Disfunção Sexual Feminina (Frigidez)

Na absoluta maioria dos casos, o desinteresse pelo sexo está ligado a fatores psicológicos.
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"Doutor, meu problema é a frigidez. O que o senhor me recomenda?" Essa questão, colocada de maneira tão simples, tem sido um dos maiores desafios à ginecologia e à psiquiatria. Trata-se de uma confissão, mais que uma queixa médica, geralmente acompanhada de sentimentos de frustração, vergonha, mágoa e constrangimento. Seria como se a parte psíquica que desperta o interesse pelo sexo estivesse morta ou desligada.

Por uma questão acadêmica a Frigidez deve ser diferenciada a falta de orgasmo feminino. Muitas mulheres que não conseguem experimentar orgasmo continuam tendo prazer e interesse sexual. Para abordar o tema de forma mais propriada, convém tomarmos a questão dos problemas sexuais femininos, todos eles, sob a forma de Disfunção Sexual Feminina.

Na absoluta maioria dos casos, o desinteresse pelo sexo está ligado a fatores psicológicos ou sociais, sendo um dos mais freqüentes determinantes a monotonia conjugal. Também a educação que se recebeu, a falta de diálogo entre os parceiros, as práticas sexuais pouco gratificantes e até a resistência em inovar acabam minando o relacionamento e facilitam o desinteresse. O próprio fato de envelhecer e as dificuldades do cotidiano também podem interferir na satisfação sexual.

Embora muitas pacientes nem precisam consultar o especialista para saber que são frígidas, fazer um diagnóstico correto é importante. Na grande maioria das vezes o problema tem origem emocional e, entre eles, o problema é com o parceiro. Mas, infelizmente, é o próprio parceiro que não aceita essa parcela de culpa e vive a "obrigar" a mulher a procurar um tratamento, geralmente, milagroso. Não deixe de ver a segunda parte, sobre os problemas sexuais do casal.

Apesar de mais rara, a falta de desejo pode estar ligada a problemas orgânicos, como por exemplo, alterações hormonais, debilidade física por conta de doenças e até mesmo pelo uso incorreto de medicamentos.

Os transtornos da função sexual, em ambos os sexos, estão ligados a problemas em fases específicas do ciclo de resposta sexual. As fases de resposta sexual são 4:

- Desejo
- Excitação
- Orgasmo
- Resolução

Para o diagnóstico de disfunção sexual feminina, é necessário que as manifestações sejam recorrentes ou persistentes. É também importante reconhecer se as manifestações são primárias ou secundárias a outras condições, e subdividi-Ias em situacionais ou generalizadas, e em adquiridas ou perenes. Também é fundamental ter em mente que existe considerável superposição entre diferentes subdiagnósticos.

A disfunção sexual feminina é, portanto, diagnóstico sindrômico, queengloba:

- Transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD) o Dispareunia
- Transtorno de excitação sexual
- Vaginismo
- Transtorno de aversão sexual
- Manifestações associadas à depressão ou a condições clínicas
- Manifestações iatrogênicas ou induzidas por substâncias

Prevalência

O termo Disfunção Sexual Feminina engloba o Transtorno Orgástico Feminino, O Transtorno de Excitação Sexual Feminina e o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo. Entretanto, até por questão de definição, tudo isso só seria "doença" quando ocasionasse algum tipo de sofrimento. O que vemos muitas vezes é uma "doença relativa", se podemos usar esse termo. Trata-se de uma mulher com desempenho sexual aquém daquilo que espera seu companheiro mas, por ela mesma, não haveria sofrimento.

Segundo National Health and Social Life Survey (Laumann EO, Paik A, Rosen RC. - The epidemiology of sexual dysfunction: results from the National Health and Social Life Survey.Int J Impot Res. 1999 Sep;11 Suppl 1:S60-4), um terço das mulheres relata falta de interesse sexual, e quase um quarto das mulheres não experimenta orgasmo. Um pouco menos de 20% tem dificuldades de lubrificação e mais de 20% acha o sexo desagradável. Uma soma desses números mostra a ampla prevalência de queixas sexuais femininas.

Atualmente, entretanto, esses números aparecem bastante diferentes em alguns trabalhos. Estudos epidemiológicos nos EUA, Reino Unido e Suécia indicam que cerca de 40% das mulheres com idades entre 18-59 anos apresentam queixas sexuais significativas, assim divididas:

33% (um terço) envolvem manifestações de déficit de desejo sexual;
24% (um quarto) descrevem anorgasmia;
19% (um quinto) relatam dificuldade de excitação/ lubrificação;
15% (um sétimo) queixam-se de dispareunia; e
09% (um décimo) referem outras queixas.

A prevalência e intensidade dos transtornos sexuais femininos é extremamente elevada, e sem dúvida superior à prevalência das disfunções sexuais masculinas.

Entretanto, o maior desafio estatístico está na precisão dessas queixas, saber se o que as pessoas se queixam são problemas da função sexual propriamente dita, ou de satisfação com o sexo que têm. Pesquisadores (Frank E, Anderson C, Rubinstein D. - Frequency of sexual dysfunction in "normal" couples. N Engl J Med. 1978 Jul 20;299(3):111-5) concluíram que 50% dos homens e 77% das mulheres relatam dificuldades sexuais que não são de natureza disfuncional. O maior número de dificuldades relatadas relacionou-se mais fortemente à falta de satisfação sexual global do que com alguma disfunção.

O DSM-IV, classifica também os distúrbios sexuais femininos como desequilíbrios de desejo, excitação e orgasmo, havendo ainda um transtorno classificado em separado, de Aversão Sexual, Dispareunia e Vaginismo. É pouco provável que o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo e o Transtorno Orgástico Feminino não estejam relacionados à excitação, sabendo que o orgasmo sem excitação é impossível.

As queixas que sugerem tais transtornos dizem respeito mais à problemas na excitação sexual e não à função do aparelho sexual, de fato. Uma coisa é não ter prazer, outra é não querer fazer sexo. Acontece que, como nossa cultura tem forte apelo sexual e glorifica um desempenho obrigatoriamente fogoso, qualquer diminuição na vontade de fazer sexo é tido como impotência ou frigidez.

