Søren Aabye Kierkegaard

Pai da corrente filosófica do Existencialismo
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A época em que viveu o filósofo dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard foi, inicialmente, um período de grande crise política e militar sofrida por seu país, em conseqüência das guerras napoleônicas. Somente na idade madura do filósofo, a Dinamarca veio a sair do atraso econômico causado pelos conflitos. Graças a uma política liberal que aboliu o trabalho obrigatório do camponês para os nobres seus senhores (regime medieval de servidão), e aboliu a monarquia absolutista, o país foi, aos poucos, foi se transformando em país industrializado e não apenas agrícola. Uma juventude universitária liderada pelo estudante Martin Lehmann, exigiu essas reformas liberais, e uma geração de intelectuais jovens, entre eles Kierkegaard, motivou que os meados dos anos 1800 fossem também chamados "idade de ouro" da literatura dinamarquesa. Kierkegaard viveu a maior parte de sua vida no reinado de Frederico VI, porém o período mais produtivo de sua maturidade transcorreu sob os reinados sucessivos de Christian VIII e Frederico VII.

 

Vida

Infância

Soren Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhague, Dinamarca, a 5 de maio de 1813 e cresceu num ambiente de devoção religiosa luterana. Seus pais procediam da península da Jutlândia, a parte continental da Dinamarca. Michael Pedersen Kierkegaard, o pai de Soren, era um homem de vontade forte, argüidor e argumentativo, autodidata por meio de muitas leituras, e muito voltado para questões espirituais. De origem humilde, porém havia se tornado rico e influente em seu meio social. Sua casa era ponto de reunião de líderes religiosos e políticos do seu tempo. Pertencia à corrente religiosa dos pietistas de Herrnhuter. Sofria ataques periódicos de depressão porque, devido a uma blasfêmia proferida quando jovem, não acreditava na salvação de sua alma.

 

A mãe de Kierkegaard, Anne, foi a segunda esposa de seu pai, o qual não tivera filhos da primeira mulher. Seu ingresso na casa foi como uma jovem empregada doméstica, que o pai de Kierkegaard engravidou antes de desposar, fato que contribuiu para aumentar ainda mais para ele o peso de suas culpas. Enquanto Kierkegaard escreveu muito em seus diários a respeito do pai, ele raramente escreveu sobre sua mãe. Ela morreu quando Kierkegaard tinha 21 anos.

 

Formação

A influência do pai sobre personalidade de Kierkegaard e sua obra tem sido sempre salientada. Ele foi o filho mais novo de sete irmãos. Quando nasceu, seu pai tinha 56 anos e sua mãe 45, razão de ele dizer que era um filho da velhice.

 

Uma importante anotação que Kierkegaard fez em seu diário, quando tinha vinte e cinco anos, a respeito do que ele chamou "Grande terremoto", revela o quanto a influência de seu pai foi perturbadora, em sua vida. Refere-se ao abalo que sofreu ao compreender o que acontecera ao pai e as conseqüências do acontecido para toda a família. Quando jovem, seu pai fora ajudante de administrador de uma fazenda na Jutlândia. Revoltado com as privações de sua vida de camponês, subiu ao alto de uma colina e amaldiçoou solenemente a Deus. Logo depois um tio seu, negociante de artigos de lã em Copenhague, chamou-o para o negócio. A partir daí o pai havia prosperado como negociante de roupas, tornando-se um homem rico: dono de 5 casas na capital que milagrosamente escaparam do bombardeio da cidade pelos ingleses em 1807. Também salvou-se da recessão e falência do estado em 1813, ano do nascimento de Soren, porque investiu em títulos de seguro tudo que tinha em dinheiro. Foi tão bem sucedido que pode aposentar-se com apenas quarenta anos. Viveu confortavelmente até os 82 anos, quando faleceu. No entanto, em suas crises de melancolia, sentia que o favorecimento do seu sucesso e sua longevidade haviam sido uma ironia, e na verdade vingança de Deus. Cinco de seus filhos morreram prematuramente, incluindo sua primeira esposa, e estava certo de que os dois filhos restantes haveriam de morrer quando chegassem à idade da morte de Cristo.

 

Como o pai, Soren Aabye sofria de persistente melancolia. Pesava sobre a família o temor das conseqüências do pecado do pai, e lhe pareceu que a morte de seus cinco irmãos era sinal de vingança divina, e que ele próprio haveria de morrer muito jovem. Um sinal desse temor foi o quanto Kierkegaard escreveu, prolificamente, no ano que antecedeu a marca de seus trinta e quatro anos de idade. Acreditava que a família estava amaldiçoada, e que seu pai haveria de ministrar os últimos sacramentos a todos os filhos. Tinha saúde precária e por isso fora rejeitado pelo exército como incapaz. Rompeu relações com o pai, vindo a reconciliar-se com ele só bem mais tarde, pouco antes de perde-lo em 1838.

 

Desanimado, rejeitou a vida burguesa que o pai lhe havia preparado e que seu irmão mais velho, o pastor Peter, abraçou. Misturou-se aos jovens de seu tempo e entregou-se a uma vida dissipada. Ele porém não herdou apenas a melancolia do pai, seu sentimento de culpa e ansiedade, sua religiosidade pietista escrupulosa, mas herdou também seu talento para argumentação filosófica e uma imaginação criativa. Foi para a universidade de Copenhague estudar teologia, mas mudou para filosofia. Sofreu influência dos prof. Paul Martin Moller e Frederik Christian Sibbern: ambos detestavam filosofia sistemática e usavam romances de ficção para expor seus pensamentos filosóficos. Juntou-se aos intelectuais do romantismo, os quais buscavam viver intensamente seus sentimentos, em contraste com a superficialidade e rotina tediosa da vida burguesa. Porém, sofreu com os críticos literários que o ridicularizavam. Tudo isto confirmou os ensinamentos do pai, que giravam em torno dos sofrimentos de Cristo, de que a verdade (o próprio Cristo) se estabelece mediante sofrimentos, de que o mundo é governado por mentiras e injustiças. A mágoa lhe trouxe o grande desgosto pela humanidade de que estão impregnados quase todos os seus trabalhos.

 

A morte do pai (1838) ensejou grande mudança no comportamento de Kierkegaard, a partir de então marcado por súbito amadurecimento. O velho deixou para os dois filhos sobreviventes, Soren Aabye e seu irmão mais velho, Peter, uma fortuna considerável, que permitiu ao filósofo passar o resto da vida escrevendo, sem qualquer preocupação financeira. Então ele retornou aos estudos de teologia na universidade de Copenhague e dois anos depois concluiu o mestrado.

