Crimes Esotéricos

Há uma tendência cultural em suspeitar de doença nas atitudes esotéricas que acabam resultando na morte de pessoas.
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Sempre que nos deparamos com notícias sobre crimes bárbaros e cruéis que, de alguma forma envolvem crenças, satanismo ou coisas do gênero, há uma tendência popular em atribuí-los a alguma manifestação da "loucura". Imediatamente a psiquiatria é questionada sobre qual eventual tipo de doença mental estaria em jogo.

A primeira questão a ser esclarecida é sobre a vocação popular em considerar louca a pessoa que opta por alguma seita satânica. Quando procuramos na internet páginas que fazem referência ao satanismo, em português encontramos em torno de 5.500 delas, 4.000 em italiano, 7.400 em espanhol, 78.500 em inglês e assim por diante. Faça o teste você mesmo e digite a palavra nos principais mecanismos de busca.

Ora, seria muita pretensão da medicina psiquiatrizar toda essa população pelo simples fato de discordarem dos princípios religiosos tradicionais do mundo cristão, budista, muçulmano, etc. Não podemos, de forma alguma, psiquiatrizar as pessoas que não comungam a mesma crença religiosa ou mesma ideologia política tradicional do sistema. Se assim fosse, seria manifestação de loucura um cristão vivendo na China, onde existem mais de um bilhão de budistas, ou um muçulmano em auto-flagelação em nosso meio, tradicionalmente cristão e coisas parecidas.

O segundo tópico importante a ser considerado é sobre a negação cultural de características próprias da natureza humana, normalmente envolvidas na questão religiosa, tomando erroneamente por doença atributos próprios da espécie. Há uma tendência cultural em suspeitar de doença as atitudes que acabam resultando na morte de pessoas.

Talvez seja mais correto, cientificamente falando, considerar a doença sob o ponto de vista cultural e, em seguida, sob a ótica do sofrimento e, finalmente, de acordo com os estados onde a consciência esteja prejudicada, preferentemente nessa ordem. Se não fosse nessa ordem, ou seja, se negássemos os aspectos culturais, correríamos o risco de considerar doença os milhões de estados de transe, onde há severo prejuízo do estado de consciência, que se observam em determinadas culturas.

Um dos aspectos da natureza humana em questão é a perene característica do ser humano em conduzir sua vida, desde o nascimento até a morte, sob os princípios da barganha. Ele, o ser humano, concebeu Deus com o principal propósito de protege-lo, conforta-lo e impulsiona-lo corajosamente para a vida. É difícil ao cidadão comum entender um deus que se dedique à proteção e cumplicidade com, digamos, seu vizinho. Um deus que exista também para proteger e abençoar seus inimigos. "Se Deus existe, Ele haverá de proteger a mim e minha família, dar-me oportunidades e iluminar meu caminho.... O vizinho, ora o vizinho... Ele que encontre o deus dele..."

O exercício da bondade, fraternidade, humildade, honestidade, retidão moral e toda sorte de atitudes pretensamente honrosas, e que não são, de forma alguma, naturalmente fisiológicas ao ser humano comum, têm como objetivo, primeiro a reciprocidade, ou seja o desejo de que procedam assim também comigo e, em segundo lugar, que me garanta um lugar especialmente confortável no céu, se na terra eu não conseguir mais nenhuma vantagem com tudo isso de bom que eu sou.

E entre os egoístas seres humanos, existem sempre aqueles um pouco mais egoístas. Existem aqueles que, em não tendo suas ambições atendidas por si mesmos, porque isso demanda competência, dedicação, esforço próprio, determinação..., e por não serem atendidos também por um Deus desejavelmente atuante e participativo, optam por negociar com outras entidades mais fáceis, menos exigentes e mais fisiológicas. Ora, essa tendência em lavar vantagem e procurar alguém para fazer por eles não pode, de maneira nenhuma, caracterizar uma doença mental..