Há ainda a questão orgânica, que não pode ser confundida com Transtorno Sexual Hipoativo. Trata-se do vaginismo (dor na vagina) proveniente de uma inflamação vulvar que causa dor à penetração, portanto, comprometendo severamente a excitação sexual, ao medo de sexo ou à fuga total das atividades sexuais. Até porque a dor ofusca qualquer desejo, que compromete a excitação e que, finalmente, compromete o desempenho. (Veja na página seguinte o desenrolar dos erros e acertos sexuais)

1.- Frigidez ou Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo

O transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD) é uma das formas mais comuns de disfunção sexual feminina. Seu diagnóstico requer:

- Deficiência ou ausência de fantasias sexuais, ou
- Deficiência ou ausência de desejo sexual, e
- Sofrimento ou dificuldades interpessoais

O DSM.IV, classificação norte-americana de doenças mentais, trata do assunto no capítulo dos Transtornos do Desejo Sexual, sendo a Frigidez considerada como Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo. A característica essencial desse Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo é uma deficiência ou ausência de fantasias sexuais e ausência do desejo de ter atividade sexual.

Entretanto, segundo esse DSM.IV, para ser feito o diagnóstico essa perturbação deve causar acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal. Acreditamos que a primeira questão a ser levantada, diante de uma paciente sem desejo sexual é saber se ela gostaria de ser diferente ou se está bem desse jeito. Fica difícil entender como uma pessoa poderia querer ter querer por aquilo que não quer. Seria o mesmo que não estar satisfeito com o fato de não desejar comer melancias...

Mas... continuando com as descrição do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, este baixo desejo sexual pode ser global, abrangendo todas as formas de expressão sexual ou pode ser apenas situacional, limitado a um parceiro ou a uma atividade sexual específica. Existe nessas pessoas pouca motivação para a busca de estímulos e pouca frustração quando privado da oportunidade de expressão sexual. O paciente portador do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, onde se inclui a mulher portadora de Frigidez, em geral não costuma tomar iniciativa para a atividade sexual ou pode engajar-se com certa relutância quando esta é iniciada pelo parceiro.

O DSM.IV, com toda sua frigidez, estabelece critérios pretensamente objetivos para o diagnóstico desse transtorno predominantemente emocional e subjetivo:

Critérios Diagnósticos para F52.0 - 302.71 Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo
A. Deficiência (ou ausência) persistente ou recorrente de fantasias ou desejo de ter atividade sexual. O julgamento de deficiência ou ausência é feito pelo clínico, levando em consideração fatores que afetam o funcionamento sexual, tais como idade e contexto de vida do indivíduo.
B. A perturbação causa acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal.
C. A disfunção sexual não é melhor explicada por outro transtorno do Eixo I (exceto outra Disfunção Sexual) nem se deve exclusivamente aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral.
Especificar tipo:
Tipo Ao Longo da Vida
Tipo Adquirido
Especificar tipo:
Tipo Generalizado
Tipo Situacional
Especificar:
Devido a Fatores Psicológicos
Devido a Fatores Combinados

Para entender toda essa nomenclatura (desejo, excitação, motivação, estimulação, etc), devemos começar tentando explicar passo-a-passo o comportamento sexual feminino, correndo o risco, é claro, de sermos absolutamente incompletos devido a complexidade da questão.

Mas como podemos entender o Desejo Sexual? Como vimos ao estudar também problemas da sexualidade masculina, o Desejo Sexual é um fenômeno subjetivo e comportamental extremamente complexo. Contribuem para a gênese do desejo sexual as fantasias sexuais, os sonhos sexuais, a iniciação à masturbação, o início do comportamento sexual, a receptividade do companheiro(a), as sensações genitais, as respostas aos sinais eróticos no meio ambiente, entre muitos outros fatores.

Ao pé da letra, o termo Frigidez indica a diminuição do desejo sexual da mulher, portanto, algo tem que ser dito sobre o Desejo Sexual. Muito ao contrário do que pensam alguns, o desejo sexual do ser humano adulto e consciente não se compara à simples pulsões fisiológicas, como é o caso da fome ou da sede. Considera-se que o desejo sexual seja um complexo vivencial formado por três componentes principais; a biologia, a psicologia e a socialização. Todos três interagindo continuamente uns com os outros.

A expressão "desejo sexual" envolve toda inclinação humana para o comportamento sexual e tem início tanto na cultura, através da motivação sexual, como na pessoa, através do estímulo sexual. Depois dessa parte, veremos a seqüência do comportamento sexual, passando do estímulo sexual para a excitação sexual, impulso sexual. (veja as causas do Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo em outra página)

Aspiração ou Motivação Sexual & Estímulo Sexual
(O sucesso depende sempre de dois)

A dimensão mais expressiva do desejo sexual entre seres humanos repousa na Aspiração ou Motivação Sexual. Historiadores, sociólogos, filósofos, teólogos e antropólogos lembram que a vida sexual também sofre a influência de forças culturais, as quais muitas vezes são mais importantes do que os aspectos biológicos ou psicológicos.

Em algumas culturas o sexo ainda é considerado algo pecaminoso, algo que deve ser combatido constantemente, que deve ser repudiado... Muitas pessoas assim influenciadas passam a reprimir seus desejos e experimentar situações fortemente conflitivas, com uma grande plêiade de conseqüências emocionais. Nesses casos e nessas culturas, as mulheres que aqui seriam diagnosticadas como portadoras de Transtorno de Desejo Sexual seriam, ao contrário, muito meritosas.

Aspirações Sexuais brotam da conjunção entre razões psicológicas e circunstâncias culturais. Elas se compõem de nosso dinamismo psíquico colocado à mercê dos valores culturais, solidamente impressos em nossa personalidade. Essas motivações variam em temática e potência entre as pessoas, vão desde os auto-enganos que impomos a nós mesmos sobre nossas vidas sexuais, perdendo a noção entre o culturalmente recomendado e o pessoalmente possível, até as questões ditas de consciência, as quais reprimem sentimentos e comportamentos por toda a vida. Essas idéias culturais costumam fazer parte do universo psíquico da pessoa desde tenra idade até sempre.

Em mulheres a Motivação Sexual, vinculada que é aos elementos culturais, como por exemplo a moral, a religião, a decência, etc., representa um determinante sexual que poderia parecer muito maior que nos homens. Estes, entretanto, submetem-se à outros valores culturais, igualmente tirânicos, substituindo a moral pelo machismo, a religião pelo (ficcioso?) super-instinto e a decência pela prepotência. No fundo, todos nos escravizamos pelo modelo cultural.

A Motivação Sexual e o Estímulo Sexual são quase a mesma coisa, dizem respeito à influência que o "objeto" exerce sobre o "sujeito", ou seja, é o efeito sexual causado por alguma coisa do ambiente sobre a pessoa. Academicamente podemos dizer que a Motivação é cultural e geral, enquanto o Estímulo é específico e pessoal, mas ambos vêm de fora da pessoa e acontecem nessa ordem; motivação, estímulo.