 

Maturidade

Kierkegaard viveu solteiro e um dos grandes acontecimento de sua vida foi justamente romper um noivado, ao mesmo tempo que a grandeza de sua obra nasceu praticamente das racionalizações filosóficas e românticas formuladas por ele para justificar para si mesmo e para a sociedade sua renúncia. Ele conheceu em 1837, Regine Olsen (1822-1904), em casa de amigos que fora visitar. Ela pertencia a uma família abastada de Copenhague e tinha 14 anos, idade núbil para as moças daquela época, e Kierkegaard não tinha como rejeitá-la, face ao interesse que despertou na jovem. Viu-se levado ao noivado três anos depois, em 1840, um evento com grande repercussão devido à grande projeção social de sua família e da família de sua noiva. Quando não suportou mais a situação, Kierkegaard rompeu o noivado subitamente e embarcou para a Alemanha. Porém, procurou fazer que todos pensassem que ele fora rejeitado por Regina, a fim de que, segundo ele, a reputação da noiva nada sofresse. Ficou seis meses em Berlim.

 

Em uma das referências que faz ao seu caso com Regine, diz: "Se eu houvesse explicado as coisas para ela, eu teria que lhe ensinar coisas horríveis, meu relacionamento com meu pai, sua melancolia (devido à maldição), a noite eterna que me cobre, meu desespero, luxúria, e excessos"...etc. Porém não muito depois Kierkegaard ficou sabendo que Regine estava noiva de Johan Frederik Schlegel (1817-1896), que tinha sido instrutor dela. De repente Kierkegaard viu que nada, com respeito à aquele caso, tinha a importância que ele pensava ter. Em 1854, um ano antes da morte de Kierkegaard, o casal mudou-se para as Índias Ocidentais Dinamarquesas onde Schlegel foi governador. O filósofo, quando morreu em 1855, estava já pobre. Mas o que lhe restava deixou para Regina.

 

Em Berlim Kierkegaard assistiu as aulas de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854). Ele maravilhou-se com os brilhantes ataques de Schelling ao hegelianismo então em moda.

 

Obras

Em suas obras, Kierkegaard lançou os fundamentos do existencialismo a corrente que depois receberia a contribuição de Heidegger e Sartre, e fez vasto uso de pseudônimos para uma finalidade muito especial: eles representam, não ele próprio, mas personagens com pontos de vista e atitudes próprias. Estabelece uma dialética entre esses personagens, ou seja, entre dois ou mais pseudônimos seus. Deste modo, um livro assinado com um pseudônimo responde a outro livro, assinado com outro pseudônimo. O Pseudônimo Johannes Climacus trata do dilema entre a dúvida e a fé. Vigilius Haufniensis ocupa-se dos aspectos psicológicos do pecado e da ansiedade. Johannes de Silentio e Constantin Constantius ocupam-se da ética, a partir dos aspectos envolvidos no relacionamento de Kierkegaard com Regine Olsen. Anti-Climacus é o cristão ideal, etc. O seu propósito não era o anonimato mas desvincular sua personalidade dos assuntos polêmicos de que tratava.

 

Os escritos de Kierkegaard, consignados ao período de sua juventude (1834-1842) e depois impressos, incluem um artigo sobre a emancipação da mulher, outro sobre a liberdade de impressa escrito para a Liga dos Estudantes, e principalmente sua primeira obra publicada: "Dos papeis de alguém ainda vivo".

 

Na relação a seguir, a tradução dos títulos para o português foi feita a partir das versões em inglês. São ainda obras desse período:

  • Om Begrebet Ironi med stadigt Hensyn til Socrates ("O Conceito de ironia, com referência continua até Sócrates"), 1841. Foi sua tese e o assunto é, na primeira parte, a ironia de Sócrates - como aparece em Platão -, de Xenofonte e de Aristofanes, com uma parte sobre Hegel; e na segunda parte, a ironia em Fichte, von Schlegel, e outros.
  • "Notas das aulas de Schelling em Berlim" (1841-42) que são anotações de diário sobre seus estudos na Alemanha, publicadas postumamente.
  • "Confissão pública", 1842, que apareceu com seu próprio nome desautorizando boatos de que era o autor de artigos assinados com pseudônimos. Ele era de fato o autor, mas era essencial para a dialética autoral que queria criar, que se desvinculasse da autoria desses artigos.
  • Enten-Eller. Et Livs-Fragment: Forste Deel, indeholdende A."s Papirer ("Ou.../ou: Um fragmento de vida: Primeira Parte, contendo os papeis de A") e
  • Enten-Eller. Et Livs-Fragment: Anden Deel, indeholdende B."s Papirer, Breve til B, ("Ou.../ou: Um fragmento de vida: Segunda Parte, contendo os papeis de B, Cartas para B"), são de 1843. As duas partes da obra referem-se aos dois tipos de vida que Kierkegaard concebe: estética e ética. A primeira parte é uma coleção de trabalhos apresentando vários pontos de vista estéticos. A parte segunda é sobre o casamento como uma expressão do estágio ético. "Victor Eremita" é o editor das duas partes as quais, têm, cada uma, seu próprio autor. "A", o Jovem, é o autor da primeira parte, e "B", ou "Juís William", o autor da segunda parte. Kierkegaard tomou cuidados especiais para que o público não soubesse que era ele o autor, ao ponto de fazer os originais serem copiados por mãos diferentes, de modo que os empregados da gráfica não o identificassem pela caligrafia. Esmerando-se em extremo nessa farsa, publicou, uma semana após o lançamento do livro, um artigo seu no "A Pátria",com o pseudônimo "A. F." onde ele próprio indaga "Quem é o autor de Ou.../Ou...?" São também de 1843:
  • "Uma palavra de Agradecimento ao Professor Heiberg", por Victor Eremita. Aquele era uma grande figura da literatura na Dinamarca;
  • "Pequena Explicação", um pequeno artigo escrito também em referencia a pseudônimos por ele adotados, tal como "Quem é o autor de Ou.../Ou...?" e "Confissão Pública". 
  • Johannes Climacus, eller De omnibus dubitandum est. En Fortælling ("Johannes Climacus, ou de omnibus dubitandum est. Uma narrativa"), também de 1843, de publicação póstuma, é um trabalho filosófico em que "Johanes Climacus", na sua busca da verdade filosófica, duvida de tudo, explorando o modelo cartesiano e hegeliano. "Johannes Climacus" será também o autor de ("Fragmentos filosóficos") e a outra obra vinculada, ("Post-scriptum não científico conclusivo"). Este pseudônimo representa a autoria dos maiores trabalhos filosóficos de Kierkegaard.
  • Em 1843 também inicia a série Atten Opbyggelige Taler ("Dezoito Discursos edificantes") que irá de 1843-45. Está dividido em três seções. A primeira contem o popular "Pureza do Coração é querer uma coisa"; a segunda é "O que aprendemos dos lírios do campo e das aves do céu"; a terceira é "O evangelho dos sofrimentos". Foi publicado por partes: Duas em 1843; três, em 1843; quatro, em 1843; duas, em 1844; Três, em 1844; Quatro, em 1844)
  • Frygt og Bæven: Dialectisk Lyrik ("Temor e Tremor: um lírico dialético"), também de 1843. O pseudônimo é "Johannes de Silentio". Nesta obra Kierkegaard trata do seu rompimento com Regine na mesma perspectiva em que vê o sacrifício de Abraão e Isaac: obediência a um dever, mas que exige um ato não ético. Nesta perspectiva Kierkegaard aborda uma interessante questão: um julgamento moral pode ser suspenso em virtude de um poder maior. Ele exemplifica com o episódio em que Abraão recebe de Deus a ordem de matar Isaac. ("Temor e Tremor") (1843). O problema que ele coloca é se existem situações nas quais a ética pode ser suspensa por uma autoridade maior, Deus, que é a essência de tudo que é ético.
  • Gjentagelsen: Et Forsog i den experimenterende Psychologi ("Repetição, uma especulação em psicologia experimental"). De 1843, é uma narrativa filosófica com considerações a respeito da impossibilidade do compromisso entre dois amantes, situação como a criada por ele próprio com sua noiva Regine Olsen. O pseudônimo é "Constantin Constantius", um poeta que escreve sobre o estágio ético, como um jovem amante que só pode amar sua amada depois deixá-la e somente "poeticamente".
  • Philosophiske Smuler eller Smule Philosophi ("Fragmentos filosóficos, ou um fragmento de filosofia"), Johannes Climacus, é de 1844. Kierkegaard nesta obra inicia a abordagem de um tema que irá concluir em "O conceito de ansiedade". É uma tentativa de apresentar o cristianismo como deveria ser para que tenha algum sentido. Busca particularmente apresentar o cristianismo como uma forma de existência que pressupõe a vontade livre, sem a quaql tudo fica sem sentido.
  • Begrebet angest. En simpel psychologisk-paapegende Overveielse i Retning af det dogmatiske Problem om Arvesynden ("Conceito de Angustia: uma simples deliberação psicologicamente orientadora a respeito do problema dogmático do pecado original"), de 1844, no qual Kierkegaard examina a doutrina cristã do pecado original e sua relação com a angústia e ansiedade. A liberdade causa ansiedade. Vigilius Haufniensis é o autor; Haufniensis significa "vigilante", no caso, da cidade de Copenhague, como se Kierkegaard se sentisse responsável pela guarda da sua cidade aparentemente sob todos os aspectos de seu bem estar.
  • Forord. Morskabslæsning for enkelte Stænder efter Tid og Leilighed ("Prefácios: leitura leve para pessoas em vários estados de acordo com o tempo e a oportunidade"), Nicolaus Notabene, foi também publicado em 1844. Uma série de ensaios e críticas satíricas visando o sociedade literária de Copenhague, principalmente a figura de J. L. Heiberg. São oito prefácios referentes a oito trabalhos não existentes. "Nicolaus Notabene", um personagem pedante, é o autor.
  • Tre Taler ved tænkte Leiligheder ("Três Discursos sobre ocasiões imaginárias"), de 1845. Este trabalho acompanhou o Stadier paa livets vei ("Estágios no caminho da vida"). Cada um dos três discursos representa os três estágios ou condições de existência: a estética, a ética e a religiosa: "Um confissão", "Um casamento", e "Ao lado de uma sepultura".
  • Stadier paa Livets Vei. Studier af Forskjellige. Sammenbragte, befordrede til Trykken og udgivet af Hilarius Bogbinder ("Estágios no caminho da vida: estudos por várias pessoas, compilado, encaminhado à imprensa, e publicado por Hilarious Bookbinder") É um complemento a ("Ou.../Ou...") de 1845, e discute a mesma questão do estético e do ético, acrescentando porém o estágio religioso da existência. O editor é "Hilarius Bookbinder" A primeira parte, chamada "In Vino Veritas" ou "O banquete," é assinada por "William Afham" - Afham significa "por si mesmo" e está calcada no Symposium de Platão: trata dos mesmos assuntos -- amor, Eros, sexo, mulheres -- com um amargo sarcasmo e profundo desdém pelas mulheres em geral. "Frater Taciturnus" assina o texto do estágio religioso.
  • "Uma explicação e um pouco mais", de 1845, pequeno artigo que, como "Uma pequena Explicação" e "Quem é o autor de Ou.../Ou..." é outra tentativa de Kierkegaard de guardar distância da autoria de seus trabalhos.
  • En flygtig Bemærkning betræffende en Enkelthed i Don Juan ("Uma observação superficial sobre um detalhe em Don Giovanni"). É um artigo publicado no jornal A pátria em 1845 no qual volta ao assunto relativo à ópera Dom Giovanni de Mozart, tratado inicialmente no ("Ou.../Ou...").,. O autor é "A", que foi o autor de um artigo muito anterior ("Uma outra defesa das grandes habilidades da mulher").
  • Afsluttende Uvidenskabelig Efterskrift til de philosophiske Smuler. Mimisk-pathetisk-dialektisk Sammenskrift, Existentielt Indlæg ("Post-scriptum não científico conclusivo ao Fragmentos Filosóficos. Uma compilação Mímico-patético-dialética, uma contribuição existencial"), de 1846, faz a abordagem subjetiva do conhecimento. Kierkegaar novamente sustenta a necessidade de se aproximar da verdade subjetivamente, porém sem negar a verdade objetiva, apenas dizendo que a verdade objetiva somente pode ser conhecida e apossada subjetivamente. Como o título anuncia, é uma continuação ao "Fragmentos Filosóficos". Saiu assinado por Johannes Climacus.
  • "A atividade de um esteticista viajante e como aconteceu de ele ainda pagar pelo jantar" é um artigo publicado npor Kierkegaard no Fædrelandet ("A Pátria"), em 1845; foi o primeiro de dois artigos atacando P. L. Moller e "O Corsário", que havia inescrupulosamente e negativamente criticado o "Estágios do caminho da vida" de Kierkegaard. Em fins de dezembro de 1845, no seu anuário de estética Gæa, 1846. Kierkegaard retaliou revelando que Moller escrevia secretamente para o Corsaren ("O Pirata"). Este era um semanário humorístico mal afamado, que satirizava pessoas de respeito, e era considerado desprezível, porém lido reservadamente por muita gente. Seu editor era Meïr Goldschmidt (1819-1887), bem mais novo que Kierkegaard, e que este considerava talentoso. A intenção de Kierkegaard com o seu artigo foi dupla: desacreditar Moller e afastar Goldschmidt do "O Pirata", porque acreditava que Goldschmidt era capaz de coisas de mais valor. O resultado foi péssimo para Kierkegaard, pois "O Pirata" se lançou em uma campanha para metê-lo no ridículo, caricaturando-o de vários modos, no que foi a maior comoção literária do século XIX na Dinamarca.
