Transe e Possessão

Esse tipo de manifestação faz parte da Psiquiatria Transcultural
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Independente de acreditarmos em todos os deuses e demônios, vamos abordar o tema como se espera da ciência, deixando para outros profissionais de outras áreas a difícil tarefa de lidar com o sobrenatural.

Em nosso meio a maioria das pessoas que se apresenta em transe não é, decididamente, portadora de nenhuma patologia psiquiátrica. Trata-se da influência de elementos sócio-culturais na representação da realidade, tratados mais adiante com o nome de Psiquiatria Transcultural.

A influência da cultura nos sentimentos, nos afetos e no comportamento não deve ser, por si só, tomada como doença mental. Se fosse assim, um cordão de carnaval, aos olhos de outra cultura, por exemplo, poderia ser tomado como um batalhão de dementes. Interessa à psicopatologia aqueles casos que comportam decididamente um diagnóstico médico e psíquico.

Psiquiatria Transcultural
Ao mesmo tempo em que se corre um risco patológico com a religião, a cultura brasileira extrai de alguns ritos e seitas extraordinários recursos para um certo equilíbrio biopsicossocial, principalmente das chamadas “camadas populares”, segundo Fernando Portela Câmara.

As seitas espiritistas, ou seja, aquelas que giram em tornos de entidades espirituais vindas do mundo dos mortos, entidades malignas e do bem, como por exemplo o espiritismo Kardecista popularmente aculturado no Brasil, também os cultos afro-brasileiros (candomblé, quimbanda, catimbó, xangô, batuque), as crenças de pajelança, paricá dos índios nativos, formam todas o elemento principal do sincretismo brasileiro que atende aqueles que buscam outras formas de ajuda, em especial a ajuda espiritual.

No ambiente brasileiro comum, cotidiano, místico e aflito ao mesmo tempo, muitas vezes a religiosidade e psicopatologia se misturam, tornando difícil estabelecer os limites entre uma e outra, onde termina a doença e começa a religiosidade, e vice-versa (Walmor Piccinini).

Em depoimento colhido para elaboração da História da Psiquiatria Forense no Brasil, Piccinini entrevista o professor Rubim de Pinho. Este, respondendo sobre psiquiatria transcultural, refere haver muitos comportamentos, muitas reações, muitas expressões da personalidade formados à partir de certos condicionamentos culturais, e o psiquiatra mal preparado pode confundir esses comportamentos com verdadeiros distúrbios mentais.

Pinho lembra bem que a maior habilidade de alguns desses líderes religiosos, que às vezes erram, como erram também os médicos, é saber diferenciar os casos que comportam um tratamento médico, aplicado pela medicina formal, dos casos que são sensíveis aos tratamentos informais, como por exemplo, espirituais.

Talvez seja essa questão, eminentemente cultual, que proporciona a maior diferença entre o tratamento da doença e o tratamento do doente. E, de fato, algumas pessoas podem ser beneficiadas mais com os tratamentos populares e religiosos do que os tratamentos médicos.

Algumas vezes a questão cultural, ou seja, a representação cultural da realidade aproxima mais as pessoas de suas crenças que da ciência. A psiquiatria transcultural procura por quadros mentais específicos de determinada cultura. É o caso, por exemplo, do conceito de Quebranto, como uma influência maldosa e capaz de tornar as pessoas vitimadas por ele mais vulneráveis às doenças. Esse é o caso típico de uma representação da realidade que faz parte do cardápio cultual brasileiro.

Tem igual teor cultural outros estados doentios que acometiam escravos, índios e mesmo imigrantes em outras épocas. O Banzo, por exemplo, acometia os escravos negros trazidos da África e se caracterizava, inicialmente, por acentuada tristeza, seguida por definhamento, podendo chegar à morte por inanição e apatia extrema.

Outro exemplo de Psiquiatria Transcultural é o estudo de Rubim de Pinho, citado por Piccinini, mostrando a correspondência do Banzo de nossos antigos escravos, com aquilo que se chamava Síndrome de Campo de Concentração, observada por ocasião da II Guerra Mundial. Havia um estado depressivo ao qual se superpunha toda uma síndrome de carência alimentar, juntando ainda à depressão uma anorexia decorrente da falta de proteínas.

Rubim de Pinho cita ainda a questão do Mau Olhado. Trata-se, provavelmente, de uma versão nacional daquilo que foi o Magnetismo Animal na Europa. Era uma espécie de influência magnética do olhar de determinadas pessoas, conduzindo ao comprometimento da saúde de outras. Vale ainda um outro registro de Rubim de Pinho, de interesse da Psiquiatria Transcultural, ocorrido por ocasião da I Guerra Mundial (1914-1919) com o nome de Diabo no Corpo. Tratava-se de uma condição de agitação de determinadas pessoas, sobretudo do sexo feminino, que eram levadas semanalmente à Igreja da Piedade para serem exorcizadas pelos frades capuchinhos.

Os casos de Diabo no Corpo eram o mesmo que as famigeradas epidemias de possessão das bruxas, da possessão demoníaca que a Europa assistiu durante a Idade Média. E até a presente data, dependendo da cultura da comunidade em questão, continuam existindo os quadros de possessão, de influência maligna, de transe, etc.

Embora o diagnóstico que a psiquiatria seja obrigada a dar para todos esses quadros onde se necessitam de exorcismos seja de Transtorno Histérico (veja Transtornos do Espectro Histérico), eles podem acometer pessoas com quaisquer outros transtornos mentais, incluindo as psicoses. Além disso, conforme vimos em Psiquiatria Transcultural, tais rompantes de possessões podem ainda acometer pessoas psiquicamente normais e momentaneamente fragilizadas emocionalmente.

Visões, Inspirações, etc de Origem Emocional ou Orgânica
Alguns pacientes com Epilepsia do Lóbulo Temporal ou do Sistema Límbico podem sofrer exóticas mudanças de personalidade, tanto sob a forma aguda, durante as crises (se houverem) ou, mais curiosamente, entre os ataques, de forma crônica. Esses quadros de mudanças de personalidade se dão, comumente, como um episódio de êxtase místico, com exacerbação de preocupações religiosas, compulsão a falar ou escrever sobre temas metafísicos, orações, estados de êxtase, de graça (com sentimentos de bondade extrema), enfim, com manifestações de alguma espiritualidade culturalmente delineada.

Se as visões e alterações da personalidade forem muito evidentes nesses pacientes disrítmicos, recomenda-se a classificação como Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica Geral (disritmia). Um transtorno com esse diagnóstico é caracterizado por alucinações ou delírios proeminentes, presumivelmente decorrentes dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral sobre o cérebro.

As alucinações (sintoma psicótico, exceto quando culturalmente sugerida) podem ocorrer em qualquer uma das cinco modalidades dos sentidos, isto é, podem ser visuais, olfativas, gustativas, táteis ou auditivas, mas alguns fatores etiológicos tendem a provocar fenômenos alucinatórios específicos. Assim sendo, as alucinações olfativas, especialmente aquelas envolvendo o odor de borracha queimada, enxofre ou outros cheiros desagradáveis, são altamente sugestivas de epilepsia do lobo temporal.

Os delírios, por sua vez (que são alterações do pensamento e não da sensopercepção), podem ser variados, incluindo os somáticos, grandiosos, religiosos e, com maior freqüência, os persecutórios (DSM.IV - Classificação de Doenças Mentais da Associação Norte-americana de Psiquiatria). Em relação ao misticismo, as epilepsias temporais são tão cogitadas que o DSM.IV diz, textualmente: “Os delírios religiosos têm estado especificamente associados, em alguns casos, à epilepsia do lobo temporal.”

Uma outra consideração do DSM.IV, diz respeito à constante presença de aspectos atípicos num Transtorno Psicótico secundário a alterações orgânicas; é atípica, por exemplo, a idade do início das alucinações, a qual pode surgir em qualquer época da vida. Também é quase obrigatória a hipótese de Epilepsia do Lobo Temporal diante da ocorrência de alucinações olfativas e gustativas.

Na mesma linha das disritmias cerebrais (epilepsias), alguns casos de enxaqueca também podem incluir, entre seus sintomas, episódios definidos como aura, quando então são vistas luzes brilhantes muito similares às visões místicas atribuídas por alguns.

Por outro lado, a literatura psiquiátrica também descreve numerosos casos de Síndrome de Tourette, um transtorno psiconeurológico não tão raro, interpretados erroneamente como possessões do demônio, assim como pode acontecer em relação a certos casos, como a Esquizofrenia, de Transtorno Afetivo Bipolar ou mesmo de alguns Transtornos Depressivos mais graves com sintomas psicóticos. Isso tudo sem falar dos maiores clientes de espíritos e demônios; os histéricos, em suas mais variadas apresentações.

O avanço dos conhecimentos da neurociência vem permitindo que esses pacientes possam ser tratados adequadamente, ao invés de serem considerados como iluminados, paranormais, mediúnicos ou tocados por algum espírito, superior ou inferior, dependendo das conveniências. Acontece que nem sempre há interesse cultural para que todos esses casos sejam tratados, mas essa é uma outra questão, muito extensa para a natureza desse trabalho.

Algumas crises neurológicas (Epilepsias), neuropsiquiátricas (Síndrome de Tourette) ou psiquiátricas propriamente ditas (Histerias e fins), podem se manifestar por uma sensação de horror e medo, por violentas convulsões, por lançar o enfermo ao solo, por faze-lo falar "línguas estranhas”, enfim, por sintomas culturalmente atribuídos aos demônios ou outras entidades igualmente poderosas.

Embora os sintomas básicos das doenças mentais sejam uniformes e universais, eles sofrem grande influência do contexto cultural. O delírio, por exemplo, assim como as alucinações, ocorrem universalmente em pacientes esquizofrênicos do mundo todo, assim como também é universal a teatralidade dos histéricos, ou as palavras estranhas que falam os portadores da Síndrome de Tourette e assim por diante. É a mesma coisa, por exemplo, que a manifestação universal da febre diante de uma infecção, em qualquer lugar do mundo e em qualquer povo.

Entretanto, delirar e alucinar com isso ou aquilo, ou seja, o tema do delírio, dependerá do conteúdo cultural de cada um. E, mesmo assim, muitos casos continuam sendo objeto de controvérsia, especialmente quando o entorno cultural da pessoa favorece a interpretação demoníaca.

Os Transes e Possessões
A CID.10 (Classificação Internacional das Doenças) rotula, sob o código F44.3, o chamado Estado de Transe e de Possessão. Trata-se de um transtorno caracterizado por uma perda transitória da consciência da própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente. Devem ser incluídos nesse diagnóstico somente os estados de transe involuntários e não desejados, excluídos aqueles de situações admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito.

