reunidos para empregar sua força coletiva na execução das leis naturais renunciando a executá-las pelas mãos de cada um. Seu objetivo seria a preservação da vida, da liberdade e da propriedade.

 

O Governo

Locke acreditava que a liberdade que o povo podia ter não era absoluta e que o povo cedia parte dessa liberdade a fim de manter a segurança. O Governo, diz Locke, é uma delegação; seu propósito é a segurança da pessoa e da propriedade dos cidadãos, e os indivíduos teriam o direito de retirar sua confiança no governante quando este falha na sua tarefa. Por conseguinte, o grande e principal fim que leva a os homens a unir-se em estados e a colocar-se sob um governo, é a preservação de sua propriedade.

 

Na sociedade política, pelo contrato social, as leis aprovadas por mútuo consentimento de seus membros e aplicadas por juizes imparciais manteriam a harmonia geral entre os homens. Os homens transferem à comunidade social, através do pacto, o direito legislativo e executivo individuais. O soberano seria, assim, o agente executor da soberania do povo.

 

O acordo que dá legitimidade ao governo é por sua vez fundamentado nos dois direitos do homem na sociedade natural: o de sua preservação e de seus bens e o de castigar a infração à lei natural. Neste acordo vê Locke o fundamento da legitimidade do poder legislativo e do poder executivo. Isto cria o desejo de cada renunciar ao poder de castigar que tem, e de entregá-lo a una sola pessoa para que o exerça entre eles; isto é o que os leva a conduzir-se segundo as regras que a comunidade, ou aqueles que tenham sido por eles autorizados para tal propósito, há acordado.

 

O homem renuncia ao primeiro poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força para se defender, confiando essa tarefa ao governo. Esse poder é abandonado pelo homem para reger-se por leis feitas pela sociedade, na medida em que a preservação de si mesmo e do resto dessa sociedade o requeira; e essas leis da sociedade limitam em muitas coisas a liberdade que o homem tinha quando obedecia apenas à lei da natureza.

 

Em segundo lugar, o homem renuncia ao segundo poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força para castigar os infratores confiando essa tarefa ao governo, segundo poder este que podia empregar antes na execução da lei da natureza, tal e como ele quisera e com autoridade própria.

 

Neste novo Estado, no qual vai desfrutar de muitas comodidades derivadas do trabalho, da assistência e da associação de outros que laboram unidos na mesma comunidade, assim como da proteção que vai a receber de toda a força gerada por dita comunidade, há de compartir com os outros algo de sua própria liberdade na medida que lhe corresponda, contribuindo por si mesmo ao bem, a prosperidade e a seguridade da sociedade. No entanto, o contrato social não implica submissão ao governo.

 

O Estado

Locke distingue o processo do contrato social criador da comunidade, do subseqüente processo pelo qual a comunidade confia o poder político a um governo, embora contratualmente relacionados entre si, os integrantes do povo não estão contratualmente submetidos ao governo. O mesmo homem que confia o poder é capaz de dizer quando se abusa do poder. A renúncia ao poder pessoal somente pode ser para o melhor, e por isso o poder do governo e legislatura constituída pelos homens no acordo social não pode ir alem do requerido para as finalidades desejadas.

 

Mas ainda que os homens, ao entrar em sociedade, renunciam a igualdade, a liberdade e ao poder executivo que tinham no Estado de Natureza, pondo todo isto em mãos da sociedade mesma para que o poder legislativo disponha, segundo o requeira, o bem da sociedade. Essa renúncia é feita por cada um com a exclusiva intenção de preservar-se a si mesmo e preservar sua liberdade e sua propriedade da melhor maneira, já que não pode supor-se que criatura racional alguma mude sua situação com o desejo de ir a pior.

 

Por isso o poder da sociedade e a legislatura constituída por ela não podem supor que vá mais além do que pede o bem comum, senão que tenha de obrigar-se a assegurar a propriedade de cada um, protegendo a todos contra aquelas três deficiências que mencionávamos mais acima e que faziam do Estado de Natureza uma situação insegura e difícil. E assim, quem quer que ostente o poder legislativo supremo num Estado está obrigado a governar segundo o que ditem as leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas do povo e não mediante decisões imprevisíveis; há de resolver os pleitos por juizes neutros e honestos, de acordo com as ditas leis; e está obrigado a empregar a força da comunidade, exclusivamente, para que essas leis se executem dentro do país; e se tratar-se de relações com o estrangeiro, deve impedir ou castigar as injúrias que venham de fora, devem proteger a comunidade contra incursões e invasões. E tudo isto não deve estar dirigido a outro fim que não seja o de conseguir a paz, a segurança e o bem do povo.

