Teoria da Personalidade - Geral

Uma base para refletir sobre nossa Personalidade
| Personalidade |


A busca por explicações sobre a personalidade parece ter mobilizado as mais diversas áreas do conhecimento humano desde sempre e a tendência em classificar pessoas é tão antiga quanto a humanidade. Ninguém, absolutamente ninguém, deixa de classificara as pessoas que conhece, ainda que intimamente, involuntariamente e até inconscientemente. Todos nós temos uma espécie de arquivo subjetivo das pessoas que julgamos explosivas, simpáticas, sensíveis, desleais, preocupadas, ansiosas, mentirosas, amorosas e assim por diante.

Na Grécia, Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da medicina, classificava a personalidade em quatro tipos, de acordo com a presença de determinadas substâncias no organismo. No século XVII, o filósofo John Locke foi um dos primeiros a teorizar que a mente humana nasce vazia, como um papel em branco, e que a personalidade seria fruto das experiências. Logo depois, o francês Jean Jacques Rousseau criou o conceito do bom selvagem inspirado nas descobertas de povos indígenas nas Américas. Para ele os humanos nasceriam inocentes e pacíficos. Males como ganância e violência seriam produto da civilização.

Um dos aspectos da tendência universal de classificar os outros se baseia em traços da personalidade. Hipócrates começou com essa tendência classificatória através de sua teoria dos quatro humores corporais - sangue, fleuma, bile branca e bile negra – segundo a qual, a predominância de qualquer um desses quatro humores caracterizaria o temperamento das pessoas, bem como a inclinação para determinadas doenças.

O primeiro cientista da era moderna a estudar seriamente a questão da natureza versus criação foi o inglês Francis Galton (1822-1911), no fim do século XIX. Pioneiro no estudo de irmãos gêmeos, Galton, primo de Charles Darwin, pretendia mostrar que a inteligência e os talentos da elite intelectual inglesa eram passados de pai para filho.

No Renascimento e na era moderna, o debate se deu principalmente em torno do grau de participação que a natureza e o ambiente teriam na formação da personalidade. Por muito tempo os intelectuais insistiam na tese da personalidade humana ser produto exclusivo do ambiente. Talvez essa insistência tenha sido uma atitude inconsciente de reagir à série de discriminações e atrocidades cometida na Europa e Estada Unidos durante boa parte do século 20 com propósitos étnicos. Em episódios que espocavam aqui e ali, geralmente revelados apenas décadas mais tarde, judeus, ciganos, negros, deficientes físicos, homossexuais e outros grupos étnicos ou estigmatizados foram esterilizados ou mortos para evitar que transmitissem seus genes à posteridade. O apogeu trágico e brutal dessas atitudes pretensamente eugênicas ocorreu na Alemanha nazista.

Baseado na teoria de Hipócrates, Cláudio Galeno (131-200 DC), em sua monografia "De Temperamentis" desenvolveu a primeira tipologia do temperamento. Descreveu quatro temperamentos básicos (que se desdobravam em nove e não vêm ao caso aqui): sanguíneo, bilioso ou colérico, melancólico e fleumático.

Immanuel Kant (1724 – 1804), mil e quinhentos anos depois, aprimorou as características dos quatro tipos de temperamento citados por Galeno. O tipo sangüíneo é caracterizado pela força, rapidez e emoções superficiais. O tipo melancólico, designado pelas emoções intensas e vagarosidade das ações. O tipo colérico, rapidez e impetuosidade no agir e o fleumático, caracterizado pela ausência de reações emocionais e vagarosidade no agir.

DNA E PERSONALIDADE  
Na metade do século XX até agora, a partir da descoberta da estrutura do DNA pelo americano James Watson e pelo inglês Francis Crick em 1953 até o mapeamento completo do genoma humano, em 2003, abriu-se um campo de exploração sem precedentes para entender as origens biológicas da personalidade. Hoje se sabe que os comportamentos dependem da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Além disso, as descobertas mais recentes nesse campo mostram que a influência dos hábitos e do estilo de vida de cada um na ação dos genes é maior do que se pensava. Pessoas com genes associados à depressão têm mais probabilidade de desenvolver a doença se forem expostas a eventos traumáticos durante a vida. Fala-se que questões vivenciais podem servir como gatilho para disparar certas predisposições geneticamente determinadas.

A descoberta da estrutura do DNA por James Watson e Francis Crick, em 1953, e a divulgação do Projeto Genoma Humano, em 2000, abriram as portas para uma compreensão sem precedentes das raízes biológicas da personalidade. As revelações de que a genética pode influenciar comportamentos mudam a visão das pessoas sobre questões filosóficas e do cotidiano. "A idéia de que os bebês vêm ao mundo sem características inatas multiplica a angústia dos pais que dão aos filhos uma educação adequada e eles não correspondem às suas expectativas. Na verdade, muitas coisas não dependem dos pais, e sim da natureza", diz Steven Pinker. O biólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, e autor de O Gene Egoísta, vai além. "A genética do comportamento mudará muita coisa. Se partirmos do pressuposto de que nossa mente é regida por algo além dos conceitos éticos e morais aprendidos, como punir um assassino?", ele questiona. "Quando um computador não funciona, em vez de puni-lo, nós o consertamos."

Na década de 70 os estudos com gêmeos, incluíam filhos biológicos e adotivos, mostraram que as crianças adotadas têm traços de personalidade mais parecidos com os de seus pais biológicos do que com os dos pais adotivos. Os estudos revelaram também que gêmeos idênticos exibem aspectos da personalidade semelhantes.

 

AMBIENTE, GENÉTICA E PERSONALIDADE 
Como se forma a personalidade humana? O que é mais importante na formação e desenvolvimento da personalidade? Essas questões acompanham a curiosidade humana desde tempos imemoráveis. Atualmente, embora a dúvida continue, já podemos refletir baseados em hipóteses bastante interessantes.

O indivíduo como se encontra aqui-e-agora é, indubitavelmente, um produto daquilo que ele trouxe ao mundo com aquilo que o mundo fez com ele, em outras palavras, o sujeito é uma combinação de seu genótipo com as influências do ambiente sobre esse genótipo.

Entre tantas tendências destaca-se um tronco ideológico segundo o qual os seres humanos seriam criados iguais quanto sua capacidade potencial. Neste caso, a ocorrência das diferenças individuais seria interpretada como uma decisiva influência ambiental sobre o desenvolvimento da personalidade.

De acordo com tal enfoque, havendo no mundo uma hipotética igualdade de oportunidades, seríamos todos iguais quanto as nossas realizações, já que, potencialmente seríamos iguais. Assim pensando, se a todos fossem dadas oportunidades iguais, como por exemplo, oportunidade musical ou artística, seria impossível destacar-se um Chopin, Mozart, Monet, Rembrandt, porque a potencialidade de todos seus colegas de classe seria a mesma. A única diferença entre Einstein e os demais teria sido uma simples questão de oportunidade e circunstâncias ambientais. Neste caso a personalidade, a inteligência, a vocação e a própria doença mental seriam questões exclusivamente ambientais. 

 
A idéia de buscar fora da pessoa os elementos que explicassem seu comportamento a sua desenvoltura vivencial teve ênfase com as teorias de Rousseau, segundo o qual era a sociedade quem corrompia o homem. Subestimou-se a possibilidade da sociedade refletir, exatamente, a totalidade das tendências humanas. São seres humanos que trazem em si um potencial corruptor o qual, agindo sobre outros indivíduos sujeito à corrupção, produzem um efeito corruptível. Ou seja, trata-se de um demérito tipicamente e exclusivamente humano. 