O que nos confunde é que, sociologicamente falando, as atitudes humanas são argüidas sob a ótica do comum e desejável como requisitos de normalidade, ou seja, como se diz vulgarmente, "bater na mãe e arrotar na primeira comunhão" só podem ser atitudes de pessoas endemoniadas. O mesmo se pensa em relação às barganhas (como as promessas dos cristãos) de pessoas satânicas.

O sacrifício no satanismo, que pode acabar em crime ou assassinato, reflete também uma barganha em clara intenção de benefício do proponente, portanto, sem necessariamente vestígio algum de insanidade. Normalmente o perpetrante de crimes satânicos sabe sim, e muito bem, discernir o certo do errado, sabe a natureza de seu ato e tem noção das leis.

Por outro lado, assim como existem doentes mentais nas artes, na militância política, entre militares, médicos, advogados, religiosos, etc... também existem doentes mentais entre pessoas que se comportam satanicamente. Portanto, em havendo Doença Mental, que tipo seriam elas? Ou melhor dizendo; quais as eventuais doenças mentais que favoreceriam o desenvolvimento de atitudes satânicas?

Crimes Satânicos
Em algumas ocasiões, o fascinante e desconhecido mundo do esoterismo pode converter-se num terreno escorregadio, atraente e perigoso para todas aquelas pessoas que se deixam influenciar pelo lado obscuro do comportamento humano e pelas possibilidades fantasiosas de sucesso fácil.

A sociedade, ao longo de sua história, tem registrado uma grande quantidade de crimes e homicídios de assustadora crueldade e propósitos torpes relacionados à crenças religiosas. Devemos pensar nesses crimes sob 2 pontos de vista; primeiro, devemos avaliar se eles não satisfazem aspectos de uma natureza humana destrutiva, ambiciosa e cruel (vide Estado Natural do Homem de Thomas Hobbes). Só depois disso, devemos ver se eles não refletem uma insanidade que encontrou no fanatismo religioso vazão às fantasias e aos delírios da doença.

A dinâmica desses crimes é variável, refletindo desde pretensas inspirações divinas, esdrúxulas influências diabólicas, espiritistas ou extraterrestres, até estranhos rituais com propósitos exclusivamente hedonistas ou egoisticamente interesseiros, resultando em brutais assassinatos, algumas vezes em massa.

Não são incomuns também os fanáticos idealistas que não titubeiam em sacrificar a própria vida ou a de seus seguidores por convicções extremas e absurdas. Existem ainda os pseudoexorcistas com conceitos alterados da realidade, onde sua obsessão em acabar com um mal ou liberar um corpo supostamente possuído por espíritos, vampiros e diabos, acabavam promovendo torturas, agressões e mesmo assassinatos. É de se perguntar se, às vezes, essas pessoas não estariam extravasando suas próprias inclinações sádicas nos exorcismos com agressões físicas.

Sempre existiram grandes quantidades de denúncias sobre "seitas satânicas", supostamente implicadas em todo tipo de delitos, desde macabros assassinatos rituais, profanações, tráfico de drogas, prostituição, etc. A figura do demônio tem servido à todo tipo de aberração da personalidade ou como bode (e bode é do diabo) expiatório das psicopatias e sociopatias.

Assim, casos tão dramáticos como o do Albaicím ou o de Almansa, onde uma mulher e uma menina morreram depois de serem ambas submetidas à selvagens "exorcismos" procedidos por crença cristã. Convencionalmente os crimes ainda serão chamados de satânicos, mesmo quando, na realidade, foram cometidos em nome de Deus, certamente por não existirem crimes chamados divinos.

