Alterações da Afetividade

A afetividade pode, além de normal, alterar-se até a Depressão, Euforia ou outros estados afetivos
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A afetividade compreende o estado de ânimo ou humor, os sentimentos, as emoções e as paixões e reflete sempre a capacidade de experimentar o mundo subjetivamente. A afetividade é quem determina a atitude geral da pessoa diante de qualquer experiência vivencial, promove os impulsos motivadores e inibidores, percebe os fatos de maneira agradável ou sofrível, confere uma disposição indiferente ou entusiasmada e determina sentimentos que oscilam entre dois pólos e transitam por infinitos tons entre esses dois pólos, a depressão e a euforia.

Desta forma, a afetividade é quem confere o modo de relação do indivíduo à vida e será através da tonalidade desse estado de ânimo que a pessoa perceberá o mundo e a realidade. Direta ou indiretamente a afetividade exerce profunda influência sobre o pensamento e sobre toda a conduta do indivíduo.

Trata-se de uma qualidade vivencial do indivíduo em relação ao objeto, do tipo de estado em que ele está na vivência atual desse objeto. O objeto pode ser uma coisa, pessoa, acontecimento externo, perspectivas futuras ou algo relativo ao estado de seu corpo - o que chamamos de vivências externas. (o “corpo” aqui, está fora do psíquico, por isso vivência externa). Existem também as vivências internas, representadas pelos conteúdos ou acontecimentos mentais. Entretanto, seja qual for a natureza da vivência, externa ou interna, ela só participa da consciência se acoplada a um afeto. Às vezes temos a impressão que a consciência só reconhece vivências quando grudadas nos afetos, e aquelas sem estes, não têm significado existencial. 

Assim sendo, os afetos são inerentes às vivências, e não existe vivência sem afeto. Isso faz a diferença entre a vida e a biografia de uma pessoa; a vida é uma sucessão de vivências e a biografia, uma seqüência de fatos. Ao viver uma vivência, a pessoa experimenta um estado afetivo intrinsecamente ligado a essa vivência, que é a valoração emocional daquela vivência. Esse é, então, o afeto integrado à vivência. O afeto é, portanto, uma qualidade vivencial e é, conseqüentemente, o significado emocional daquilo que a pessoa está vivendo naquele momento. 

O estado psíquico global com que a pessoa se apresenta e vive reflete a sua afetividade. Tal como as lentes dos óculos, os filtros da afetividade fazem com que o sol seja percebido com maior ou menor brilho, que a vida tenha perspectivas otimistas ou pessimistas, que o passado seja revivido como um fardo pesado ou, simplesmente, lembrado com suavidade. A afetividade interfere qualitativamente na realidade percebida por cada um de nós, mais precisamente, na representação que cada pessoa tem do mundo, de seu mundo. O estado afetivo tende a impregnar as vivências de significado sentimental.  

Podemos pensar na afetividade como o tônus energético capaz de impulsionar o indivíduo para a vida, como uma energia psíquica dirigida ao relacionamento do ser com sua vida, como o humor necessário para valoração das vivências. A afetividade colore com matizes variáveis todo relacionamento do sujeito com o objeto, faz com que os fatos sejam percebidos desta ou daquela maneira, e que estimulem este ou aquele sentimento. 

Afetos são os  atributos da pessoa que qualificam os objetos do mundo interno e externo. Em relação à unidade-sujeito, em relação ao EU, os afetos nos permitem dizer: eu estou triste, eu estou alegre, estou interessado, amando, com raiva. É sempre um estado em que eu estou. Deste modo, afetos são estados do EU.

Estado Afetivo (circunstancial)
Há sempre um Estado Afetivo Circunstancial para cada pessoa, um tônus afetivo neste exato momento, atribuindo devidos valores às vivências em condições normais, seja a tristeza na tragédia ou a alegria na comédia. Este Estado Afetivo Circunstancial é variável de momento para momento numa mesma pessoa; ora o humor está mais elevado, ora mais rebaixado. Um mesmo fato que nos parece demasiadamente desagradável no meio do dia poderá parecer muito mais ameno à noite, ou uma mesma brincadeira que nos fez rir ontem poder nos irritar hoje. Nestes casos não estaria havendo variação ou mudança nos fatos, mas sim na representação deles, segundo os "filtros" do afeto. 

O desenho abaixo (Figura 1) simboliza um túnel onde a Afetividade Circunstancial oscila entre as posições a, b e c, ou seja, respectivamente entre estar o afeto rebaixado (deprimido), normal e elevado (eufórico), respectivamente. Entretanto, essa oscilação dá-se dentro de determinados limites (as paredes do túnel). Esse túnel, mais precisamente, o diâmetro desse túnel, representa a Tonalidade Afetiva Básica. No Transtorno Afetivo Bipolar esse túnel teria um diâmetro muitíssimo grande, ou seja, permitiria que o afeto oscilasse entre o estado profundamente deprimido e exageradamente eufórico.

Figura 1

Tunel 1

Dentro da Tonalidade Afetiva (túnel do desenho da Figura 1) pode haver variações quantitativas da Afetividade Momentânea, mas em condições normais essas variações não são infinitas na mesma pessoa, ou seja, poderá haver variações dentro de limites estabelecidos por um determinado perfil constitucional. Em decorrência deste perfil constitucional, cada indivíduo terá suas possibilidades individuais de variação, de tal forma que o entusiasmo máximo de uns não corresponde, absolutamente, ao entusiasmo máximo de outros, ou o abatimento máximo de uns será diferente do abatimento máximo de outros.

Tonalidade Afetiva (básica)
Se fosse possível representar graficamente a Tonalidade Afetiva Básica e o Estado Afetivo Circunstancial das pessoas, seria algo parecido como a figura de túneis, como aqueles do exemplo anterior, representando a Afetividade Básica, e dentro de cujos limites oscilaria a Afetividade Circunstancial. Esta Afetividade Circunstancial poderia, em determinados momentos, situar-se na parte mais rebaixada do túnel e, em outros, na parte mais elevada, porém, sem abandonar os limites estabelecidos por este túnel. Idéia já comentada na analogia anterior.  

Cada pessoa tem seu “túnel” situado mais alto ou mais baixo, ou seja, para uma personalidade cujo “túnel” encontra-se num nível superior, se sua Afetividade Circunstancial estiver a mais rebaixada, mesmo assim não será tão baixa quanto a afetividade de uma outra personalidade cujo “túnel” está situado em posição mais inferior.  

Para melhor entendimento vejamos o exemplo gráfico abaixo, onde há túneis de diâmetros variados e em níveis igualmente variados, os quais permitem uma oscilação ampla da afetividade dentro de um mesmo “túnel”, e outros em “túneis”situados em diferentes níveis.

Figura 2

Tunel 2

O perfil afetivo, de acordo com as possibilidades de variação da afetividade de cada um, conforme as características da personalidade e representados no exemplo pelos níveis diferentes dos “túneis”, pode ser entendido como a "marca registrada" da Afetividade Básica da pessoa. Vamos chamar isso de Tonalidade Afetiva Básica. Resumindo, podemos dizer que a Afetividade Circunstancial é a afetividade variável, dentro dos limites estabelecidos pela Tonalidade Afetiva Básica de cada um. 

Podemos perceber as características da Tonalidade Afetiva tomando como referência, por exemplo, um dos traços da personalidade: a introversão ou a timidez. As pessoas que conhecemos como introvertidas ou tímidas dificilmente se nos apresentarão completamente desinibidas e expansivas de repente. Poderão, dependendo das circunstâncias vivenciais e da sua Afetividade Circunstancial, se mostrarem mais tímidas ou menos tímidas, porém, extrovertidas nunca. Da mesma forma os extrovertidos ou expansivos; dependendo do momento poderão se apresentar mais eufóricos ou discretamente aborrecidos, porém, muito depressivos jamais. Há, por outro lado, situações peculiares de personalidade que permitem oscilações extremadas da afetividade, tal qual nos indivíduos chamados ciclotímicos, ou mais gravemente ainda, nos afetivos bipolares. 

Os afetos expressam todas as nuances do desejo, do prazer e da dor e todas estas nuances permeiam nossas experiências sensíveis sob a forma daquilo que chamamos sentimentos vitais, humor e emoções. 

O humor ou Tonalidade Afetiva Circunstancial (ou afetividade momentânea) consiste na soma total dos sentimentos presentes na consciência em dado momento, acompanhando os processos intelectuais (percepções, representações, conceitos) neste exato momento e que varia de acordo com as circunstâncias. A consciência está a todo instante impregnada por esta Tonalidade Afetiva, pois toda cognição está, desde a sua origem, revestida de uma tonalidade afetiva. No estado de ânimo há a confluência de uma vertente somática e de uma vertente psíquica, que se unem de maneira indissolúvel para dar, como conseqüência, um colorido especial à vida psíquica momentânea. 