Outra concepção acerca da personalidade foi baseada na constituição biotipológica, segundo a qual a genética não estaria limitada exclusivamente à cor dos olhos, dos cabelos, da pele, à estatura, aos distúrbios metabólicos e, às vezes, às malformações físicas, mas também, determinaria às peculiares maneiras do indivíduo relacionar-se com o mundo: seu temperamento, seus traços afetivos, etc.

As considerações extremadas neste sentido descartam qualquer possibilidade de influência do meio sobre o desenvolvimento e desempenho psico-emocionale e atribuem aos arranjos sinápticos e genéticos a explicação de todas as características da personalidade. Entretanto, uma das descobertas mais interessantes do projeto Genoma colocou em cheque essa hipótese organicista. Foi o fato de se verificar que os seres humanos compartilham entre si 99,99% de seus genes e, desta forma, as diferenças cromossômicas entre duas pessoas seriam ínfimas.

Pelo lado da biologia, se a diferença dos cromossomos entre duas pessoas gira em torno de 0,01%, como se justificaria a enorme diferença de personalidade entre essas duas pessoas. Pelo lado do ambiente, se o meio onde se desenvolvem dois irmãos é basicamente o mesmo, o que justificaria também a enorme diferença entre as personalidades de ambos.

Buscando um meio termo, como apelo ao bom senso, pode-se considerar a totalidade do ser humano como sendo um balanço entre, no mínimo, duas porções que se conjugam de forma a produzir a pessoa tal como é: uma natureza biológica, tendo por base nossa natural submissão ao reino animal e às leis da biologia, da genética e dos instintos, e uma natureza existencial, suprabiológica e que transcende o animal que repousa em nós. A pessoa, ser único e individual, distinto de todos outros indivíduos de sua espécie, traduz a essência de uma peculiar combinação bio-psico-social.

Pensando assim, os genes herdados se apresentam como possibilidades variáveis de desenvolvimento em contacto com o meio e não como certeza inexorável de desenvolvimento. Sensatamente, o ser humano não deve ser considerado nem exclusivamente ambiente, nem exclusivamente herança, antes disso, uma combinação destes dois elementos em proporções completamente insuspeitadas. 

O ser humano não deve ser considerado um produto exclusivo de seu meio, tal como um aglomerado dos reflexos condicionados pela cultura que o rodeia e despido de qualquer atributo mais nobre de sentimentos e vontade própria. Não pode, tampouco, ser considerado um punhado de genes, resultando numa máquina programada a agir desta ou daquela maneira, conforme teriam agido exatamente os seus ascendentes biológicos. 

Seguindo essa idéia a definição de Personalidade poderia ser esboçada da seguinte maneira:

"PERSONALIDADE É A ORGANIZAÇÃO DINÂMICA DOS TRAÇOS NO INTERIOR DO EU, FORMADOS A PARTIR DOS GENES PARTICULARES QUE HERDAMOS, DAS EXISTÊNCIAS SINGULARES QUE EXPERIMENTAMOS E DAS PERCEPÇÕES INDIVIDUAIS QUE TEMOS DO MUNDO, CAPAZES DE TORNAR CADA INDIVÍDUO ÚNICO EM SUA MANEIRA DE SER, DE SENTIR E DE DESEMPENHAR O SEU PAPEL SOCIAL".

 OS TRAÇOS DA PERSONALIDADE 
Para a psiquiatria os tipos de personalidade, ou os tipos psicológicos, são classificados de acordo com o conjunto de traços que caracterizavam a maneira de ser da pessoa, o modo como a pessoa interage com seu mundo objectual, ou seja, como o sujeito se relacionava com o objeto.

Carl Jung (1875 – 1961) classificava as pessoas em dois tipos básicos de atitude (dos quais também derivam vários subtipos), a extroversão e a introversão, de origem biológica. A extroversão, segundo ele, era governada por expectativas e necessidades sociais, estando orientada para a adaptação e reações exteriores, enquanto a introversão teria sua energia dirigida para os estados subjetivos e processos psíquicos. A extroversão, segundo Jung, era mobilizada por expectativas e necessidades sociais, estando orientada para reações exteriores, enquanto a introversão teria sua energia dirigida para os estados subjetivos e processos psíquicos.

Alfred Adler (1870 – 1937) reconhecia quatro tipos de temperamento, os quais, de certa forma, foram ainda baseados em Galeno, porém, definidos de acordo com o interesse social e nível de energia manifestado pelas pessoas. Adler denominava tipo governante as pessoas com certo nível de agressividade, tirania e dominação, correspondendo ao tipo colérico de Galeno. Falava do tipo dependente, para pessoas sensíveis, que se acomodam em uma concha existencial para se protegerem dos eventos externos. O tipo dependente possui baixos níveis de energia, são cronicamente cansados, pouco dispostos e correspondem ao tipo fleumático de Galeno.

O terceiro tipo de Adler é chamado de evitação e representa pessoas que tendem a se afastar do contato direto com os outros e com as circunstâncias. Essas pessoas também têm níveis baixos de energia, são predominantemente tristes e correspondem ao tipo melancólico de Galeno. Finalmente o tipo socialmente útil, representando as pessoas saudáveis, que apresentam interesse social e energia, atléticas e vigorosas, relacionadas ao tipo sangüíneo de Galeno.

Alguns traços de personalidade, de fato, parecem ter uma potencialidade geneticamente determinada, faltando saber com que probabilidade esse potencial se desenvolverá ou não na vida da pessoa. O seqüenciamento do genoma humano permitiu que cientistas identificassem uma série de genes relacionados ao comportamento. Foram mapeados genes relacionados à tendência para adquirir certos traços de personalidade, ou a desenvolver hábitos ou vícios – desde que tais genes sejam "disparados" por estímulos ambientais durante a vida da pessoa.

A mais recente pesquisa dos genes relacionados ao comportamento humano foi conduzida pela Universidade de Essex, na Inglaterra, e se refere ao gene responsável pelo transporte da serotonina, um neurotransmissor associado à tonalidade afetiva, bem como ao bem-estar e felicidade, entre outros sentimentos e sensações. Esses genes estariam relacionados à maneira como cada um processa as informações positivas ou negativas – ou seja, à tendência a ser otimista ou pessimista.

Os trabalhos da geneticista brasileira Mayana Zatz da Universidade de São Paulo, em parceria com o geneticista João Ricardo de Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco, em pesquisas para tentar descobrir a influência genética de doenças psíquicas levaram à descoberta do gene do otimismo. Isso pode nos fazer mais tolerantes com quem teima em ver apenas o lado negativo do mundo. Para a psiquiatria essas descobertas embasam o tratamento do mau humor (distimia) com medicamentos que aumentam o nível da serotonina, geralmente antidepressivos.

Por conta desse gene do otimismo a revista Veja cogita, em um toque de bom humor, se o carnaval brasileiro não teria uma origem genética, já que entre os brasileiros o gene bom humor é encontrado em 40% das pessoas – um verdadeiro recorde se comparado aos ingleses, com apenas 16% de portadores. O pesquisador Ricardo Kanitz, da PUC do Rio Grande do Sul, atribui esse índice de otimismo dos brasileiros à mistura de etnias e nacionalidades da qual se compõe nosso país. De qualquer maneira, felizmente ou infelizmente, parece claro que o brasileiro é mais propenso a olhar o mundo com certo otimismo.