Personalidade Múltipla e Crimes Esotéricos
Uma divisão didática das condições associadas aos crimes esotéricos é a que se segue:

As alterações psíquicas bastante envolvidas com crimes esotéricos e/ou satânicos são o Transtorno de Personalidade Múltipla (Personalidade Dupla, etc) e o Transtorno de Transe e Possessão, a primeira preconizada pelo CID.10 e a segunda pelo DSM.IV. De qualquer forma, seja o primeiro ou o segundo nome, esse estado patológico está sempre atrelado ao comportamento histérico e dissociativo.
Pelo CID-10 o Transtorno de Transe e Possessãoé caracterizado por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente. Devem aqui ser incluídos somente os estados de transe involuntários e não desejados.
Exclui-se desse diagnóstico os casos decorrentes do contexto cultural ou religioso da pessoa, como por exemplo, o transe que a pessoa experimenta durante uma sessão espírita, de umbanda, etc.

O Transtorno de Personalidade Múltipla (atualmente melhor designado Transtorno Dissociativo de Identidade, DSM.IV) tem como característica essencial a presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos, que recorrentemente assumem o controle do comportamento da pessoa.

No Transtorno de Personalidade Múltipla clássico e típico existe uma incapacidade de recordar informações pessoais importantes, cuja extensão é demasiadamente abrangente para ser explicada pelo esquecimento normal. Psicopatologicamente, o Transtorno Dissociativo de Identidade reflete um fracasso em integrar vários aspectos da identidade, memória e consciência. Cada estado de personalidade pode ser vivenciado como se possuísse uma história pessoal distinta, auto-imagem e identidade próprias, inclusive um nome diferente.

Em geral existe uma identidade primária, portadora do nome correto do indivíduo, a qual é passiva, dependente, culpada e depressiva. As identidades alternativas com freqüência têm nomes e características diferentes, que contrastam com a identidade primária (por ex., são hostis, controladoras e autodestrutivas). Identidades hostis ou agressivas podem, por vezes, interromper atividades ou colocar as outras em situações incômodas.

Os indivíduos com este transtorno experimentam freqüentes lacunas de memória quanto sua história pessoal, tanto remota quanto recente. A amnésia freqüentemente é assimétrica. Pode haver perda de memória não apenas para períodos recorrentes de tempo, mas também uma perda geral da memória biográfica para algum período extenso da infância. As transições entre as identidades freqüentemente podem ser ativadas pelo estresse psicossocial, pela ansiedade exagerada, pela tensão pré-menstrual.

Em geral, as pessoas que recebem o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Múltipla já passaram pelo menos sete anos no sistema de saúde mental. Segundo várias pesquisas sobre estes pacientes, 90% deles são depressivos, 61% fizeram sérias tentativas de suicídio, e 53% têm uma história de abuso significativo (veja artigo completo sobre Personalidade Múltipla em Política da Histeria).

A cultura, através da mídia, da literatura e do folclore forneceu modelos de personalidades alternantes para as mais diversas aspirações histéricas, desde Mr. Spock, Tartarugas Ninjas, pomba Gira, até os mais pervertidos demônios, vampiros e lobisomens.

Rock (ou Cultura) e Crimes Esotéricos
Um dos casos mais famosos de assassinatos esotéricos ligados ao rock foi a ação do maníaco americano Charles Manson e sua fascinação pela música dos Beatles. Manson era um fanático religioso que acreditava ser Jesus Cristo encarnado e possuir uma "família", que eram os seguidores de suas pregações.

Manson acreditava também que os Beatles eram anjos mandados a Terra por Deus para avisar os homens sobre o terrível apocalipse que se aproximava, e que eles haviam feito isso através do famoso White Album, o Álbum Branco. As canções segundo interpretações de Charles Manson, citavam suicídio (Yer Blues), os próprios sons do Armageddon, trazidos pelos "anjos do apocalipse" (Revolution#9), sugestões de destruição (a versão de Revolution contida no álbum chamada de Revolution#1 era um take mais lento do famoso single da banda e na frase que fala "But when you talk about destruction... don´t you no that you can count me out..." eis que imediatamente após a última palavra (out) uma voz pronuncia de uma forma bem clara "in") e, principalmente, as guerras raciais figuradas em diversas músicas.

Essas guerras raciais são sugeridas para Mason em, por exemplo, "Piggies", que seriam os "porcos brancos" e "Black Bird" possivelmente os Panteras Negras. Notava no fade de "Piggies", sons de metralhadoras, sugerindo a guerra declarada, o caos total, as guerras raciais, a destruição, a revolução final.