Estando a pessoa em estado de êxtase falamos em Transe de Inspiração. É o caso, por exemplo, do dom de “falar línguas estranhas”. Falar línguas estranhas, também chamado glossolalia, constituiu um elemento marcante da doutrina pentecostal, portanto, fortemente cultural.

Trata-se de uma evidência do batismo no Espírito Santo, segundo os pentecostais e alguns antropólogos classificam tal fenômeno em experiência extática, devido ao estado de êxtase, ou enlevação, portanto, como sendo um Transe de Inspiração. Diferente desse tipo de Transe de Inspiração, os fenômenos religiosos de umbanda e de candomblé são classificados como Transes de Possessão. Não vemos como atribuir alguma importância a essa distinção, enfim...

No DSM.IV, por sua vez, é mais completo e cita o quadro de 300.15, como Transtorno Dissociativo Sem Outra Especificação. Esta categoria se destina a transtornos nos quais a característica predominante é um sintoma dissociativo, isto é, uma perturbação nas funções habitualmente integradas da consciência, memória, identidade ou percepção do ambiente, enfim uma manifestação histérica que não satisfaz os critérios para outro Transtorno Dissociativo mais específico.

Como exemplos desse Transtorno Dissociativo Sem Outra Especificação o DSM.IV cita, entre outros casos, os estados dissociativos ocorridos em indivíduos que foram submetidos a períodos de persuasão coercitiva prolongada e intensa, como por exemplo, lavagem cerebral, reforma de pensamentos ou doutrinação em cativeiro.

Em seguida o DSM.IV fala do Transtorno de Transe Dissociativo, referindo como perturbações isoladas ou episódicas do estado de consciência, identidade ou memória, inerentes a determinados locais e culturas, subdividindo esse transtorno em dois tipos; Transe Dissociativo e Transe de Possessão.

O Transe Dissociativo envolve o estreitamento da consciência quanto ao ambiente imediato, comportamentos ou movimentos estereotipados vivenciados como estando além do controle do indivíduo. O Transe de Possessão envolve a substituição do sentimento costumeiro de identidade pessoal por uma nova identidade, atribuída à influência de um espírito, poder, divindade ou outra pessoa, e associada com movimentos estereotipados "involuntários" ou amnésia.

De acordo com a Psiquiatria Transcultural, o Transe de Possessão adquire colorido regional e cultural nas várias partes do mundo; amok (Indonésia), bebainan (Indonésia), latah (Malásia), pibloktoq (Ártico), ataque de nervios (América Latina) e possessão (Índia).

O Dom de Falar Línguas
Com freqüência e constatando-se até em programas da televisão, vemos fiéis tomados pelo Espírito Santo, com grande júbilo e êxtase, conversam entre si falando línguas estranhas.

Para os Pentecostais, como vimos, trata-se do Batismo com Espírito Santo, ou seja, do exercício de um ou mais dons extraordinários, como por exemplo, o dom de falar em línguas estranhas, etc. Na psiquiatria a emissão de sons desconexos leva o nome de glossolalia. E de fato, essa questão pode ser vinculada a uma problemática fundamental na constituição do sujeito humano; sua relação com a linguagem.

A aquisição da linguagem no ser humano não pode ser considerada um mero aprendizado de uma comunicação para uso imediato como ocorre com outros animais. A aquisição da linguagem é o ingresso no mundo simbólico, fato que caracteriza essencialmente o ser humano, que o distingue dos outros animais e funda sua cultura, definindo assim o limite da espécie.

Segundo Sérgio Telles (O Dom de Falar Línguas) , ao nascer a criança é mergulhada no universo lingüístico dos pais, num encontro definitivo, irreversível. Uma vez dentro da língua materna, a criança dela não mais poderá sair. A mãe fala e, através de sua linguagem introduz a criança no mundo simbólico.

No início da vida as palavras e o discurso soarão sempre à criança como uma língua estrangeira, imposta duramente e indispensável ao estabelecimento das bases de sua sobrevivência e de sua identidade como sujeito humano. Quem fala representa, à criança, quem manda, entende e domina, embora não se entenda ainda e perfeitamente o que fala.

Aos poucos a criança que ainda não fala mas ouve, absorve, apreende e adquire a fala dos adultos. Estes sons lhe parecem absolutamente desconhecidos, misteriosos, surpreendentes, enigmáticos e fascinantes (idem Telles). E esse fascínio por línguas estranhas acaba persistindo, tal como uma cicatriz indelével, ao longo da vida das pessoas. Nas culturas mais acanhadas o sotaque e a língua estranha adquire até uma conotação de autoridade e sedução.

Podemos supor que ao falarem “línguas”, as pessoas em transe, possuídas ou, como se diz culturalmente, dotadas desse estado, estariam psicologicamente regredidas e identificadas com a mãe, com os adultos ou com poderosos portadores da linguagem, aqueles que representavam ser os superiores na infância.

O episódio pode simbolizar aqueles momentos fundamentais do psiquismo, onde a pessoa ouvia fascinada a língua “estrangeira”, incompreensível e misteriosa, eficaz e capaz de resolver problemas, de oferecer soluções. Pode significar o encantamento da criança que ainda não fala ao se deparar com os sons do discurso dos adultos poderosos.

Quem vivenciou outrora ou ainda presencia alguma liturgia católica conduzida em latim experimenta sentimentos estranhos e poderosos. As expressões dessa língua estranha persistem ruminantemente na memória como uma espécie de patrimônio arqueológico.

Ao falar “línguas” a pessoa em transe, possuída, ou melhor, o inconsciente dessa pessoa faz com que a palavra transcenda sua condição de signo comunicativo para representar o simbólico, para manifestar e expressar sua identificação com o superior poderoso.

Vocação para o Sobre-Humano
De certa forma todos nós, através do lado mágico de nosso pensamento temos uma tendência a ter sentimentos e comportamentos sobre-humanos, algo de compense a desagradável sensação de pequenez e finitude a que todos estamos sujeitos, ora mais, ora menos fortemente.

Sentir-se “sobre-humano” pode aliviar a limitação para a felicidade plena imposta por nossa condição existencial. Mesmo nas pessoas tidas por descrentes, realistas, racionais, seja lá como gostam de ser consideradas, a partir do momento em que jogam na loteria, mesmo quando todas as probabilidades racionais não recomendam o jogo, está se manifestando um pensamento mágico. Seria um pensamento que foge à dureza da racionalidade que estabelece as probabilidades de ganhar, seria algo do tipo: “pode ser que eu tenha sorte” ou “pode ser que tenha chegado o meu dia...” e assim por diante. Isso é sentir-se sobre-humano, privilegiado e diferente dos demais.

Pode ser que a sensação de poder se comunicar com o sobrenatural, de ser escolhido como porta-voz dos espíritos, de ter sensibilidade especial (diferente dos outros), de poder curar, de poder prever ou influir no futuro, nos faça sentir especiais, sobre-humanos.

Não tem sido nem um pouco comum encontrar um renomado e competente médico recebendo espíritos de outro médico para realizar suas curas; ele as realiza de maneira convencional, a duras penas de ter tido que aprender, estudar, se formar, fazer residência, sentir a insegurança normal dos humanos, etc. Mas, estando profissionalmente realizado, esse médico não precisa recorrer ao sobre-humano para dar vazão a uma vocação oculta e, muito provavelmente, frustrada.

Buscar influências fora de nós, além de nós também ajuda a atenuar a sensação de fracasso, de aliviar quando nos sentirmos incompletos, de desculpar não termos sidos tão brilhantes como gostaríamos. Se nossas falhas e limitações tivessem origem fora de nós mesmos, independentemente de nossa vontade nossa autoestima estaria preservada. A possessão por entidades pode tanto realçar sentimentos de superioridade como resolver sentimentos de inferioridade.

O sentimento sobre-humano e até mesmo o sentimento de achar que Deus está conosco (um fortíssimo aliado), alivia frustrações e sensações de fraqueza, nos dá forças e compensa a dureza de um cotidiano meramente humano.

Crenças Patológicas (existem?)
Embora o problema da religiosidade tenha sido sempre uma preocupação universal, desde a filosofia grega antiga até Marx, passando, por Montaigne, Spinoza, Kant, Darwim, Nietzsche e Durkheim, a psiquiatria acompanha a idéia de Feuerbach, considerando a religião um reflexo de uma necessidade psicológica, individual e coletiva.

Freud também considerava o sentimento religioso uma necessidade de caráter íntimo e pessoal. Segundo ele, além de sua virtude de consolar, a crença em Deus quando se excede pode ser compreendida, também, como um sintoma neurótico, mais precisamente do tipo obsessivo, semelhante ao que se produz como conseqüência dos sentimentos da relação da criança com seu pai.

A psicopatologia, por sua vez, sempre procurou limitar a religião à sua natureza fisiológica, como uma necessidade psicológica conveniente e sadia, quando adequada até uma eventual ocorrência mórbida e regressiva. Sob essa ótica, a religiosidade pode atender à um propósito terapêutico ou, ao contrário, pode refletir uma situação clínica patológica.

Portanto, a religiosidade e o exercício religiosos podem ser considerados normais, fisiológicos e culturalmente adequado, sempre se levando em conta algumas variáveis.
Entre essas variáveis, capazes de tornar o fenômeno religioso patológico estão, por exemplo, a intensidade e grau de obsessão do pensamento místico, a noção dos limites que existem entre o pensamento mágico e o lógico, a consciência pessoal das questões da vida prática emancipadamente da influência divina, entre outras.

É objeto de preocupação da psicopatologia a possibilidade de estar havendo, por conta do pensamento religioso, uma falsificação grosseira da lógica, uma utilização mórbida de pensamentos mágicos, alguma produção de sofrimento pessoal ou nos demais ou uma alienação de outros princípios éticos, morais e da própria realidade.

Não há nenhum interesse da psicopatologia em avaliar clinicamente a crença em Deus, já que um de seus mais importantes princípios é o respeito à convicção e à subjetividade comum a todos seres humanos, desde as fantasias e devaneios agradáveis à alma humana, até os princípios científicos de puro saber, o racionalismo prevalente e outras formas objetivas de lidar com a realidade.

Assim sendo, embora a psicopatologia enalteça o uso da razão e estimule um curso, ritmo e conteúdo sadios do pensamento, por outro lado ela não pretende que a pessoa se mantenha exclusivamente atrelada à forma lógica ou mágica do pensamento. A psicopatologia não preconiza que a pessoa deva rechaçar crenças que não sejam determinadas por motivos exclusivamente racionais, não pede para tirarmos conclusões exclusivamente a partir daquilo que se podemos tocar e ver, e não acha sadio que a pessoa permita atrofiar-lhe a capacidade de fantasiar, de alimentar devaneios sadios e de consolar-se em suas próprias crenças. Isso quer dizer que nosso pensamento mágico deve conviver harmoniosamente com nosso pensamento lógico.