Passo a passo a ciência descobre que a genética pode influir muito na formação das características e no comportamento das pessoas. Talvez as pessoas com índole calma ou explosiva tenham uma participação genética importante em seu comportamento, muito além do comportamento aprendido. Como neste caso, a ciência se preocupará em ir a fundo ao caso da homossexualidade, da inteligência, dos comportamentos obsessivos, histéricos, fóbicos e assim por diante.

O que se pretende, hoje em dia, é que os pesquisadores não tenham de optar pelo sistema orgânico ou psicológico, como acontecia antes. Não cabem mais, de um lado os defensores da tese de que nascemos todos iguais e a personalidade se forma pelo aprendizado e pelas experiências pessoais e, de outro lado, defensores de que os traços da personalidade são definidos pela herança genética, assim como a cor dos olhos.

 

A genética do comportamento vem mostrando que não só o ambiente e nem só o DNA formam a personalidade. Atualmente considera-se que os traços tenham um componente genético, porém, sua manifestação depende de fatores ambientais. O gene carrega o traço, mas é o ambiente que puxa o gatilho para ele se manifestar. De qualquer forma, já se tem certeza de que os genes são capazes de influenciar o comportamento humano. Já foram encontrados genes que tornam as pessoas mais vulneráveis a comportamentos agressivos ou a sofrer transtornos psíquicos. Também foram detectados genes relacionados à orientação sexual e a vícios como alcoolismo e tabagismo.

A presença desses genes, entretanto, não significa que a pessoa obrigatoriamente desenvolverá o comportamento ligado a ele. O que existe é uma predisposição, geralmente influenciada pelas experiências pessoais, familiares e pelo ambiente em que a pessoa vive. Ter predisposição genética à depressão, por exemplo, não basta para a pessoa ficar deprimida, pois os mesmos genes são encontrados também em pessoas não deprimidas.

Para os genes ligados aos traços se manifestarem outros fatores são necessários, tais como as vivências, o ambiente social, as condições de saúde geral e assim por diante. Os traços de personalidade, porém, são produtos de muitos genes – e não de apenas um, como ocorre com a maioria das características físicas e das doenças.

Os estudos com gêmeos têm revelado a natureza hereditária do perfil emocional das pessoas. Esses experimentos permitiram concluir que as principais características da personalidade – como introversão ou extroversão, vulnerabilidade à neurose ou estabilidade emocional, abertura ou não a experiências, atenção ou dispersão – são em média 50% herdadas.

Mesmo em atitudes culturais como a religião, por exemplo, o impacto dos genes é muito forte. O conservadorismo político, outro exemplo, é um traço que, segundo estudos da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, tem 60% de influência genética. Os pesquisadores dessa universidade vêem acompanhando 8.000 gêmeos, três centenas deles são gêmeos idênticos e separados da família no nascimento há mais de 20 anos. Os resultados surpreendem ao mostrar que certos comportamentos antes considerados fruto do aprendizado são fortemente influenciados pela genética.

TEORIAS DA PERSONALIDADE
Todas as vezes que colocamos lado a lado duas pessoas estabelecendo comparações entre elas, qualquer que seja o aspecto a ser medido e comparado sempre existirá diferenças entre ambas. São essas diferenças entre os indivíduos que os tornam únicos e inimitáveis. 

Por outro lado, apesar de tais diferenças, constatamos outras características comuns a todos os seres humanos, tal como uma espécie de marca registrada de nossa espécie. Assim, existem elementos comuns e capazes de nos identificar todos como pertencentes a uma mesma espécie, portanto, característicos da natureza humana e outros atributos particulares e pessoais capazes de diferenciar um ser humano de todos os demais.

Para demonstrar didaticamente este duplo aspecto da constituição humana imaginemos, por exemplo, um enorme canteiro de rosas amarelas. Embora todos os indivíduos do canteiro tenham características comuns e suficientes para ser considerados e identificados como rosas amarelas, é praticamente impossível encontrar dois exemplares exatamente iguais. Portanto, apesar de todos esses indivíduos possuírem traços comuns, tais como, perfume, pétalas e espinhos, cada um deles tem suas características individuais, tamanho, número de pétalas, tonalidades diferentes, espinhos mais realçados... 

No ser humano normal, da mesma forma, existem características universais, como por exemplo, duas pernas, dois braços, um nariz, angústia, ambição, amor, ódio, ciúme, etc. Entretanto, em cada um de nós essas características combinar-se-ão de maneira completamente pessoal e singular. 

Diante dessas características iguais e diferentes podemos afirmar que os seres humanos são essencialmente iguais e funcionalmente diferentes, ou seja, somos iguais uns aos outros quanto à nossa essência humana (ontologicamente), porém, funcionamos diferentemente uns dos outros. Todas as ideologias que enfatizam uma igualdade genérica entre os seres humanos, em total descaso para com as diferenças funcionais, apesar do discurso eloqüente e retórico, apesar de certo romantismo ética e moralmente correto, cientificamente são completamente falsas. 

Nossa igualdade é apenas essencial, jamais funcional. As teorias sobre uma igualdade plena entre seres humanos pecam, inclusive, por negarem uma das principais características de nossa espécie que é a perene vocação das pessoas em querer se destacarem umas das outras.

Semelhanças Essenciais  
A data do aparecimento do ser humano na face da Terra vai recuando no tempo na medida em que avançam os métodos das descobertas da arqueologia. A idéia de que o homem de Neanderthal tenha sido um ancestral do Homo sapiens tem sido cada vez mais contestada por antropólogos e palenteólogos, cogitando-se a tese de que há mais de cinco milhões de anos já existiam homens capazes de fabricar utensílios e cultuar seus mortos. Contudo, apesar do ser humano ter conseguido modificar suas possibilidades de ação e seus modos de existência em poucos e recentes séculos de sua história, muitas atitudes e sentimentos do homem pré-histórico continuam presentes e se repetindo no ser humano moderno. 

É incontestável, sem dúvida, o grande salto dado pelo desempenho mental humano, ainda que, desacompanhado de mudanças substanciais em nossa biologia. Fomos capazes de saltar da pedra lascada ao micro-circuito integrado, do fogo à fusão nuclear e, sabe-se lá, até onde chegaremos mais. Apesar disso, muita coisa ficou indelevelmente impressa na maneira de ser do indivíduo moderno que remonta aos nossos irmãos das cavernas. 

A atividade mental contemporânea do ser humano é totalmente diferente daquela de nossos ancestrais, principalmente no que diz respeito à aquisição do conhecimento. Trata-se, conforme expõe Herreira com clareza, de uma espécie de destino biológico da espécie em sua jornada dirigida ao conhecimento, a qual se promove através da utilização progressiva dos ilimitados recursos do sistema nervoso humano.

Entretanto, voltando à questão das coisas que temos em comum com nossos irmãos trogloditas, se há cinqüenta mil anos o homem ia à luta com sua clava, hoje ele se empenha no combate com armas automáticas. Porém, a motivação, sentimento e objetivo desta desavença ente seres humanos são os mesmos, tanto na pré-história quanto hoje. Se em nossa pré-história nossos irmãos cultuavam seus mortos, julgando que se transformavam em deuses, hoje consola-nos a idéia de que eles vão a Deus depois de mortos. Nessas questões essenciais não houve grandes mudanças.