Charles Mason em certa época teve uma música supostamente roubada pelos "Beach Boys", sua canção "Cease to Exit" teria sido utilizada pelo grupo californiano sobre o título de "Never Learn Not to Love" para o álbum 20/20. A fúria de Manson caiu principalmente sobre Terry Melcher (filho de Doris Day), um produtor musical que havia negado um contrato de gravação de suas músicas, incluindo a utilizada pelos Beach Boys, estes fazendo grande sucesso com o plágio de sua canção.

Assim, Mason decide invadir com sua "família" a ex-residência do produtor Melcher. Na loucura de Manson, não importava se Melcher morasse ou não lá. A nova moradora era a atriz Sharon Tate na época recém casada com o diretor Roman Polanski. A artista estava com alguns amigos em sua casa. Manson promoveu uma chacina, numa atitude absurdamente covarde.

 Charles Mason

Charles Mason depois da prisão.

 A familia Manson utilizou o sangue de suas vítimas para escrever nas paredes da casa "Helter Skelter", "Political Piggy" e "Arrise". Helter Skelter e seu significado tomado por Manson, citados antes, seriam o seu propósito, Political Piggy seria a referência às pessoas mortas ali e Arise, uma citação a um trecho da música "Black Bird": "You’re only waiting for this moment to arise" (Você está esperando somente este momento para levantar-se), este trecho é repetido várias vezes na música.

Um outro fato ligando os Betles e seu Álbum Branco com Charles Mason, é que um dos assassinos da família possuía o apelido "Sexy Sadie", nome de outra música do disco do grupo musical.

O rock satânico tal como se conhece agora, o "Death Metal", tem sua origem no Heavy Metal, movimento musical surgido no final dos anos 60 (Black Sabbath, 1969) que se inspira, entre outros, em Lede Zeppelim. Em algumas letras das canções desse grupo se oferece a vida de satanás. O músico do grupo nazi-satânico, o sueco Burzum, assassinou um colega seu de Mayhem obedecendo a um sinistro rito.

A relação cultural entre o rock e o satanismo remonta aos tempos em que os Roling Stones confraternizaram com o diabo em álbuns como, por exemplo, Their Satanic Majesties Request (1967) e Sympathy for the Devil (1968), cuja letra diz: "Por favor, deixe-me que me apresente. Sou um homem rico e distinto (...). Tenho roubado a alma e a fé de muitos homens. Estive presente quando Jesus teve seus momentos de dúvida e dor".

Bryam Gregory, guitarrista da primeira formação de The Cramps, abandonou a o grupo para unir-se a uma seita satânica. Para celebrar sua iniciação, deixou-se fotografar nu, com uma serpente enrolada no pênis. Depois montou uma banda chamada The Beast. Os próprios Cramps pertenceram a A Igleja de Satã (veja Church of Satan – Website oficial da Igreja de Satã, Legion of Loki - Igreja de Satã de em Saint Louis, Mephisto Grotto – Igreja de Satã de Chicago).

Seitas, Crenças e Crimes Esotéricos
Grupos esotéricos costumam ser autoritários em sua estrutura de poder. O líder tem autoridade suprema, podendo delegar certos poderes à uns poucos subordinados com o propósito de que os membros se submetam aos desejos e ordens do líder.

Os líderes sectários tendem a ser carismáticos, decididos e dominantes. Eles são muito persuasivos e, inclusive, podem convencer seus seguidores a abandonar suas famílias, trabalhos e amizades para seguí-los.

Normalmente os líderes são autoproclamados messias e presumem ter uma missão especial na vida. Eles centram a veneração de seus adeptos para si mesmos, ao contrário dos sacerdotes, rabinos, ministros, líderes democráticos e de movimentos realmente altruístas, os quais dirigem a veneração de seus seguidores para Deus, para princípios abstratos ou para o bem comum.