Em nome do ser humano livre, a psicopatologia deve reconhecer o exercício da subjetividade e do desejo, ressaltando importância adequada aos acontecimentos da historia pessoal e ao desenvolvimento da personalidade de cada um, bem como das influências exercidas pela cultura na elaboração pessoal dos valores mágicos, éticos e morais, onde se inclui perfeitamente a religiosidade.

Existem as tais crenças patológicas?
Saber que existe alguma crença alienante e patológica sabemos, mas identifica-la e estabelecer relações entre essa crença patológica com motivos mórbidos internos e particulares de cada um tem sido uma tarefa difícil. Saber que existe sabemos, mas identificar essa crença alienante e patológica, cuja estrutura dependa, além dos motivos mórbidos internos e particulares, também de influências patogênicas exercidas pela cultura, tem sido uma tarefa mais difícil ainda.

A crença, em si, é um ato de consentimento subjetivo para uma hipótese, trata-se de uma decisão psíquica sobre alguma verdade, portanto, crer não é a mesma coisa que saber, é sim, acreditar no saber de outro. A crença, que pode parodiar o que se entende por fé, trata-se da aceitação de uma verdade racionalmente improvável, ou a adesão da pessoa a uma idéia emancipada da inteligência (Tomás de Aquino). Neste sentido a crença religiosa é mesma coisa que a fé, ou seja, é fidelidade.

Primeiramente, talvez, seja o caso de reconhecer existir no arbítrio humano a possibilidade de uma crença desinteressada e livre, de um tipo de pensamento mágico e, ao mesmo tempo, de uma idéia sustentada por uma espécie de “lógica” psicológica (Jung, Adler, Janet), entre aspas porque não é racional, lógica esta capaz de confortar sem, no entanto, alienar.

Esse tipo de crença ou fé é desejável, sadia e fisiológica e são pensamentos mágicos, de natureza religiosa ou não. Jogar na loteria, por exemplo, pode ser uma atitude determinada exatamente por uma crença desse tipo, que menospreza totalmente as possibilidades estatísticas racionais de investimento econômico.

Quando esse tipo de crença (do exemplo acima) é impregnado de um sentimento religioso a pessoa atribui um aspecto místico ao ato de jogar na loteria, por exemplo; peço a Deus para ganhar na loteria. Posso estabelecer com Ele certas barganhas, promessas, agradecimentos, atitudes litúrgicas, enfim, posso sistematizar métodos que favoreçam esse canal de comunicação Deus-Eu. “Sei que vou curar-me do câncer, pois tenho fé em Deus e, se isso acontecer, prometo nunca mais comer chocolate”.

Quando existe sistematização no exercício das crenças, ou seja, um método, uma liturgia ou um ritual nas relações transcendentais entre a pessoa e Deus, estará sendo exercida a religiosidade e, quando esse ritual é compartilhado por um grupo de pessoas, estará se exercendo uma religião.

O exercício do pensamento mágico, da religiosidade e, conseqüentemente, da religião é um atributo da pessoa livre; política e psiquicamente. Psiquicamente, a pessoa livre e sadia recorre, voluntariamente, arbitrariamente e espontaneamente aos pensamentos mágicos, sejam eles simples devaneios, fantasias eróticas, de natureza metafísica, mística, etc.

Psiquicamente, a pessoa livre e sadia também é portadora de uma capacidade voluntária, arbitrária e espontânea de parar com esses pensamentos mágicos e voltar, prontamente, à realidade ou ao pensamento lógico.

A pessoa psiquicamente sadia sabe, exatamente, onde começa o pensamento lógico e termina o pensamento mágico. Na doença psíquica, entretanto, fica seriamente comprometida essa autonomia, sendo difícil e/ou impossível ao paciente fazer com que seu pensamento transite entre o mágico e o lógico e vice-versa.

O pensamento mágico ou a crença na doença psíquica adquire características de delírio. Como podemos ver na página sobre as Alterações do Pensamento (do Conteúdo do Pensamento) , segundo Kraepelin, delírios seriam “idéias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento lógico”. Bleuler, por sua vez dizia que “idéias delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma causal insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior”. Jaspers, o autor mais reconhecido internacionalmente em relação ao conceito de delírio, dizia “tratar-se de uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável, caracterizada por absoluta incompreensibilidade psicológica para o indivíduo normal, bem como, por impossibilidade de sujeitar-se a quaisquer correções, seja através da experiência ou da argumentação lógica”.

Esse assunto é por demais complicado aos olhos da psicopatologia. A grande dificuldade da psicopatologia, entretanto, não está na caracterização de crenças ou pensamentos mágicos como se tratassem de delírios, pois os conceitos se equivalem e, em tese, poderíamos considerar mórbida a crença que fosse irremovível e que se mantivesse em total desprezo para com o pensamento lógico. Mas nem isso a psicopatologia pode, pois, culturalmente, a crença que se pretende ser fruto da fé, deve ser sempre irremovível e inabalável, senão deixaria de ser fé.

Um outro agravante curioso e incômodo é que, supondo existir alguma crença patológica, esta faria parte de alguma determinada patologia, seria um sintoma de um determinado quadro psiquiátrico. Porém, podemos constatar também que nem todas as pessoas que acreditam em alguma coisa fantástica e mágica sejam loucas e, finalmente, para complicar mais ainda, podemos constatar também que nem toda crença do louco é, necessariamente, uma coisa patológica e absurda.

Diante dessas e outras variáveis, seria mais prudente considerar que os critérios para que determinada crença pudesse ser considerada patológica, fossem os mesmos critérios necessários para o diagnóstico psiquiátrico, ou seja, o critério estatístico, valorativo e intuitivo.

O Critério Estatístico considera o numericamente comum, em determinada época e sociedade, como por exemplo a idiossincrasia de nossa cultura na crença em entidades do candomblé, portanto, algo estatisticamente normal ou aceitável em nosso meio. Acreditar nos preceitos da Santa Inquisição, da mesma forma, foi estatisticamente normal para a época em que se deu o evento.

Fenômenos como o encosto, a possessão pelo demônio ou por um espírito, muitas vezes são sintomas de transtornos emocionais mas, no contexto religioso do Brasil, a possessão e o transe são comportamentos aceitos culturalmente, e raramente são vistos como sintomas de distúrbio mental. Muito pelo contrário. Situações de transe que poderiam ser consideradas doentias em algumas sociedades, podem ser consideradas dons, desejáveis e meritosos.

O Critério Valorativo, por sua vez, avalia uma espécie de autenticidade necessária para que tal crença não ocasione sofrimento; nem ao crente, nem aos demais. Havendo qualquer tipo de sofrimento, consternação, constrangimento, ou sentimento desagradável determinado pela crença, estará evidente seu caráter mórbido, poderá tratar-se de uma preocupação religiosa mórbida ou patológica. Em psiquiatria o sofrimento não deve ser monopólio do paciente, ou seja, havendo sofrimento nos demais, já podemos considerar o fenômeno mórbido.

O Critério Intuitivo é aquele deduzido da experiência anterior acerca do normal e do não-normal. Sabe-se, intuitivamente, quando algum pensamento, gesto, atitude e, em nosso caso, alguma crença, foge aos padrões do que se espera como normal. Vamos tomar como exemplo a crença de um cientista em uma partícula subatômica “quaker”, cuja existência não se confirma por constatação real mas sim, por dedução matemática e física.

Vamos tomar como outro exemplo, a crença em uma entidade etérea, o “sdruvs”, encarregada em cuidar do pensamento da humanidade, distribuindo entre os seres humanos as inspirações para os diversos tipos de pensamento, seres que inspirariam a arte, a pintura, a poesia, a magia... Independentemente da existência real ou não do tal “quaker” ou do “sdruvs”, qual dos dois tipos de crença nos parece, intuitivamente, mais provável?

Os três critérios supracitados são necessários para considerar a crença não-normal, ou mesmo patológica. Através do critério estatístico e intuitivo podemos considerar uma crença não-normal e através do valorativo, atestar se esse não-normal seria também patológico.

Há pessoas emocionalmente propícias ao desenvolvimento de crenças patológicas, sejam essas crenças elaboradas por essas próprias pessoas como uma necessidade interior de alívio para angústias e desesperos, sejam as crenças induzidas por outras pessoas.

Cristina Pozzi Redko é uma antropóloga que publicou interessante trabalho sobre Cultos de Aflição, entendendo-se esse tipo de culto como aquele para o qual se dirigem pessoas aflitas e em busca da resolução de problemas concretos do cotidiano. Essas pessoas são mais propensas e sujeitas às crenças patogênicas. Nestes Cultos de Aflição a religiosidade é usada para resolver problemas que dizem respeito a doenças, dificuldades amorosas e financeiras e problemas familiares (Alguns Idiomas Religiosos de Aflição no Brasil - Cristina Pozzi Redko) .

Pensamento Mágico
O pensamento mágico quando patológico, é também uma crença patológica. Havendo saúde mental, os estímulos para que se desenvolva o raciocínio devem provir de fontes externas e internas. Mas o pensamento não é guiado apenas por considerações estritamente atreladas à realidade, ele também flui motivado por estímulos interiores, abstratos e afetivos ou até instintivos. A criação humana, por exemplo, ultrapassa muitas vezes a realidade dos fatos, refletindo estados interiores variados e de enorme valor para a construção de nosso patrimônio cultural.

Voltar-se para o mundo interno significa que o pensamento se manifesta sob a forma de DEVANEIOS - uma espécie de servidão das idéias às nossas necessidades mais íntimas, aos nossos afetos e paixões. Enquanto há saúde mental, entretanto, nossos devaneios são sempre voluntários e reversíveis; eles devem ser nossos servos e não nossos senhores e nós devemos ter a liberdade de desenvolve-los quando queremos e interrompe-los, também, ao nosso gosto.

Em estados mais doentios, esses devaneios ou fugas da realidade são emancipados da vontade, são impostas ao indivíduo de forma absoluta e tirânica. Parece tratar-se de um indivíduo que despreza a realidade e vive uma realidade nova que lhe foi imposta involuntariamente, da qual não consegue libertar-se.

A própria concepção da realidade pode sofrer alterações nos transtornos psíquicos. Em determinados estados a concepção da realidade pode sofrer alterações de natureza bioquímica, funcional ou anatômica. Outras vezes ainda, estados de natureza exclusivamente psicopatológica também podem contribuir para que a realidade seja alterada. É assim que fatores afetivos, emocionais ou psíquicos podem deturpar o senso de realidade, proporcionando uma concepção do mundo determinada exclusivamente pelas necessidades interiores e não mais pela lógica comum a todos nós.