De acordo com Jung, nenhum biólogo pensaria em admitir que os indivíduos adquiram todo seu modo de comportamento apenas a partir do nascimento, a partir das coisas que aprenderá daí em diante. Bem mais provável é que o jovem pardal teça seu ninho característico porque é um pardal e não um coelho. Assim também, é mais provável que o ser humano nasça com sua maneira de comportar-se especificamente humana e não com a do hipopótamo. São manifestações comportamentais que “já vêm prontas”, que vêm se repetindo em cada pessoa que nasce sabe-se lá desde quando.

É assim que percebemos elementos de notável semelhança na essência dos seres humanos, expressões e modos característicos próprios da espécie. Podemos encontrar formas psíquicas no indivíduo que ocorrem não somente em seus ascendentes mais próximos, mas em outras épocas distantes de nós milhares de anos e às quais estamos ligados apenas pela arqueologia. Jung coloca estas Semelhanças Essenciais do ser humano como certas formas típicas de comportamento característico, os quais, ao se tornarem conscientes, assumem o aspecto de representações do mundo, maneiras humanas de representar a realidade.

Também serve para ilustrar um pouco mais esta questão das Semelhanças Essenciais a idéia dos instintos. Eles aparecem como formas típicas de comportamento da espécie, podendo estar ou não associados a um motivo consciente. Freud chama atenção para estas características universais da pessoa: os Instintos Básicos. Enfatiza notadamente o instinto para a preservação da vida, tanto da vida individual, sob a forma de afastamento da dor (ou busca do prazer), quanto da vida da espécie, através da sexualidade e vocação à reprodução. Ele cita ainda o instinto da morte, o qual, apesar de contestado por muitos autores, quando voltado para o exterior conduz à agressão. Pela teoria dos instintos, serão inúteis as tentativas do ser humano livrar-se das inclinações agressivas, já que elas são indispensáveis para a execução dos instintos.

Didaticamente poderíamos considerar os Arquétipos e os Instintos como duas faces de uma mesma moeda; enquanto os instintos trazem em seu bojo uma conotação biológica e que nos remete às sombras de nosso passado animalesco, os arquétipos colocam o ser humano num patamar mais elevado e diferenciado, ou seja, mais espiritualizado.

Na filosofia, a busca de uma característica humana marcante foi vislumbrada por Schopenhauer como sendo a Vontade. O fato de sentir e querer é a atitude mais básica que o ser humano conhece, portanto, é uma característica comum a todos nós. Assim, o intelecto se coloca a serviço desta forma irracional ou supra-racional chamada Vontade. Posteriormente Nietzsche acrescentou à vontade de Schopenhauer o Poder: motivação básica e universal entre os homens. 

A vontade do poder serviu de orientação aos estudos de Alfred Adler para a compreensão psicodinâmica deste impulso natural humano, retirando do termo “poder” qualquer conotação pejorativa. Para Adler, o poder atendia as mesmas exigências dos instintos básicos de Freud e a motivação da atitude comum aos seres humanos estava firmemente atrelada à sua vontade do poder: poder sobre os demais semelhantes. O que mudaria entre as pessoas seria o tipo de poder em questão; poder material, político, intelectual, estético, de autoridade, de privilégios e assim por diante.

Adler compara fenomenologicamente o poder aspirado pelo bandido que deseja ser o mais pérfido entre seus pares, com a aspiração de poder do indivíduo caridoso, manifestando sua pulsão de supremacia caridosa entre seus companheiros de altruísmo. Evidentemente não cabe aqui uma preocupação valorativa ou ética, mas apenas a constatação do fenômeno.

De qualquer forma, seja a necessidade íntima de um deus que conforta, seja nossa perene tendência em preservar a vida ou garantir a espécie, seja nossa constante busca do prazer, seja uma vontade que motiva ou um poder que estimula, podemos pensar sempre num elemento da personalidade que tenha se perpetuado ao longo de toda nossa história. Trata-se de determinadas atitudes existenciais diante da vida que acompanham nossa espécie através de infindáveis gerações. São elas, as verdadeiras Tendências Naturais do ser humano.

Embora a essência destas Tendências Naturais pareça independer do tempo e do espaço atuais pelo fato de terem existido, de existirem e de continuarem existindo em qualquer momento e qualquer civilização de nossa história, suas manifestações comportamentais e emocionais devem estar sempre adequadas ao modelo sócio-cultural onde a pessoa se insere e às possibilidades de ação de cada um.  Em outras palavras, as Tendências Naturais Humanas devem ser disciplinadas, domesticadas e adequadas às circunstâncias e possibilidades de cada um.

Assim sendo, as Tendências Naturais nunca se manifestam de maneira pura e primitiva, mas sim, domesticadas e aculturadas. Uma conduta instintiva pura é praticamente impossível manifestar-se em condições psíquicas normais. Tais impulsos primitivos se diluem pelas pressões das circunstâncias e pelas peculiaridades afetivas de cada um e se mascaram de tal forma, que acabam ficando dissimuladas pelo caráter da pessoa. O impulso sexual, por exemplo, na normalidade psíquica, não surge de forma primitiva a ponto da em pessoa arrastar a outra a força para a cama. Normalmente marca-se um jantar... Muitas vezes a ânsia de poder se dissimula em altruísmo, generosidade e outras “máscaras sociais”.

Durante toda sua existência a pessoa é compelida a atender as Tendências Naturais, essencialmente as mesmas em todos nós. As maneiras pelas quais tais tendências serão atendidas mostrarão as diferenças entre as pessoas, entre as gerações e entre os povos. A tendência ao poder, por exemplo, como vimos, pode se manifestar de diversas maneiras nas diferentes pessoas; prazer em ter poder, em sentir-se superior aos demais nos mais variados aspectos existenciais. Um monge poderia manifestar esta tendência buscando o prazer de sentir-se o mais humilde entre seus pares, superior a todos os demais em termos de humildade e abnegação. Sentiria uma satisfação suprema, perante Deus, ao saber-se o mais humilde entre os mortais. O intelectual, através do o poder do saber, conquistaria seu prazer percebendo-se o mais erudito em sua área. O amante, através do poder de cativar, ou o poder material do rico, a autoridade do político, a coragem do soldado, o qual teme mais a opinião de seus camaradas que a arma do inimigo, e assim por diante.

Apesar da busca do prazer dever atender certos anseios pessoais, os meios de se conquistar esse prazer devem estar em concordância com as circunstâncias sócio-culturais. Mas, de qualquer modo, o universal fenômeno da busca do prazer - com suas mais variadas apresentações - é observado entre todos os seres humanos conscientes.

Ainda se estuda mais a fundo as razões pelas quais temos tendência a nos irritarmos quando percebemos que o outro busca atender seus prazeres. Talvez porque o que dá prazer ao outro não sejam as mesmas coisas que procuramos para nosso próprio prazer ou, pior, porque não permitimos no outro atitudes eficientes que não nos permitimos.   