A Tonalidade Afetiva Circunstancial da pessoa, como a alegria, o bem estar, júbilo, felicidade, inquietação, angústia, tristeza, desespero etc., depende das circunstâncias de vida, do atendimento ou não dos desejos atuais, das inclinações etc. Depende ainda e, especialmente, da saúde física. Muitas alterações desfavoráveis do estado afetivo são perfeitamente compreensíveis e refletem respostas adequadas aos motivos psicológicos causais, como, por exemplo, a morte de um parente, uma enfermidade grave, um acidente, um rompimento amoroso e assim por diante.

Sentimentos
Segundo Kurt Schneider, um dos componentes principais do estado de ânimo é o sentimento geral de maior ou menor vitalidade que se encontra ligado a múltiplas sensações dos diferentes órgãos ou regiões do corpo. O afeto (humor) é vivido corporalmente e está unido à própria corporeidade. É exemplo disso o afeto (humor) eufórico do paciente maníaco, o qual sente o seu próprio corpo como flutuante, infatigável e cheio de vigor, enquanto o depressivo sente-o como apagado, pesado, fraco, decaído e murcho. O estado de ânimo depende consideravelmente das condições vegetativas do organismo e, de modo especial, de uma função que tem o seu centro no diencéfalo, à qual se dá o nome de função tímica.  

Enquanto o afeto tem uma representação corpórea mais pronunciada, o sentimento aparece como um estado emocional mais atenuado, estável, duradouro e organizado com maior riqueza e complexidade. Kurt Schneider considera os sentimentos como estados do eu que não podem ser controlados pela vontade e que são provocados por nossas representações, pelos estímulos procedentes do mundo exterior ou por alterações sobrevindas no interior do organismo. Uma classificação dos sentimentos com base em sua estratificação foi estabelecida por Max Scheler, que os diferencia em quatro grupos:  

1) sentimentos sensoriais;
2) sentimentos vitais;
3) sentimentos anímicos ou psíquicos, considerados como sentimentos do eu;
4) sentimentos espirituais ou da personalidade.  

Os Sentimentos Sensoriais se encontram muito próximos da corporeidade, estão localizados em determinadas partes sensíveis do corpo e se representam tais como a dor e o prazer. Esses sentimentos são mais abrangentes e não devem ser confundidos com as sensações simples dos cinco sentidos. Os Sentimentos Sensoriais têm algumas características especiais: atualidade, localização e funcionam como sinal de que algo está ocorrendo, não têm duração definida e falta-lhes a intencionalidade, o que não ocorre com os sentimentos superiores.  

Os Sentimentos Vitais, tais como o bem-estar e o mal-estar, o sentimento de saúde ou de enfermidade, os sentimentos de vida ascendente ou descendente, a calma e a tensão, a alegria, a tristeza e a angústia não espiritual, pertencem ao organismo como totalidade. Ao contrário dos anteriores, os sentimentos vitais não estão localizados corporalmente, neles existe continuidade, duração e intencionalidade. 

Os Sentimentos Anímicos ou psíquicos pertencem ao eu e são formas sentimentais reativas diante do mundo exterior. A tristeza e a alegria intencionais e reativas são claramente formas de sentimentos anímicos. A pessoa pode tornar-se triste ou alegre em conseqüência de uma notícia, o que demonstra, neste caso, a participação ativa do eu. Os sentimentos anímicos, então, não estão ligados à percepção, mas sim ao sentido, ao significado e representação daquilo que é percebido. Tristeza e alegria são uma modalidade do eu, e são sentimentos vitais, quando provenientes do fundo endotímico ou afetivo. 

Por último, os Sentimentos Espirituais. Trata-se de sentimentos relativos ao núcleo da personalidade e à sua atitude afetiva diante de determinada situação. Esses sentimentos derivam do núcleo de sua personalidade, do próprio eu, e ocasionam o sentido pleno dos sentimentos, assim como as tendências valorativas da pessoa. O desespero, o remorso, a paz, o amor, o arrependimento, o perdão e a serenidade espiritual são exemplos deste sentimento sublime e supremo.

Hipertimia (afetos expansivos)
Na propedêutica dos Distúrbios da Afetividade, os Afetos Expansivos são considerados por alguns autores como afetos agradáveis. Isso, em contraposição aos afetos depressivos, considerados como desagradáveis. A tonalidade afetiva dos estados expansivos é de prazer, confiança e felicidade, daí a denominação de afetos agradáveis. Genericamente, o estado afetivo expansivo e conhecido como Euforia

Na hipertimia ou estado de ânimo morbidamente elevado distinguem-se a euforia e a exaltação afetiva. A euforia simples se traduz por um estado de completa satisfação e felicidade. Verificam-se elevação do estado de ânimo, aceleração do curso do pensamento, loquacidade, vivacidade da mímica facial, aumento da gesticulação, riso fácil e logorréia.  

A euforia simples é observada nos indivíduos predispostos constitucionalmente e, em sua forma pura, na fase maníaca, da psicose maníaco-depressiva, nos estados hipomaníacos, na embriaguez alcoólica, na demência senil e na paralisia geral. Na epilepsia, podem-se verificar estados de euforia simples, nas crises de automatismos mímicos, em geral de duração rápida, que se manifestam por acessos ou crises agudas. 

O paciente eufórico apresenta uma postura psíquica de otimismo exagerado, sentimento de plenitude e bem estar acima do normal, confiança em si mesmo aumentada e uma sólida segurança. Encontramos este estado de Euforia nos pacientes maníacos e hipomaníacos, conforme veremos ao estudarmos as entidades nosológicas. 

O estado expansivo do humor pode aparecer como reação emocional a alguma vivência muito agradável, uma espécie de Reação Vivencial Eufórica em nível de uma Situação Real. Nestes casos falamos em Exaltação; reações exuberantes que se rompem em explosões de transbordamento de alegria, reconhecidamente exagerados, mas compreensivas diante da vivência causal. A Exaltação de um indivíduo que, por exemplo, ganha um prêmio ou é promovido no emprego, normalmente se traduz por hiperatividade psicomotora, taquipsiquismo, verborragia, anorexia, insônia, hilaridade e alegria transbordante. Portanto, manifesta-se como uma reação compatível, mas desproporcional ao evento causador. 

Os estados de Euforia podem, por outro lado, surgir sem que tenha havido uma situação real causadora. O humor é expansivo à nível de Situações Anímicas, tal qual nas experiências delirantes de teor místico ou de beatificação, onde o Delírio tem como tema uma fantasia que proporciona bem estar ao paciente. Nestes casos, o tônus afetivo é ainda mais expansivo que na Exaltação e pode ser denominado de Êxtase. O Êxtase é caracterizado por um peculiar e delicioso senso superior, um desprendimento das coisas materiais e a posse de algum tipo de poder incomum, às vezes, uma grande e irreal religiosidade. Pode aparecer em pacientes psicóticos, delirantes ou personalidades predispostas à idéias supervalorizadas.

Os pacientes portadores deste estado de êxtase experimentam um grande bem estar e suas faces denotam um júbilo indisfarçável. Nestas situações imaginárias, normalmente conseqüentes a idéias delirantes, deliróides ou supervalorizadas, os limites entre o pensamento lógico e mágico são tênues ou rompidos. Seu extremo patológico pode ser exemplificado pela esquizofrenia e, na extremidade limítrofe, pelo fanatismo. 

Finalmente os estados eufóricos podem se manifestar em resposta aos Sentimentos Vitais, via de regra emancipados causalmente dos fatores vivenciais-ambientais. É uma afetividade que brota do interior do ser e, por isso, independe das situações reais ou imaginárias. Trata-se de uma força interior profundamente arraigada à personalidade. Nestes casos os pacientes irradiam deleite e autoconfiança, apresentam hiperatividade motora intensa, excesso de alegria e hilaridade irradiante. Trata-se da Elação.  

Na Elação há um transbordamento dos sentimentos e um afastamento mais acentuado da realidade. Todos os acontecimentos são recebidos com exagerada satisfação e felicidade pelo paciente, o qual se julga completamente imune aos acontecimentos negativos, mantém certa intimidade com divindades cósmicas e comporta-se destemidamente diante de qualquer desafio. 

O Afeto Expansivo, ou seja, os Estados Eufóricos tomados isoladamente não podem ser considerados patognomônicos de nenhuma doença mental específica, mas compõem o quadro sintomático de diversas patologias. Podem fazer parte do quadro de Transtornos Afetivos Bipolares em fase maníaca, de Psicoses Esquizofrênicas ou de Transtornos da Personalidade. Algumas vezes aparecem nas intoxicações agudas por drogas ou em Psicoses induzidas por elas. Isso tudo não inviabiliza o aparecimento da Euforia em outros estados psíquicos, mesmo em casos de morbidade duvidosa. 