  • Det dialektiske resultat af en literair Politi-Forretning ("Resultado dialético de uma ação policial literária"), Frater Taciturnus, de 1846, é o segundo de dois artigos que escreveu atacando O Pirata como jornal como corrupto e difusor de boatos.
  • En literair Anmeldelse: To Tidsaldre, Novelle af forfatteren til En Hverdags-Historie udgiven af J. L. Heiberg, ("Duas épocas: a época da revolução e a época presente, uma revisão literária: ") de 1846 uma longa crítica do romance de Thomasine Christine Gyllembourg-Ehrensvärd, intitulado "Duas Épocas". A crítica deu margem a uma polêmica, devido a Kierkegaard achar que sua época era de reflexão, faltava paixão.
  • Opbyggelige Taler i forskjellig ("Discursos edificantes em vários temas"), de 1847
  • Kjerlighedens Gjerninger. Nogle christelige Overveielser i Talers Form ("Escritos de Amor: Algumas deliberações cristãs sob a forma de Discursos"), de 1847. Longa abordagem do preceito cristão "amar o próximo como a si mesmo". Está claro que Kierkegaard estava se movendo na direção de uma ainda maior austeridade no se pensamento religioso, e nos trabalhos que ele agora produzia, particularmente Kjerlighedens gjerninger, retratava um cristianismo rígido e mais descompromissado que em qualquer de suas outras obras.
  • Hr. Phister som Captain Scipio (i Syngestykket Ludovic): En erindring og for Erindringen ("O Sr. Phister como Capitão Scipio (na ópera cômica Ludovico): uma recordação e para recordar"), de 1848, comentário sobre a atuação do ator Joachim Ludvig Phister"s (1807-1896) como Capitão Scipio, que demonstra o interesse de Kierkegaard pelo teatro. "Procul" é o autor.
  • Krisen og en Krise i en Skuespillerindes Liv ("A crise e uma crise na vida de uma atriz") de 1848, são especificamente a respeito da competência interpretativa da atriz Johanne Luise Pätges Heiberg (1812-1890), mulher de Johan Ludvig Heiberg, uma figura exponencial da literatura e da sociedade dinamarquesa. O pseudônimo utilizado por Kierkegaard é "Inter et Inter".
  • Christelige Taler ("Discursos cristãos"), de 1848, neste Kierkegaard entende que seus pecados foram perdoados e esquecidos por Deus.
  • Bogen om Adler, eller en Cyclus ethisk-religieuse ("O livro sobre Adler, ou um ciclo de ensaios ético-religiosos") por Afhandlinger, de 1846-47, revisado em 1848, foi publicado postumamente. Um pastor hegeliano radical, Adolf Adler afirmava ter tido uma visão em que Cristo ditara integralmente para ele um trabalho inteiro, porém confessa depois que sua revelação fora um erro, que ele pretendia que a obra fosse um trabalho de gênio. Kierkegaard explora as categorias de genialidade e inspiração.
  • Tvende ethisk-religieuse Smaa ("Dois pequenos Ensaios Ético Religiosos") incluindo ("Tem o homem o direito de se deixar matar pela verdade?") e ("Diferença entre um gênio e um apóstolo"). Este trabalho, escrito 1847, foi publicado em 1849. Kierkegaard não publicou "O Livro sobre Adller" mas utilizou parte dele para tratar de martírio e as categorias de genio e inspiração nos dois artigos desse folheto, assinados com o pseudônimo Afhandlinger H. H..
  • Den Enkelte"; Tvende "Noter" betræffende min Forfatter ("O indivídual singular ":Duas "Notas" relativas ao meu trabalho como um autor"), Virksomhed, 1846-47, com post-scriptum de 1849 e 1855, publicado postumamente em 1859. Foi o primeiro de três trabalhos que Kierkegaard escreveu em 1848, a respeito de sua atividade autoral mas foi publicado postumamente em 1859
  • Synspunktet for min Forfatter-Virksomhed. En ligefrem Meddelelse, Rapport til Historien ("O ponto de vista para meu trabalho como um autor. Uma comunicação direta, notícia para a História"), foi outro desses três trabalhos de 1848, a respeito de sua atividade autoral, também publicado postumamente em 1859. Kierkegaard escreveu esse trabalho para explicar todo o seu método autoral, mas o deixou sem publicar porque lhe pareceu muito auto elogioso.
  • Om min Forfatter-Virksomhed 1848-49 ("Sobre meu trabalho como um autor 1848-1849"), suplemento, 1850, publicado em 1851.
  • Den væbnede Neutralitet eller Min Position som christelig Forfatter i Christenheden ("Neutralidade armada, ou minha posição como um autor cristão na cristandade"), 1848-49, publicado postumamente em 1880. Este pequeno trabalho é importante porque poderá ser a mais direta e clara afirmação da posição de Kierkegaard sobre a Igreja e a cristandade. Tem estilo diferente do utilizado nos panfletos contra a cristandade que apareceram ao final de sua vida.
  • Lilien paa Marken og Fuglen under Himlen: Tre gudelige Taler ("Os lírios do campo e as aves no céu: três discursos devocionais"), 1849, são artigos que apareceram quase um ano depois de sua experiência religiosa de 1848 e tem o tom semelhante ao do "Discursos Cristãos".
  • Sygdommen til doden. En christelig psychologisk Udvikling til Opbyggelse og Opvækkelse ("A doença para a morte: uma exposição psicológica cristã para edificar e alertar"), de 1849, livro que é peça associada ao "Conceito de Ansiedade" e também é um trabalho de psicologia, que vai mais longe que suas primeiras considerações psicológicas sobre a ansiedade. Neste Kierkegaard considera os aspectos espirituais da angústia. Considera a ansiedade relacionada ao que é ético, e a angústia ao que é religioso, ou seja, ao eterno. "Anti-Climacus" é o autor; com este pseudônimo Kirkegaard assinou seus mais importantes trabalhos na linha religiosa, personificando o cristão perfeito. "Anti-Climacus" é do mais alto nível enquanto "Climacus", ao contrário, personifica um cristão de menor valor.
  • Tre Taler ved Altergangen om Fredagen ("Três Discursos sobre a comunhão às sextas-feiras"), 1849. Este trabalho contem: "O sumo sacerdote" "O publicano " e "A mulher apanhada em pecado", este último baseado em Lucas. São semelhantes aos "Discursos Cristãos". Estes trabalhos são acompanhados por uma breve explicação sobre o recurso a pseudônimos adotado anteriormente por Kierkegaard.
  • Indovelse i Christendom ("Prática cristã"), Anti-Climacus, de 1850. Ele pretende mostrar meios pelos quais o verdadeiro cristianismo pode ser reintroduzido na Cristandade, pois esta afastou-se do cristianismo do Novo Testamento. O trabalho é polêmico e homiliético. Foi também um ataque dissimulado aos chefes da igreja dinamarquesa.
  • En Opbyggelig Tale ("Um discurso edificante"), 1850
  • Foranlediget ved en Yttring af Dr. Rudelbach mig betræffende ("Carta aberta, provocada por uma referencia a mim feita pelo Dr. Rudelbach")1851, refere-se a uma proposta de reforma da Igreja feita por A. G. Rudelbach contra a qual Kierkegaard, apesar de desejar essa reforma, objeta que Rudelbach sugeria instrumentos políticos para a reforma, quando o necessário era uma demolição com reconstrução espiritual.
  • To Taler ved Altergangen om Fredagen ("Dois discursos sobre a comunhão às sextas-feiras, escrito em 1849, publicado em 1851.
  • Til Selvprovelse. Samtiden Anbefalet ("Para o exame de consciência: recomendado para a época presente") 1851, busca reorientar o leitor para Deus. É densa espiritualidade em todas as suas três partes: "O que é necessário para se olhar a si mesmo com verdadeira benção no espelho do mundo?", "Cristo é o caminho" e "É o espírito que dá a vida".
  • Dommer Selv! Til Selvprovelse, Samtiden Anbefalet. Anden Række ("Julgue por si mesmo! Para o exame de consciência, recomendado para a época presente. Segunda série")1851, publicado postumamente em 1876. Está estreitamente vinculado ao "Para o exame de consciência", acima, e é sobre o sofrimento e imitação de Cristo.
  • Vários artigos no "A Pátria" (um total de 21), publicados em 1854 e 1855, nos quais dirige pesados ataques à igreja oficial por ter erradicado o verdadeiro cristianismo, e por tê-lo substituído por uma religião do Estado.
  • Dette skal siges; saa være det da sagt ("Isto precisa ser dito, logo, deixa que seja dito") Esse folheto de 1855 foi publicado depois da série de artigos saídos no "A Pátria". Nele Kierkegaard alega que a igreja é tão corrupta que é melhor não frequentá-la.
  • Oieblikket ("O momento") editado no ano de 1855. Depois dos artigos publicados no "A Pátria" Kierkegaard publicou dez folhetos, cada um contendo vários artigos seus, todos continuando seu ataque à Igreja Oficial.
  • Hvad Christus Dommer om officiel Christendom , ("O que Cristo pensa do Cristianismo oficial"), de 1855. Essse folheto foi publicado logo depois que Kierkegaard começou a publicar o Oieblikket ("O Momento"). Kierkegaard ataca outra vez a igreja oficial chamando os clérigos de livre pensadores e perjuros por não cumprirem seus votos sagrados.
  • Guds Uforanderlighed. En Tale ("A imutabilidade de Deus: Um discurso") Publicado em 1855, em meio a seu ataque à Igreja.

