Abuso no Relacionamento Íntimo

O abuso no relacionamento interpessoal íntimo tem efeitos danosos marcantes na qualidade de vida, na saúde física e emocional.
| Mulher | Sexualidade | Família |


É fato sabido que as relações íntimas, maritais, coabitacionais ou de namoro são, por vezes, pautadas pela presença de algum tipo de disfunção e, não raro, de abuso franco. De fato, em outra página dissemos que “existem relações amorosas claudicantes, onde a pessoa que ama não deseja apenas o outro, mas deseja também o desejo do outro, o sentimento do outro e tudo o que possa estar ocorrendo na intimidade psíquica do outro. Diante da impossibilidade de nos apossarmos do sentimento alheio, a pessoa que ama sofre, pois o outro pode não estar sentindo aquilo que se deseja que sinta, pode não estar pensando justamente aquilo que se deseja que pense.

Na medida em que as pretensões de controle sobre os sentimentos da pessoa amada não são contidas, não são ponderadamente refreadas, surge uma imperiosa inclinação para a posse, para o domínio da pessoa amada.” (veja o texto Complicações do Amor).

O abuso no relacionamento interpessoal íntimo tem efeitos danosos marcantes na qualidade de vida, na saúde física e emocional. Tem sido freqüente o comportamento abusivo no relacionamento íntimo, com prevalência variada em diversos países e através de alguns tipos de abuso, como por exemplo, abusos físico, sexual e psicológico.

Entre os estudos e reflexões sobre o comportamento abusivo na vida íntima e/ou conjugal existe a teoria da vinculação afetiva na infância, enfatizando o impacto da qualidade das relações familiares e o impacto de eventuais abusos sofridos durante a infância, os quais, por sua vez, interfeririam na qualidade do relacionamento com o companheiro na idade adulta.

Incidência acima do que se suspeita
A incidência desse tipo de comportamento abusivo se comprova alta, acima do que se suspeita, e é mais comum no início da idade adulta (Bachman, 1995), sendo o grupo que mais apresenta comportamento violento dos 19 aos 29 anos de idade.

Incidência de comportamento abusivo no relacionamento íntimo é um dado difícil de se pesquisar, notadamento porque existe uma tendência a ocultar esse tipo de comportamento dos demais. Na maioria das vezes o relacionamento não se desfaz porque o companheiro(a) não abusivo(a) insiste em acreditar que, de uma hora para outra, mediante amor, carinho, complacência e tolerância, haverá uma grande mudança na personalidade do outro, que passará a ser a pessoa ideal.

Os aspectos sobre prevalência desses casos são baseados no trabalho de Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho, publicado na revista Psicologia, Saúde & Doenças (2003). Afirmam que em 1981, pela primeira vez foi referido que 21% dos estudantes pré-universitários vivenciaram um ou mais atos de agressão física em suas relações com o(a) companheiro(a). (Makepeace). Estima-se que 4 milhões de mulheres norte-americanas são vítimas de algum tipo de agressão séria por parte do companheiro por ano, destas, cerca de 1 milhão são vítimas de violência física não fatal (Rush, 2000).

Segundo Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, no ano de 1996 as estatísticas oficiais norte-americanas mostraram que 1,5 milhões de mulheres e 834.700 homens sofreram abuso físico ou sexual por parte do(a) companheiro(a). Em 1998, cerca de 1.830 homicídios foram atribuídos ao companheiro, sendo que 3/4 das vítimas são mulheres (Rennison, 2000). Entre os anos de 1993 e 1998, cerca de 2/3 das vítimas de abuso pelo companheiro referem seqüelas físicas, enquanto que 1/3 reporta apenas ameaças ou tentativas de violência.

Outro fato bastante conhecido das pesquisas e das entidades que prestam assistência à esse tipo de problema, é que a maioria das vítimas de abuso pelo(a) companheiro(a) não procura assistência policial, jurídica ou médica.