Na exaltação patológica há não só euforia, mas também, aumento da convicção do próprio valor pessoal e das aspirações. É acompanhada de aceleração do curso do pensamento, que pode chegar à fuga de idéias, desvio da atenção e certa facilidade para passar rapidamente do pensamento à ação. Pode haver labilidade ou instabilidade afetiva desses pacientes se traduz pela extrema facilidade com que eles passam da euforia à tristeza ou à cólera. O estado de ânimo nesses casos é chamado de distimia expansiva.  

Nos estados de exaltação patológica os pacientes dão a impressão de serem mais jovens, há aumento do vigor geral, manifestações de apetite voraz e de excitação sexual, insônia, grande facilidade dos movimentos expressivos e tendência irresistível à ação.

Hipotimia (depressão)
Na hipotimia ou depressão, verifica-se o aumento da reatividade e sensibilidade para os sentimentos desagradáveis, podendo variar desde o simples mal-estar até ao estupor melancólico. Caracteriza-se, essencialmente por uma tristeza profunda, normalmente imotivada, que se acompanha de lentidão e inibição de todos os processos psíquicos. Em suas formas leves, a depressão se revela através de um sentimento de mal-estar, de abatimento, de tristeza, de inutilidade e de incapacidade para realizar qualquer atividade. 

Os pacientes hipotímicos estão dominados por um profundo sentimento de tristeza imotivada. No doente deprimido, as percepções são acompanhadas de uma tonalidade afetiva desagradável: tudo lhe parece negro. Esses pacientes perdem completamente o interesse pela vida. Nada lhes interessa do presente nem do futuro e, do passado, são rememorados apenas os fatos desagradáveis. As percepções são lentas, monótonas, descoloridas. Ao paciente parece que os alimentos perderam o sabor habitual. Nos estados depressivos, as ilusões são mais freqüentes do que as alucinações. 

As idéias deliróides nos pacientes hipotímicos são comuns, expressando geralmente idéias de culpa, de indignidade, ruína, pecado e de auto-acusação. O pensamento é lento e o próprio ato de pensar é acompanhado de um sentimento desagradável. O conteúdo do pensamento exprime motivações dolorosas. O paciente é incapaz de livrar-se de suas idéias tristes pela simples ação de sua vontade ou dos "pensamentos positivos", como se diz. 

O quadro clínico do estado afetivo depressivo é caracterizado pela inibição geral da pessoa, pelo baixo desempenho global refletido na lentidão e pobreza dos movimentos, pela mímica apagada, pela linguagem lenta, monótona e pelas dificuldades pragmáticas. 

Os sintomas somáticos são bastante evidentes nos pacientes hipotímicos. Os distúrbios vasomotores se traduzem em mãos frias, algumas vezes pálidas e cianosadas, pela palidez dos lábios e hipotermia. São freqüentes os espasmos ou dilatações vasculares, com conseqüente oscilação da pressão arterial. Os pacientes deprimidos dão-nos a impressão de mais velhos. As perturbações digestivas também são constantes, a língua pode se apresentar saburrosa, há alterações do apetite, tanto com inapetência quanto com hiperfagia e constipação intestinal. Os distúrbios circulatórios ocasionam um sentimento subjetivo de opressão na região cardíaca, causando a chamada angústia precordial. 

Em determinados casos, sob a influência de fatores externos ou em conseqüência de causas internas temporárias, a depressão pode aumentar de modo considerável, determinando um estado de excitação ansiosa. Quando o paciente, não encontra solução para seu sofrimento costuma pensar no suicídio. 

A depressão é um dos sintomas fundamentais do Transtorno Afetivo Bipolar, em sua fase depressiva. Estados depressivos também podem ser observados em todas as psicoses e neuroses. No Transtorno Afetivo Bipolar, entretanto, a depressão tem uma origem ligada a fatores afetivos internos (sentimentos vitais), que escapam à compreensão do doente e de seus familiares. 

Nas Distimias, nas Reações Agudas ao Estresse e nas neuroses de modo geral, a depressão costuma ser mais reativa, isto é, mais psicogênica (mais anímica que vital), originando-se de situações psicologicamente compreensíveis e de experiências desagradáveis. A anormalidade do sentimento depressivo nesses quadros psicogênicos está na intensidade e na duração desse afeto em comparação às pessoas normais e não em sua qualidade, como acontece nos Transtornos Afetivos Bipolares

O termo Depressão, mais comumente usado que Hipotimia, pode significar um sintoma que faz parte de inúmeros distúrbios emocionais sem ser exclusivo de nenhum deles. Pode significar uma síndrome traduzida por muitos e variáveis sintomas somáticos ou pode significar uma doença, caracterizada por marcantes alterações afetivas. Portanto, não está errado dizer que o termo Depressão seja por demais descritivo e muito pouco explicativo. Há sempre uma estranha expectativa do público ao ouvir, do psiquiatra, com freqüência, que isso ou aquilo é Depressão, sem muito zelo com maiores explicações sobre este misterioso fenômeno. 

O público está certo, ao estranhar a ostensiva e constante presença desta tal Depressão em quase tudo que diz respeito aos transtornos emocionais e, os psiquiatras, não estão menos certos ao procurarem descobrir uma ponta de Depressão em quase tudo que lhes aparece pela frente.  

Do ponto de vista semiológico, seria extremamente fácil e cômodo se a Depressão fosse caracterizada, exclusivamente, por um rebaixamento do humor com manifestação de tristeza; coisa que até o amigo íntimo, o vizinho ou o dono da padaria da esquina poderiam diagnosticar. Entretanto, não se trata de saber se o paciente tem ou não Depressão, mas sim, o que exatamente ele faz com a sua Depressão, mais precisamente, de que forma este transtorno afetivo nele se manifesta. 

Os afetos depressivos, da mesma forma como dissemos dos afetos expansivos, podem aparecer como uma resposta a Situações Reais, através de uma Reação Vivencial Depressiva, quando diante de fatos desagradáveis, aborrecedores, frustrações e perdas. Trata-se, neste caso, de uma resposta a conflitos íntimos e determinados por fatores vivenciais. Daí denominação Depressão Reativa, ou seja, em reação a alguma coisa real e acontecida, à uma fonte exógena que pode ser casualmente relacionada àquela reação. 

Esta Depressão Reativa, embora compreensiva por tratar-se de uma reação afetiva à uma vivência desagradável, não deve ser entendida como normal e fisiológica mas apenas compreensível. Diante de fatos desagradáveis podemos esperar, fisiologicamente, a tristeza e não a Depressão e, quanto à isso, não devemos fazer nenhuma confusão. Esta última, a Depressão, deve ser uma denominação reservada para as Reações Vivenciais Anormais proporcionadas por circunstâncias vivenciais desagradáveis, ou seja, reações desproporcionais em quantidade, qualidade e temporalmente ao agente causal. Os sentimentos de tristeza que normalmente acompanham situações frustrantes são diferenciados da Depressão por não comportarem a tríade sintomática de Inibição Psíquica, Estreitamento de Campo Vivencial e Sofrimento Moral

A Depressão pode aparecer ainda acompanhado, ou aparentemente motivada, por Situações Anímicas. Neste caso, certas perspectivas futuras, certos anseios e objetivos de vida estão representados intrapsiquicamente de maneira negativa. Há um sentimento depressivo associado às conjecturas irreais de tal forma que o panorama atual dos acontecimentos e a expectativa do porvir são funestamente valorizados. Sofre-se por aquilo que não existe ainda ou, muito possivelmente, nem existirá. Um exemplo disso é a depressão experimentada diante da possibilidade da perda de um emprego, ou da perspectiva de vir a sofrer de grave doença e assim por diante. 

Evidentemente, não se trata aqui, de que tais perspectivas sombrias estejam a alimentar a Depressão, mas muito pelo contrário, ou seja, a Depressão é quem confere um significado lúgubre às possibilidades do futuro. Não se pode acreditar que, neste caso, exista uma relação causal vivencial solidamente vinculada à Depressão, pois, de qualquer forma, as situações referidas como promovedoras e alimentadoras da Depressão não aconteceram ainda. Em outros termos e de acordo com que se sabe sobre Reações Vivenciais (vide adiante), falta o elemento estressor, o qual existe apenas na imaginação do paciente. Portanto, é lícito pensar já numa Depressão mais profundamente arraigada no ser, a qual, embora atrelada à personalidade, utiliza os elementos vivenciais apenas para nutrir sua necessidade de sofrimento (uma vez que, ainda não aconteceram concretamente). 