Além dessas obras, Kierkegaard deixou cartas e documentos, alguns reunidos depois em obras póstumas, e na publicação em vários volumes Soren Kierkegaards Papirer (Papeis de Kierkegaard), primeira parte, os datados de 1834-47, e segunda parte, de 1848-55, restando milhares de notas de interesse religioso, pessoal ou histórico, a serem ainda aproveitadas.

 

Últimos anos

Após a querela com os hegelianos, Kierkegaard torna-se um reformador religioso. Por volta de 1854 Kierkegaard estava convencido de que Deus o autorizava a atacar asperamente a igreja dinamarquesa e seu clero, o que ele começou logo a fazer com uma série de pequenos livros e panfletos e até com um periódico chamado "O Momento", de cujos números ele foi o único colaborador. Em 21 artigos no "A Pátria", em 1854 e 1855 ele faz um duro ataque à igreja oficial, como já referido, por ter erradicado o verdadeiro cristianismo, e por tê-lo substituído por uma religião do Estado. Intolerante com a hipocrisia, critica os que fingiam espiritualidade enquanto agiam segundo interesses mundanos. Considerava tais pessoas um produto da cultura cristã: o indivíduo cauteloso, respeitável, imperturbável, um cavalheiro da classe média. E sentiu-se chamado por Deus para a tarefa especial de mostrar aos seus concidadãos a verdadeira natureza do Cristianismo.

 

A igreja da Dinamarca era estatal e a religião luterana a religião oficial do Estado. Bastava nascer no país para ser automaticamente cristão. Kierkegard alegava que isto reduzia a nada a possibilidade de uma verdadeira conversão radical a Cristo. O cristianismo deve ter por fundamento a vontade livre, sem a qual tudo perde o sentido.

 

O pastor local, um verdadeiro funcionário público, representava a Coroa e por isso, além da prática de suas funções especificamente religiosas, também era quem coleta impostos, realizava os recenseamentos, fazia o recrutamento militar, mantinha os registros civis nos livros da igreja, supervisionava as escolas, e cuidava da assistência aos pobres, e era o presidente do Conselho Municipal, além de cuidar de seus próprios interesses, muitas vezes a maior fazenda das vizinhanças. As questões políticas e os rancores misturavam-se facilmente com os assuntos religiosos, gerando escândalos.