Ao pensamento que se afasta da realidade morbidamente, ou seja, doentiamente, damos o nome de Pensamento Derreísta em oposição ao Pensamento Realista, atrelado à realidade. Falamos “se afasta morbidamente da realidade” porque esse tipo de pensamento não depende mais do arbítrio que as pessoas normais têm em fantasiar e voltar à realidade voluntariamente. O Pensamento Derreísta devaneia obrigatoriamente, negando ao paciente o entendimento dos limites da fantasia e da realidade.

Nesta questão de pensamentos, como em todas as outras, os extremos são problemáticos, ou seja, não deve prevalecer, com exclusividade, nem o pensamento mágico, nem o lógico. Para aqueles que acreditam ser normal e desejável ter os pensamentos exclusivamente atrelados ao concreto e ao real, lembramos que essa limitação também pode ser patológica. A incapacidade de afastar-se daquilo que é absolutamente concreto, leva o nome de Concretismo, que também é uma alteração da forma do pensamento.

De forma mais prática e didática, podemos considerar o Pensamento Derreísta como sendo uma espécie de Pensamento Mágico, e o Pensamento Realista como sendo o Pensamento Lógico. É absolutamente normal que a pessoa tenha esses dois tipos de pensamentos, simultânea e harmonicamente, valendo-se deles de acordo com suas necessidades adaptativas.

Para resolver as necessidades práticas do cotidiano a pessoa se vale do Pensamento Lógico (realista); calcula dinheiro, planeja seu dia, prioriza atividades, dirige de acordo com as normas, comporta-se com sensatez, lógica e discernimento, etc.

Diante das necessidades interiores os Pensamentos Mágicos são mais lenitivos. Através deles a pessoa faz suas orações, nutre seus desejos e esperanças, aposta na loteria, evita passar debaixo de uma escada, acredita em seus deuses, fala da sorte ou do azar, enfim, devaneia. E normalmente esses devaneios obedecem às normas da cultura em que vivemos, ao menos em boa parte deles.

De modo geral, quanto maiores as angústias, mais se recorrem aos Pensamentos Mágicos. Isso ocorre fisiologicamente nas pessoas normais, porém, diante de situações psíquicas patológicas, a “opção” para o Pensamento Mágico pode se tornar absolutamente impositiva.

Essa espécie de predileção pelo Pensamento Mágico pode se dar em vários graus; desde uma simples crença até o delírio franco, passando pela fé, pelas idéias supervalorizadas e pelo fanatismo. Isso significa que a simples crença pode privilegiar a Mágica sobre a Lógica discretamente, sendo possível sair do mágico para o lógico com facilidade, enquanto no delírio, há um grau maior de submissão da lógica ao mágico, tornando basicamente impossível o retorno voluntário ao Pensamento Lógico.

Então, para saber se a pessoa está totalmente, parcialmente ou ligeiramente submissa aos seus Pensamentos Mágicos, devemos saber se essa pessoa tem ou não delírios. Sabendo, então, serem os delírios os mais graves causadores da soberania do Pensamento Mágico, o problema da psicopatologia será descrever as patologias que originam delírios, conseqüentemente, que causam o domínio absoluto da mágica sobre o lógico.

Nas Esquizofrenias, por exemplo, a pessoa perde totalmente os limites entre o mágico e o lógico, através de seus delírios. De modo geral, qualquer patologia mental capaz de produzir delírios subjuga a lógica, privilegiando morbidamente a mágica.

A Psiquiatria Transcultural se preocupa em saber diferenciar a sugestionabilidade determinada por razões culturais do delírio, ou seja, diferenciar a pessoa que se sente possuída por entidade espiritual durante um culto religioso de um delírio. Durante um culto religioso, a pessoa vivencia um entorno místico, podendo ser sugestionada a aderir a algum tipo de Pensamento Mágico, cujo conteúdo não será totalmente estranho à outras pessoas que comungam a mesma crença ou o mesmo espaço cultural.

Os sentimentos de transe e possessão não podem ser considerados delírios, muito embora possam estar emancipados da realidade lógica. Sabendo que o delírio é monopólio de transtornos emocionais muito sérios, como por exemplo das psicoses, é claro que não podemos atribuir o diagnóstico de delírio a todas pessoas sugestionáveis que se “deixam” possuir em cultos religiosos.

Mas essas pessoas, as possuídas, não estão livres de preencherem os requisitos para as chamadas Idéias Deliróides. Nas Idéias Deliróides as experiências são assimiladas e a imagem do mundo exterior fornecida pela razão é falsificada, de acordo com as necessidades afetivas e com a fragilidade emocional.

O raciocínio que caracteriza a Idéia Deliróide é bastante similar ao do Pensamento Mágico, normal e que todos nós utilizamos em grau muito menor. A Idéia Deliróide é como se tratasse de um Pensamento Mágico mais patológico, porém, compreensível à maioria das pessoas normais.

As Idéias Deliróides aparecem em certas pessoas como tentativas (patológicas) de manipular os problemas e as tensões da vida. Tratam-se de fantasias elaboradas para fornecer aquilo que a vida real nega, entretanto, devido ao seu aspecto patológico, essas fantasias não são compatíveis com uma adaptação social normal.

Uma pessoa com marcante e desmedida ambição para o poder, por exemplo, dependendo da estrutura de sua personalidade, pode apresentar uma Idéia Deliróide acreditando (e fazendo outros acreditarem) ser uma pessoa ungida por Deus, logo com poderes e ascensão sobre os demais. Outro exemplo seria de uma pessoa sexualmente muito ativa que vivesse em uma sociedade muito proibitiva, daria vazão à sua sexualidade acreditando ser possuída por uma entidade espiritual permissiva.

Portanto, a direção e os temas das Idéias Deliróides podem ser determinados pelos problemas e necessidades íntimas do paciente, revelando sempre aspectos significativos dos problemas pessoais. As fontes desses problemas podem ser encontradas freqüentemente em inclinações e impulsos contrariados, esperanças frustradas, sentimentos de inferioridade, inadequações biológicas, qualidades rejeitadas, desejos importunantes, sentimentos de culpa e outras situações que exigem uma defesa contra a angústia.

Uma profunda necessidade de consolo pode ser satisfeita por Idéias Deliróides auto-elogiosas, assim como Idéias Deliróides de grandeza podem refletir uma defesa contra sentimentos de inferioridade.

Para a formação de Idéias Deliróides são necessários alguns elementos favorecedores. Primeiro, uma personalidade prévia vulnerável e problemática, seja por traços de marcante histeria, de extrema sensibilidade afetiva, de paranóia, ou menos comumente, de uma personalidade prejudicada por problemas funcionais cerebrais.

Em segundo, há necessidade de uma situação emocional frágil, problemática e vulnerável. Em terceiro, precisa-se de um ambiente cultural que ofereça o tema e script daquilo que pode (e deve) ser fantasiado.

Sugestão, Auto-Sugestão
Consideramos acima a possibilidade da pessoa com sintomas de transe e possessão ser portadora de um quadro de Delírio (menor porcentagem) e, não sendo isso, de ser ainda portadora de uma Idéia Deliróide (bem mais freqüente). Entretanto, para a grande maioria dos casos em nosso meio, não há nenhuma grave patologia psiquiátrica capaz de produzir delírios, nem um transtorno emocional sério o suficiente para Idéias Deliróides.

Para a maioria das pessoas com sintomas de transe e possessão temos que pensar nos casos de sugestão, auto-sugestão e crença exagerada (patológica?), que são fenômenos observados nas influências espirituais teatrais dos cultos e religiões.

A pessoa que vivencia uma realidade diferente e estimulada por outra pessoa está sendo sugestionada ou influenciada e, em termos gerais, todos nós somos sugestionáveis em algum grau. Isso equivale a dizer que o ser humano é, essencialmente, um imitador.

A força de persuasão da moda, por exemplo, é incontestável, e a própria propaganda e marketing só se viabilizam tomando por base a sugestionabilidade humana.

Mas a sugestão não tem nada a ver com o Delírio e com as Idéias Deliróides. Nessas duas situações patológicas a liberdade de deixar de lado o Pensamento Mágico e reassumir o Pensamento Lógico deixa de ser determinado pela vontade. Na sugestão, por sua vez, dependendo de sua força e penetrância, com maior ou menor facilidade será possível a abandonar esse tipo de pensamento mágico e voltar à realidade.

Pessoas podem causar sugestões em outras, assim como ambientes também podem influir. Vejamos, por exemplo, as influências sugestivas do ambiente hospitalar, carnavalesco, militar, musical e, evidentemente, religioso.

Assim como as forças sugestivas têm vários graus de penetrância, indo da simples propaganda à lavagem cerebral, as pessoas também possuem graus variados de sugestionabilidade, desde o normal até o altamente sugestionável, esse último representado pelas personalidades histéricas ou histriônicas.

O sucesso da sugestão está no fato de se tratar de um apelo dirigido ao sentimento e às emoções, mais do que à razão. E a sugestão será tão mais forte quanto mais atender às necessidades emocionais. Mas, seja qual for o grau de sugestionabilidade ou de influência, como não se trata de Delírio nem de Idéia Deliróide, será mais possível reassumir o Pensamento Realístico através da vontade.

Não podemos aceitar, com naturalidade, a afirmativa “não consigo” por parte do paciente. Diante disso temos duas opções: ou, de fato, ele não consegue deixar os Pensamentos Mágicos voluntariamente, por se tratar de um Delírio ou Idéia Deliróide e não mais uma sugestão e, neste caso deverá ter, obrigatoriamente, outros dados clínicos de alguma patologia ou será uma sugestão, de fato, e a pessoa conseguirá sim se desvencilhar dos Pensamentos Mágicos, independente de afirmar que não consegue.

A Auto-Sugestão é a mesma coisa que a Sugestão, porém, tendo como mola propulsora os elementos psíquicos internos, motivados por valores culturais somados às necessidades emocionais, e não apenas elementos externos, sugeridos por outras pessoas.

Casos de sugestão e auto-sugestão podem ser representados por pessoas que perdem o sossego porque viram vultos no quarto, que ficam apavoradas com o aparecimento de feitiço na frente da casa, que sentem calafrios e perturbações depois de visitarem um terreiro de umbanda. Outras vezes, são pessoas que se julgam muito doentes e que melhoraram sensivelmente quando o último exame médico apresentou resultado negativo, pessoas que se curam depois de benzimentos e simpatias, e assim por diante.

Crença Exagerada
Uma das variantes benignas das Idéias Deliróides, vistas acima, são as chamadas Idéias Supervalorizadas, Superestimadas ou Sobrevalentes, todos sinônimos e sinônimos também de Fanatismo ou de Crença Exagerada.