Há, finalmente, casos de Depressão procedentes de um temperamento francamente depressivo ou seja, a nível de Sentimentos Vitais. São, neste caso, transtornos da afetividade emancipados dos elementos vivenciais quanto à causalidade. Isso não impede que sejam desencadeados por vivências traumáticas. Trata-se de uma Tonalidade Afetiva Básica rebaixada e, evidentemente, talhada à reagir sempre depressivamente à vida. 

As pessoas que se encontram depressivas durante uma fase de suas vidas, cujo contexto vivencial sugere-nos uma circunstância sofrível, quer como conseqüência de um fato único, quer como uma somatória de fatos traumáticos sucessivos, sem que possamos detectar um temperamento depressivo prévio, provavelmente estarão apresentando uma Depressão Reativa. Neste caso, esta reação depressiva não pode ser tida como decorrência de uma Tonalidade Afetiva Depressiva de Base, mas como uma resposta emocional à uma circunstância de vida. Daí empregar-se, antigamente, a denominação de Depressão Exógena, ou seja, dependente de fatores externos à personalidade da pessoa. Depois de estabelecido nesta pessoa o estado depressivo, ainda que, conseqüente a fatores reais e externos à sua personalidade, tudo mais em sua vida parecerá depressivo, até que saia desta fase afetiva. Assim sendo, poderá também ser pessimista quanto à sua situação futura, portanto, depressivo quanto a Situações Imaginárias

Da mesma forma, os pacientes portadores de Tonalidade Afetiva Depressiva de Base, por possuírem um temperamento previamente depressivo, independentemente dos fatos vividos, sempre estarão tingindo de negro suas perspectivas futuras. São portadores da, anteriormente denominada, Depressão Endógena e, como se viu, relacionada não apenas ao Sentimentos Vitais como também às Situações Imaginárias

A questão em se saber a natureza endógena ou exógena do estado depressivo, hoje em dia, parece não despertar o mesmo interesse de antes. Os indivíduos com características afetivas depressivas (anteriormente denominados de depressivos endógenos) reagirão sempre aos estímulos da vida de uma forma consoante ao seu afeto depressivo, portanto, dando-nos a falsa impressão de apresentarem Depressão Reativa: a maioria dos eventos, para eles, terá uma conotação negativa. Por outro lado, a clínica tem mostrado, com freqüência, determinadas vivências bastante suportáveis para alguns, ocasionando, em outros, verdadeiras Reações Depressivas. Isso nos sugere que tal Reação Depressiva não deve ser legada apenas aos elementos vivenciais. 

No fundo, considerando o estado afetivo no qual o indivíduo se encontra no momento, tem sido tarefa muito penosa estabelecer a natureza de sua Depressão. Nestes casos, recorremos quase sempre à personalidade pregressa do paciente; se a tonalidade afetiva era, anteriormente, depressiva, há possibilidade deste estado depressivo atual ser de natureza endógena, mas mesmo assim não será uma implicação obrigatória. 

Outras vezes, também de acordo com exemplos cotidianos da prática clínica, personalidades previamente bem adaptadas e sugerindo uma boa adequação afetiva poderão, não obstante, apresentar fases de profunda Depressão sem motivação vivencial. Procura-se, nestes casos de depressão sem motivação ambiental ou, talvez, em atenção a um conforto do terapeuta, justifica-la como decorrência da eventual somatória de vivências passadas. Certeza disso, entretanto, ninguém pode ter. 

A psicopatologia recomenda como válido a existência de apenas três sintomas depressivos clássicos e suficientes para sua detecção, no entanto, estes sintomas podem manifestar-se de infinitas maneira nas diversas pessoas. Trata-se, esta tríade, da Inibição Global, do Estreitamento do Campo Vivencial e do Sofrimento Moral. Compete à sensibilidade do observador, relacionar um sentimento, uma conduta, um pensamento ou um determinado sintoma como sendo uma tradução pessoal e individual de um desses três sintomas básicos da Depressão, tradução esta adequada a disposição pessoal da personalidade de cada um. 

A- Inibição Global
Inibição Global
é uma espécie de freio ou lentificação dos processos psíquicos em sua globalidade, uma dormência generalizada de toda a atividade mental. Em graus variáveis, esta inibição geral torna o indivíduo apático, desinteressado, lerdo, desmotivado, com dificuldade em suportar tarefas elementares do cotidiano e com grande perda na capacidade em tomar iniciativas. O campo da consciência e da motivação estão seriamente comprometidos, daí a dificuldade em manter um bom nível de memória, de rendimento intelectual, da atividade sexual e até da agressividade necessária para tocar adiante o dia-a-dia. 

Percebe-se os reflexos desta Inibição Global inclusive na atividade motora, bastante diminuída, e até na própria expressão da mímica, através da aparência de abatimento e de desinteresse. Esta Inibição Global tem sido a responsável pelo longo itinerário que tais pacientes percorrem antes de se acertarem com um tratamento psíquico. Começam pensando tratar-se de anemia, fraqueza, problema circulatório, depois passam a tratamentos alternativos de macrobiótica, yoga, tai-chi-chuam, submetem-se a passeios de gosto duvidoso levados por amigos bem intencionados e, muitas vezes, consultam até um neurologista. É o mais próximo que chegam da mente, provavelmente por considerarem que "nervoso" é uma doença ruim que só dá nos outros. 

Diante da Inibição Global da Depressão, uma das primeiras atitudes é submeter-se a algum exame de sangue, depois inúmeras radiografias. Normalmente a causa psíquica é a última a ser questionada, embora seja a primeira que se faz sentir. Os que rodeiam o paciente portador de Inibição Global são solícitos em lembrá-lo de que a vida é boa, ressaltam que nada lhes falta, que gozam de saúde, não são ricos, mas tem gente em pior situação, pertencem a uma família decente e compreensiva... O paciente, por outro lado, não sendo um retardado mental, sabe de tudo isso e as palavras estimulantes apenas aumentam sua perplexidade e seu aborrecimento consigo mesmo. A Inibição Global é secundária à Depressão, um sintoma decorrente da Depressão e não uma doença que corrompe o juízo crítico, tornando os pacientes completamente desorientados em relação às condições de vida ou familiar. Para tratá-la, de fato, deveremos abordar o problema de base, ou seja, abordar a Depressão.

B- Estreitamento do Campo Vivencial
O Estreitamento do Campo Vivencial não pode ser diferenciado totalmente da Inibição Psíquica. A palavra mais adequada para designar este fenômeno é Anedonia, ou seja, a incapacidade em sentir prazer. Acontece que o deprimido destina a maior parte de sua energia psíquica para a manutenção da Depressão. Vale aqui o ditado de que a alegria consome-se em si própria e a depressão alimenta-se a si mesma. Esta destinação da energia psíquica para a manutenção da Depressão faz com que faltem forças para a manutenção do ânimo para todo panorama existencial. 

O universo vivencial do deprimido vai sendo cada vez menor e mais restrito e a preocupação com seu próprio estado sofrível toma conta de todo seu interesse vivencial. Não há ânimo suficiente para admirar um dia bonito, para interessar-se na realização ocupacional, para degustar uma boa bebida, para deleitar-se com um filme interessante, para sorver uma boa companhia, para incrementar sua discoteca, enfim, em seu rol de ocupações só existe a preocupação consigo próprio. Nada mais lhe dá prazer, nada mais pode motivá-lo. 

Neste caso o campo vivencial fica tão estreitado que só cabe o próprio paciente com sua Depressão, o restante de tudo que a vida pode lhe oferecer não mais interessa. Enquanto a Inibição Global pode ser entendida como aspectos mais exteriores do relacionamento do indivíduo com o mundo, como uma espécie de prejuízo em seu rendimento de relacionamento, o Estreitamento do Campo Vivencial, por sua vez, denota uma alteração mais interiorizada, um prejuízo nas impressões que os objetos causam no sujeito. Um é centrífugo o outro centrípeto.

C - Sofrimento Moral
O Sofrimento Moral, ou sentimento de menos-valia, é o fenômeno mais marcante e mais desagradável na trajetória do depressivo. É um sentimento de autodepreciação, auto-acusação, inferioridade, incompetência, pecaminosidade, culpa, rejeição, feiúra, fraqueza, fragilidade e mais um sem-número de adjetivos autopejorativos. Evidentemente, tais sentimentos aparecem em grau variado; desde uma sutil sensação de inferioridade até profundos sentimentos depreciativos. 

Quando a Depressão adquire características psicóticas o Sofrimento Moral pode ser traduzido sob a forma de delírios humor-congruentes. Um judeu psicótico depressivo, durante uma de suas crises de depressão profunda apresentava um pensamento francamente delirante, o qual dava-lhe a certeza de ter parte de seu cérebro apodrecido. Igualmente, julgava-se culpado por ter ingerido, contra os preceitos de sua religião, carne suína há mais de 15 anos atrás. Uma espécie de punição divina aplicada ao pecador incauto. 