Nossa cultura exerce um forte apelo sexual, estabelece "normas" de sexualidade e recomenda protocolos. A mídia, principalmente a televisão, torna banal relacionamentos sexuais entre duas pessoas que mal se conhecem, simplesmente porque habitam a mesma casa num programa tipo Big Brother Brasil, a banalização sexual sugere uma certa obrigatoriedade de liberdade, rótulos de "careta" são atribuídos àqueles que não compartilham da libertinagem. Essas novas "normas" do politicamente correto motivam pessoas a procurar seguir o modelo. Assim sendo, o ambiente cultural de nossos dias motiva pessoas para o sexo. A Motivação Sexual representa a vontade de comportar-se sexualmente conforme o modelo cultural e implica na "autorização" social para a iniciativa, para a receptividade ou para as duas coisas.

Enquanto a Motivação Sexual é a disponibilidade para o sexo, decidir com quem fazer esse sexo é papel do Estímulo Sexual. Portanto, depois da motivação sexual, a vontade de aproximar-se dessa ou daquela pessoa com intenções sexuais, de eleger fulano ou sicrano para o sexo, a vontade de tomar iniciativa ou aceitar a iniciativa dessa outra pessoa é comandada pelo Estímulo Sexual. O ambiente motiva e a outra pessoa estimula, o incesto é desmotivado, a pessoa com mau hálito é desestimulante.

Algumas vezes, embora haja uma Motivação cultural e ambiental, como por exemplo um casal com salvo-conduto para o sexo, quanto, como e onde desejar, falta Estímulo necessário para a iniciativa sexual à um dos parceiros porque, normalmente, o outro não está preenchendo algum requisito importante para tal: higiene, carinho, compreensão, segurança, companheirismo, etc...

Isso tudo acontece considerando a pessoa normal, emocionalmente normal. Em alguns casos, como por exemplo na depressão, o "objeto" deixa de representar para o "sujeito" deprimido aquilo que representava. Ele próprio, o sujeito deprimido, deixa de representar para si mesmo aquela pessoa capaz de fazer o sexo. Assim, rompendo-se a relação harmônica sujeito-objeto, não haverá estímulo necessário para o sexo.

Participa do Estímulo Sexual a avaliação íntima do(a) parceiro(a) e de si mesmo. Algumas mulheres deixam de sentir estímulo porque o parceiro não corresponde às suas expectativas sexuais, outra vezes, porque elas próprias se consideram pouco atraentes, portanto, incapazes de despertar um estímulo sincero (na avaliação delas mesmas).

Quando o parceiro é avaliado de forma negativa e a intimidade psicológica (conforto emocional) não é estabelecida, quando há sentimentos de mágoa, decepção e incompreensão, normalmente perde-se o Estímulo Sexual. As decepções da vida conjugal são as fortes responsáveis pela perda do Estímulo Sexual, muito embora a pessoa frustrada possa continuar sentindo as manifestações de seu Impulso Sexual. Essa é a fisiologia mais provável para a traição conjugal.

Para que um casal continue a ter relações sexuais de índole amorosa, é preciso que suas identidades sexuais não sejam conflitantes. Nas intimidades da cama o casal deve partilhar a mesma tonalidade sexual. Muitas pessoas perdem a Motivação Sexual porque não se sentem à vontade com gênero do sexo do(a) parceiro(a). É por isso que alguns casais manifestam reciprocamente um grande apreço, um pelo outro, mas são sexualmente insatisfeitos.

No ser humano maduro a vontade de ter relacionamento sexual sempre reflete algum tipo de apreço pelo parceiro e o sentimento de compatibilidade sexual. A análise de fatores psicológicos como esses ajuda a explicar grande parte dos problemas de falta Motivação Sexual na população e como as manifestações de Impulso Sexual podem ser diminuídas.

Havendo previamente motivação, e sendo positiva a avaliação do(a) parceiro(a) e de si mesmo(a), a vontade da pessoa de ter um comportamento sexual é intensificada, passando da esfera psicoemocional para o domínio orgânico. A fase seguinte é do Impulso Sexual.

Visto, por enquanto, a Motivação ou Aspiração Sexual e o Estímulo Sexual, vamos continuar com o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo, origem dessa conversa. Em vista de uma falta de referências relacionadas à idade, freqüência ou grau do desejo sexual considerado normal, não-normal e patológico, o diagnóstico deve fundamentar-se no julgamento clínico, com base nas características do indivíduo, nas determinantes interpessoais, no contexto de vida e, quase principalmente, no contexto cultural. O médico pode ter de avaliar ambos parceiros, quando as discrepâncias na expectativa da sexualidade, e quanto às características do relacionamento do casal. As vezes, um baixo desejo sexual aparente de um parceiro reflete apenas as necessidades excessivas por parte do outro.

Algumas condições médicas gerais e/ou ginecológicas podem ter um efeito prejudicial inespecífico sobre o desejo sexual, como por exemplo a expectativa de sofrer dor (dispareunia), problemas com a imagem corporal e auto-estima ou preocupações com as circunstâncias cotidianas adversas. Os transtornos depressivos também estão freqüentemente associados com um baixo desejo sexual, podendo o início da depressão preceder, co-ocorrer ou ser a conseqüência ao desejo sexual deficiente. As pessoas com Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo podem ter dificuldades para desenvolver relacionamentos sexuais estáveis e, por causa da insatisfação, favorecer rompimento conjugais.

2.- Transtorno da Excitação Sexual Feminina

Freqüentemente acompanhando os Transtornos do Desejo Sexual, coexistem o Transtorno da Excitação Sexual Feminina e o Transtorno Orgástico Feminino. O transtorno de excitação sexual envolve déficit de lubrificação vaginal ante a iminência de intercurso.

A pessoa com Transtorno da Excitação Sexual Feminina pode ter pouca ou nenhuma sensação subjetiva de excitação sexual. Pelo DSM.IV, esse transtorno pode resultar em intercurso doloroso, esquiva sexual e perturbação de relacionamentos conjugais ou sexuais.

Um estágio agravado do Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo é o Transtorno de Aversão Sexual. O DSM.IV, refere como característica essencial do Transtorno de Aversão Sexual, a aversão e esquiva ativa do contato sexual genital com um parceiro sexual. Para esse diagnóstico a perturbação (Aversão) deve causar acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal.