A seitas esotéricas tendem a ser totalitárias no controle do comportamento de seus membros, determinando com detalhes como e em que devem acreditar, pensar e dizer.

No Chile, depois de uma série de denúncias de seitas perigosas uma comissão especial da Câmara dos Deputados foi encarregada de investigar o assunto. Considerou que as organizações têm um "perfil destrutivo", quando se caracterizam por: Fanatismo, obediência incondicional, grupo exclusivo e fechado, líder messiânico revelado (veja).

Com essas características os fiéis rompem com o mundo, especificamente com suas famílias, seus amigos e com o entorno educacional. Eles são condicionados por meio de métodos de violação da dignidade humana e, geralmente, são exigidas condutas indignas, tais como sexualidade pervertida, trabalho escravo, sono diminuído e desprezo pela família e pelos seus valores.

A sexualidade pode ser muito manipulada, particularmente das mulheres, que chegam a exercer uma espécie de "prostituição santa" para que a seita ou o líder consiga mais facilmente seus objetivos.

Ainda na área da conduta, seus membros costumam ser estimulados a agredir e profanar outras igrejas tradicionais e lugares significantes para o cristianismo. Costumam haver profanações de cemitérios, de sepulturas, práticas de necrofilia e de necrofagia e, mais grave ainda, suicídios individuais e coletivos.

Temos visto certas manifestações psiquiátricas serem tomadas por possessões demoníacas ou fenômenos espirituais e, não obstante, o inverso também ocorre, ou seja, fenômenos religiosos e culturais serem tomados por doenças mentais.

Algumas alterações psíquicas podem ser responsáveis por várias formas de visões, alucinações, vozes e crises de dissociação histérica e outras, são confundidas com manifestações religiosas, dependendo do contexto cultural onde se inserem esses pacientes. Aliás, dependendo do meio cultural, tais alterações psíquicas acabam sendo muito bem-vindas e até engrandecem seus portadores.
As principais patologias responsáveis por esses e outros sintomas tomados como espirituais seriam:

Casos de Delírium;
Alucinose orgânica e outras
Transtornos devido ao uso de substâncias psicoativas;
Esquizofrenia e outras Psicoses;
Transtornos do humor
Transtornos Dissociativos
Transtorno de Transe e Possessão

Como bem referem alguns autores, o problema médico que decorre desse engano psiquiátrico-espiritual está no fato desses pacientes terem seu tratamento protelado perigosamente. Alguns meios culturais mais acanhados orientam esses pacientes a "desenvolverem sua mediunidade" e, de fato, acabam desenvolvendo mais ainda a patologia de que padecem. Dependendo da doença psíquica as práticas espirituais podem piorá-la gravemente. De acordo com Hélio Silva, "não me parece que uma mente transtornada venha melhorar com a entrada de algo com personalidade diferente da pessoa que é incorporada, quantas vezes provocando um grau tal de corrupção e domínio que chega às raias do bizarro, do apavorante, etc.".

No caso dos fenômenos culturais e espirituais serem tomados por doenças mentais o que está em jogo é a exaltação da convicção religiosa, compartilhada por um grupo e desencadeadora de transes com visível contaminação aos participantes do grupo. Externamos aqui uma opinião médica, emancipada totalmente da possibilidade dos fenômenos espirituais existirem ou não, lembrando sempre aos leitores que o enfoque médico é apenas uma maneira, dentre muitas, de avaliar a pessoa humana, podendo esta ser analisada pela antropologia, pela estética, pela religião e assim por diante.

Há, mesmo na medicina, pessoas qualificadas para analisar a questão do transe e possessão à luz da espiritualidade. Outros, menos sensibilizados pela espiritualidade, estudam as alterações psicodinâmicas da mediunidade (veja Wellington Zangari). A questão estará eternamente aberta.