 

Atacou o Bispo Jacob Pier Myster, um prelado culto e secularizado, por juntar o hedonismo de Goete com os sofrimentos de Cristo. Não chegou a criticá-lo abertamente, pois o bispo era seu amigo e havia sido o orientador espiritual de seu pai. Porém, com a morte de Myster em 1854, atacou publicamente o bispo que o sucedeu, Hans Lassen Martensen (1808-84), um hegeliano, pregador na corte, o qual Kierkegaard não respeitava.

 

Morte

As tensões daqueles dois anos da sua campanha afetaram sua saúde. Em outubro de 1855 Kierkegaard caiu inconsciente na rua, e ficou com paralisia das pernas. Levado ao Hospital, era visitado ali diariamente pelo amigo Pastor Boesen, tendo proibido a entrada de seu irmão Peter, do qual divergia pelas razões mesmas da sua campanha. Não quis receber a comunhão, para não recebê-la das mãos de um pastor da Igreja Luterana que ele disse devia ser abandonada, uma vez que Deus estava sendo desrespeitado em suas igrejas. Após internado 40 dias, veio a falecer

 

Seu enterro foi acompanhado por uma multidão engrossada por estudantes que fizeram a guarda de seu corpo. O Pastor Peter, seu irmão, fez a oração fúnebre na "Frue Kirke", a mais importante igreja de Copenhague, e que logo cedo ficou lotada. Muitos protestaram por ter o corpo sido trazido à Igreja, por acharem que a igreja nacional não devia se imiscuir, em respeito à oposição que lhe havia feito o filósofo.

 

Filosofia

Ante hegelianismo

Segundo Kierkegaard, diante da vida há várias opções possíveis, o que é, portanto, incompatível com a malha lógica em que, segundo Hegel, caem todos os fatos e também as ações humanas. Aquele pensador alemão postulava, muito ao modo aristotélico, que a história do universo obedece a uma lógica absoluta, e o homem não tem liberdade porque ele está já, previamente, preso nessa malha lógica da História. Em outras palavras, Hegel não deixa espaço para a liberdade e a fé, por causa da lógica dialética do absoluto racional, um sistema que rege todas as coisas e de cujo determinismo o homem não pode escapar.

 

No citado "Post-scriptum", com o pseudônimo de Johannes Climacus (1846), Kierkegaard sustentou que uma sistematização lógica para a existência era impossível, uma vez que a existência é incompleta e está evoluindo constantemente. Isto implicaria um erro, que seria a tentativa de introduzir mobilidade na Lógica.

 

A verdade

Se não há lógica na existência, mas a existência é verdadeira, então a verdade também não tem lógica. Esta é a questão que Kierkegard aborda em "Post-scriptum não científico". Assim, para ele, não encontramos a verdade como uma coisa objetiva e lógica, destacada de nós, mas através de nosso modo único e peculiar de apreender as coisas que é nossa paixão: a verdade é encontrada através da subjetividade. Quanto maior o ardor com que se acredita, mais verdadeiro é o objeto do conhecimento. Isto evidentemente equivale a fazer da verdade a expressão da fé. É ao colocar maior ou menor fé em algo, que construímos nossa verdade.

 

A verdade, para Kierkegaard, não é uma "coisa", mas uma afirmação em relação ao mundo, uma posição de vida. Quando ele diz "a verdade é subjetividade", isto é somente enquanto o sujeito traz tanta paixão junto com seu pensamento que a síntese será um fato verdadeiro. Aquilo que é incerteza, sustentado com o mais apaixonado empenho, torna-se verdade, a mais alta verdade existente para alguém. Assim, o que é subjetivo é verdade, enquanto a coisa objetiva, ao contrário, é incerta.

 

Então, o que é esta paixão que move o indivíduo?

 

Paixão

Em "Post-scriptum não científico" o filósofo diz que a paixão é uma qualidade de lutar para chegar a ser, é o processo de vir a ser. A paixão é o motivo afirmativo do desenvolvimento, a vontade de se submeter e portanto de sofrer as mudanças do vir a ser. Essas mudanças são um sofrimento, são temporárias, e o ideal buscado é imaginado como perfeito e completo. Mas a pessoa ao buscar realizar os ideais apaixonadamente sustentados encontra ainda mais acentuada a condição limitada e finita da existência humana.

 

Fé e Paradoxos

Uma vez que as verdades essenciais estão fora do nosso alcance na medida que não podemos delas nos aproximar objetivamente, elas aparecem para nós sob a forma de paradoxos. O paradoxo é uma tensão entre afirmações, entre, pelo menos, dois focos. Por exemplo, em termos de paradoxo religioso, podemos citar a doutrina cristã de ser Jesus inteiramente divino e inteiramente humano. Ninguém pode entender como tal coisa seja possível. No entanto, não há aí contradição evidente, de modo que essa afirmação pudesse ser logicamente falsa. Uma contradição lógica coloca duas premissas opostas mutuamente excludentes, tal como "Pedro é um homem e não é um homem", na qual a palavra "homem" tem o mesmo significado nos dois lados do enunciado.

 

Qualquer tentativa de solucionar o paradoxo será uma tentativa, ou de objetivar o que não pode ser conhecido objetivamente, - porque estamos no processo de "vir a ser" -, ou de dispensar o papel da fé como tolice o que, novamente, implica que acreditamos poder conhecer alguma coisa de modo absoluto, como se tratássemos de fora do sistema ( ou do universo) - como se de uma posição objetiva.

 

Fenomenologia

Não podemos conhecer de modo absoluto, pois Kierkegaard enfatiza, como vimos, a verdade subjetiva sobre a verdade objetiva, isto é, o que existe é, segundo ele, "a verdade que é verdadeira para mim". Quando dizemos que nosso pensamento corresponde à coisa que pensamos, estamos no mínimo inconscientes da mediação dos sentidos que é necessária ao conhecimento do objeto, mediação que é incompleta ou de algum modo prejudicada. Em outras palavras, quando identificamos o pensamento com o ser a ele correspondente, estamos nos enganando. Portanto, Kierkegaard conclui que quando alegamos conhecer uma coisa, só podemos dizer isto como um ato de fé. Este é precisamente o fundamento da fenomenologia de Husserl para quem nós só podemos conhecer objetos ideais, não as coisas em si. Então, o sistema lógico de Hegel torna-se impossível.