Essas idéias costumam ser errôneas por supervalorização emocional ou psicológica de algum tema (político, ideológico, sobrenatural, extraterrestre, religioso, etc), e podem ser igualmente observadas até mesmo em indivíduos psiquicamente normais. Portanto, é muitíssimo necessário ressalvar, que nem toda Idéia Supervalorizada é forçosamente errônea, do ponto de vista lógico e racional, mas é sim, supervalorizada.

As idéias contidas, por exemplo, nos códigos jurídicos, morais, sociais, religiosos podem se incluir, sem dúvida, na categoria de Idéias Supervalorizadas, embora não sejam obrigatoriamente errôneas. Os enamorados, os cientistas, os magistrados, os sacerdotes e afins, também cultivam idéias superestimadas afetivamente, respectivamente com respeito ao seu amor, à pesquisa científica, à jurisprudência e aos dogmas que obedecem.

As Idéias Supervalorizadas mais contundentes espelham fielmente aquilo que entendemos por sectarismo e fanatismo. Trata-se da adesão afetiva incondicional e a qualquer preço a certas idéias. O que importa a esse respeito é saber que idéias errôneas por superestimação afetiva, ou Idéias Supervalorizadas, representam uma variedade atenuada das Idéias Deliróides, e podem corresponder, no mais das vezes, a predisposições problemáticas da personalidade.

De qualquer forma, assim como dissemos em relação à Sugestão, as Idéias Supervalorizadas ou Crenças Exageradas não são Delírios (apesar de muitos delírios se manifestarem por fanatismo) e nem Idéias Deliróides. Existem vários outros sinais e sintomas que devem acompanhar Delírios e Idéias Deliróides que não acompanham as Crenças Exageradas. Logo, por definição, essas Crenças Exageradas devem estar sujeitas, mais ou menos facilmente, ao arbítrio ou vontade.

Um exemplo de Idéias Supervalorizadas é a consideração eugênica do nazismo, a concepção política do comunismo, a vocação para assuntos esotéricos, o fanatismo religioso, etc.

As Seitas
O problema das crenças, seitas ou religiões como vê Fusswerk-Fursay (1975, 1980), resvala tanto no ponto de vista filosófico, como no ponto de vista psicopatológico, já que a saúde psíquica implica em um trânsito livre entre o conhecimento e a fé, entre a objetividade e subjetividade, entre a dúvida e a certeza. Uma das funções fundamentais do ser humano é a sublime capacidade de crer, inclusive como uma das condições de nossa própria sobrevivência e desenvolvimento.

A crença será sempre um risco, uma submissão de nosso desconhecido em favor do conhecimento do outro, será a disponibilidade ou credibilidade de um em aceitar a convicção ou o discurso do outro. As seitas que proporcionam uma espécie de “controle mental”, ou seja, que proporcionam uma contaminação do fanatismo estariam promovendo algum tipo de sofrimento, de angústia, de perda da liberdade, seja no crente ou nos demais.

Supondo verdadeiro o fato das pessoas procurarem apoio religioso proporcionalmente à angústia que as aflige, algumas seitas têm uma clientela garantida pelas mazelas do cotidiano, pelos sofrimentos emocionais ou pela angústia existencial, cada vez mais comum em nosso meio.

Essas pessoas angustiadas, ou que tenham alguma fragilidade emocional são as prováveis predispostas a deixarem se influenciar pelas crenças e seitas esdrúxulas. E não faltam religiões que tentam tornar a vida mais compreensível e suportável, auxiliando as pessoas a se orientarem dentro de seus contextos problemáticos, recorrendo a toda sorte de demônios e mandingas, enaltecendo a crença no mau-olhado, encosto, etc.

O aspecto mórbido ou patológico dessas crenças está no sofrimento causado pela falsa esperança, na expectativa frustra e mesmo protelação de tratamentos médicos necessários. Um dos perigos mais contundentes desses Cultos de Aflição é tentar alterar, para a pessoa, o significado de algum sintoma ou alguma doença, minimizando indevidamente uma depressão grave, uma esquizofrenia, etc.

Esses cultos costumam ter um cardápio das especialidades terapêuticas da igreja conforme o dia da semana; às segunda, retirada de encostos, às terça, doenças incuráveis, e assim por diante (Ricardo Mariano, 2001).

Mesmo assim, não é lícito considerar-se unicamente a eventual patologia das religiões, reconhecendo esta ou aquela seita como doentia, mas podemos sim examinar os caracteres gerais da crença e do comportamento do religioso. O comportamento religioso se determina pela fé e se expressa por um rito, por uma liturgia que congrega em torno de si uma comunidade, cuja finalidade é sustentar essa mesma comunidade religiosa em sua relação pessoal com Deus.

Assim sendo, existem alguns comportamentos religiosos (liturgias) comuns à quase todas religiões, como por exemplo, a oferenda, o sacrifício e a purificação.

Principalmente nas religiões proféticas e monoteístas, como é o caso do judaísmo, cristianismo e islamismo, a liturgia visa estabelecer algum vínculo entre o Deus transcendente e o homem pecador. Em geral o estigma do homem religioso é aquele “justo” e que “teme a Deus”, que descobre sua falta e se arrepende, é um pecador que receberá o perdão.

Cientificamente, entretanto, não podemos considerar uma religião ou seita patológica, ainda que seja demasiadamente esdrúxula em seus cultos e liturgias. Trata-se de uma questão lógica, pois a patologia é um atributo das pessoas e não das associações, seitas, agremiações, etc, no entanto, podemos dizer que existem algumas seitas ou religiões patogênicas, ou seja, capazes de desencadear ou agravar quadros psicopatológicos em pessoas predispostas ou circunstancialmente vulneráveis.

Os Cultos da Aflição
Cristina Pozzi Redko
entende esse tipo de culto, Cultos de Aflição, como aquele para o qual se dirigem pessoas aflitas e em busca da resolução de problemas concretos do cotidiano. Com esse enfoque, a religiosidade é usada para resolver problemas que dizem respeito a doenças, dificuldades amorosas e financeiras e problemas familiares (Alguns Idiomas Religiosos de Aflição no Brasil - Cristina Pozzi Redko).

De acordo com a angústia que aflige praticamente a maioria das pessoas, esses Cultos da Aflição têm clientela garantida, seja pelas mazelas do cotidiano, pelos sofrimentos emocionais ou angústia existencial, muitos recorrem às religiões tentando tornar a vida mais compreensível, suportável e se orientando dentro de seus contextos problemáticos.

De fato, os problemas de saúde em primeiro lugar, seguido por problemas econômicos e sentimentais, constituem a parte mais expressiva da aflição que leva as pessoas a procurarem uma ajuda religiosa. E essa procura será tão maior quanto mais incômodos forem os problemas e quanto mais escassas forem as condições tradicionais para resolvê-los.

Normalmente a religião mobiliza pessoas a procurar ajuda por causa de suas representações mágicas. Há ainda um elemento facilitador que é concepção cultural da existência de dois tipos de doenças; as do corpo e, desafiando qualquer avanço científico, aquelas do espírito. A igreja, de modo geral, pode se ocupar de ambas, com evidente predileção pelo segundo tipo.

A doença espiritual é mais conhecida em nosso meio como "encosto" (causado por um espírito naturalmente mau) ou "uma obsessão" (causada por um espírito obsessor, entenda-se como quiser). Entretanto esta distinção é muito sutil, na medida em que as doenças materiais de difícil solução médica podem passar, repentinamente, a ser consideradas como agravadas por elementos espirituais.

Ora, para essa população que sente as agruras da vida através da magia de seus corpos, não basta a medicina. Há que se recorrer ao arsenal igualmente espiritualizado. Os sofredores constituem-se num Culto dos Aflitos, procurando seitas e igrejas que mais prontamente atendem seus reclamos. O exótico e exuberante culto pentecostal atende a todos.

Durante os Cultos de Aflição essas igrejas despedem grandes esforços para retirar encostos, desfazer a inveja e o olho-grande, libertar pessoas da feitiçaria, dos despachos de macumba, das possessões por orixás, guias e espíritos. Alguns folhetos chegam a ponto de trazerem uma lista de indicações ao alcance dos trabalhos dos cultos, tais como problemas de "desemprego, sentimental, financeiro, vícios, enfermidades, nervosismo, depressão, ouvir vozes, ver vultos, familiar", divulga as especialidades terapêuticas da igreja conforme o dia da semana (Neopentecostais; Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil - Ricardo Mariano, Editora Loyola).

Um dos perigos mais contundentes desses Cultos de Aflição é tentar alterar o significado de alguma doença para aquele que a está sofrendo. Mas os rituais não implicam, obrigatoriamente, na remoção definitiva dos sintomas, mas na mudança dos significados que a pessoa atribui a esses sintomas ou ainda a uma alteração em seu estilo de vida, protelando perigosamente um tratamento médico adequado.

Fenômenos como o encosto, a possessão pelo demônio ou por um espírito, muitas vezes são sintomas de transtornos emocionais mas, no contexto religioso do Brasil, a possessão e o transe são comportamentos culturalmente aceitos e raramente vistos como sintomas de distúrbio mental.

Muitas doenças curadas nesses Cultos de Aflição são causadas, segundo seus embasamentos teológicos, pelo mal-olhado, feitiço, coisa-feita, bruxaria, macumba ou coisa que o valha. O próprio catolicismo popular é muito flexível, tolerante e receptivo a essas idéias, pois, compartilha a crença nos espíritos, na eterna luta entre Deus e o diabo e na possibilidade ser possuído por ele.

Deus, Diabo, Cultura e Religião
O Pentecostalismo (de pentecostes) surge em 1906 no interior das igrejas reformadas dos EUA e difunde-se rapidamente pelos países do Terceiro Mundo. Os primeiros missionários do pentecostalismo chegam ao Brasil em 1910 e rapidamente conquistam grande número de fiéis.

O Pentecostalismo é um movimento religioso que tem a convicção de que os dons milagrosos ou os sinais que Deus deu aos apóstolos e às igrejas primitivas ainda estão disponíveis, podendo ser exercitados pelos cristãos hoje, portanto, o Pentecostalismo reivindica que Deus dá dons milagrosos para as pessoas.

A idéia se baseia no Evangelho de São Marcos (16:17-18 e I Corintos 12:8-11):

“E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.”

“Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé, e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só é o mesmo Espírito que opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.”

Na igreja católica o Pentecostalismo às vezes é chamado de movimento carismático, devido ao fato de dar ênfase à suposta continuação do charismata milagroso ou dons.
Haveria dois tipos de dons, mencionados no Novo Testamento: há os dons chamados ordinários e os dons extraordinários.

Os dons chamados ordinários levam esse nome porque Deus, ordinariamente, os dá às pessoas em todos os tempos, tais como a fé, a esperança e a caridade. Os dons extraordinários são assim chamados porque não são dados ordinariamente. Estes dons extraordinários são sobrenaturais e permitem às pessoas que os possuem executar ações sobrenaturais.