O prejuízo da auto-estima proporcionado pela Depressão pode ainda, dependendo da intensidade, determinar uma ideação claramente paranóide, onde a culpa adquire uma posição destacada. Para fins de diagnóstico, deve-se ter em mente que nas psicoses esquizofrênicas, onde freqüentemente aparece a ideação paranóide, a auto-estima não se encontra perturbada como nos estados depressivos psicóticos. Esta observação pode auxiliar o diagnóstico diferencial entre uma depressão com sintomatologia psicótica (ideação deliróide) e uma psicose esquizofrênica (com delírios). 

O Sofrimento Moral deve, ainda, ser considerado como o sintoma mais responsável pelo desfecho suicida das depressões severas. Aparece como uma prova doentia da incompetência do ser, de seu fracasso diante da vida e de sua falência existencial. Enquanto nos estados eufóricos a auto-estima encontra-se patologicamente elevada e as idéias de grandeza proporcionam uma aprazível sensação de bem-estar ao paciente, na Depressão, através do Sofrimento Moral, coloca-se numa das posições mais inferiores entre seus semelhantes. 

Apatia (indiferença afetiva)
Bleuler
salienta, com muita razão, que a Apatia Afetiva no sentido de que a afetividade esteja completamente abolida, não se observa nunca em nenhuma psicose, entretanto, a diminuição do afeto é um sintoma constante em várias enfermidades mentais. Na esquizofrenia, por exemplo, os autores antigos admitiam a existência de um "embotamento afetivo", no sentido de uma derrocada completa da afetividade. 

Observações posteriores revelaram que o que se verifica, na realidade, é uma alteração qualitativa dos processos afetivos, tornando os sentimentos dos esquizofrênicos inadequados e inteiramente incompreensíveis para as pessoas afetivamente normais. Os pacientes se conservam apáticos e indiferentes diante de situações emocionais ou se manifestam alegres diante de acontecimentos que, normalmente, provocam tristeza. 

Indiferença afetiva e uma completa ausência de "sensibilidade moral" são observadas em certas personalidades anti-sociais (psicopáticas), especialmente naqueles indivíduos os quais Kurt Schneider chamava de "psicopatas insensíveis". Diz Schneider que esses pacientes “são indivíduos destituídos absolutamente de compaixão, de vergonha, de sentimento de honra, de remorso e de consciência”. A indiferença afetiva revelada por certos criminosos habituais pode até conduzir ao erro de considerá-los como esquizofrênicos. 

Bonhoeffer deixou uma descrição muito viva da apatia afetiva reveladas por alguns delinqüentes, os quais suportam estoicamente uma completa inatividade diante de situações que se tornariam desagradáveis ou insuportáveis para um indivíduo são. Em primeiro lugar, o simples não fazer nada, que se torna tão desagradável às pessoas normais, persiste e pode durar meses seguidos nessas pessoas, sem que nem por um instante sequer revelem alguma iniciativa ou manifestem verdadeiro desejo de trabalhar. Esse estado de apatia, de indiferença emocional, se assemelha a certos casos de falta de afetividade dos hebefrênicos.  

Assim sendo, acompanhando Schneider, Isaías Paim acha que a indiferença afetiva real, essa incapacidade para sentir emoções delicadas, só é observada nessas personalidades psicopáticas insensíveis, e ainda chama a atenção para a particularidade de que nem todos esses psicopatas insensíveis seriam, obrigatoriamente, personalidades anti-sociais. Na realidade, o termo mais adequado para definir tais pessoas é, exatamente, a insensibilidade afetiva, pessoas chamadas de "nervos de aço", ou "indivíduos capazes de marchar sobre cadáveres". 

Admitia-se também antigamente, que nos estados demenciais e na deficiência mental existiria uma deficiência obrigatória da afetividade. Também quanto a essa crença Bleuler mostrou que o transtorno se concentra na alteração de raciocínio e não no campo da afetividade. Os pacientes demenciados acabam perdendo o conceito do que é bom, do que é possível, do que é belo (moralmente falando) e, por conseguinte, não costumam revelar sentimentos adequados. 

Manifestações de indiferença afetiva podem ser também observadas nos Transtornos Neuróticos. Na depressão o desinteresse pelas coisas do mundo exterior pode conduzir ao erro de considerar esses pacientes semelhantes aos casos de apatia afetiva esquizofrênica.

Incontinência Emocional
A Incontinência Emocional é uma forma de alteração da afetividade que se manifesta pela facilidade com que se produzem as reações afetivas, acompanhadas de certo grau de incapacidade para inibi-las. Diz Bleuler que a maioria dos pacientes com incontinência emocional domina-se pior que os demais. Tem de ceder diante dos acontecimentos mais insignificantes, tanto no que se refere a sua expressão como à ação que deles se deriva. Bleuler cita o exemplo de um paciente que não podia jogar cartas porque denunciava seu jogo com a fisionomia. 

A Incontinência Emocional é um dos sintomas freqüentes nas perturbações psíquicas provocadas por lesões orgânicas do cérebro, manifestando-se também em várias psicoses e neuroses. Na arteriosclerose cerebral a Incontinência Emocional constitui um dos sintomas mais característicos. Nesses casos, os próprios pacientes se queixam de extrema facilidade para emocionar-se, com tendência ao choro fácil, o que não ocorria antes de adoecer. Segundo Nágera, a Instabilidade Afetiva nem sempre se apresenta junto com a Incontinência Emocional, pois existem pessoas que não podem conter as emoções, embora revelem tenacidade afetiva.

Sugestibilidade
Sugestibilidade é uma alteração de ordem tanto afetiva quanto volitiva. Trata-se de uma predisposição psíquica especial que determina uma grande receptividade e submissão às influências estranhas exercidas sobre a pessoa. No terreno puramente psíquico, encontra-se a sugestibilidade nos histéricos, razão pela qual se tornam esses pacientes muito favoráveis à produção de estados hipnóticos, de sintomas somáticos e até mesmo s de sintomas psicóticos. Em alguns histéricos a sugestibilidade é exercida tanto no domínio da vida interior (auto-sugestibilidade) quanto em relação ao meio exterior (hétero-sugestibilidade). 

A sugestibilidade é também muito comum nos estados demenciais, nos quais é uma conseqüência de insuficiência intelectual. Na demência senil, a sugestibilidade adquire grande significação do ponto de vista médico-legal, em virtude de estarem esses pacientes sujeitos a explorações prejudiciais a seus interesses pessoais, extorsão de dinheiro, captação de herança etc. 

A sugestibilidade pode ser também observada nos estados de excitação maníaca e nos alcoolistas. No delirium tremens, por exemplo, podem-se sugerir facilmente várias coisas ao paciente, inclusive as alucinações. Na catatonia, a sugestibilidade é predominantemente motora, razão pela qual será estudada nas alterações da atividade voluntária. 

Ambivalência Afetiva
Apesar de não usar a palavra Ambivalência, Bleuler descreve as acentuações afetivas opostas e basicamente simultâneas nos indivíduos normais. Fala do amor e temor ou ódio que uma pessoa pode ter em relação a outra, dos acontecimentos que se temem e são desejados (uma operação, a tomada de posse de um cargo). O paciente ambivalente, apesar de não pode unir ambos sentimentos e tendências opostas, percebe-os ao mesmo tempo (ama e odeia), sem que ambos os sentimentos ajam entre si ou se debilitem. Deseja a morte da mulher e se as alucinações a apresentam morta, pode ao mesmo tempo ficar desesperado e chorar por isso. 

Honório Delgado define a Ambivalência como a anormalidade das tendências, e que se caracteriza pela coexistência de juízos contraditórios sobre o mesmo objeto simultaneamente. Portanto, no plano afetivo a Ambivalência consiste em experimentar sentimentos opostos, simultaneamente e em relação ao mesmo objeto. 

A Ambivalência Afetiva surge em todas as situações de conflito, especialmente nos Transtornos Neuróticos mas, será na esquizofrenia que a Ambivalência se apresentará com aspectos mais característicos e mais extremos.

Fobias
O termo Fobia é definido como um temor insensato, obsessivo e angustiante, que certos doentes sentem em situações específicas. A característica essencial da Fobia consiste no temor patológico, absurdo que escapa à razão e resiste a qualquer espécie de objeção da lógica e da razão. Refere-se a certos objetos, atos ou situações e pode apresentar-se sob os aspectos mais variados. O temor obsessivo aos espaços abertos (agorafobia) ou fechados (claustrofobia), aos contatos humanos ou com animais (cães, ratos), temor de atravessar ruas, de subir ou descer elevadores, de lugares altos etc. 