 

Existencialismo

Ao pensador objetivo, Kierkegaard opõe o indivíduo único, subjetivo. A verdade repousa na subjetividade, e, assim como a verdade, a verdadeira existência é alcançada por meio da intensidade dos sentimentos. Sem paixão não há movimento para o pensador. Existir, em contraste com simplesmente ser, envolve um relacionamento infinito consigo mesmo e uma ligação apaixonada com a vida. Nós não encontramos a verdade por via de uma "objetividade" destacada mas através de um profundo engajamento com o mundo. Assim, por simplesmente aprender as coisas "objetivamente", nos esquecemos o que é existir. O indivíduo realmente existente (a) está em uma relação infinita consigo mesmo e tem um interesse infinito em si e no seu destino; (b) Sempre sente a si mesmo em um "vir a ser", com uma tarefa diante de si; e (3) Está apaixonado, inspirado com um pensamento apaixonado. Ele chama a isto "paixão de liberdade". Com este pensamento Kierkegaard abre as portas do Existencialismo.

 

Liberdade

Soren Aabye Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo. Ele lançou as bases do movimento existencialista, embora o termo "existencialismo" não estivesse então em uso. Em "O Conceito de Angústia" (1844). Fala do pecado enquanto supõe o livre-arbítrio (a angústia de que trata é a da livre escolha entre as possibilidades, que se tornou a idéia básica do futuro movimento.

 

Se a verdade é subjetiva, decorre daí uma liberdade ilimitada. Kierkegaard não só rejeitou o determinismo lógico de Hegel (tudo está logicamente predeterminado para acontecer) como também sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas escolhas lógicas ou ilógicas. Qualquer forma de absoluto (E aí está um ataque a Hegel) que não seja a liberdade, será necessariamente restritiva da liberdade. Qualquer forma de absoluto que não seja a liberdade, contraria a liberdade. Para Kierkegaard é mesmo impossível que a liberdade possa ser provada filosoficamente, porque qualquer prova implicaria uma necessidade lógica, o que é o oposto de liberdade.

 

O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que veio a se constituir em linha mestra do Existencialismo, é a falta de um projeto básico para a existência do homem, venha de onde vier. Qualquer projeto para o homem representaria uma limitação à sua liberdade, e afirma que esta liberdade é, portanto, incompatível com a malha lógica em que, segundo Hegel, caem todos os fatos e também as ações humanas e, mais ainda, que a liberdade gera no homem profunda insegurança, medo e angústia. Não existe uma essência definidora do homem; nenhum projeto básico. Esse pensamento de Kierkegaard foi mais tarde traduzido por Sartre na frase "no homem, a existência precede a essência".

 

Sua crença na necessidade de que cada indivíduo faça uma escolha consciente e responsável tornou-se outro pilar do movimento existencialista.

 

O individualismo existencialista é sua ênfase principal. Com efeito, dos temas do existencialismo contemporâneo, a maior parte já está nos escritos de Kierkegaard.

 

Angústia

Kierkegaard sentiu a necessidade de ampliar para a esfera da psicologia suas idéias a respeito da filosofia da liberdade. O resultado foi o conceito de angústia e o conceito de desespero, se podemos realmente diferenciá-los em sua obra, pois aparentemente, nas traduções inglesas, acham-se baralhados.

 

Em "O conceito de angústia", disse que a liberdade gera no homem profunda insegurança, medo e angústia. Ele focaliza a angústia, como medo do indefinido do desconhecido, diferente do medo e do terror diante do perigo conhecido, o medo e terror que deriva de uma ameaça objetiva (por exemplo, um animal, um assaltante, etc.). Esta é talvez a primeira obra escrita de psicologia existencial, - descobre um sentimento que não tem objeto definido, claro.

 

A liberdade presume possibilidades, e as possibilidades criam a angústia, seja porque estão escassas, ou, no outro extremo, porque existe um número muito grande de opções. Um colapso pode ocorrer tanto por muitas quanto por poucas possibilidades abertas ao indivíduo. Por isso torna-se um verdadeiro problema de vida descobrir quais são os verdadeiros dons e talentos de uma pessoa.

 

Em "Risco e incerteza" diz que cada decisão é um risco. A pessoa sente a si mesma rodeada e plena de incertezas. No entanto, ela decide. Existem possibilidades reais, - reconhece -, e qualquer filosofia que as negue é opressiva, sufocante.

 

A angustia e o pavor diante da liberdade em relação às possibilidades, o que ele considera uma doença do espírito, têm três origens:

  • Uma é a materialidade, a inconsciência de que se é tanto um ser espiritual quanto físico. Falta de espiritualidade: Estar inconsciente de que se tem um Eu - de que se é um ser espiritual e não meramente um ser físico ou físico-mental. Falhar em compreender que se é capaz de reflexão, que se é uma síntese.
  • Outra origem é a consciência do Eu interior, quando o homem tem consciência do seu Eu, mas não o aceita, e desespera-se por ser esse Eu, por ser de um certo modo, sem conseguir modificar-se. Gostaria de ser César, por exemplo.. O Eu quer escapar do Eu que ele sabe que é. Parece que o indivíduo se desespera com respeito a alguma coisa. Mas é apenas aparência. Na verdade desespera com respeito a si mesmo e por isso quer se livrar de si próprio. Quanto tem um slogam ambicioso "Ou César ou nada" e não consegue chegar a ser César, ele se desespera por isso. Mas isto também significa outra coisa: precisamente porque ele não conseguiu ser César, ele agora não consegue tolerar a si mesmo, ser ele mesmo. Consequentemente ele não se desespera porque não chegou a ser César mas se desespera sobre si mesmo pelo fato de não haver conseguido ser César. Consequentemente, desesperar-se sobre alguma coisa não é propriamente o desespero: este é desesperar-se de si mesmo porque não chegou a ser César. Desesperar alguém sobre si mesmo, em desespero de desejar livrar-se alguém de si mesmo - esta é a formula de todo desespero.
  • A terceira origem é o desespero do desafio, da provocação, da rebeldia, da oposição: consciente do eu interior e desejando afirmar esse Eu, o homem se desespera pelas suas limitações. Não reconhece a relatividade e a dependência última do Eu humano perante Deus.

 

Encapsulamento ou má fé

Passar da ignorância confortável para a autoconsciência leva ao pavor, ou ansiedade. Perguntando que estilo e estratégia uma pessoa usa para evitar a ansiedade, Kierkegaard pergunta como essa pessoa está escravizada por suas mentiras sobre ela mesma e para ela mesma. Uma forma de fuga é ignorar o próprio eu, tornar-se um autômato, apegar-se a um papel.