O paciente com Transtorno de Aversão Sexual relata ansiedade, medo ou repulsa ao se defrontar com uma oportunidade sexual com um parceiro. A aversão ao contato genital pode concentrar-se em um determinado aspecto da experiência sexual (por ex., secreções genitais, penetração vaginal). Alguns indivíduos experimentam repulsa generalizada a quaisquer estímulos sexuais, inclusive beijos e toques. A intensidade da reação do indivíduo quando exposto aos estímulos aversivos pode variar desde uma ansiedade moderada e falta de prazer, até um extremo sofrimento psicológico (veja a parte de Desejo Sexual).

A característica essencial do Transtorno da Excitação Sexual Feminina é uma incapacidade de adquirir ou manter uma excitação sexual adequada, seja essa excitação refletida através da lubrificação vaginal ou através da sua turgescência, e que essa excitação não seja eficaz até a conclusão da atividade sexual.

A resposta de excitação consiste num estado de congestão sanguínea da pelve, lubrificação e expansão vaginal, bem como de turgescência da genitália externa. Para o diagnósticos de Transtorno da Excitação Sexual Feminina, a perturbação deve causar acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal à paciente.

Não se conhecem casos de Transtorno da Excitação Sexual Feminina desacompanhados de Frigidez ou, mais corretamente, desacompanhados de Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo, donde se suspeita que aquele seja, basicamente, uma conseqüência deste. Assim sendo, o mesmo raciocínio aplicado ao Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo quanto suas causas e elementos emocionais, seja igualmente aplicável ao Transtorno da Excitação Sexual Feminina.

Também está claro, e é logicamente esperado que, havendo tanto o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo quanto o Transtorno da Excitação Sexual Feminina, também existirá o Transtorno Orgástico Feminino mas não pode ser diagnosticado assim por supor-se que o defeito é anterior à fase de se atingir o orgasmo (fase de desejo e de excitação). Por isso dizemos que não pode mesmo haver orgasmo sem que haja boa qualidade do desejo e da excitação mas, não obstante, pode não haver orgasmo ainda que hajam boas condições de desejo e excitação, embora esse caso seja mais raro.

Excitação Sexual

A falta de desejo é a base de muitas queixas sexuais femininas e, freqüentemente, diz respeito à falta de excitação sexual. Os manuais de diagnóstico psiquiátrico, como o DSM.IV, recomendam como indicador da excitação sexual feminina a resposta de lubrificação-edema da vulva, portanto, uma ocorrência fisiológica. A experiência e o bom senso parecem mostrar que, mesmo esse, não é um indicador absolutamente confiável de que tudo vai bem na sexualidade feminina. Não se pode excluir do mecanismo da excitação, que é uma resposta em nível genital, o importante papel que desempenha o desejo sexual, que é uma atitude volitiva ou seja, de natureza psicoemocional.

A fase de excitação sexual é, basicamente, o preparo do organismo para o ato sexual. O DSM.IV trata desse assunto sob o nome de Transtorno da Excitação Sexual Feminina, sendo sua característica essencial a incapacidade de adquirir ou manter uma excitação sexual adequada, seja essa excitação refletida através da lubrificação vaginal ou através da sua turgescência ou, ainda, que essa excitação não seja eficaz até a conclusão da atividade sexual.

Da forma como é colocado, "incapacidade de adquirir ou manter..." tem-se a impressão de que a responsabilidade desse aspecto do desempenho sexual é exclusivamente da mulher. Embora seja ela quem fica excitada, a excitação aparece como uma resposta sexual a alguma coisa que a deixou excitada, portanto, essa alguma coisa também é cúmplice da excitação sexual feminina.

Nossa contestação sobre essa categoria de diagnóstico do DSM.IV se reforça na medida em que consideramos a responsabilidade do parceiro. Assim sendo, a frase "incapacidade de adquirir ou manter uma excitação sexual adequada", referida por essa classificação como característica para o diagnóstico poderia, na prática, ser melhor dita da seguinte forma:"incapacidade em proporcionar, adquirir ou manter uma excitação sexual adequada". Portanto, o mais correto para esse diagnóstico seria Transtorno da Excitação Sexual, suprimindo-se dessa denominação a expressão Feminina.

Transtorno Orgástico Feminino
(anterior Orgasmo Feminino Inibido)

A característica essencial do Transtorno Orgástico Feminino, pelo DSM.IV, é um atraso ou ausência persistente ou recorrente de orgasmo, após uma fase normal de excitação sexual. De modo geral, as mulheres apresentam uma ampla variação no tipo e/ou na intensidade da estimulação que leva ao orgasmo. O diagnóstico de Transtorno Orgástico Feminino deve fundamentar-se no fato de que, nesse transtorno, a capacidade orgástica da mulher é menor do que se poderia esperar para sua idade, experiência sexual e adequação da estimulação sexual que recebe.

Para esse diagnóstico exige-se também que a perturbação esteja causando acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal. A Disfunção Orgástica é a queixa sexual feminina mais comum e pode ser mais freqüente nos primeiros anos de atividade sexual (ou do casamento).

A capacidade de ter orgasmos na mulher parece aumentar com a experiência sexual e aí se incluem as mulheres mais maduras. Aqui também os fatores psicológicos implicados são extremamente variáveis. Estes, vão desde os medos da perda de controle, medo de frustrar as expectativas do parceiro, falta de boa comunicação com o parceiro, depressão emocional, complexos íntimos e conflitos pessoais.

O orgasmo, também chamado de clímax, é a sensação de gratificação marcado por sentimento de repentino e intenso prazer que segue à um estado fisiológico de excitação sexual, é também seguido por um relaxamento das tensões sexuais e dos músculos do corpo.

Freud afirmava que as mulheres teriam dois tipos de orgasmo, o clitoriano, importante para o desenvolvimento sexual e, se exclusivo, poderia significar imaturidade, e orgasmo vaginal, uma decorrência do primeiro e muito característico de maturidade sexual. Inúmeros pesquisadores mais recentes evidenciaram que o orgasmo clitoriano é muito mais freqüente, surgindo tanto por manipulação quanto por penetração e que, sendo de boa qualidade, ou seja, satisfatório, não evidencia nem imaturidade, nem quaisquer outros eventuais problemas.