Normalmente, quando os Pentecostais falam de dons ou charismata, eles se referem aos dons extraordinários da cura, dos milagres, de falar línguas estranhas, revelações diretas de Deus, expulsão de demônios e até mesmo pegar em serpentes e beber veneno e outras peripécias.Para os Pentecostais, a expressão Batismo com o Espírito Santo é um evento diferente do batismo da igreja, o qual objetiva a graça da salvação e perdão do pecado original. Para eles, o Batismo com Espírito Santo seria o exercício de um ou mais dons extraordinários, falar em línguas estranhas, etc. O nome Pentecostal deriva, justamente, da crença de que podem ser repetidos os milagres do Pentecostes, especialmente, o de falar em línguas estranhas (Fonte: Estudos Bíblicos de Autores Batistas)

As igrejas pentecostais são as que mais crescem na América Latina, dando ênfase à pregação do Evangelho, às orações coletivas, feitas em voz alta por todos os fiéis; aos rituais de exorcismos e de curas, realizados em grandes concentrações públicas. Uma das seitas pentecostais mais difundidas no Brasil é a Igreja Universal do Reino de Deus .

Uma porcentagem de 13 a 15% da população brasileira se considera "evangélica", uma categoria que engloba todas as religiões protestantes e, destes, 70% são Pentecostais. Os evangélicos pentecostais no Brasil estão distribuídos pelas seguintes religiões:

Assembléia de Deus
Congregação Cristã no Brasil
Exército de Salvação
Igreja Batista Aliança
Igreja Batista Independente
Igreja Cristocêntrica - Casa de Oração
Igreja do Evangelho Quadrangular
Igreja Metodista Wesleyana
Igreja Pentecostal Brasil para Cristo
Igreja Pentecostal Deus é Amor
Igreja Sara Nossa Terra
Igreja Universal do Reino de Deus

A Igreja Católica, por sua vez, mantém uma posição ambígua nestas frentes demoníacas: após o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI eliminou a figura do exorcista, que foi recuperada, no entanto, por João Paulo II.

Cada diocese deve dispor de um, ainda que nem todas o tenham embora os casos de possessão estejam aumentando devido ao auge do esoterismo. Aliás, vejamos as definições de esotérico e exotérico.

Esoterismo- S. m. 1. Filos. Doutrina ou atitude de espírito que preconiza que o ensinamento da verdade (científica, filosófica ou religiosa) deve reservar-se a número restrito de iniciados escolhidos por sua inteligência ou valor moral. 2. Designação que abrange um complexo conjunto de doutrinas práticas e ensinamentos de teor religioso e espiritualista, em que se confundem influências de religiões orientais e ciências ocultas, associadas a técnicas terapêuticas, e que, supostamente, mobilizam energias não integrantes da ciência e que visam a iniciar o indivíduo nos caminhos do autoconhecimento, da paz espiritual, da sabedoria, da saúde, da imortalidade, etc.

Exotérico- Adj. Filos. 1. Diz-se de ensinamento que, em escolas da Antiguidade grega, era transmitido ao público sem restrição, dado o interesse generalizado que suscitava e a forma acessível em que podia ser exposto, por se tratar de ensinamento dialético, provável, verossímil.

Em alguns movimentos dentro da Igreja Católica o exorcismo é uma prática constante e habitual, como é o caso do Movimento Carismático. Mas, tanto os segmentos mais tradicionais da Igreja Católica, como da Igreja Anglicana, manifestam temores de que exorcismos levados a cabo por fanáticos evangélicos possam chegar a causar problemas sérios a pessoas indefesas.

No pentecostalismo se exercem práticas de exorcismo, que é libertar a pessoa da possessão por demônios (pessoa endemoninhada, não é certo dizer endemoniada), pois o demônio está presente em todos esses cultos pentecostais e seus rituais de exorcismo consistem em receber o Espírito Santo e expulsar os demônios.

Há muitos grupos de tonalidade espiritualista no Brasil, assim como o batuque, xangô, kadercismo, umbanda, candomblé. Alguns preferem ser considerados seitas, outros preferem ser tidos por religiões, o certo é que todos se baseiam na comum teoria da espiritualidade.

Embora as tendências dessas seitas e religiões sejam de contraporem-se umas às outras, muito existe de comum entre elas. As crenças da influência do demônio e dos espíritos se baseiam em 3 conceitos principais:

1. o ser humano tem um outro corpo além do material; o corpo espiritual;
2. espíritos desencarnados estão em constante contato com o mundo físico;
3. os humanos podem aprender a incorporar espíritos.

A Umbanda foi, sem dúvida, a primeira religião espiritualista desenvolvida no sul do Brasil, ao longo do processo de industrialização e apresenta um sincretismo de elementos do candomblé afro-brasileiro, da macumba, kardecismo e catolicismo. Na umbanda o consulente tem a oportunidade de entrar em contato com espíritos através da incorporação dos mesmos no médium.

O caldo cultural, entretanto, dentro do qual vive nosso sistema tende a legitimar como real a existência dos demônios, os quais agem neste mundo, possuem pessoas, interferem na felicidade e bem estar de qualquer um e se passam por muitas formas que assumem.

Para se ter uma idéia da força do demônio em nossa cultura, buscando-se pela palavra “satanismo” na Internet através dos mecanismos de busca, constatamos existirem mais de 14.800 páginas em português e mais de 94.000 em inglês (satanism, pesquisado por Busca-UOL em abril de 2002).

Conversão
Enquanto na terminologia psiquiátrica conversão significa a passagem ou o salto de um conteúdo psíquico para o orgânico, um quadro que faz parte do espectro histérico ou histriônico, em religião conversão significa uma grande mudança na atitude cognitiva da pessoa.

Após a conversão as pessoas percebem-se a si mesmas como mudadas em pelo menos dois diferentes aspectos: em seus traços de personalidade (temperamento por exemplo), e na própria identidade social (incluindo vínculos comunitários, sentimentos de pertinência, papéis desempenhados, percepções do mundo, etc). Veja Hulda Stadtler .

Entre as mudanças cognitivas operadas na conversão destacam-se as concepções de si mesmo e a aquisição de um novo sistema cognitivo. Entre as alterações da concepção particular de si mesmo ou da reavaliação do "estar-no-mundo", o Pentecostalismo descortina para a pessoa a possibilidade de tornar-se um membro especial do povo de Deus com a conseqüente reestruturação cognitiva.

Segundo Hulda Stadtler, em sua tese “Conversão ao pentecostalismo e alterações cognitivas e de identidade”, o Pentecostalismo gera mudanças em todos os aspectos das vidas das pessoas, e essas mudanças são valorizadas positivamente tanto pelos convertidos quanto pelos outros.

Existem, de acordo com os dois principais modelos religiosos de nosso meio, duas explicações para as mudanças da personalidade na conversão. Para os católicos carismáticos, as alterações seriam o resultado do abandono de comportamentos prévios pela intervenção direta do Espírito Santo. Para os crentes da Assembléia de Deus e outros evangélicos pentecostais a conversão seria a adoção de um modelo de personalidade e comportamento do próprio Cristo.

Na igreja católica o Pentecostalismo às vezes é chamado de movimento carismático, devido ao fato de dar ênfase à suposta continuação do charismata milagroso ou dons. Haveria dois tipos de dons, mencionados no Novo Testamento: há os dons chamados ordinários e os dons extraordinários.

Os dons chamados ordinários levam esse nome porque Deus, ordinariamente, os dá às pessoas em todos os tempos, tais como a fé, a esperança e a caridade. Os dons extraordinários são assim chamados porque não são dados ordinariamente. Estes dons extraordinários são sobrenaturais e permitem às pessoas que os possuem executar ações sobrenaturais.

A sociedade costuma ter momentos históricos e circunstâncias que comportam diferentes comportamentos, atitudes e desempenho de seus membros. Autoflagelações, jejuns prolongados, danças que se prolongam até a exaustão, enfim, a sociedade costuma estimular determinados modelos de comportamento e certas sugestões das massas. Por isso, é por demais desejável que o psiquiatra tenha sensibilidade suficiente para distinguir comportamentos e reações impregnados de agravantes e determinantes culturais das doenças mentais francas.

Essa recomendação significa que o psiquiatra deve estar atento para diferenciar o que é interferência da cultura no comportamento e na atitude da pessoa e o que é manifestação de um processo doentio. Por conta disso, Rubim de Pinho chega a desejar que os psiquiatras brasileiros, e baianos em particular, tivessem a capacidade que têm as mães-de-santo mais hábeis e que têm certos líderes espíritas para diferenciar os fenômenos que eles consideram religiosos e nós consideramos culturais, mas que sem dúvida são diferentes daquilo que está descrito na psiquiatria tradicional.

Para esses casos de natureza exuberante pode-se dar o nome de Fenômenos Protoplásticos. Quando há alterações da normalidade (não-normal, estatisticamente), porém, não se pode constatar alguma doença franca, pode-se falar em Fenômeno Protoplástico, ou seja, uma alteração não tão mórbida como ocorreria no processo francamente patológico.

Mas a cultura que estimula uma religiosidade excessiva não costuma favorecer com exclusividade o desenvolvimento de doenças e transtornos emocionais. Se, de fato, as questões culturais e religiosas podem precipitar quadros patológicos, por outro lado, estudiosos do comportamento da modernidade afirmam que a falta de fé, uma das características do mundo atual, estaria também contribuindo para a ocorrência crescente de outros quadros patológicos. Estes, por sua vez, seriam ligados a uma cultura exageradamente individualista (Sloan, 1996; Schumaker, 2001).

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Fernando Portela Câmara, psiquiatra clínico, professor da UFRJA, tem um magnífico artigo sobre TRANSE E POSSESSÃO: AS BASES DA PSIQUIATRIA TRANSCULTURAL BRASILEIRA. Veja um trechinho:

"A cultura popular brasileira dispõe de um extraordinário recurso para o equilíbrio biopsicossocial de suas comunidades, ou pelo menos das chamadas “camadas populares”. Trata-se do sincretismo religioso onde as seitas espiritistas são o elemento comum desta cultura. permeando a população do país em todos os recantos. Estas seitas são amplas e diversificadas e se incluem aqui, dentre as mais conhecidas, o espiritismo Kardecista, de origem européia mas aclimatado a cultura popular brasileira, os cultos afro-brasileiros trazidos pelos negros escravos (candomblé, quimbanda, catimbó, xangô, batuque), os dos índios nativos da terra (pagelança, paricá) e o culto brasileiro por excelência derivado de um sincretismo entre todas estas: a umbanda.