Segundo Wellington Zangari, falando da relação entre mediunidade e dissociação, "...Há uma tendência, antiga e atual, em interpretar o fenômeno da mediunidade como um estado dissociativo. O conceito de dissociação tem sido construído diferentemente de acordo com a cultura do pesquisador. O conceito de desagregação, proposto por Pierre Janet, por exemplo, refere-se os fenômenos por meio dos quais duas ou mais idéias ou estados de consciência tornam-se separados e operam com aparente independência, tal como ocorre com a hipnose, os estados de fuga e a mediunidade. Krippner propõe que a "dissociação envolve a ocorrência de experiências e comportamentos que se supõe existirem afastados, ou terem sido desconectados, da consciência, do repertório comportamental e/ou do auto-conceito. ‘Dissociação’ é o processo pelo qual essa desconexão ocorre". Hilgard (1992) e Braun (1988) apontaram que a dissociação pode ocorrer em variados níveis, além de não estar limitada a fenômenos disfuncionais. Haveria um continuun entre a dissociação patológica e a dissociação não patológica (veja tudo)."

A chamada "Dissociação Não-Patológica" estaria, assim, condicionada aos estímulos culturais para que a pessoa a desenvolva, até como uma adequação as solicitações de adaptação ao sistema. Dessa forma, já que a adaptação está relacionada à saúde emocional, tais pessoas "adaptadas" seriam perfeitamente normais, apesar de se apresentarem em transe. Nesses casos, apesar da mediunidade dar-se através da, digamos, potencialidade dissociativa (histriônica) do médium, ela obedece sempre os anseios, vocações e valores do grupo social do médium. Serão sempre os elementos sócio-culturais do grupo, da comunidade, ou do sistema que ditarão as características das entidades possessórias evocadas pelo médium e, evidentemente, refletirão sempre conteúdos mentais do médium ou do possuído.

Alguns países tentam incluir no Código Penal, sob o rótulo de delito de controle mental, os cultos e seitas esotéricas consideradas destrutivas, apesar das grandes dificuldades encontradas pelos legisladores. Foi difícil, inclusive, encontrar um termo de consenso, o qual parece ter ficado como “Grupo Destrutivo”.

para referir:
Ballone GJ, Moura EC - Crimes Esotéricos - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2008.




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Caso Ricky Kasso
Ricky Kasso era um jovem de 17 anos de idade que residia em Northport, Long Islande. Apelidaram-no de "Rei do Ácido", devido à sua afeição às drogas alucinógenas.

Em 1984, a polícia de Northport recebe uma chamada telefônica declarando que havia sido achado um corpo semi-enterrado num pequeno bosque de Aztakea. Um grupo de agentes se dirigiu ao lugar com a intenção de comprovar a veracidade da chamada, e efetivamente, nos bosques se encontrou o corpo de Gary Lauwers.

Por o elevado grau de decomposição do cadáver se estimou que devia levar ali mais de duas semanas. O homem havia sido apunhalado 32 vezes, das quais umas 22 na face. Devido ao mal estado do corpo, os agentes não poderiam assegurar o número exato de feridas, podendo ter sido um total de cortes maior ao precisado.

A polícia enfocou sua investigação sobre dos jovens bastante conhecidos no mundo policial como consumidores de drogas habituais e por cometer atos de vandalismo próprios de adolescentes. Se tratava de Ricky Kasso e seu amigo James Troiano. Os dois haviam deixado a escola secundária e se dedicavam a andar à toa pelas ruas.

Eram dos personagens curiosos, Troiano tinha o recorde de detenções por roubo, enquanto Kasso reunia detenções por casos mais estranhos, sendo a última por ter profanado uma tumba do século 19, tendo roubado um crânio e uma mão. Segundo suas declarações, pensava utilizar o material roubado num rito satânico.

Pouco depois foram postos sob custodia, e num interrogatório quase de rotina, ambos confessaram aos agentes terem cometido aquele assassinato. Diziam que tinham se unido a um grupo satânico local, conhecido como "Os Cavaleiros do Círculo Negro", o qual tinha ao redor de vinte membros e era conhecido por seus sacrifícios animais a satã.