Abuso físico; comum em muitos países.
O uso de ameaça, força física ou restrição imposta a outro no sentido de coagir, obrigar, castigar, causar dor ou injúria é um abuso físico. Esse abuso físico tem sido pesquisado entre as pessoas com relacionamento íntimo e, segundo ainda Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, autores norte-americanos (Sugarman, 1989) constataram que cerca de 33 a 36% de estudantes de ambos os sexos e com relacionamento íntimo já foram vítimas de abuso físico.

A incidência entre os estudantes tem sido quase a mesma da população geral, pois outros autores (Stets, 1991), em amostra representando a população geral norte-americana de pessoas não casadas e com idades entre os 18 e os 30 anos, verificaram que 30% das pessoas referia ter sido vítima de agressão física, nos 12 meses que antecederam a pesquisa.

Insistimos, de novo, que há possibilidade desses números não refletirem a dimensão real do problema, principalmente quando as pesquisas não são têm a natureza totalmente anônima do entrevistado. É bastante conhecido por pesquisadores e por entidades que prestam assistência à esse tipo de problema, que a maioria das vítimas de abuso pelo(a) companheiro(a) não procura assistência policial, jurídica ou médica.

Ao contrário do que se acredita, abusar fisicamente não é monopólio do sexo masculino. Em 2002, de acordo com o trabalho de Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, citando Straus, Aldrighi, Borochowitz, Brownridge, Chan, Figueiredo, et al., considerando uma amostra de 3.086 estudantes universitários de ambos os sexos oriundos de 14 países, constatou-se que 28,2% dessas pessoas relatou ter perpetrado algum tipo de abuso físico sobre o(a) companheiro(a), sendo 27,7% do sexo masculino e 28,7% do sexo feminino. Ainda nessa amostra, em 9,7% dos casos se verificam formas mais severas de abuso físico.

Entre os países pesquisados, no México é onde se encontraram os maiores valores de abuso físico no relacionamento íntimo, chegando a acometer 51% dos entrevistados, sendo mais freqüente também suas formas mais severas (15,9%). A menor a prevalência de abuso físico perpetrado sobre o companheiro foi registrado no Canadá, tanto para o abuso físico total (16,1%), como para as formas mais severas deste tipo de abuso (5,8%).

Quando as vítimas são homens, normalmente a violência física não é praticada diretamente, tendo em vista a habitual maior força física dos homens. Havendo intenções agressivas por parte da mulher, esses atos podem ser cometidos por terceiros, como por exemplo, parentes da mulher ou profissionais contratados para isso. Outra modalidade são as agressões que tomam o homem de surpresa, como por exemplo, durante o sono.

Abuso sexual
O abuso sexual é qualquer conduta sexual com uma criança levada a cabo por um adulto ou por outra criança mais velha. Isto também pode significar, além da penetração vaginal ou anal na criança, tocar seus genitais ou fazer com que a criança toque os genitais do adulto ou de outra criança mais velha, ou o contacto oral-genital ou, ainda, roçar os genitais do adulto com a criança.

Às vezes ocorrem outros tipos de abuso sexual que chama menos atenção, como por exemplo, mostrar os genitais de um adulto a um criança, incitar a criança a ver revistas ou filmes pornográficos, ou utilizar a criança para elaborar material pornográfico ou obsceno.

Entre adultos, o abuso sexual é habitualmente definido como “uma interação sexual conseguida contra a vontade do outro, através do uso da ameaça, força física, persuasão, uso substâncias facilitadoras ou outro recurso a uma posição de autoridade” (veja Abuso Infantil).

Segundo ainda Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, em torno de 28% das mulheres refere ter sido violada (com penetração completa) por um namorado, “ficante” ou pessoa conhecida. Quando se considera abuso sexual a partir de tentativa de violação, a proporção de sobe para 39% (Koss, 1988).

Entre estudantes universitários pesquisados, cerca de 15,7% das mulheres e 4,4% dos homens relatam abuso sexual pelo companheiro. Esse estudo de Straus (2002), mostra ainda que 24,7% das pessoas (3086) de 14 países coagiram sexualmente a(o) companheira(o), sendo 39,9% do sexo masculino e 18,6% do sexo feminino. No Brasil, infelizmente, essas taxas de coerção sexual sobre o companheiro são mais elevadas (41,6%) e no Canadá são as menores (5,9%).