Já o orgasmo vaginal, menos freqüente, depende de fatores ligados ao desenvolvimento psico-sexual da mulher e da qualidade do relacionamento afetivo em questão. Talvez seja por isso que Freud julgava-o característico da maturidade sexual, menos impulsivo e mais sublime. Este tipo de orgasmo, por ser mais afetivo e menos anatômico, nem todas as mulheres podem ter, e as que têm, nem sempre o têm sempre. Pesquisadoras que já experimentaram os dois tipos de orgasmo consideram o tipo vaginal muito mais gratificante.

Apesar do orgasmo normalmente durar apenas alguns segundos, na maioria das vezes não mais de dez, depois disso a estimulação continuada pode produzir mais orgasmos adicionais na mulher. Portanto, elas são fisicamente capazes de ter orgasmos repetidos, sem a necessidade do tradicional período de recuperação necessário aos homens. Nestes, após um orgasmo não há mais resposta à estimulação sexual e não se consegue alcançar outra fase de excitação antes de decorrido um certo período de tempo.

Tendo em vista o fato da capacidade orgástica em mulheres aumentar com a idade, o Transtorno Orgástico Feminino costuma ser mais prevalente em mulheres mais jovens. A maioria dos sexólogos afirmam a necessidade de algumas mulheres "aprenderem" a ter orgasmo e, uma vez aprendido a atingir o orgasmo, tal como andar de bicicleta, uma mulher raramente perderá esta capacidade.

Está claro que os componentes emocionais do cotidiano, a qualidade de relacionamento com o parceiro, o histórico sexual, as frustrações e revezes afetivos influem na capacidade orgástica. Portanto, a menos que haja a interferência de uma fraca comunicação sexual, conflitos no relacionamento, uma experiência traumática (por ex., estupro), um Transtorno do Humor ou uma condição médica geral, há grande probabilidade da mulher comum e anorgasmática vir a ter orgasmos com o passar do tempo. Quando a disfunção orgástica ocorre apenas em certas situações, uma dificuldade com o desejo sexual ou com a excitação sexual freqüentemente estão presentes, além do transtorno orgástico. Muitas mulheres aumentam sua capacidade orgástica, à medida que experimentam uma maior variedade de estimulação e adquirem maior conhecimento sobre seus próprios corpos.

Critérios DSM.IV para o diagnósticos de F52.3 - 302.73
Transtorno Orgástico Feminino
A. Atraso ou ausência persistente ou recorrente de orgasmo após uma fase normal de excitação sexual. As mulheres apresentam uma ampla variabilidade no tipo ou na intensidade da estimulação que leva ao orgasmo. O diagnóstico de Transtorno Orgástico Feminino deve fundamentar-se no julgamento clínico de que a capacidade orgástica da mulher é menor do que seria esperado para sua idade, experiência sexual e adequação da estimulação sexual que recebe.
B. A perturbação causa acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal.
C. A disfunção orgástica não é melhor explicada por outro transtorno do Eixo I (exceto outra Disfunção Sexual), nem se deve exclusivamente aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral.
Especificar tipo:
Tipo Ao Longo da Vida
Tipo Adquirido
Especificar tipo:
Tipo Generalizado
Tipo Situacional
Especificar:
Devido a Fatores Psicológicos
Devido a Fatores Combinados

Impulso Sexual

O desejo sexual que se experimenta no corpo e que estimula a atividade sexual mais ou menos independente da estimulação externa, provavelmente é o resultado da ativação das redes neurais do sistema nervoso central e será percebido como Impulso Sexual, popularmente definido pela palavra "tesão". Trata-se pois, de um aspecto predominantemente biológico do desejo sexual.

O Impulso Sexual, por ser corpóreo, é fruto de processos neuro-endócrinos envolvendo hormônios e neurotransmissores, o qual permite à pessoa reconhecer essa pulsão e se masturbar ou, de outra forma, procurar avidamente alguém (até inespecificamente) para ter relações sexuais. A força e freqüência das manifestações do Impulso Sexual aumentam muito após a puberdade e, em muitos casos, surge um certo desconforto na falta de oportunidade de ter atividade sexual efetiva. Mas, é bom ressaltar sempre, esse Impulso Sexual tem força de atuação muito pessoal e ocorre diferentemente entre as diferentes pessoas.

Pessoas com grande Impulso Sexual costumam procurar mais tenazmente oportunidades de comportamento sexual e podem sentir-se mais calmos após um orgasmo. Pessoas com baixo impulso sexual podem passar com facilidade períodos de abstinência sexual sem sentir irritação. Após a maturidade sexual da juventude, bem como no adulto jovem, as manifestações do Impulso Sexual vão diminuindo gradativamente, até desaparecerem quase completamente na velhice.

As manifestações comuns desse Impulso Sexual, tanto no homem como na mulher, se caracterizam por determinadas sensações genitais, pela sensibilidade erótica aumentada em relação à parceiros em potencial, por exacerbação das fantasias sexuais e pelo comportamento sexual mais evidente.

Avaliação psicofisiológica da função sexual feminina
(o problema é, de fato sexual ou de relacionamento?)

Até o presente, por capricho ou sabedoria da natureza, não existem indicadores biológicos (exames e sinais) que sejam confiáveis para avaliar o desejo sexual feminino, nem sua qualidade (se está havendo ou não), nem sua quantidade (se é muito ou pouco).

Algumas pesquisas nessa área começaram com o exame de eletromiografia de superfície vaginal do assoalho pélvico, usado na investigação de distúrbios da dor sexual não mostrou diferença entre mulheres com dor vaginal (vaginismo) e mulheres sem dor (grupo controles). Mas, de fato, ambos grupos de mulheres reagiram com aumento da atividade muscular do assoalho pélvico a trechos de filmes violentos e sexualmente ameaçadores, comparando-se a cenas eróticas e neutras. Há evidências de que os músculos do assoalho pélvico reagem para situações sexuais ameaçadoras ou de desprazer, mas nada se constata para situações de prazer. Outras pesquisas procuram avaliar as alterações fisiológicas da excitação sexual. Algumas são especialmente relevantes, segundo o site de pesquisa NeuroPsicoNews, como por exemplo, a avaliação do fluxo sangüíneo vaginal.

a) O método da temperatura de oxigenação, que mede o fluxo sangüíneo vaginal, que consiste em um eletrodo de oxigênio aquecido adaptado a uma ventosa fixada à parede vaginal. Uma corrente elétrica até uma temperatura ajustada aquece o eletrodo. Pode ser monitorizada a quantidade de energia elétrica necessária para manter o disco nesta temperatura, o que reflete o acúmulo de sangue no leito vascular.
b) A temperatura dos pequenos lábios, medida por um pequeno termostato de superfície fixado a um dos pequenos lábios.
c) Um aparelho chamado fotopletismografia vaginal, do tamanho de um tampão menstrual e contém um diodo emissor de luz infravermelha como fonte luminosa e um fototransistor como detector de luz que também mede o fluxo sangüíneo vaginal

realmente têm sua sexualidade profundamente comprometida. Existe um exame de Amplitude do Pulso Vaginal (APV) que mede o fluxo sanguíneo da vagina e pode ser usado para comparar a excitação sexual diante de diferentes situações. Parece que, realmente, as mulheres com dispareunia não sentem ou sentem menos excitação sexual que as mulheres sem dispareunia.