Para a manutenção de uma situação de equilíbrio entre a pessoa e seu meio ou entre ela e si própria é necessário haver harmonia entre três elementos; o peso ou força de suas tendências, as possibilidades de seu ego em atender essas exigências e as condições de realização oferecidas pelo ambiente. As situações de emergência podem determinar atitudes primitivas, mas eficientes, em direção à sobrevivência, apesar de emancipadas da ética. Há um ditado que diz: quando a miséria entra pela porta da frente a virtude sai pela janela.

Há uma tendência ao aparecimento de comportamentos primordiais ou primitivos sempre que houver uma flagrante ameaça aos instintos básicos, como se houvesse uma regressão ao estado biológico natural (predominantemente instintivo), como um desempenho comandado por nível mais inferior de psiquismo, nível este onde as considerações mais sublimes, dos tipos morais e éticas, ficassem suspensas em benefício de objetivos mais imediatos e pragmáticos.

Os instintos aparecem sempre idênticos entre os indivíduos de uma mesma espécie, porém, apenas enquanto funcionam instintivamente, sem o polimento da domesticação. O aparelho psíquico do ser humano tem por função a transformação da pulsão instintiva original de acordo com as exigências de sua cultura e de suas emoções. Embora o instinto seja, em si, comum a todos os indivíduos de uma mesma espécie, no ser humano as manifestações desses instintos são peculiares a cada pessoa, elas atendem às peculiaridades do padrão emocional de cada um, enfim, atendem às características da personalidade de cada um. Nem por conta dessa domesticação pode-se anular o instinto básico original, ele é apenas transformado e adequado ao indivíduo e às exigências de seu meio.

Diferenças Funcionais x
Ao lado das Tendências Naturais, as quais identificam todos nós como pertencentes à mesma espécie, existem as peculiaridades próprias e particulares com as quais cada um se apresentará e se relacionará com o mundo. Allport ilustra as diferenças funcionais de cada um ao descrever os Traços Pessoais; arranjos individuais e constitucionais determinados por fatores genéticos, os quais, interagindo com o meio em maior ou menor intensidade, resultariam em uma característica psíquica capaz de particularizar uma pessoa entre todas as demais.

Os traços herdados são possibilidades de vir a ser e não a certeza de que será. Há uma quantidade enorme de traços possíveis de transmissão hereditária, porém, apenas parte desses traços se manifestará no indivíduo.

A maneira singular e própria da pessoa interagir com seu mundo, decorrente de seus traços pessoais, pode ser chamada de Disposição Pessoal. Sendo esta a combinação dos traços que se manifestam na pessoa, então a Disposição Pessoal se confunde com a própria personalidade, ou seja, a maneira particular da pessoa de lidar com a vida, com o mundo e com suas próprias emoções.

É possível, como mostraram inúmeros autores, agrupar indivíduos de acordo com determinadas características psíquicas mais ou menos comuns entre eles formando grupos. Temos assim as classificações ou a tipologia da personalidade. É assim que se reconhecem os introvertidos, extrovertidos, sensitivos, pensativos, intuitivos, sentimentais ou, de outra forma, os explosivos, melancólicos, obsessivos, e assim por diante. 

A classificação das personalidades baseada em traços busca reconhecer os traços predominantes naquela determinada personalidade ou na maneira de ser. Isso não quer dizer, de forma alguma, que as personalidades globais das pessoas classificadas desta ou daquela maneira sejam idênticas em todos do mesmo grupo: entre todos introvertidos, por exemplo, cada qual dispõe de uma personalidade peculiar e o fator – comum a todos do mesmo grupo – que permitiu serem classificados é uma tonalidade afetiva depressiva e sua conseqüente apresentação social introvertida.

Para avaliar as diferenças funcionais dos indivíduos, mais precisamente das personalidades peculiares de cada um, podemos considerar três critérios de observação:

1- Classificação baseada nos Traços;

2- o "eu" como Personalidade e;

3- os Papéis Sociais como Personalidade.

 

Classificação baseada nos Traços

Nenhum ser humano mostrará algum traço de personalidade que já não exista em todos outros indivíduos, pois os traços do ser humano são uma espécie de patrimônio de nossa espécie, ou seja, à todos indivíduos de uma mesma espécie são atribuídos os traços característicos dessa espécie. Vimos isso no item anterior sobre as Semelhanças Essenciais. Entretanto, a combinação individual desses traços em proporções variadas numa determinada pessoa caracterizará sua personalidade ou sua maneira de ser (Diferenças Funcionais).

O senso comum de um sistema sócio-cultural costuma elaborar uma relação muito extensa de adjetivos utilizados para a argüição dos indivíduos deste sistema: sincero, honesto, compreensivo, inteligente, cálido, amigável, ambiciosos, pontual, tolerante, irritável, responsável, calmo, artístico, científico, ordeiro, religiosos, falador, excitado, moderado, calado, corajosos, cauteloso, impulsivo, oportunista, radical, pessimista, e por aí afora. Podemos considerar como Traço Predominante da pessoa em apreço a característica que melhor a define, como se, entre tantos traços tipicamente e caracteristicamente humanos, este traço específico predominasse sobre os demais. 

Pois bem. É exatamente a predominância de alguns traços e a atenuação de outros que acaba por constituir a personalidade de cada um. Enfim, é como se o artista conseguisse extrair uma cor única e muito pessoal misturando uma série de cores básicas encontradas em todas as lojas de tintas.

Como os traços básicos do ser humano são infinitamente mais numerosos que as cores do exemplo acima, as combinações entre esses traços será praticamente infinita, vindo daí a infinita diversidade de personalidades. É difícil pensar nos traços de outra forma, senão como uma inclinação inata e submetida à influência agravante ou atenuante do meio.

O "EU" como personalidade

O "eu" é o ser total, essencial e particular da pessoa. Freqüentemente usado como sinônimo de personalidade, o “eu” diz respeito ao indivíduo e sua consciência do mundo e de si próprio, ou seja, a consciência da própria identidade e da realidade.

Na abordagem do "eu" importa o aspecto dinâmico da personalidade, portanto, as representações internas que a pessoa tem sobre a realidade externa, ou seja, as relações entre o sujeito e o objeto ou, em outras palavras, entre a pessoa e o mundo. Enquanto a análise dos traços é uma tarefa prática, de observações objetivas sobre como é a pessoa, a avaliação sobre o "eu" é mais subjetiva, mais psicodinâmica.

As características da personalidade baseadas no “eu” dizem respeito não apenas ao modo como a pessoa se apresenta no mundo, conforme se vê em relação aos traços, mas à maneira como a pessoa sente o mundo e interage com ele. Enquanto os traços refletem mais o lado biológico da personalidade, o “eu” representa mais o aspecto afetivo da pessoa.

Muitos autores discorrem sobre esta forma de avaliação da personalidade. Entre eles, Jung vê dois tipos de Disposição Pessoal pelas quais os indivíduos se caracterizarão no contacto com o mundo objectual:

1- a maneira introvertida e;

2- a maneira extrovertida.

 Além destas duas disposições básicas, Jung reconhece ainda quatro funções associadas a elas: função pensamento, sentimento, sensação e intuição. Desta forma, o indivíduo pode ser considerado do tipo introvertido pensativo, ou sensitivo extrovertido e assim por diante. Pela tipologia psicológica de Jung oito tipos psicológicos puros são possíveis, mas, normalmente, cada pessoa dispõe de duas funções predominantes, como por exemplo, o tipo extrovertido intuitivo-sentimental. Em sua obra Tipos Psicológicos este assunto é abordado detalhadamente e apresentado de maneira mais fácil do possa parecer nesse exemplo sumário.