 

O Absolutismo

Locke é radicalmente contra a justificativa do absolutismo porque a doutrina da monarquia absolutista coloca o soberano e os súditos em guerra entre si. Porém, considerava aceitável um povo substituir seu soberano ou governo se ele faltasse com sua parte do compromisso. Sempre que um governante confisca e destrói a propriedade do povo, ou o reduz à escravidão, esse governante se coloca em estado de guerra com o povo. A partir daí os súditos estão dispensados de qualquer obediência, e podem recorrer ao recurso comum, que Deus deu a todo homem, contra a força e a violência.

 

A opinião de Locke sobre a rebelião do povo é contrária à de Hobbes para quem o pacto social era a fonte do poder absoluto do monarca. Hobbes achava que a rebelião dos cidadãos contra as autoridades constituídas, só se justifica quando os governantes renunciam a usar plenamente o poder absoluto do Estado. Contra essa tese, Locke justifica o direito de resistência e insurreição não pelo desuso, mas pelo abuso do poder por parte das autoridades. Quando um governante se torna tirano, coloca-se em estado de guerra contra o povo.

 

Religião

Locke era religioso e considerou tornar-se pastor, porém não era um puritano. Em seu pensamento religioso Locke foge da linha tradicional tanto quanto seus pensamentos contidos no "Ensaio". Não critica a Bíblia, porém, examina livremente as escrituras com a mesma objetividade de sua filosofia. Com essa atitude chega a conclusões bastante simples, que são um marco na história da teologia liberal, basicamente em acordo com a fé cristã. Na sua concepção da natureza da religião, ele a descreve como consistindo quase inteiramente em uma atitude de fé intelectual. Em sua opinião, o povo necessita de assistência moral e não de dogmas teológicos ou inspiração intelectual. O propósito do tratado Resonableness of Christianity (1695) é o de lembrar aos homens das controvérsias das escolas teológicas até a simplicidade dos evangelhos como regra da vida humana.

 

Uma Igreja, de acordo com Locke, é uma sociedade voluntária e livre com o propósito de adorar a Deus. O valor da adoração depende da fé que a inspira. O estado não interfere exceto em relação aos católicos e ateus, os primeiros porque professam obediência a um príncipe estrangeiro e os segundos porque não se pode confiar neles em questões morais como a obediência ao contrato social. "O negócio do Estado, diz ele, não é garantir a verdade das opiniões mas a segurança da comunidade, e de modo muito particular a pessoa e os bens do homem". A Epistola de Tolerantia (Carta a respeito da tolerância) é um apelo à tolerância religiosa; foi publicada anonimamente em 1689, porém era um tema que Locke vinha trabalhando desde seus primeiros tempos em Oxford. Sua correspondência e um trabalho por ele escrito em 1667 mostram seu apoio pela tolerância religiosa, apesar de ter escrito, em 1669, dois outros considerados surpreendentemente conservadores.

 

A posição de Locke, em relação à religião assim se resumia:

 

1. Nenhum homem tem tão completa sabedoria e conhecimento que possa ditar a forma da religião de outro homem;

2. Cada indivíduo é um ser moral, responsável perante Deus, e isto pressupõe sua liberdade; e

3. Nenhuma coerção que é contrária à vontade do indivíduo pode assegurar mais que uma conformidade aparente.

 

Seu Common-Place Book (caderno de anotações) indica que a questão já o preocupava mais de vinte anos antes da publicação da primeira "Carta". Se os magistrados deviam ou não ter sob sua alçada as questões religiosas era um assunto acidamente discutido, pela assembléia dos Divinos (teólogos), ao tempo que era aluno em Westminster e quando entrou na Christ Church, o reitor era John Owen, líder dos independentes.

 

De interesse religioso são também três da obras que vieram a lume após sua morte: Comentários sobre as epístolas de São Paulo, e o Discourse on Miracles, tanto quanto um fragmento de Fourth Letter for Toleration e An Examination of Father Malebranche s Opinion of Seeing all things in God, e mais Remarks on Some of Mr Norris s Books.

 

Educação

Seu ponto de vista era de que a educação devia ter fins práticos, de preparar o homem para a vida, e não para o deleite intelectual e o êxito universitário. Os livros Thoughts concerning Education ("Pensamentos sobre a Educação") e Conduct of the Understanding ("Condução do Conhecimento") tem lugar importante na história da filosofia educacional. Neles Locke enfatizou o valor da experiência no desenvolvimento da mente, porém desconsidera radicalmente as diferenças genéticas.

 

 

 

Ballone GJ; Moura EC - John Locke - in. PsiqWeb - Psiquiatria Geral - Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2008.

 

 

 

 

 

Estas página são, predominantemente, resumos do artigo John Locke, in. Filosofia Moderna - Rubem Queiroz Cobra

COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1997. Disponível na internet em Filosofia Moderna





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