Mas, seja qual for o número de abusos sexuais em crianças mostrado nas estatísticas, seja quantos milhares forem, devemos ter em mente que, de fato, esse número pode ser bem maior. A maioria desses casos não é reportada, tendo em vista que as crianças têm medo de dizer a alguém o que se passou com elas.

Abuso psicológico
O abuso psicológico é um padrão de comunicação, verbal ou não, com a intenção de causar sofrimento psicológico em outra pessoa, segundo Straus, citados por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo. Esses pesquisadores encontram valores elevados de prevalência de abuso psicológico em amostra de 5232 casais norte-americanos. Nesta forma de abuso houve semelhança entre homens (26%) e mulheres (25%).

Muitas vezes o abuso psicológico é a única forma de abuso entre o casal, talvez por se tratar de uma atitude menos detectada como politicamente incorreta. Em amostra de 1152 mulheres com idades entre 18 e 65 anos, observam que 53,6% relatam alguma forma de abuso (físico, sexual ou psicológico) perpetrado pelo companheiro, sendo que 13,6% reportam especificamente abuso psicológico na ausência dos outros tipos de abuso (Coker, 2000).

O abuso psicológico é, às vezes, tão ou mais prejudicial que o abuso físico, e se caracteriza por rejeição, depreciação, discriminação, humilhação, desrespeito e punições exageradas. Não é um abuso perpetrado predominantemente pelos homens, como é o caso do abuso físico. Ele existe em iguais proporções em homens e mulheres. Trata-se de uma agressão que não deixa marcas corporais visíveis, mas emocionalmente causa cicatrizes indeléveis para toda a vida (veja Violência Doméstica).

Um tipo comum de abuso psicológico é a que se dá sob a autoria dos comportamentos histéricos, cujo objetivo é mobilizar emocionalmente o outro para satisfazer a necessidade de atenção, carinho e adulação. A intenção do(a) agressor(a) histérico(a) é mobilizar o outro(a) tendo como chamariz alguma doença, alguma dor, algum problema de saúde, enfim, algum estado que exige atenção, cuidado, compreensão e tolerância.

Outra forma de abuso psicológico é fazer o outro se sentir inferior, dependente, culpado ou omisso é um dos tipos de agressão emocional dissimulada mais terríveis. A mais virulenta atitude com esse objetivo é quando o agressor faz tudo corretamente, impecavelmente certinho, não com o propósito de ensinar, mas para mostrar ao outro o tamanho de sua incompetência.

Stets (1990), citado por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, em uma ampla investigação com a população americana, verifica que 65% dos homens têm comportamentos de abuso verbal ou psicológico com a companheira.

Agressões Psicológicas são aquelas que, independentemente do contacto físico, ferem moralmente. A Agressão Psicológica, como nas agressões em geral, depende do agente agressor e do agente agredido. Quando não há intencionalidade agressiva e o agente agredido se sente agredido, independentemente da vontade do agressor, a situação reflete uma sensibilidade exagerada de quem se sente agredido.

Havendo intencionalidade do agressor, o mal estar emocional produzido por sua atitude independe da eventual sensibilidade aumentada do agente agredido e outras pessoas submetidas aos mesmos estímulos, se sentiriam agredidas também.

A Agressão Psicológica é especialidade do meio familiar, e muito possivelmente, dos demais relacionamentos íntimos, chegando-se ao requinte de agredir intencionalmente com um falso aspecto de estar fazendo o bem ou de não saber que está agredindo. O simples silêncio pode ser uma agressão violentíssima. Isso ocorre quando algum comentário, uma posição ou opinião é avidamente esperado e a pessoa, por sua vez, se fecha num silêncio sepulcral, dando a impressão politicamente correta de que “não fiz nada, estava caladinho em meu canto.... "Dependendo das circunstâncias e do tom como as coisas são ditas, até um simples “acho que você precisa voltar ao seu psiquiatra” é ofensivo ao extremo, assim como um conselho falsamente fraterno, do tipo “não fique nervoso e não se descontrole.