Outros autores consideram a personalidade baseada no "eu" de maneira diferente. Entendem os indivíduos que contactuam a realidade de maneira introvertida através de uma descrição mais diversificada e atribuindo-lhes outros adjetivos: tristes, inseguros, melancólicos, de tonalidade afetiva depressiva, e assim por diante. Na realidade, entendendo os conceitos básicos das teorias da personalidade percebemos que as diferentes denominações são diferenças mais semânticas que ideológicas.

 

O Papel Social como personalidade

Este tipo de avaliação sobre a personalidade observa o papel das atitudes e comportamentos da pessoa inserida na estrutura social a qual pertence. As pessoas tendem adaptar-se aos papeis sociais a elas designados buscando satisfazer a expectativa que o sistema tem sobre tais “personagens”. As pessoas que encontram um padre pela frente têm expectativas comuns sobre como ele dever se comportar, da mesma forma que o doente tem expectativas diante de seu médico e este diante de seus clientes e assim por diante.

Todos desempenham muitos papeis sociais, cada um a seu tempo. Papel de criança pré-escolar, de criança escolar, de universitário, de enamorado, de profissional, de traído, de cúmplice, etc. Há papeis de pai, de filho, de chefe, de subalterno, enfim, estamos sempre a desempenhar algum papel social. Às vezes temos que desempenhar vários papéis sociais ao longo do dia. Jung chama de Persona esta nossa apresentação social.

A palavra persona, de origem grega, significa máscara, ou seja, caracteriza a maneira pela qual o indivíduo vai se apresentar no palco da vida em sociedade.  Portanto, diante do palco existencial cada um de nós ostenta sua persona, mas há, porém, uma respeitável distância entre o papel social do indivíduo e aquilo que ele realmente é, ou entre aquilo que ele pensa ou pensam que é e aquilo que ele é de fato.

Na realidade, considerar a personalidade através dos papeis sociais pode não refletir a verdadeira natureza da pessoa. A avaliação mais objetiva seria através dos traços, indicativos de como a pessoa é. A avaliação mais subjetiva se dá através do “eu”, indicativo de quem é a pessoa e os papeis sociais mostram a capacidade de adaptação da pessoa.

PERSONALIDADE: o meio ou os genes?

Há em biologia uma fórmula muito significativa e de validade indiscutível: FENÓTIPO = GENÓTIPO + AMBIENTE. Entende-se por Fenótipo o estado atual no qual se encontra o indivíduo aqui e agora, por Genótipo entende-se seu patrimônio genético e, em nosso caso, por Ambiente entendemos as influências do destino existencial sobre o desenvolvimento do ser.

De maneira geral, o estado em que se apresenta o indivíduo num dado momento deve ser entendido como uma conjugação entre seu patrimônio genético e a influência ambiental a que se submeteu. Em outras palavras, uma somatória daquilo que ele trouxe para a vida com aquilo que a vida lhe deu. Podemos assim, considerar a personalidade como sendo composta de elementos constitucionais ou genotípicos e de elemento ambientais ou paratípicos. O resultado final do indivíduo, tal como se encontra no momento atual, será o seu fenótipo.

A discussão sobre a força do ambiente ou da constituição na formação da personalidade é antiga, acirrada, infindável e inconclusiva. A tendência moderna e politicamente correta é entender o sujeito como resultado da influência preponderante do meio, porém, como o politicamente correto tende à acentuada demagogia, melhor seria uma concepção mais sensata.

A ciência médica, acostumada que está a considerar relacionamentos causais para os fenômenos que estuda, sente-se incomodada quando alguma tendência sociogênica atribui à delinqüência, por exemplo, um reflexo direto da pobreza (ambiental). Fosse assim, pelo menos em nosso meio a delinqüência seria, no mínimo, milhares de vezes mais presente.

É por causa de idéias assim, as quais procuram estabelecer relações diretas entre sentimentos e acontecimentos, que a sociedade não consegue entender a Depressão como um estado não necessariamente associado a alguma coisa má que tenha acontecido para a pessoa deprimida.

Por outro lado, a medicina psiquiátrica também se incomoda com as afirmações exageradamente orgânicas, como por exemplo, sobre a hipótese do comportamento agressivo ser conseqüência exclusiva de um bracinho mais longo de determinado cromossomo. Contribuindo para atenuar esta perpétua discussão, podemos pensar em um modelo de quatro mecanismos de influência para a formação da personalidade. São eles:

1 - Mecanismo Constitucional Direto

O mecanismo genético direto sugere uma influência dos genes e/ou da constituição de maneira direta na formação da personalidade. Neste caso, a influência ambiental é muito pequena e a participação biológical é quase absoluta. São poucas as situações que se enquadram neste mecanismo e a maioria delas refere-se aos casos de deficiência mental, como por exemplo, a Trissomia 21 ou Síndrome de Down, entre outras.

De um modo geral, são situações onde o patrimônio genético determina solidamente a configuração do indivíduo de modo decididamente irreversível, praticamente imune às alternativas terapêuticas atuais (grife-se "atuais"). Diz-nos o bom senso que de acordo com os avanços da genética, tais situações tendem a rarear cada vez mais. A detecção precoce de genes anômalos ou patogênicos e o conhecimento acerca da penetrância de tais genes prometem um futuro mais otimista na área da concepção humana. Entretanto, atualmente tais procedimentos corretivos da formação genética desenvolvem-se, predominantemente, na esfera da prevenção e não do tratamento.

O termo correto para os fatores biológicos atrelados à pessoa é genético-constitucional e não apenas genético. Há diferenças entre um elemento apenas genético e outro constitucional. Genético significa, em tese, hereditário, herdado. Constitucional, por sua vez, significa que faz parte da constituição da pessoa, podendo ou não ser genético. Um fator genético significa também ser constitucional, mas o contrário não se dá. As malformações proporcionadas pela toxoplasmose ou pela rubéola, por exemplo, são de natureza constitucional, embora não seja genética.

2 - Mecanismo Constitucional Indireto

Neste caso, muito embora os traços marcantes da personalidade possam ser determinados por fatores constitucionais, uma atuação decisiva do ambiente pode alterar o curso do desenvolvimento da pessoa. Uma surdez congênita, por exemplo, capaz de determinar uma personalidade peculiar por conta das limitações de desenvolvimento, essa alteração será significativamente atenuada caso a pessoa possa se beneficiar de recursos especializados de treinamento e educação.

As alterações constitucionais proporcionam maior ou menor probabilidade de se tornarem características na personalidade dependendo da atuação ambiental. Um indivíduo que tenha em si probabilidade genética de ser alto, por exemplo, poder ter o desenvolvimento da estatura prejudicada se o meio não lhe fornecer condições adequadas de nutrição. O contrário é verdadeiro; probabilidades genéticas de baixa estatura podem ser compensadas com nutrição, exercícios, etc.

Encontram-se nesta possibilidade os transtornos emocionais considerados endógenos. É o caso da esquizofrenia, por exemplo, que pode ou não se manifestar durante a vida do indivíduo apesar da probabilidade constitucional-genética. A eclosão franca da doença dependerá de um complexo conjunto de circunstâncias psicossociais. Também a predisposição à depressão poderia ser entendida através deste mecanismo, assim como outras condições psicopatológicas de comprovada concordância familiar.