Atribuíram ao crime parte de um rito satânico, no qual haviam extraído os olhos da vítima. Kasso declarou que estava no bosque com Lauwers e dois amigos, Quinones e Troiano. Disse que começou a sentir-se extremamente agressivo, então começou a golpear a Lauwers até perder o controle. Logo reconheceu haver sacado uma faca e apunhalado gritando "Diga que ama a satanás". Como o agredido contestava dizendo que "Não, eu só amo a minha mãe", matou-o.

Quando viu o que havia feito sentiu medo mas, nesse momento, disse ter escutado o canto de um corvo que, em sua mente, identificou como um sinal de satanás dizendo que o crime havia sido em sua homenagem, sendo um fato positivo para ele. Por outro lado, quando James Troiano foi interpelado em juízo por assassinato em segundo grau, declarou que nem o grupo de satanistas "Os Cavaleiros do Círculo Negro", nem o satanismo em geral haviam tido nada a ver com o crime.

Ele afirma ter sido apenas uma testemunha do assassinato, junto com Alberto Quinones. E, mesmo o satanismo não estando envolvido com o assassinato, admitiu que Kasso tinha um estilo de heavy metal muito duro e bastante relacionado com o satanismo, mas que as drogas haviam sido o fator principal do crime. O ato que motivou o assassinato, de fato, foi que Lauwers tinha roubado dez papelotes de droga de Kasso.

Para finalizar, em 7 de julho de 1984, Richarde Kasso se suicida na prisão de Riverheade, em Nova Iorque. Anos mais tarde, em 1992, baseado na história de Ricky Kasso, saia o filme My Sweet Satam (Meu Doce Satanás), escrita, dirigida e interpretada por Jim vam Bebber.

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Crimes Esotéricos

A pessoa que vivencia uma realidade diferente e estimulada por outra pessoa está sendo sugestionada ou influenciada. Em termos gerais, somos todos sugestionáveis. Isso equivale a dizer que o ser humano é, essencialmente, um imitador.

A força de persuasão da moda, por exemplo, é incontestável, e a própria propaganda e marketing só se viabilizam tomando por base a sugestionabilidade humana.
Mas a sugestão não tem nada a ver com o Delírio e com as Idéias Deliróides. Nessas duas situações, francamente patológicas, a liberdade de deixar de lado o Pensamento Mágico e reassumir o Pensamento Lógico é impossível de ser feito pela força da vontade. Na sugestão, por sua vez, apesar da força do que fora sugerido, é possível que a pessoa abandone esse tipo de pensamento de natureza mágica através de seu arbítrio.
Pessoas podem causar sugestões em outras, assim como ambientes também podem influir. Vejamos, por exemplo, as influências sugestivas do ambiente hospitalar, carnavalesco, militar, musical e, evidentemente, religioso.

Assim como as forças sugestivas têm vários graus de penetrância, indo da simples propaganda à lavagem cerebral, as pessoas também possuem graus variados de sugestionabilidade, desde o normal até o altamente sugestionável, esse último representado pelas personalidades histéricas ou histriônicas (Veja Personalidade Histriônica em PsiqWeb).

O sucesso da sugestão está no fato de tratar-se de um apelo dirigido ao sentimento e às emoções, mais do que à razão. E será tão mais forte quanto mais atender necessidades emocionais. Mas, seja qual for o grau de sugestionabilidade ou de influência, como não se trata de Delírio nem de Idéia Deliróide, será possível reassumir o Pensamento Realístico através do arbítrio.

Não podemos aceitar, com naturalidade, a afirmativa “não consigo” por parte do paciente. Diante disso temos duas opções: ou, de fato, ele não consegue deixar os Pensamentos Mágicos voluntariamente, caracterizando o Delírio e não uma sugestão e, sendo assim, terá de ter obrigatoriamente outros dados clínicos ou, certamente, se não tem esses outros dados clínicos necessários ao Delírio será, de fato, uma sugestão. Nesse caso a pessoa consegue sim, desvencilhar-se dos Pensamentos Mágicos, independente de afirmar que não consegue.