São várias as pesquisas sobre o fluxo sanguíneo vaginal em mulheres com queixas de dificuldades sexuais. De modo geral, já se pode atribuir variações do fluxo e pulso vaginais ao estímulo sexual (nas pesquisas foram usados filmes eróticos). Sabe-se ainda que o fluxo sangüíneo vaginal é diretamente dependente da intensidade do estímulo sexual, e que as sensações sexuais subjetivas também dependem da intensidade do estímulo sexual. Também se sabe que, em termos de fluxo sangüíneo vaginal, que ele pode ser intenso diante da excitação sexual subjetiva.

Entretanto, o problema continua. Qual seria o exame ou as medidas para diferenciar mulheres com e sem problemas sexuais? As perguntas mais incômodas com as quais nos defrontamos continuam sendo essas:

- A alegação de que o problema é sexual não estaria servindo para minimizar um outro problema de relacionamento que, vindo à tona, causaria profundo incômodo?
- Não seria uma atitude comodista deixar para a "medicina" a tarefa de resolver problemas muito mais ao alcance da pessoa do que do médico?
- A mulher que procura o médico à pedido do marido estaria, realmente, interessada em ter mais prazer sexual com ele?
- Procurar o médico a pedido do marido, não teria o objetivo principal de resolver a expectativa sexual do próprio marido?
- Aceitando o papel de doente (sexualmente incapaz) a mulher não estaria arranjando um pretexto para que o marido não a "incomode" mais? ou não a culpe por isso?

(Seria feminina mesmo essa Disfunção Sexual???)
Disfunção Sexual; um transtorno de duas pessoas

Muito freqüentemente as mulheres que chegam aos consultórios para tratamento de "frigidez" estariam, de fato, desejando tratar-se do marido ou companheiro. A pretensão masculina de ser sempre o bom macho e melhor amante ofusca a incompetência sexual da maioria desses casos.

Talvez a maior causa de desarmonia conjugal seja a desinformação sobre a desigualdade masculino-feminina em relação à sexualidade. O impulso sexual pode se manifestar através da sexualidade erótica ou da sensualidade sublime, embora hajam predominâncias.

De modo geral, na mulher predomina a sensualidade sublime e no homem (desavisado) a sexualidade erótica. O impulso sexual que atende à sensualidade sublime na mulher pode ter início no café da manhã, através de alguma demonstração de carinho por parte do parceiro. Essa sensualidade pode excitar-se mais e mais ao longo do dia, correspondendo quase à uma carícia sexual o ato do parceiro abrir a porta do carro, demonstrar qualidades desejáveis para um bom companheiro, ser compreensivo, participante, etc.

Finalmente, o impulso sexual feminino se completa com a intimidade na cama, considerando a penetração apenas uma parte (nem sempre a mais importante) do desempenho sexual do parceiro.

Para a sensualidade sublime, predominantemente feminina, mas nem por isso monopólio das mulheres, é ativada uma parte do sistema nervoso central chamada de Sistema Límbico. Emoções e sentimentos, como ira, pavor, paixão, amor, ódio, alegria e tristeza também são originadas no Sistema Límbico.

A parte do Sistema Límbico relacionada mais especificamente às emoções e seus estereótipos comportamentais denomina-se circuito de Papez. Concluindo, do circuito de Papez faz parte uma região cerebral nobre chamada Hipotálamo e este, finalmente, é quem governa a expressão das emoções, incluindo a sensualidade e o desejo sexual.

Sob o aspecto psiconeurológico, pode-se deduzir que a maioria das emoções negativas compromete o Sistema Límbico, a ponto de prejudicar o desejo sexual. Isso ocorre, por exemplo, na raiva, ira, depressão, ansiedade aguda, etc. Portanto, diante de certas emoções o libido ficaria prejudicado por comprometimento psiconeurológico do hipotálamo e Sistema Límbico, assim como também aparecem alterações menstruais ocasionadas por razões emocionais.

Ao atribuir às mulheres o termo "Sensualidade Sublime" de "Sexualidade Erótica", tentamos diferenciar "fazer amor" de "transar", respectivamente. Na sensualidade sublime o que motiva o sexo não é apenas o impulso biológico para o sexo (embora este seja necessário), mas também um sentimento necessário e suficiente para que o prazer se desenvolva mais livremente.

Como veremos nos quadros abaixo (reproduzidos em A Sexualidade do Brasileiro), há diferenças na representação da sexualidade entre os 2 sexos. A importância do sentimento e do afeto (onde se incui a admiração pelo parceiro) é maior nas mulheres (77,2%) do que nos homens (62,3%), assim como o grau de intimidade e o clima apropriado para o ato sexual. Por outro lado, a atração física é mais importante para os homens, 73,5% contra 66,5% para as mulheres.


O que contribui para o Desempenho Sexual*

OPINIÃO DAS MULHERES DOS HOMENS

sentimento e afeto

77,2%

62,3%

grau de intimidade

70,6%

63,9%

clima, ambiente apropriado

70,5%

63,6%

atração física

68,2%

73,5%

tempo suficiente, tranqüilidade

66,5%

69,5%

*Dados do estudo do Projeto de Sexualidade (Prosex) da USP


A sexualidade erótica, predominantemente masculina, por sua vez, costuma ser mais relacionada aos lobos frontais e temporais. Verificou-se que lesões bilaterais dos lobos temporais, por exemplo, podem resultar na síndrome de Klüver-Bucy, caracterizada por comportamento hiper­sexual e outros desequilíbrios do comportamento social.

O desejo sexual masculino se estimula mais pelos órgãos dos sentidos do que pelos sentimentos, como é o caso das mulheres. Para a sexualidade masculina é muito importante a visão, o tato, olfato. Talvez por causa da necessidade desses estímulos, o homem sente mais cobiça sexual que as mulheres, portanto, buscam mais novidades sexuais (parceiras) que as mulheres. Estas, por sua vez, experimentam mais a cobiça por objetos de grande valor simbólico, como bilhetinhos, poemas, cartas, comemorações de datas, músicas que marcaram, jóias, perfumes, flores, etc.