3 - Mecanismo Ambiental Geral

O ambiente ou o espaço sócio-cultural a que pertence o indivíduo pode favorecer o desenvolvimento de alguns traços peculiares em sua personalidade, principalmente na forma de relacionamento para com o mundo. Os estímulos, as solicitações, as oportunidades de treinamento, as normas de convivência, enfim, todo o conjunto de recursos oferecido à pessoa através do sistema sócio-cultural e ambiental poderá determinar características da pessoa existir.

O ambiente desempenha ação modeladora sobre as potencialidades constitucionais da personalidade, ou seja, o ambiente pode alterar os rumos do desenvolvimento geral da pessoa. Situam-se aqui os estados emocionais e de formação psicológica resultantes das vivências apesar da existência de fatores constitucionais.

A chamada negligência parental (abandono por parte dos pais) pode exercer marcantes alterações no desenvolvimento emocional da pessoa, assim como as profundas perdas sofridas, a vitimização das guerras e coisas assim. Essas alterações seriam de maneira global sobre o desenvolvimento da personalidade.

4 - Mecanismo Ambiental Específico

Aqui a influência dos elementos ambientais se dá de forma especifica, ou seja, em aspectos específicos da Personalidade. A desnutrição, o alcoolismo, certas infecções, intoxicações, etc., são intercorrências ambientais que atuam na personalidade especificamente neste ou naquele aspecto, como por exemplo, retardo mental, paranóia, epilepsia, etc. Este é também o caso de um traumatismo craniano, após o qual o indivíduo tenha passado a apresentar convulsões ou demenciação. Isso quer dizer que sem determinado fator ambiental específico a personalidade tomaria outro rumo e o indivíduo se apresentaria na vida com outro desempenho existencial.

Embora esta proposta dos quatro mecanismos de influência possa facilitar uma reflexão acerca da formação da personalidade e dos transtornos da personalidade, isso não deve ser tomado como uma questão hermética. Tanto para o desenvolvimento da personalidade normal, quanto da não-normal, sempre haverá uma condição multifatorial, uma conjunção de mais de um destes mecanismos de influência. Atualmente o mais sensato é admitir uma natureza bio-psico-social na origem da personalidade e o peso com que cada um desses elementos participam será extremamente variável e individual.

 

para referir:

Ballone GJ, Meneguette JP- Teoria da Personalidade - Geral, in. internet PsiqWeb, disponível em www.psiqweb,med.br, atualizado em 2008

 
 
Referências

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Allport GW - Personalidade, EDUSP, 1973, SP.

Bouchard Jr. TJ, David T, Lykken DT, McGue M, Segal NL, Tellegen A - Sources of human psychological differences: the Minnesota study of twins reared apart. Science, Oct 12, 1990 v250 n4978 p223(6)

Herrera AO - A Grande Jornada: a Crise Nuclear e o Destino Biológico do Homem, Ed. Paz e Terra, 1982.

Jung CG - Tipos Psicológicos, Vozes, 1984, Petrópolis.

Nietzsche F - Humano, Demasiado Humano, Ed. Martins Fontes, 1973.

Plomin R, Spinath FM - Intelligence: Genetics, genes, and genomics. Journal of Personality and Social Psychology, 2003, 86, 112-129.

Plomin, R, Foch TT - A twin study of objectively assessed personality in childhood. Journal of Personality and Social Psychology, 39, 680-688, 1980.

Schopenhauer A - O Mundo Como Vontade E Como Representação, Ed. UNESP, 2007.

Strelau J - Temperament: A Psychological Perspective. New York: Plenum, 1998.

Temkin O, Galenism: Rise and Decline of a Medical Philosophy, 2a. Ed., Cornell University, Reino Unido, 1974

Zatz, M - Clonagem e células-tronco. Estudos avançados, São Paulo, v.18, n.51, p.247-256, maio/ago. 2004




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Introversão e Extroversão (na visão de Jung)

"Dentre os conceitos de Jung, os de introversão e extroversão são os mais usados. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo.

Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada; em outras ocasiões, a extroversão é mais adequada. Mas as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não é possível manter ambas ao mesmo tempo. Jung também enfatizava que nenhuma das duas é melhor do que a outra, afirmando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência.

O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, o ideal para o ser humano é não poder ser classificado, é ser uma mistura bastante incomum entre duas culturas.

Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.

Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes, esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.

As Funções Psíquicas

Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.

O Pensamento. Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O pensamento está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do pensamento são chamadas de reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.

O Sentimento. Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas, ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e os princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisões deve estar de acordo com julgamentos de valores próprios - como, por exemplo, valores de bem ou de mal, do certo ou do errado, do agradável ou do desagradável -, ao invés de julgar em termos de lógica ou eficiência, como faz o reflexivo.

A Sensação. Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A sensação reporta-se àquilo que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência.

Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.

A Intuição. A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata." (trecho de um artigo no site
Pausa para a Filosofia)



As hipóteses sobre a personalidade, mais precisamente as Teorias da Personalidade, podem ter enorme influência sobre o modo como são elaboradas as ideologias políticas, interpretações antropológicas, programas sociológicos... Enfim, as especulações sobre a formação daquilo que nós temos de mais humano, a Personalidade, determina maneiras como a sociedade representa o próprio ser humano.
Vejamos duas tendências, uma que prioriza as diversas culturas na formação da personalidade e outra, ao contrário, que prioriza os atributos pessoais; Etnocentrismo e Egocentrismo, respectivamente.

Etnocentrismo
Aqui veremos a influência da etnia como o centro da formação da personalidade, em suma, a cultura configurando as características na maneira de ser. Todos nós crescemos em uma cultura que já existia antes dele nascermos, e essa cultura influirá tão profundamente, tão marcantemente e, ao mesmo tempo, tão sutilmente que vivemos acreditando que “as cosas são assim porque são assim”. Erich Fromm chama isso de inconsciente social, uma força valorativa (que dá valor à realidade) bastante poderosa.

Assim sendo, muitas características consideradas traços de personalidade, ou mesmo traços da natureza humana são, na realidade, influências culturais. Os japoneses, por exemplo, não têm um traço de personalidade responsável pelo retraimento emocional e pela dificuldade em externar sentimentos. Trata-se, sim, de um apelo cultural.

Na Europa, por exemplo, durante a segunda metade do século XIX, as pessoas não falavam muito sobre o sexo, especialmente as mulheres. Era mais ou menos um tabu. Poderíamos até falar que um dos traços da personalidade das mulheres era certa reserva, inibição e constrangimento em relação aos assuntos relativos ao sexo.

Depois da abertura sexual a partir da segunda metade do século XX, quando falar sobre sexo ficou cada vez mais natural, percebe-se que esse “traço de personalidade” era, de fato, um traço cultural. Assim aconteceu em ralação à caça, erroneamente tida como um traço predatório da natureza humana até recentemente, quando passou a ser constrangedor mostrar troféus de caça, tornou-se politicamente incorreto contar vantagens em matar elefantes, tigres, baleias, etc.