A percepção sensorial real, direta e material da coisa ou do ser sobre o qual a fobia se sistematiza não é obrigatória ou necessária ao desencadeamento da reação ansiosa. Esta pode resultar de representações fotográficas. Apresentam-se as fobias em vários tipos de Transtornos Neuróticos, particularmente no Transtorno Fóbico-Ansioso e em alguns estados psicóticos. 

Irritabilidade
Bleuler
considera a irritabilidade como uma predisposição especial ao desgosto, à ira e ao furor. Os pacientes irritáveis manifestam impaciência e aumento da capacidade de reação para determinados estímulos e intolerância à frustração, aos ruídos, às aglomerações. Nesses casos, a perturbação consiste no aumento da tonalidade afetiva própria das percepções, tanto que se pode verificar certa contradição na conduta dos doentes, os quais sofrem mais com a falta de consideração do ambiente do que propriamente com os ruídos produzidos no meio exterior, ou seja, interpretam o ruído mais como uma provocação do que um incômodo acústico. 

No Transtorno Explosivo da Personalidade o sintoma principal é a irritabilidade. Nesses pacientes existe um grau elevado de reatividade emotiva, unido a uma extraordinária tensão afetiva, que se descarrega sob a forma de reações de tipo "curto-circuito". Estes surtos são paroxismos coléricos ou furiosos que põem em perigo a vida de pessoas do ambiente e a integridade da propriedade. Esses indivíduos, por exemplo, ouvem uma palavra qualquer e, antes que tenham compreendido o seu verdadeiro sentido, reagem de maneira explosiva, respondendo com insultos ou com atos de violência.

Nos estados de exaltação eufórica, quando os conflitos se tornam inevitáveis em virtude de o paciente manifestar superestimação da própria personalidade e elevação das aspirações, observam-se freqüentemente explosões de cólera e irritabilidade. Onde as manifestações de irritabilidade mórbida se tornam mais características é na epilepsia. Bleuler dizia que nos epilépticos existe, freqüentemente, uma irritabilidade crônica. 

Desde o século passado autores de compêndios apontavam para a concordância clínica entre irritabilidade e epilepsia. Legrande du Saulle escreveu que “fora da crise convulsiva, os epilépticos são egoístas, desconfiados, sombrios, irritáveis e coléricos. Um gesto, um simples olhar bastam para causar-lhes muitas vezes, a mais penosa das impressões, inflamar-lhes a cólera”. Já para Schüle, “o caráter dos epilépticos consiste numa extraordinária irritabilidade mórbida, que rapidamente se transforma em atos impulsivos. São indivíduos caprichosos, desconfiados, excitados contra si mesmos e contra os outros, turbulentos, ora de uma alegria cuja causa muitas vezes ignoram, ora de uma depressão exagerada, agora humildes e com tendências religiosas. Mas logo são orgulhosos, duros maus”. 

Foi de Falret o mérito de ter sido o primeiro a destacar as características psicológicas dos epilépticos, fora das crises convulsivas. Em 1861, Falret escreveu que a “irritabilidade constitui o traço dominante dos epilépticos. Esses doentes são geralmente desconfiados, questionadores, predispostos à cólera...” “...irritam-se com grande facilidade pelos motivos mais simples, entregando-se, freqüentemente, a atos de violência, instantâneos as mais das vezes, sem provocação nenhuma de parte daqueles que são suas vítimas”. Júlio de Matos Fernandes refere-se a esses pacientes como apresentando “uma excessiva irritabilidade, sempre pronta a explodir em cólera, não raro impulsionados à prática das ações mais violentas e cruéis”. 

Na década de 80, Maria Lúcia Coelho fazia seu doutorado em psiquiatria relacionando traços dos epilépticos, tanto dos convulsivos quanto dos não-convulsivos, e apontando também a irritabilidade e baixa tolerância a frustrações, entre outros traços, num minucioso e completo trabalho científico. 

Entretanto, modernamente, para evitar alguma confrontação com o critério de epilepsia adotado pela neurologia, fala-se em Transtorno Explosivo Intermitente ou Transtorno Explosivo da Personalidade como uma ocorrência co-mórbida com a epilepsia. Mas, de qualquer forma, vale a dica e observação de tantos autores virtuosos... 

Angústia
Blaser
e Poeldinger estudaram a evolução do conceito de angústia, admitindo que se deve a Kierkegaard a primeira distinção entre temor a um objeto e a angústia, livre e flutuante, desprovida de objeto. Esta distinção foi adotada por Karl Jaspers, tendo deixado claro o seu conceito ao escrever que a angústia é um sentimento freqüente e torturante, e que o medo sempre se refere a alguma coisa, enquanto a angústia é sem objeto. 

Desde então, esta tem sido a orientação seguida pelos tratadistas, entre os quais se encontra Binder, que desenvolveu amplas considerações no sentido de estabelecer os limites entre medo e angústia. “Se procurarmos estabelecer a diferença entre esses dois estados de ânimo, a introspecção nos mostrará que a vivência afetiva de encontrar-se em perigo aparece em duas modalidades diferentes: em uma forma diferenciada, em que o referido sentimento surge em estruturas psíquicas amplamente configuradas, precisas e determinadas; quando se costuma falar quase sempre da presença de medo ou temor, e em forma mais primitiva, que se designa de modo geral como angústia e que corresponde a estratos psíquicos mais profundos que, com freqüência, são menos claramente conscientes e conservam conexões psíquicas mais difusas e menos articuladas. Alguém teme algo ou sente medo diante de algo, enquanto alguém se angustia, e nestas locuções se expressa que no temor ou no medo do objeto perigoso aparece mais claramente destacado do indivíduo e é percebido, imaginado ou pensado como uma articulação e uma delimitação clara e determinada, enquanto na angústia os processos do conhecimento que a precedem são, freqüentemente, muito mais vagos e indiferenciados, características que correspondem a estratos psíquicos mais primitivos”. 

Com referência a sua origem, o próprio Binder admitiu a possibilidade de a angústia apresentar três aspectos diferentes:

1 - Angústia Vital
Lopez Ibor considera a angústia vital como o elemento básico da personalidade humana, podendo surgir sem características patológicas, mas em condições mórbidas, está representada por seus graus mais acentuados. A angústia se acha corporificada. 

De acordo com Binder, esta forma de angústia apodera-se do consciente quando existem condições corporais íntimas ameaçadoras da vida. “Surge de modo mais claro nos estados de hipoxemia e anoxemia de qualquer natureza, seja devido a espasmos das coronárias (angina do peito), à perda de sangue (sempre que não leve à inconsciência), à dificuldade respiratória (asma brônquica, estrangulação) ou a asma cardíaca”. 

Bash considera que, nesses casos, a reação psíquica é perfeitamente normal: “O objeto se apresenta no consciente sob a forma de sensações viscerais”. A própria debilidade constitucional, seja do sistema ou de sua regulação vegetativa, pode determinar o aparecimento de sensações desagradáveis, as quais são captadas como ameaça à integridade do eu, estando, nesse caso, a angústia vital ligada à depressão ou à transtorno orgânico. A angústia vital, exceto nos casos de depressão, indica um grave transtorno orgânico.

2 - Angústia Real
O perigo ameaça a partir da circunstância. Ao contrário da Angústia Vital, a Angústia Real tem origem em uma ameaça conscientemente percebida, a qual provém do meio exterior e não de alguma parte interna do corpo. Bash admite que “circunstâncias da vida persistentemente humilhantes podem ocasionar o desenvolvimento de um estado de angústia crônica”.

3 - Angústia Moral
O perigo se encontra localizado na própria psique e, especialmente, em determinadas tendências psíquicas primitivas, que são afastadas por outras tendências, superiores e mais evoluídas, e que se orientam em outro sentido (conflito). Kielholz propôs uma subdivisão da Angústia Moral, levando em consideração a possibilidade de uma angústia consciente e outra inconsciente, correspondendo esta última à angústia dita neurótica, à qual se refere de modo especial a literatura psicanalítica. 

Kammerer é de opinião que todas as definições da angústia se reduzem a três condições essenciais: 

a) o sentimento da iminência de um perigo que virá, mas de um perigo indeterminado. Esse sentimento se acompanha da elaboração de temas trágicos, os quais ampliam todas as imagens na proporção de um drama;

b) a atitude atenta diante do perigo, verdadeiro estado de alerta, que invade todo o indivíduo, tendendo para a catástrofe que se avizinha;

c) a desordem, isto é, a convicção da incapacidade absoluta e o sentimento de desorganização e de prostração diante do perigo. 