O corpo humano, tanto da mulher quanto do homem, passam por modificações fisiológicas durante a excitação sexual. No homem ocorre um seqüência fisiológica responsável pela ereção, comumente seguida de secreção uretral viscosa e aceleração dos batimentos cardíacos e respiratórios. Mas descrever a fisiologia masculina não é o objetivo aqui. Na mulher a vagina se expande, relaxando-se para permitir a penetração, fica molhada para facilitar os movimentos sexuais, o clitóris se intumesce, tornando-se mais sensível ao contato físico, os grandes lábios costumam se retrair e os pequenos lábios aumentam de tamanho.

A diminuição ou falta desses fatores fisiológicos na mulher pode significar alguma dificuldade para a sexualidade. A disfunção sexual que ocorre na fase da excitação pode ser seguida de dor à relação, chamado de dispareunia. Depois dessa fase, onde a excitação sexual em ambos os sexos já se encontra em andamento, haverá adequado Impulso Sexual.

Não é raro encontramos na clínica, mulheres que desejariam ser menos procuradas por seus parceiros ou, na melhor das hipóteses, "gostariam de gostar" de ter mais vontade sexual para satisfazer o parceiro ou afastar o fantasma de ele "ter" que procurar outra.

Esses casos merecem uma avaliação mais cuidadosa e criteriosa, pois a situação pode referir-se não apenas à falta de desejo sexual generalizado, mas sim, por determinadas modalidades de sexo, por determinado parceiro ou, mais comumente, pode ser uma falta de desejo determinada pela conduta errada e inconveniente do parceiro, ou por sua completa ignorância sobre a sexualidade feminina.

Quadros de ansiedade patológica podem surgir à noite quando há iminência de um relacionamento sexual indesejável. Pode haver não uma verdadeira falta de desejo sexual patológica, mas uma evitação ou esquiva daquele determinado contato sexual. Esses quadros emocionais normalmente são acompanhados de manifestações autonômicas desagradáveis, tais como taquicardia, sudorese, tremores e náuseas. Caracteriza-se assim o chamado quadro de aversão sexual.


 

Ballone GJ - Frigidez Sexual - in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br>revisto em 2004.




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Uma Luz
Por ser a atividade sexual em geral muito complexa, principalmente a sexualidade feminina, que é mais afetiva que sensorial, o tratamento para esse problema tem sido extremamente difícil. Outro fator complicante é o fato do tratamento envolver, quase sempre, o parceiro da paciente, já que a dinâmica sexual pode estar envolvida bilateralmente.

O uso de doses altas (supra-fisiológicas) de hormônios masculinos (andrógenos) para mulheres com disfunção sexual tem mostrado resultados convincentes, mas a segurança desse tratamento a longo prazo ainda é duvidoso. A partir de 2001 o FDA aprovou um dispositivo eletromecânico ("bomba") de vácuo clitoriano para o tratamento da Disfunção Sexual Feminina. Não existem, contudo, estudos de eficácia em larga escala para o mesmo, de forma que, até o presente momento não existe umá terapêuticas oficialmente comprovadas pelo FDA para a Disfunção Sexual Feminina.

Até bem pouco tempo, as psicoterapias eram as alternativas mais eficazes, senão únicas, para resolver parte significativa dos casos, fora aquelas pacientes que apresentavam hipoatividade sexual decorrente de estados depressivos, as quais, felizmente melhoram com o tratamento antidepressivo. A psicoterapia comportamental, o treinamento em práticas masturbatórias e o treinamento continuado com o parceiro são técnicas psicoterápicas com resposta relativamente satisfatória.

Assim sendo, a maioria dos casos de disfunção sexual feminina é tratada mediante psicoterapia orientada aos sintomas e pelo uso de medicamentos para os quais é descrita alguma eficácia em nível experimental, mas para os quais ainda não existe aprovação oficial

A Bupropiona é um antidepressivo dopaminérgico central, já aprovado como antidepressivo e coadjuvante no tratamento do tabagismo. O aumento da libido nas pessoas que usam esse medicamento tem sido bem documentado. Um estudo recentemente apresentado por Segraves (2003), em fase de publicação, demonstra considerável aumento das fantasias e desejo sexual, em mulheres com diagnóstico de HSDD, não-responsivas ao placebo.

Segundo a farmacologia, o cloridrato de bupropina aumenta a quantidade de noradrenalina e dopamina, substâncias químicas naturalmente produzidas pelo corpo, responsáveis pela comunicação entre os neurônios e associadas ao prazer sexual.

Essas pesquisas, conduzidas pelo psiquiatra Robert Taylor Segraves, de Cleveland, o estudo foi feito com adultas de 23 a 65 anos que tiveram falta de desejo por cerca de seis anos e sem histórico de depressão típica. Quase um terço das pacientes que usaram a bupropiona, administrada em comprimidos pela manhã por oito semanas, apresentou melhoras, com aumento das fantasias, dos episódios de estímulo sexual e da vontade de manter relações.

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O que costuma ser imperdoável para a mulher
Em Edição Especial da revista Época (ed. 303), Editora Globo, de 8 de março de 2004, há um artigo interessantíssimo sobre a sexualidade atual da mulher.

Reproduzimos aqui algumas sugestões, conselhos ou "dicas" com o propósito de ampliar o conhecimento masculinos sobre os anseios sexuais femininos e, com isso, minimizar as disfunções sexuais do casal.

"Lideram a lista de queixas femininas na cama:
- A pressa que o homens têm de chegar "lá" e o fato de muitos dormirem depois de gozar
- A idéia de que toda mulher adora discutir a relação depois de transar. Para a maioria, mais vale um abraço do que passar discutir "ficada"
-Não dar importância às preliminares é gravíssimo. A penetração, que para os homens é o auge da transa, para as mulhres é só parte da relação.

Resumindo, não se deve:
- Ser rápido demais
- Dormir logo depois do orgasmo
- Pular a etapa das carícias
- Insistir em saber se mereceu um 10 pela performance
- Falar de antigas conquistas na cama.

Apesar da mulher estar experimentando que o sexo e afeto obrigatoriamente nem sempre andam juntos, ainda a maioria delas escolhe seu parceiro mais por empatia e afinidades que por sua aparência.
" Mulheres que foram para a cama apenas movidas pela atração física se disseram menos satisfeitas do que em relações mantidas com outros que não as seduziram à primeira vista".