Por conta da tendência etnocentrista é que pululam aqui e ali, em uma época ou outra, os movimentos eugenistas, em favor desta ou daquela raça ou etnia. Atribuir características de personalidade a esta ou aquela etnia, reconhecer como boa ou má uma raça ou grupo étnico favorece movimentos discricionários, desde movimentos bélicos entre gregos e troianos, nazista, na limpeza étnica do cosovo, skinheads, castas, cor da pele, etc.

Egocentrismo
Outra teorização da personalidade situa cada um de nós além da cultura, considerando a participação da genética, a estrutura psico-neurológica, as experiências especiais que suportamos, enfim, atribuindo às características pessoais a estrutura da personalidade.

O centro de formação da personalidade é a própria pessoa, como uma unidade biológica autônoma. A natureza pessimista, introvertida, expansiva, empreendedora, anti-social, leal, etc, etc, são peculiaridades constitucionais da pessoa.

A idéia de adjetivos positivos à nobreza, às pessoas de “sangue azul”, à descendência de fidalgos, de famílias tradicionais, tem embasamento na idéia das qualidades atreladas à pessoa em seu sentido mais constitucional. Aqui o inverso é também verdadeiro, supondo adjetivos negativos às pessoas que não obedecem ao “modelito” biológico. Haveria assim uma espécie de biótipo do bem.

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Nina Rodrigues e a possessão pelos orixás

O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão, Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda, Paulo Dalgalarrondo, disponvivel na internet (veja), consultado em 2008

A Entre 1896 e 1897, o médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) publicou suas pioneiras pesquisas sobre os fenômenos de possessão observados nos cultos afro-brasileiros dos terreiros de candomblé de Salvador (BA). O animismo fetichista dos negros baianos (1935)1 estuda a teologia e a liturgia afro-baiana, apresenta os orixás e suas atribuições no Brasil e na África, comenta os oráculos, os estados-de-santo, as cerimônias de culto público e os ritos funerários.

É importante ressaltar que sua vasta produção se insere no grande debate nacional ocorrido no período próximo da Abolição, quando o “problema do negro” passa a ser especificamente uma questão científica, vista pelas lentes da teoria da degenerescência, do determinismo climático e das crenças na inferioridade inata da “raça negra” e nos malefícios dos cruzamentos étnicos. Diante dessas teorias, os pensadores brasileiros viram-se obrigados a refletir sobre o futuro de um país mestiço de clima tropical (e, ainda, de uma república nascente sob a sombra da herança escravista), reflexão para a qual Nina Rodrigues explicitamente pretendeu colaborar (Oda, 2003).

Cientista convicto, o autor enfatiza que não pretendia alimentar as querelas que ocorriam entre “deistas e ateístas”, mas apenas estudar as manifestações religiosas “nos domínios do cognoscível” (Nina Rodrigues, 1935, p. 15), ou seja, no que se considerava então como domínios científicos.

Assim Nina Rodrigues (1935, p. 99-100, grifos no original) descreve o estado de possessão pelos orixás, também chamados santos2: “Como na possessão demoníaca, como na manifestação espírita, o santo fetichista pode apoderar-se, sob invocação especial do pai-de-terreiro, ou ainda de qualquer filho-de-santo, e por intermédio deles falar e predizer. A pessoa em quem o santo se manifesta, que está ou cai de santo na gíria do candomblé, não tem mais consciência de seus atos, não sabe o que diz, nem o que faz, porque quem fala e obra é o santo que dele se apoderou. Por esse motivo, desde que o santo se manifesta, o indivíduo que dele é portador perde a sua personalidade terrestre e humana para adquirir, com todas as honras a que tem direito, a do deus que nele se revela”.

Incorporando a discussão psicopatológica ao relato etnográfico, o autor considera o estado-de-santo relacionado ao sonambulismo provocado por sugestão. Postula que é a música, ritmada e monótona, que impele à dança e esta leva ao estado de possessão; compara o batuque dos candomblés aos métodos que produziam hipnose por fadiga da atenção (como os usados por Charcot na Salpêtrière). Salienta, ainda, os papéis da sugestão verbal, criada pela confiança ilimitada nos chefes dos terreiros e em suas palavras mágicas e pelo ambiente religioso.

Em resumo, considera como típicos da estrutura fenomenológica apresentada nos quadros de possessão: alteração qualitativa de consciência causada por sugestão e manifestada por estado sonambúlico, modificações nesse estado por meio de respostas verbais e físicas dadas às injunções sugestivas feitas por uma figura de autoridade, assunção temporária de outras identidades, confusão mental ou sonolência, além de grande desgaste físico e amnésia ao sair do processo. Além dessa forma “clássica” do estado-de-santo, observa que as manifestações poderiam ser frustras ou incompletas, mas também se prolongar em “delírio furioso e duradouro”, o que ele considera “desvios, aberrações do verdadeiro estado-de-santo” (Nina Rodrigues, 1935, p. 109).

Para Nina Rodrigues, o estado-de-santo seria sempre sugestivo, mas nem sempre histérico, pois acreditava que estados semelhantes de “estreitamento do campo de consciência” (ele usa aqui o conceito de Pierre Janet) surgiriam em outras condições mórbidas, como em neurastênicos – sujeitos em estado de esgotamentos físico e mental permanentes e progressivos – e em deficientes mentais.

Com relação aos fenômenos mediúnicos das chamadas “seitas espíritas”, surgidas em contextos urbanos modernos, o autor supôs que teriam causas e mecanismos similares aos que descrevera para os estados-de-santo, mas não os observou nem estudou em detalhes (Nina Rodrigues, 1935). Comenta sobre a “loucura espírita” em artigo sobre as “loucuras epidêmicas no Brasil” (1901), em que se vale de informações fornecidas pelo psiquiatra paulista Francisco Franco da Rocha.
A maior crítica que dirige aos praticantes do espiritismo, sobretudo aos “chefes de seita”, é a de estimularem fenômenos psicopatológicos latentes, o que sob certas condições poderia conduzir à loucura coletiva ou ao crime – crítica comum entre os alienistas europeus citados pelo médico brasileiro (Nina Rodrigues, 1939).

Sobre a religião do candomblé, a despeito de atribuir a origem de seus transes e possessões a um mecanismo mental patológico, pode-se dizer que Nina Rodrigues considerava que esses fenômenos poderiam ter valor psicológico positivo, por seus efeitos catárticos, e por se apresentarem de forma ritualizada e altamente controlada pelo grupo religioso, em especial pelos pais-de-terreiro. Além disso, pensava que tais manifestações religiosas satisfariam as necessidades emocionais “primitivas” dos seus adeptos, e não deveriam ser reprimidas.

Porém, fora desse contexto religioso estrito, costumava denunciar o abuso que “feiticeiros africanos” cometeriam, sobretudo influenciando negativamente mulheres histéricas das classes mais altas, já que as crenças em feitiços e possessões se estendiam por toda a sociedade baiana. Para sua psicologia evolucionista, tais crenças eram incompatíveis com a mentalidade dita “civilizada” (Nina Rodrigues, 1935).

Politicamente, Nina Rodrigues posicionava-se contra a repressão policial sistemática e arbitrária que os terreiros de candomblé sofriam na época, pois os considerava templos onde ocorriam manifestações religiosas, legítimas em um país que tinha assegurada a liberdade de culto3. Assim, o fato de se pautar por paradigmas científicos racialistas não o impediu de ter uma relação amistosa com seus “objetos” de estudo, em uma postura que chamaríamos hoje de paternalista (Oda, 2003).
 

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