Quando estudamos todas estas seitas encontramos um fenômeno único sobre o qual assenta-se toda a diversidade dos seus rituais e crenças: o transe com possessão. Por outro lado, quando estudamos o transe ritual em nossa cultura popular, podemos aprender muita coisa e aumentar significativamente nossa comunicação com nossos paciente, muitas vezes membros ou simpatizantes destes cultos.

Estas seitas oferecem aos seguidores uma terapia transcultural baseada no transe ou mediunismo, recebendo nomes como “desenvolvimento da mediunidade”, “assentamento do santo”, etc. dependendo de sua origem. Esta forma de psicoterapia, não verbal e dessensibilizadora, ocorre em sessões repetidas até o desaparecimentos dos sintomas e restabelecimento do equilíbrio emocional da personalidade. Ocasião em que muitas vezes acontece a conversão do padecente, agora curado, na fé professada pelo culto. Os indivíduos que se beneficiam desta transeterapia são via de regra aqueles que sofrem de todos as formas de transtornos dissociativos (ou conversivos) e suas múltiplas nuanças(estas nem sempre reconhecidas pela maioria dos psiquiatras). Também as fobias simples, o transtorno do pânico, o transtorno de estresse pós traumático, a maioria das disfunções sexuais, etc, condições que apresentam fenomenologia dissociativa, muito se beneficiam com esta forma de psicoterapia transcultural." (Veja
todo artigo)
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Um outro artigo do mesmo Fernando Portela Câmara, intitulado Psiquiatria Transcultural Brasileira: Seitas Espiritistas e Saúde Mental Coletiva, trata desse assunto dos transes. Veja um trecho:

"As culturas primitivas tinham seu próprio método para lidar com os transtornos mentais e do comportamento, e este conhecimento é transmitido através do que hoje denominamos “cultura popular” e “folclore”. No Brasil, as seitas espiritistas que tem um valor assistencial e psicossocial inquestionável dentro das chamadas camadas populares. Num país desassistido são estas seitas organizadas no seio do povo que desempenham o papel que o governo não consegue cumprir satisfatoriamente, até porque o modelo assistencial adotado é economicamente inviável para um país das dimensões como o nosso.

O saber psiquiátrico, como todo o saber médico em geral, é hoje essencialmente um saber acadêmico gerado em sua maior parte nos países do Primeiro Mundo, com paradigmas espelhados em sua realidades e teorias socioculturais e econômicas que influem nos modelos médicos assistenciais e nas teorias aplicadas à saúde mental. A pressão econômica destes países sobre aqueles “em desenvolvimento”, como o nosso, resulta em uma progressiva aculturação que se reflete igualmente no modelo assistencial psiquiátrico. O resultado é confusão e distanciamento cada vez maior da realidade autóctone pela oposição de dois paradigmas: o modelo psi de um saber dominante, economicamente imposto, e o modelo psi de um saber dominado, que resiste em nossa cultura popular." (Veja
todo artigo)
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Victor Eugênio Arfinengo, médico psiquiatra, logoterapeuta e professor do CLAP também tem um interessante artigo sobre transes. Veja um trecho:

"... o transe ocorreu desde os xamãs mais primitivos passando pelos hinduístas antigos com estados de transe da yoga, pelos templos de sono dos sacerdotes egípcios e a força mágica do olhar do sacerdote caldeu. Os xamãs em viagens de transe com drogas ou por indução do ritual tribal manifesta vivências de terror, temor e angústia.

Há transes de "incorporação", como na Grécia antiga realizada pelas pitonisas, que nos templos com oráculos como o de Delphos, nas consultas para o povo, acreditavam incorporar o próprio deus Zeus ou o deus Esculápio, fazendo adivinhações sobre a saúde ou a vida existêncial da pessoa. No antigo Israel são descritos alguns grupos de sacerdotes com êxtase repetindo salmos. No islamismo também aparecem alguns grupos místicos. O mesmo fenômeno ocorre com os monges católicos com o êxtase místico.

Nestas religiões monoteístas, o transe é isolado porque a base da oração ou reza é de caráter consciente e intencional com agradecimentos, súplicas, pedidos e reflexões sobre Deus e para Deus. Os sacerdotes chineses, africanos, japoneses tinham e tem transe em reverência aos mortos. Nas catacumbas de Roma, os cristãos conviveram com rituais de transe tipo espírita, dos romanos.

Os romanos levavam oferendas para os mortos se alimentarem. Isto ocorria também em alguns templos gregos e influenciaram os romanos. O transe é retomado pelas bruxas em seus rituais na idade média. No século 18 é Mesmer com os transes magnéticos, rudimento da ciência, sem implicações sobrenaturais. No século 19 o transe espírita é retomado por duas escolas espíritas divergentes, uma francesa, a escola de Kardec, outra inglesa, a escola de Davis. Permaneceu a terapia de varinhas, águas e mãos magnetizadas do mesmerismo.

A ciência aparece com o cirurgião inglês Dr. Braid que descobre o método da hipnose provocando analgesia, hemostasia e anestesia em 1841. Utilizado por Janet, Charcot, Bernheim, Breur e Freud nas últimas décadas do século 19 na França, Áustria e Suiça nas melhores clínicas psiquiátricas. Começa a teoria de Charcot sobre a doença histeria.
" (v
eja todo artigo)


Nina Rodrigues e a possessão pelos orixás

O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão, Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda, Paulo Dalgalarrondo, disponvivel na internet (veja), consultado em 2008

"A Entre 1896 e 1897, o médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) publicou suas pioneiras pesquisas sobre os fenômenos de possessão observados nos cultos afro-brasileiros dos terreiros de candomblé de Salvador (BA). O animismo fetichista dos negros baianos (1935)1 estuda a teologia e a liturgia afro-baiana, apresenta os orixás e suas atribuições no Brasil e na África, comenta os oráculos, os estados-de-santo, as cerimônias de culto público e os ritos funerários.

É importante ressaltar que sua vasta produção se insere no grande debate nacional ocorrido no período próximo da Abolição, quando o “problema do negro” passa a ser especificamente uma questão científica, vista pelas lentes da teoria da degenerescência, do determinismo climático e das crenças na inferioridade inata da “raça negra” e nos malefícios dos cruzamentos étnicos. Diante dessas teorias, os pensadores brasileiros viram-se obrigados a refletir sobre o futuro de um país mestiço de clima tropical (e, ainda, de uma república nascente sob a sombra da herança escravista), reflexão para a qual Nina Rodrigues explicitamente pretendeu colaborar (Oda, 2003).

Cientista convicto, o autor enfatiza que não pretendia alimentar as querelas que ocorriam entre “deistas e ateístas”, mas apenas estudar as manifestações religiosas “nos domínios do cognoscível” (Nina Rodrigues, 1935, p. 15), ou seja, no que se considerava então como domínios científicos.

Assim Nina Rodrigues (1935, p. 99-100, grifos no original) descreve o estado de possessão pelos orixás, também chamados santos2: “Como na possessão demoníaca, como na manifestação espírita, o santo fetichista pode apoderar-se, sob invocação especial do pai-de-terreiro, ou ainda de qualquer filho-de-santo, e por intermédio deles falar e predizer. A pessoa em quem o santo se manifesta, que está ou cai de santo na gíria do candomblé, não tem mais consciência de seus atos, não sabe o que diz, nem o que faz, porque quem fala e obra é o santo que dele se apoderou. Por esse motivo, desde que o santo se manifesta, o indivíduo que dele é portador perde a sua personalidade terrestre e humana para adquirir, com todas as honras a que tem direito, a do deus que nele se revela”.

Incorporando a discussão psicopatológica ao relato etnográfico, o autor considera o estado-de-santo relacionado ao sonambulismo provocado por sugestão. Postula que é a música, ritmada e monótona, que impele à dança e esta leva ao estado de possessão; compara o batuque dos candomblés aos métodos que produziam hipnose por fadiga da atenção (como os usados por Charcot na Salpêtrière). Salienta, ainda, os papéis da sugestão verbal, criada pela confiança ilimitada nos chefes dos terreiros e em suas palavras mágicas e pelo ambiente religioso.

Em resumo, considera como típicos da estrutura fenomenológica apresentada nos quadros de possessão: alteração qualitativa de consciência causada por sugestão e manifestada por estado sonambúlico, modificações nesse estado por meio de respostas verbais e físicas dadas às injunções sugestivas feitas por uma figura de autoridade, assunção temporária de outras identidades, confusão mental ou sonolência, além de grande desgaste físico e amnésia ao sair do processo. Além dessa forma “clássica” do estado-de-santo, observa que as manifestações poderiam ser frustras ou incompletas, mas também se prolongar em “delírio furioso e duradouro”, o que ele considera “desvios, aberrações do verdadeiro estado-de-santo” (Nina Rodrigues, 1935, p. 109).

Para Nina Rodrigues, o estado-de-santo seria sempre sugestivo, mas nem sempre histérico, pois acreditava que estados semelhantes de “estreitamento do campo de consciência” (ele usa aqui o conceito de Pierre Janet) surgiriam em outras condições mórbidas, como em neurastênicos – sujeitos em estado de esgotamentos físico e mental permanentes e progressivos – e em deficientes mentais.

Com relação aos fenômenos mediúnicos das chamadas “seitas espíritas”, surgidas em contextos urbanos modernos, o autor supôs que teriam causas e mecanismos similares aos que descrevera para os estados-de-santo, mas não os observou nem estudou em detalhes (Nina Rodrigues, 1935). Comenta sobre a “loucura espírita” em artigo sobre as “loucuras epidêmicas no Brasil” (1901), em que se vale de informações fornecidas pelo psiquiatra paulista Francisco Franco da Rocha.
A maior crítica que dirige aos praticantes do espiritismo, sobretudo aos “chefes de seita”, é a de estimularem fenômenos psicopatológicos latentes, o que sob certas condições poderia conduzir à loucura coletiva ou ao crime – crítica comum entre os alienistas europeus citados pelo médico brasileiro (Nina Rodrigues, 1939).

Sobre a religião do candomblé, a despeito de atribuir a origem de seus transes e possessões a um mecanismo mental patológico, pode-se dizer que Nina Rodrigues considerava que esses fenômenos poderiam ter valor psicológico positivo, por seus efeitos catárticos, e por se apresentarem de forma ritualizada e altamente controlada pelo grupo religioso, em especial pelos pais-de-terreiro. Além disso, pensava que tais manifestações religiosas satisfariam as necessidades emocionais “primitivas” dos seus adeptos, e não deveriam ser reprimidas.

Porém, fora desse contexto religioso estrito, costumava denunciar o abuso que “feiticeiros africanos” cometeriam, sobretudo influenciando negativamente mulheres histéricas das classes mais altas, já que as crenças em feitiços e possessões se estendiam por toda a sociedade baiana. Para sua psicologia evolucionista, tais crenças eram incompatíveis com a mentalidade dita “civilizada” (Nina Rodrigues, 1935).