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Desejo Sexual Hipoativo
Veja um trecho transcrito do site ABC da Saúde sobre Desejo Sexual (Feminino) Hipoativo:
"Chamamos de Desejo Sexual Hipoativo (DSH) a esse transtorno sexual que acomete, em média, 35% da população brasileira. Caracteriza-se por uma diminuição ou ausência completa de fantasias eróticas e de desejo de ter atividade sexual. Há dificuldades no envolvimento com o parceiro, pois este queixa-se de falta de intimidade ou reciprocidade.

E diminui por quê?
Vários fatores podem determinar o DSH. Dentre os fatores orgânicos, devemos dar atenção a desequilíbrios hormonais. O aumento de prolactina, a diminuição de testosterona ou de estrogênio, podem causar uma baixa importante da motivação sexual. Várias medicações já estão disponíveis para lidar com esses problemas, como os hormônios de reposição ou drogas que restituem o equilíbrio hormonal.

Quando há infecções na vagina ou nódulos, a melhora destes quadros, com tratamento apropriado (antibióticos, analgésicos, lubrificantes, tratamento cirúrgico), restaura o desejo sexual.

Outro grande fator de diminuição do desejo é a depressão. Quadros de intensa tristeza e sentimentos de menosvalia acabam com o apetite sexual. O tratamento desses transtornos com antidepressivos pode restaurar o prévio desejo sexual. Infelizmente, grande parte dessas medicações pode provocar efeitos colaterais sexuais a curto e a longo prazo, como diminuição do desejo, impotência, retardo da ejaculação e anorgasmia (falta de orgasmo).

Por essa razão, o tratamento de depressão deve ser ministrado e acompanhado pelo psiquiatra. Existem algumas medicações que podem ser prescritas como "antídotos" para esses efeitos colaterais sexuais. Dessa forma, a pessoa pode se beneficiar do tratamento para depressão, sem prejudicar sua vida sexual.

Os fatores sociais e psicológicos têm muito peso no Desejo Sexual Hipoativo.
A forma de criação das mulheres nos países ocidentais, com muita repressão e influências culturais negativas no que tange à sexualidade, trouxe profundas conseqüências para a vida sentimental e sexual feminina.

A mulher não é tão estimulada a se ver, a se tocar e a se conhecer sexualmente quando comparada ao homem. Educava-se para não permitir que a sexualidade feminina viesse à tona. Após a revolução sexual dos anos 60, houve uma tentativa de inversão desses valores. No entanto, busca-se ainda hoje um meio termo, um equilíbrio para a real identidade feminina.

É comum o conflito entre ser uma mulher maternal e também sexual, como se fossem funções incompatíveis. As queixas de baixa libido e depressão não são raras após o parto. O casal pode começar a se desajustar mesmo durante a gravidez. A mulher passa a se ver e a ser vista como um ser idolatrado, puro, destituído de atrativos sexuais. Passa a negar o lado sexual em prol de ser mãe.

Situações traumáticas de abuso sexual, mensagens anti-sexuais durante a infância, culpas, comportamento sedutor por parte dos pais, dificuldade em unir amor com sexo em si mesma (esposa X prostituta), raivas entre o casal e competição temida com o pai ou mãe, entre outras, são fontes de baixa libido nas mulheres."
(Veja a página toda)

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Orgasmo Obrigatório
Na década de 60, as mulheres lutaram por liberdade sexual, por ter direito ao prazer e por se emanciparem da repressão da família e da sociedade. Parece que deu certo, e deu certo até demais.

Hoje, tanto as mulheres quanto os homens, são quase intimados a apresentar um bom desempenho na cama e a ter uma vida sexual obrigatoriamente ativa. É a revolução sexual às avessas.

Não ter vida sexual ativa, e bem ativa, passou a ser sinônimo de fracasso. Depois de dizer adeus aos preconceitos, às proibições, à repressão sexual, a sociedade parece viver numa espécie de ditadura do sexo.

Um exemplo disso é a obrigatoriedade do orgasmo, principalmente no caso das mulheres. Muitas fingem que chegaram ao ápice do prazer só para não correrem o risco de perder o parceiro, de serem consideradas mutiladas sexuais. As pessoas vivem querendo ser uma espécie de atletas na cama como, se estivessem participando de uma disputa onde o mais feliz será aquele mais permissivo, libidinoso, descontraído e sexualizados.

Quando a pessoa não consegue ter o desempenho esperado, tanto homens quanto mulheres, acabam se sentindo obrigatoriamente deprimidos, infelizes e frustrados. Essa baixa auto-estima se mostra mais contundente quanto mais a pessoa se queixa publicamente desses seus "defeitos".

O problema talvez seja o modelo e parâmetro culturalmente estipulado para que a pessoa se sinta feliz, independentemente dos próprios princípios, gostos, crenças e valores. Quem não obedece o modelo divulgado por certas "novelas" deve se sentir frustrado, retrógrado e infeliz.

Depois de muito tempo de repreensão da sexualidade, as pessoas, principalmente as mulheres, decidiram virar a mesa e o sexo com mais liberdade. O problema é que partiram do proibido diretamente para o obrigatório e o que era para ter sido uma revolução sexual, virou ditadura.

Na tentativa de se adaptar a tanta modernidade, surgem os conflitos pessoais. Muitas vezes, as pessoas adotam comportamentos que vão contra o que desejam, ou seja, acabam fazendo o que devem (culturalmente) de forma emancipada daquilo que desejam de fato. Ou acabam desejando aquilo que não devem. Antigamente as mulheres eram coagidas a permanecerem virgens até o casamento mas hoje, a adolescente que ainda não perdeu a virgindade é questionada pelas amigas e até ridicularizada.

Mas nem todas as pessoas cedem a essa pressão cultural externa. Para aqueles que aderem à obrigatoriedade da vida sexual ativa e cheia de orgasmos, porque de fato é isso que querem, não há problemas. Aqueles que não são, em suas intimidades, sexualmente ávidos mas têm determinadas características de personalidade que as levam a ter um comportamento excessivamente preocupado com o que se espera delas, ou excessivamente preocupado com o que vão pensar delas, a possibilidade de terem conflitos é maior.

As pessoas muito preocupadas em terem desempenho sexual de acordo com os padrões vigentes, na verdade, se acostumam a atender uma cobrança não apenas externa, da cultura, mas também interna, de sua própria ansiedade em satisfazer as expectativas dos demais.
Fonte: Veja ed. 1692- 21/03/2001

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