 

O caráter é uma estrutura construída para evitar a percepção do terror da perdição e da aniquilação que todos nós enfrentamos.

 

Em "A doença para a morte", Kierkegaard nos lembra que nossa maior dificuldade não é porque temos um Eu e não ficamos leais a ele, mas que freqüentemente nós nem ao menos achamos em nos mesmos um Eu autêntico que mereça tal lealdade. Podemos perder o Eu e voltá-lo para atividades exteriores como uma camuflagem de seu vazio interior.

 

Freud, um grande leitor de Nietzsche, que por sua vez apoiou-se em Kierkegaard, com certeza tirou desse pensamento de Kierkegaard o que veio a rotular, na psicanálise, de "mecanismo de defesa" e "repressão".

 

O homem automaticamente "cultural" está confinado pela cultura e é escravo dela, seduzido na trivialidade pela rotina confortável da vida social e das alternativas limitadas e seguridade opaca que ela lhe oferece. Tal pessoa ele chama filisteu. O filisteu teme a verdadeira liberdade, porque ela coloca em perigo a estrutura de negação que cerca sua rotina cultural, abrindo as possibilidades das quais ele quer distância.

 

É o que freqüentemente caracteriza o filisteu burguês - membro da confortável classe média urbana, mais provavelmente do mundo dos negócios. Filisteus burgueses operam dentro de fronteiras de esperteza com a qual eles tentam acomodar "o possível". Cálculo, auto-proteção, onde métodos do tipo comercial são presumivelmente transferidos para a vida do espírito, com resultados fatais previsíveis. A pessoa materialista ignora que tem um Eu eterno.

 

Criança

Tem raízes também no pensamento de Kierkegaard o postulado da psicanálise existencial de que as mentiras do caráter são construídas pela a criança para ajustar-se a seus pais, ao seu mundo, além de aos seus próprios dilemas existenciais. Essas defesas do caráter tornam-se automáticas e inconscientes. Essas mentiras negam nossas possibilidades. Conduzem as pessoas a ter medo de pensar por si mesmas. Deixar a criança explorar o mundo e desenvolver seus próprios poderes dará a elas uma "sustentação interna", uma autoconfiança diante da experiência.

 

Maturidade

Saúde mental não é "ajustamento normal" ou "normalidade cultural". A pessoa realmente saudável é aquela que transcendeu a si mesma despindo-se das mentiras do nosso caráter, entendendo a verdade de nossa situação e quebrando nosso espírito fora de sua prisão condicionada. O amadurecimento requer ambos o reconhecimento da realidade de alguém, de seus verdadeiros dons e talentos e dos seus limites.

 

Angústia e pecado

O homem pode escapar da angústia pela fé. Kierkegaard insiste que o homem está em pecado e não pode compreender o bem porque não quer compreender, e precisa da revelação de Deus para mostrar que ele se acha em pecado. A ansiedade não é em si mesma um pecado, diz ele, pois é a reação natural da alma quando em face ao escancarado abismo da liberdade.

 

Em "A doença para a morte" diz que, experimentando o pavor, alguém salta para o pecado mas, se o desafio do cristianismo é aceito, passa da culpa à fé. Assim o pavor é o prelúdio do pecado e não sua conseqüência, como poderia a princípio parecer.

 

O homem pode escolher o pecado em sua fuga da angústia, e o pecado a certa altura, trará mais angústia. O próprio pecado traz ansiedade, um componente da ansiedade de liberdade.

 

Sem a fé, a angústia leva ao desespero. O pavor é a ansiedade em face do eterno. Esta ansiedade pode levar o pecador de volta a Deus que o criou e lhe deu a liberdade, e assim a ansiedade pode ser salvadora pela fé. A angústia foi, então, o caminho para a fé.

 

Ética

Individualismo moral

Kierkegaard aborda uma questão ética polêmica, ao indagar se um julgamento moral pode ser suspenso em virtude de um poder maior. Ele exemplifica com o episódio em que Abraão recebe de Deus a ordem de matar Isaac. Assim ele vê o sacrifício de Abraão e Isaac: obediência a um dever, no caso a obediência a uma ordem de Deus que é a essência de tudo que é ético, mas que exigia dele um ato não ético. Kierkegaard buscava justificar-se por haver rompido seu noivado, o que ele considerava um ato não ético, porém o fez por um motivo que considerava eticamente superior, sua dedicação a Deus. Dos três modos de vida que ele considerava possíveis, o modo de vida estético, o modo de vida ético e o modo de vida religioso, este último era superior aos demais.

 

Modos

No caminho da vida há várias direções, embora se coloquem em três categorias de escolha. Assim é que distingue três tipos de vida a escolher, três escolhas fundamentais do homem: a estética, a ética e a religiosa que não são três concepções teóricas do mundo, mas sim, três maneiras de viver. Inicialmente Kierkegaard apresenta apenas dois modos de vida, ou estágios, se tomados como etapas transientes.

 

Modo de vida estético

O esteticista vive no instante e não conhece outro fim da vida senão gozar o instante que passa. Infiel, quer sempre provar novidades, foge permanentemente ao tédio, recusa engajar-se, são os Don Juans ou o intelectual cético e diletante.

 

Modo ético

No modo de vida ético o homem encarna as regras universais do dever. Trabalhador consciencioso, marido e pai devotado, leva tudo a sério, é pouco flexível, prisioneiro de idéias acabadas, e se crê cidadão exemplar.

 

Modo religioso

No modo de vida religioso o homem não está submetido a regras gerais mas é um indivíduo diante de Deus. Sua relação com Deus não se traduz em conceitos e regras gerais, mas em inspiração fora do universo da razão. Abraão está pronto para sacrificar seu filho Isaac porque Deus o ordena, mas esta ordem não é justificada por nenhuma finalidade ética.

 

 

 

Moura EC, Ballone GJ - Soren Aabye Kierkegaard - in. PsiqWeb - Psiquiatria Geral - Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2008.

 

 

 

 

 

Estas páginas são, predominantemente, resumos do artigo Soren Aabye Kierkegaard, in. Filosofia Moderna - Rubem Queiroz Cobra

Cobra, Rubem Q. - Kierkegaard. Filosofia Contemporânea, Cobra Pages - www.cobra.pages.nom.br, Internet, 2001.

 

 





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