O estado de angústia quase sempre perturba as funções fisiológicas e se expressa através de uma série de distúrbios autonômicos. Normalmente há constrição respiratória, dispnéia, opressão cardíaca, taquicardia, palpitações, lentidão ou aceleração do pulso, palidez, relaxamento da musculatura facial, espasmos em órgãos diversos, transpiração nas mãos e na face. 

A angústia é um dos elementos fundamentais em Psicopatologia, representa o sintoma dominante na maioria dos transtornos neuróticos, e está presente em muitas psicoses, mormente em sua fase prodrômica.

 

para referir:
Ballone GJ - Afetividade - in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005

 

Referências:
Binder H, (2003). In Juan Carlos Sierra & Virgílio Ortega, em Ansiedad, angustia y estrés: tres conceptos a diferenciar, Revista Mal-Estar e Subjetividade / Fortaleza / V. III / N. 1 / P. 10 – 59.<
Blaser P, Poeldinger W, (1970). La angustia como fenómeno histórico-espiritual y como problema científico-natural. In Kielholz P, Angustia, Ediciones Morata.
Bleuler E. (1950). Dementia praecox or the group of schizophrenias. Monograph series on schizophrenia. Vol 1. International University Press, NY
Bleuler, E. (2000). Demência precoce: o conceito da enfermidade. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 3, n. 1, março de 2000.
Casa Nova. Editora Forense Universitária, RJ.
Coelho ML, (1980), Personalidade e Epilepsia, Editora Ensaios, SP.
Ibor, Lopez (1950). La Angustia Vital, Editorial Paz Montalvo, Madrid.
Kammerer P. (1992). Delinquance et narcissisme à l’adolescence. Paris: Collection Païdos/Adolescence.
Kielholz P, (1970), Angustia, Ediciones Morata.

Kielholz P, (1992). Angustia, Aspectos Psiquicos y Somaticos. Hardcover, Ediciones Morata, Published: May 1992
Matos Fernandes J, Oliveira E, (1999). TraMas: Traffic Control through Behaviour-based Multi-Agent System”, The Fourth International Conference and Exhibition on The Practical Application of Intelligent Agents and Multi-Agents, 19 -21 April, London.




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PARA INTERESSADOS NO TEMA
Trata-se de um texto escrito pelo Prof. Eunofre Marques, em seu Compêndio de Psiquiatria (retirado da internet, infelizmente);
"A Afetividade é uma Atividade
A afetividade está sempre ocorrendo no indivíduo. Todos os conteúdos do acontecer mental, representados pelas unidades-síntese da atividade consciente, que são as vivências, possuem sempre um conteúdo afetivo. Nas vivências de significado afetivo, ele é o conteúdo prevalente. No entanto, mesmo naquelas praticamente sem significado afetivo, como, por exemplo, na atividade exclusivamente cognitiva do raciocínio, existe um componente afetivo. Ela é, portanto, uma atividade. Esta afirmação pode provocar estranheza, pois, sendo a afetividade essencialmente passiva, como poderíamos chamá-la de atividade? Apesar de serem estados passivos, os estados afetivos não são estáticos, imutáveis, rígidos. Pelo contrário, eles são essencialmente dinâmicos e é neles que aparece a maior riqueza da vida mental, quer pela sua variabilidade, quer pela sua flexibilidade e possibilidades de transformação. Neste sentido, cabe perfeitamente a ela designá-la como uma atividade.

A Afetividade é Significante
A natureza da afetividade é basicamente a de um estado significante, que dá um significado especial - o significado afetivo - sobre as coisas e os acontecimentos vividos, isto é, sobre os conteúdos das vivências. O estado é meu, o significado é meu, mas se trata do significado sobre algo. Esse significado adjetiva as vivências e os objetos sem, contudo, fazer parte deles.

É um significado que se apõe ao objeto além da sua definição. Assim, por exemplo, quando eu encontro uma pessoa de quem eu gosto muito e que há tempos não via, eu sinto alegria. A vivência que eu tenho de encontrar essa pessoa se impregna de alegria. Apõe-se, assim, à imagem que eu tenho dessa pessoa, naquele momento, a minha alegria em encontrá-la. Mas a imagem da pessoa, quem ela é, as suas características, nada têm a ver com a alegria. Trata-se de um significado que transcende ao objeto, mas que é aposto a ele. E não é que eu quis sentir alegria ao ver a pessoa: eu apenas sinto essa alegria. Pode acontecer que, ao me despedir dessa pessoa, o afastamento me cause tristeza. Desta maneira, o mesmo objeto, aquela pessoa, passa a implicar para mim numa vivência impregnada de tristeza. É o mesmo objeto, nada mudou nele, mas o significado aposto é radicalmente diverso.

O mesmo objeto, em dois momentos diferentes e próximos, adquire um significado afetivo oposto, sem deixar de ser exatamente o mesmo objeto. Não se trata, portanto, de um atributo aposto diretamente ao objeto, muito menos de um atributo do objeto ou derivado dele, mas de uma qualidade vivenciada minha sobre esse objeto, qualidade essa que varia conforme o significado do momento vivencial em relação ao objeto. Esta é, fundamentalmente, a natureza da afetividade.

A Afetividade é Exclusivamente Subjetiva
A afetividade, por ser uma qualidade vivenciada sobre o objeto a que ela se refere, é um acontecimento estritamente mental, próprio do mundo interno, que não tem relação alguma com qualquer objeto externo. Não se trata de uma qualidade derivada do objeto ou que parta dele, mas referente a ele. Ela é exclusivamente mental por ser uma parte das vivências e por não ser objetivável, isto é, não existe qualquer objeto do universo objetivo que possua algum atributo semelhante à afetividade. Não é possível, também, representar, através de comportamento, mesmo com a mímica, um afeto. O que se consegue é representar apenas a vivência à qual se refere o afeto. Assim, eu posso mostrar que estou alegre, mas não há como eu mostrar a alegria. É por este motivo que afirmamos que a afetividade é absolutamente subjetiva, exclusiva do mundo interno.

O Conceito de Afeto
Ao falarmos da natureza da afetividade, falamos também da natureza dos afetos. Como vimos, os afetos são estados passivos do EU. Trata-se de uma qualidade vivencial do indivíduo em relação ao objeto, do tipo de estado em que ele está na vivência atual desse objeto. O objeto pode ser uma coisa, pessoa, acontecimento externo ou algo relativo ao seu corpo - o que chamamos de vivências externas - ou mesmo um conteúdo ou acontecimento mental seu sobre o qual ele se reflete - os quais denominamos de vivências internas. Seja qual for a natureza da vivência, ela sempre contém um afeto.

Os afetos são inerentes às vivências, não existe vivência sem afeto. Isto porque o indivíduo vive na vivência, daí o nome desta, e o significado que ele dá a ela é o significado do que ele vive naquele instante. Ao viver uma vivência, ele entra num estado que está intrinsecamente ligado a essa vivência, que é o estado em que ele vive aquela vivência, e esse estado é o afeto integrado a essa vivência. Esse estado é, portanto, uma qualidade vivencial e é, conseqüentemente, significado pelo que o indivíduo está vivendo naquele momento, o que quer dizer que o afeto é significado pela vivência.

Como quem define o significado da vivência é o próprio indivíduo, ele, indiretamente, define também o tipo de afeto que terá com essa vivência. Dessas considerações extraímos algumas propriedades que definem a natureza dos afetos. Ao descrever as propriedades dos afetos, não nos preocuparemos em não ser repetitivos, pois o esclarecimento da natureza dos afetos exige que repisemos várias vezes as mesmas coisas. A repetitividade é, portanto, proposital e necessária.

As Propriedades dos Afetos
Os afetos são qualificações das vivências e também qualificações sobre os objetos das vivências
Os afetos são qualitativos, isto é, são qualidades. Por estarem integrados às vivências, eles são qualidades dessas vivências e, portanto, dão a elas uma qualificação afetiva, um significado de fundo que se agrega ao significado da vivência. Se se trata da vivência de um objeto, tal qualidade se torna uma qualificação sobre esse objeto, apesar de não se agregar ao objeto em si, mas à vivência dele. No exemplo que citamos acima, a alegria ao encontrar uma pessoa querida que não víamos há tempos, o objeto é a pessoa, a vivência é o seu encontro, e a alegria é uma qualificação do encontro com essa pessoa, isto é, ela se apõe, se agrega à vivência do encontro e se refere a essa pessoa. É evidente que a alegria não é uma qualidade que apomos à pessoa, mas à vivência do encontro com ela, isto é, é referida a ela, mas não se torna uma qualidade dessa pessoa nem da imagem que temos dela.