Politicamente, Nina Rodrigues posicionava-se contra a repressão policial sistemática e arbitrária que os terreiros de candomblé sofriam na época, pois os considerava templos onde ocorriam manifestações religiosas, legítimas em um país que tinha assegurada a liberdade de culto3. Assim, o fato de se pautar por paradigmas científicos racialistas não o impediu de ter uma relação amistosa com seus “objetos” de estudo, em uma postura que chamaríamos hoje de paternalista (Oda, 2003)."
 
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Psicologia ecológica

Vejamos um trecho do artigo: Os primeiros curadores da humanidade: abordagens psicológicas e psiquiátricas sobre os xamãs e o xamanismo de Stanley Krippner, publicado na Rev. psiquiatr. clín.,v.34;supl.1,São Paulo, 2007

"A ecopsicologia ou psicologia ecológica busca compreender os processos comportamentais e experienciais quando estes ocorrem dentro dos limites de sistemas ambientais animais - os sistemas do meio ambiente. Ela tem foco na percepção, ação, cognição, aprendizagem, desenvolvimento e evolução em todas as espécies. Ecopsicólogos se posicionam de forma a ver o ser humano como uma parte integral de um sistema maior e que a saúde deste sistema requer relacionamentos sustentáveis e mutuamente apoiadores, não apenas entre suas partes, mas também entre as partes e o todo. O funcionamento saudável precisa incluir a consciência de sua interconectividade e interdependência, uma compreensão que tem sido uma parte essencial das tradições xamânicas por, pelo menos, 30 mil anos. Existem muitas variantes desse campo, mas todas elas criticam o que eles vêem como a tendência da ênfase psicológica na separação do indivíduo de outras pessoas e do meio ambiente natural. Para ser saudável psicologicamente, a pessoa deve reconhecer que o planeta está em perigo e fazer esforços autênticos para salvá-lo. Escrevendo com base em uma perspectiva ecopsicológica, Ralph Metzner propôs que "curar o planeta" é basicamente uma jornada xamânica; sendo assim, o estudo psicológico do xamanismo pode exercer uma função vital nessa empreitada (Metzner, 1999). Talvez o protótipo do xamã poderia servir como o "modelo de pessoa responsável" a exibir o "comportamento ambientalmente responsável" (Kaplan, 2000).

Theodore Roszak tem postulado um inconsciente ecológico, representando o "elemento selvagem" em seres humanos que crescerá para encontrar as necessidades ambientais desses tempos. Ele diz que, como nosso senso de "continuidade ética e psicológica com o mundo não humano se aprofunda, temos a chance de recapturar (...) alguns traços de nossa sensibilidade ancestral". Os modelos xamânicos têm um papel importante em evocar essa sensibilidade e a cura xamânica "está envolta em um lugar e em uma história, nos ritmos climáticos, nos contornos de uma paisagem onde os pássaros e as bestas têm sido íntimos companheiros durante séculos" (Roszak, 1992). Xamãs foram os primeiros grupo-terapeutas e seus grupos incluíam espíritos de animais e de ancestrais."

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Estados alterados de consciência

Vejamos mais um trecho do artigo: Os primeiros curadores da humanidade: abordagens psicológicas e psiquiátricas sobre os xamãs e o xamanismo de Stanley Krippner, publicado na Rev. psiquiatr. clín.,v.34;supl.1,São Paulo, 2007

"Os primeiros exploradores e etnógrafos russos sugeriram que os primeiros xamãs eram simples curadores da natureza. Porém, durante a última fase feudal da evolução social, eles teriam inventado os espíritos e, com isso, necessitaram desenvolver os estados alterados de consciência (EAC) a fim de contatar e se comunicar com esses espíritos (Hoppál, 1984).

Mais recentemente, Érika Bourguignon pesquisou 488 sociedades e descobriu que 89% delas tinham um ou mais EACs culturalmente adaptados. Ela concluiu que a capacidade de experienciar EACs era uma capacidade psicobiológica básica de todos os seres humanos (Bourguignon, 1974). Recentemente tem sido sugerido que a "consciência ampliada" pode ser, na realidade, uma descrição mais acurada do que um "estado alterado" porque as intensas experiências xamânicas do mundo natural são descritas com frases como "muitas vezes as coisas parecem resplandecer" (Berman, 2000).

A maioria dos estudiosos, contudo, ainda favorece a idéia de que EACs são básicos para o xamanismo, especialmente a "incorporação espiritual" e a "viagem astral". Essa conclusão foi recentemente reforçada pelo arqueólogo britânico Stephen Mithen, que sugeriu que a fluidez cognitiva que criou a explosão cultural das eras Paleolítica Média e Superior também trouxe o desenvolvimento de EACs (Mithen, 1996). Winkelman concorda, sugerindo que os dados psiconeurológicos indicam que as tradições xamânicas institucionalizaram procedimentos para superar a fragmentação natural da consciência ao sincronizar a cognição humana pela indução de processos cerebrais integrativos (Winkelman, 2000a).

Com o objetivo de determinar os pontos em comum entre os vários EACs xamânicos, Larry Peters e Douglas Price-Williams compararam 42 sociedades de quatro áreas culturais diferentes. Eles identificaram três elementos comuns: controle voluntário do início e da duração dos EACs; memória da experiência depois do EAC; e a habilidade de se comunicar com os outros durante o EAC (Peters e Price-Williams, 1980). Ruth-Inge Heinze assinalou que a diferença básica entre xamãs e médiuns parece ser que "os xamãs são capazes de embarcar em um vôo mágico e se manterem os atores durante suas performances. Por outro lado, os médiuns são possuí­dos pelos espíritos que utilizam os corpos humanos através dos quais eles são capazes de atuar" (Heinze, 1982).

Além disso, os xamãs, tipicamente, viajam no mundo espiritual com mais freqüência que os outros praticantes. Eles podem viajar da "terra média" para o "mundo superior" para visitar espíritos ancestrais, para o "mundo inferior" para visitar animais de poder e viajar ao passado, ao futuro e a áreas remotas do globo. Os espíritos encontrados em cada um desses planos diferem de sociedade para sociedade, mas a jornada xamânica é tipicamente ligada à habilidade de entrar em EACs.

O termo mais freqüentemente utilizado para denotar a natureza voluntária da personificação do espírito é "incorporação". Essa pode ou não estar acompanhada por amnésia para a experiência, dependendo do praticante e do treinamento cultural dele ou dela. Na "possessão", no entanto, o indivíduo geralmente incorpora o espírito de uma maneira involuntária ou imprevisível e, normalmente, há amnésia para a experiência. A noção de possessão espiritual representa um problema para os psicólogos porque é uma explicação implícita, bem como uma descrição. Vincent Crapanzano a define como "qualquer estado alterado de consciência que seja interpretado pelos nativos em termos da influência de um espírito externo" (Crapanzano, 1977).

T. K. Oesterreich define possessão de maneira mais comportamental, observando que a pessoa possuída parece estar invadida por uma personalidade diferente que se manifesta por meio de mudanças na fisionomia, personalidade, voz ou funções motoras. Ele diferencia formas xamânicas de "possessão voluntária" ou incorporação e a "possessão involuntária" de vítimas de bruxarias ou de espíritos malévolos (Oesterreich, 1966).

Ecos dessas práticas podem ser encontrados em igrejas pentecostais onde membros da congregação "falam em línguas", nas igrejas evangélicas e carismáticas, cujos membros afirmam estarem "cheios do Espírito Santo" e em algumas igrejas protestantes nos Estados Unidos, com predominância de membros afro-americanos quando estes, espontaneamente, gritam, recitam cânticos e dançam durante uma roda na qual hinos são cantados.

Peter e Price-Williams descobriram que xamãs em 18 de 42 sociedades pesquisadas por eles estavam envolvidos com incorporação espiritual, 10 em experiências fora do corpo, 11 em ambos e três em diferentes formas de EACs (Peters e Price-Williams, 1980). Num estudo posterior, eles compararam EACs com um rito de passagem no qual um episódio de pânico ou medo transformou-se em insights, resultando em uma nova integração de vários elementos da personalidade da pessoa (Peters e Price-Williams, 1983).

A pesquisa transcultural de Winkelman de 47 sociedades colheu dados demonstrando que ao menos um praticante em cada população apresentou indução a um EAC associado com o treino de papéis. Os procedimentos específicos de indução incluíam substâncias que alteram a mente, como álcool, opiáceos, psicodélicos, estimulantes e tabaco, estimulação auditiva mediante o bater de tambores ou de matracas; exposição a temperaturas extremas; abstinência sexual; isolamento social; indução ou privação do sono; restrições alimentares; convulsões induzidas; comportamento motor excessivo e relaxamento extremo.

Enquanto a sua análise indica alguns padrões distintos de incorporação e vôos mágicos, ele encontrou casos de profundos EACs que não envolviam nenhuma dessas características. A sua apresentação do modelo psicofisiológico unificado de EAC é que este é "um estado parassimpático dominante, caracterizado pela dominância do córtex frontal por descargas de ondas lentas originadas do sistema límbico" (Winkelman, 1992), interagindo com diversas variáveis sociais.

Há formas adicionais nas quais os xamãs são capazes de alterar suas consciências: pelo entoar de encantamentos dos xamãs de Taiwan; pulando, como nas 16 a 24 horas de cerimônia kut dos xamãs coreanos; por imagens mentais, tais como as práticas de visualização dos xamãs tamang no Nepal que vêem seus espíritos mentores antes de incorporá-los. Freqüentemente, xamãs utilizam dois ou mais procedimentos simultaneamente para alterar a consciência. Os xamãs coreanos combinam bater de tambores com pulos; os xamãs Arapaho fumam um cachimbo cerimonial e esfregam seus corpos com salvia, em combinação com os tambores. Foi demonstrado que o bater de tambores pode produzir ativação cerebral por coincidir com a freqüência theta EEG, ou seja, em torno de quatro a oito ciclos por segundo, através de indução auditiva (Neher, 1961). Pesquisas mais recentes têm relatado que as ondas cerebrais theta são sincronizadas com batidas monótonas de tambor de três a seis ciclos por segundo, um ritmo associado com muitos temas de rituais xamânicos (Maxfield, 1994). Melhora em estados de humor positivos e aumento da resposta imune positiva, como a medida pela concentração de imunoglobulina salivar A (IgA-S), também têm sido relatados durante o tocar de tambores xamânicos (Harner e Tyron, 1996). A batida de tambor rítmica também tem um efeito salutar sobre o sistema imune dos membros de grupos, como foi mensurado pelo aumento da atividade das células natural killer (Pappas e Ninehouser, 2001)."

 

 

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