A Auto-Sugestão é a mesma coisa que a Sugestão, porém, tendo como mola propulsora a influência de elementos internos, motivados pelos valores culturais junto com as necessidades emocionais, e não apenas elementos externos, motivados por outras pessoas.

Casos de sugestão e auto-sugestão podem ser representados por pessoas que perdem o sossego porque viram vultos na casa, que ficam apavoradas com o aparecimento de feitiço na soleira da casa, que sentem calafrios e perturbações depois de visitarem um terreiro de umbanda. Outras vezes, são pessoas que se julgam muito doentes e que melhoraram sensivelmente quando o último exame médico apresentou resultado negativo, pessoas que saram depois de benzimentos e simpatias, e assim por diante.

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Fernando Portela Câmara, psiquiatra clínico, professor da UFRJA, tem um magnífico artigo sobre Transe e Possessão: As Bases da Psiquiatria Transcultural Brasileira. Veja um trecho:

Quando estudamos todas estas seitas encontramos um fenômeno único sobre o qual assenta-se toda a diversidade dos seus rituais e crenças: o transe com possessão. Por outro lado, quando estudamos o transe ritual em nossa cultura popular, podemos aprender muita coisa e aumentar significativamente nossa comunicação com nossos paciente, muitas vezes membros ou simpatizantes destes cultos.

Estas seitas oferecem aos seguidores uma terapia transcultural baseada no transe ou mediunismo, recebendo nomes como “desenvolvimento da mediunidade”, “assentamento do santo”, etc. dependendo de sua origem. Esta forma de psicoterapia, não verbal e dessensibilizadora, ocorre em sessões repetidas até o desaparecimentos dos sintomas e restabelecimento do equilíbrio emocional da personalidade. Ocasião em que muitas vezes acontece a conversão do padecente, agora curado, na fé professada pelo culto. Os indivíduos que se beneficiam desta transeterapia são via de regra aqueles que sofrem de todos as formas de transtornos dissociativos (ou conversivos) e suas múltiplas nuanças (estas nem sempre reconhecidas pela maioria dos psiquiatras). Também as fobias simples, o transtorno do pânico, o transtorno de estresse pós traumático, a maioria das disfunções sexuais, etc, condições que apresentam fenomenologia dissociativa, muito se beneficiam com esta forma de psicoterapia transcultural.
Veja o artigo

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Exemplo de Personalidade Múltipla
Joan Acocella conta que a paciente-estrela de um programa de tv americano, P. B., mudava de personalidade em frente à câmera para o Chicago Evening News, e acreditava ser uma sacerdotisa satânica que comia cadáveres. Afirmava que seus filhos eram membros do culto e assassinos experientes.

Os anos 80 foram cheios de rituais satânicos, muitos deles atribuídos aos Transtornos de Personalidade Múltipla. Era uma epidemia. Num livro sobre o assunto (Michelle Remembers) conta e história de uma dona de casa canadense que tinha sido torturada aos cinco anos por um culto satânico. Os satânicos quase a mataram de fome, vomitaram nela, a sodomizaram e a eletrocutaram.

Certa vez a levaram até um dique de pedra num carro arrebentado, esfregando nela pedaços de cadáveres ensangüentados. No final, a largaram dentro de um túmulo onde jogaram gatinhos mortos. Após um ano, eles a deixaram ir, e ela "esqueceu" tudo até que começaram suas sessões de hipnose com o Dr. Pazder, vinte e dois anos depois.

Em Appleton, Wisconsin, a paciente N.C. desenvolveu na terapia de Transtorno de Personalidade Múltipla, cento e vinte e seis personalidades alternantes, que incluíam um demônio e um pato! A fim de expulsar o demônio, o terapeuta submeteu-a ao exorcismo. Usou um extintor de incêndios, alegando que "Satanás costuma deixar anéis de fogo". Estas histórias e outras resultaram em acordos e indenizações multimilionárias