A qualidade do afeto depende da natureza e do significado da vivência. A qualidade do afeto, isto é, o tipo de afeto que surge numa vivência é definido diretamente pelo significado da vivência. O que o indivíduo vive com a vivência é o significado que ele dá ao objeto dessa vivência. A natureza do objeto da vivência em si tem importância relativa. Ele só é importante porque, de algum modo, ele limita as possibilidades de significado que podemos dar a ele. Disto trataremos melhor quando falarmos de vivências, no capítulo sobre consciência. Para ilustrarmos, no exemplo que estamos utilizando, o encontro com aquela pessoa tem um significado que é limitado pela pessoa de quem se trata, pois, se fosse um desconhecido, ou alguém de quem não gostássemos, o significado do encontro seria diferente, isto é, a vivência do encontro daquela pessoa depende de que pessoa se trata, mas apenas em parte, pois depende também do que sentimos por essa pessoa naquele momento. Assim, mesmo sendo uma pessoa de quem gostamos muito, mas que estamos sempre juntos, o encontro terá um significado; no entanto, se essa for uma pessoa que faz tempo que não vemos, o significado será radicalmente diferente. Como o que o indivíduo vive depende do significado da vivência, ao vivê-lo ele entra num estado diretamente derivado desse significado, e esse estado é o afeto, cuja natureza é, portanto, diretamente definida pelo significado da vivência.

O significado da vivência inclui um significado valorativo e é essa qualificação valorativa que define a qualidade do afeto. Toda vivência tem um significado e esse significado inclui os juízos sobre o objeto da vivência, seja ela uma vivência externa ou interna. É, assim, um significado valorativo. Os valores que apomos ao objeto, e à vivência dele, configuram em especial a qualidade do significado do objeto e da vivência sobre ele.

Essa qualidade da vivência do objeto é, portanto, valorativa, isto é, comprometida com o nosso juízo sobre o objeto da vivência e com a vivência mesma, sendo que este juízo é derivado do nosso contexto atual, que define o nosso momento e que influi no tipo de valores que apomos ao objeto e à sua vivência, pois existe uma coerência intrínseca essencial nesse contexto. Isto porque, a cada momento, não estamos isentos, mas completamente envolvidos pela factualidade e pelo significado que lhe damos em nossa atualidade existencial.

A Bipolaridade dos Afetos
Os afetos são qualificações vivenciais, o que significa que eles trazem implícito um significado de valor. É por este motivo que existem os juízos afetivos, um dos tipos qualitativos de juízo. Também como os outros tipos qualitativos de juízo, os afetos são bipolares, isto é, cada afeto apresenta um antípoda, um afeto de significado inverso ou oposto. Quando falamos das qualidades afetivas, falamos sempre de tipos de afetos aos pares. O exemplo que utilizaremos é o mais fácil de ser entendido: alegria-tristeza. Porém, para chegarmos a ele, vamos primeiramente buscar a origem primeira dessa bipolaridade.

Mesmo entre os animais mais primitivos, verificamos que, conforme os estímulos, eles apresentam duas possíveis reações: aproximação e afastamento. A observação atenta revela que objetos que representam estímulos biologicamente favoráveis (positivos) são seguidos de aproximação e estímulos desfavoráveis (negativos), afastamento. Isto acontece até entre os animais unicelulares e é tão universal que, desde que conheçamos a natureza biológica da espécie e a variabilidade do significado dos estímulos para essa espécie, podemos provocar estímulos para aproximação e para afastamento, e sempre obtemos os mesmos tipos de respostas. Podemos afirmar que a raiz fundamental da bipolaridade dos afetos reside nesse fenômeno.

Ascendendo na escala biológica, veremos que, aos poucos, esse fenômeno se vai tornando cada vez mais complexo. Surgem, já nos artrópodes, os sinais de possíveis múltiplas respostas aos estímulos, em função não só da simples variável biológica favorável-desfavorável, mas também de outras variáveis em jogo, de tal modo que os movimentos dos indivíduos não se resumem mais apenas em aproximação-afastamento imediato. Por exemplo, frente a um estímulo negativo pode haver uma aproximação e frente a um estímulo positivo pode haver um afastamento. Isto porque começam a influir no processo outras variáveis, que entram num jogo mais complexo, e é a resultante de todas as variáveis que resulta no movimento.

Usemos como exemplo as abelhas: a aproximação de uma pessoa da colméia (estímulo negativo) pode resultar no movimento das abelhas na direção da pessoa, para atacá-la; o encontro por uma abelha de uma rica florada (estímulo positivo) pode resultar no seu afastamento da florada, para avisar à colméia. Quando os movimentos se tornam assim complexos, em que eles transcendem ao simples significado do estímulo, podemos chamá-los de comportamento.

Com relação aos estímulos negativos, conforme o tipo de estímulo, o indivíduo pode apresentar um afastamento ou uma aproximação. Se tal estímulo representar objetivamente uma ameaça ao animal, o afastamento é chamado de fuga, para livrar-se da ameaça, e a aproximação é denominada de ataque, para destruir a ameaça. Existe já uma seletividade complexa de movimentos, mais em função de um resultado do movimento do que pelo simples significado do estímulo. Com os estímulos positivos pode ocorrer, como vimos no caso da florada e da abelha, movimentos semelhantes, apesar de que, em geral, os estímulos positivos tendem a provocar aproximação.

Com o desenvolvimento do sistema nervoso central e o surgimento das sensibilidades dolorosa e prazerosa, que se apresentam mais diferenciadas nos mamíferos e aves, o comportamento se torna ainda mais complexo. Isto porque surge a relação prazer-dor, que é um novo modo de diferenciação dos estímulos, que vem transformar completamente o significado original primitivo de aproximação-afastamento, mas que é, filogeneticamente, da mesma natureza: em linhas gerais e a grosso modo, prazer leva à aproximação e dor leva ao afastamento, demonstrando essa relação filogenética.

No ser humano, com o surgimento da subjetividade e com a diferenciação dos processos mentais, o par prazer-dor, que é o citado por Emanuel Kant ao falar dos sentimentos, é adicionado de pares de significados mais complexos, apesar de, na sua essência, poderem ser reduzidos àquele par original. Hoje em dia, utiliza-se com mais correção para esse par primário, as palavras prazer e desprazer, pois dor é uma palavra reservada apenas para a dor física, como sensação corporal.

No par que usamos como exemplo - alegria-tristeza -, é fácil localizar a alegria como o afeto prazeroso e tristeza como o afeto desprazeroso. Em todos os pares de afetos é possível identificar aquele de um e o do outro significados. Quanto mais diferenciados os afetos, principalmente nos afetos espirituais, menos clara é essa identificação, mas, mesmo assim, ela é sempre possível.

Em geral, cada um dos afetos de cada par recebe um nome, como no caso de alegria-tristeza, mas nem todos têm nomes próprios. Muitos dos afetos são nominados, têm nomes próprios, mas o seu par não; este é, nesses casos, indicado por um prefixo negativo aposto ao nome do outro. Assim, temos prazer-desprazer, segurança-insegurança, felicidade-infelicidade, etc. Outros, devido ao seu marcante significado, têm o seu par nominado de modo a identificá-lo como sendo o estado em que o primeiro não está presente: angústia-paz (ausência de angústia), medo-coragem (ausência de medo), ansiedade-calma (ausência de ansiedade), etc. A bipolaridade dos pares de afetos é o que permite esses tipos de nominações.

A polaridade dos afetos pode ser comparada aos pólos de um ímã, onde existe um lado positivo e um negativo. A escala de intensidade de um afeto, como, por exemplo, mais alegria ou menos alegria, não é uma escala contínua com o seu antípoda. Assim, de um máximo possível de alegria, existe uma escala decrescente de alegria, até um mínimo possível de alegria. Neste ponto, não existe continuidade com a tristeza, que é o seu antípoda.

Do outro lado também temos, de um máximo possível de tristeza, uma escala decrescente até um mínimo possível de tristeza, mas a tristeza e a alegria não se continuam: ou é uma ou é a outra. Assim como no ímã, a positividade é máxima numa das pontas e se vai reduzindo até o meio do ímã de um lado, e a negatividade é máxima na extremidade oposta e também vai diminuindo até o meio. No ponto médio do ímã, não existe atividade magnética.

Assim, também nos afetos, não existe uma passagem de um afeto para o seu oposto ou vice-versa, mas uma ausência daquele afeto, isto é, exatamente no ponto médio dessa escala imaginária entre alegria e tristeza, não existe nada que possa ser referido a alegria ou tristeza; um estado afetivo que nem é alegria nem tristeza é um outro afeto que nada tem a ver com os dois. Tratam-se, assim, de duas escalas antípodas: a da alegria e a da tristeza; não é uma escala só. Tudo o que foi aqui falado para o par de afetos alegria-tristeza vale para todos os pares de afetos, exatamente como foi posto."
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