Não é o freqüente, no relacionamento íntimo, a agressão sem intencionalidade de agredir, ou seja, a agressão que é sentida pelo agente agredido, independentemente da vontade do agressor. Normalmente, pelo fato da família ser um grupo onde seus membros têm pleno conhecimento da sensibilidade dos demais, mesmo que a situação de agressão refletisse uma sensibilidade exagerada de quem se sente agredido, o agressor não-intencional deveria ter plena noção das conseqüências de seus atos. Portanto, argumentar que “não sabia que você era tão sensível” é uma justificativa hipócrita.

As atitudes agressivas refletem a necessidade de uma pessoa produzir alguma reação negativa em outra, despertar alguma emoção desagradável. As razões dessa necessidade são variadíssimas e dependem muito da dinâmica própria de cada família. Podem refletir sentimentos de mágoa e frustrações antigas ou atuais, podem refletir a necessidade de solidariedade emocional não correspondida (estou mal logo, todos devem ficar mal), podem representar a necessidade de sentir-se importante na proporção em que é capaz de mobilizar emoções no outro.... enfim, cada caso é um caso.

CAUSAS
De acordo com Armando Correa de Siqueira Neto, colaborador de PsiqWeb, nas relações humanas, sobretudo na vida conjugal, observam-se comportamentos variados. Inicialmente, se evidencia o poder do envolvimento e o êxtase exercido pela atração das partes que se conhecem. Escolhemos os nossos pares pelo comportamento aparente. E, aquilo que queremos para nós, depositamos nesse outro. Durante o período de namoro não nos permitimos ver, realmente, quem ele é. Com a chegada da rotina no relacionamento torna-se possível conhecer a pessoa como ela é de verdade. Então, começam a surgir os problemas, haja vista o fato de iniciar-se uma intolerância com relação aos defeitos do outro.

1 - Teoria da Vinculação
Embora as causas do abuso com o companheiro se devam a uma grande diversidade de circunstâncias, merece um destaque muito especial a Teoria da Vinculação. Estudos empíricos sobre a importância da Teoria do Vínculo nos relacionamentos íntimos mostram que crianças traumatizadas, maltratadas, abusadas, abandonadas, ou seja, com prejuízo na formação do Vínculo Afetivo durante a infância apresentam, com freqüência, modelos inseguros de representação da realidade na idade adulta, com conseqüentes dificuldades no relacionamento íntimo. No futuro essas pessoas são, com mais freqüência, vítimas ou perpetradores de maus tratos nas relações interpessoais com as pessoas significativas. Além disso, através dessa Teoria do Vínculo, a pessoa vítima de maus tratos durante a infância constrói padrões inseguros de vinculação no relacionamento íntimo na idade adulta.

O Vínculo Afetivo descrito por Brazelton (1988) tem início na gestação e continua através das interações que vão ocorrendo posteriormente. Bee (1997) relata que o contato imediato após o parto parece aprofundar a capacidade de a mãe (e talvez também do pai) responder em relação ao bebê. Alguns psicólogos acreditam que a capacidade de formação de vínculo social é resultado da maturação e que deve ocorrer algum relacionamento logo no início da vida da criança se quiser que esta seja capaz de, mais tarde, formar vínculos significativos.

Estudos de Bowlby (1990) e Hoffman, Paris e Hall (1996) sobre o vínculo entre mãe e filho ressaltam a importância desta dinâmica afetiva. Eles descrevem que essa ligação faz parte de um sistema comportamental cuja serventia esta ligada à preservação da espécie. Tal relação se deve ao fato de os bebês serem indefesos e incapazes de sobreviver sozinhos, então o apego entre o bebê e o seu cuidador viabiliza uma garantia de preservação.

Muitos obstáculos nas relações humanas estão ligados a esta precariedade do Vínculo Afetivo. O casal não consegue perceber este tipo de deficiência em seu relacionamento. Focaliza os problemas em outras questões, ou ainda, prefere nem tocar no assunto. Há casos em que ignora a possibilidade de lançar mão de uma psicoterapia. E, existem situações em que a resistência impera. Fato comum é dizer que não se precisa de tratamento algum, pois que as dificuldades são de outra ordem. Todavia, perde-se a chance de resolver na causa os efeitos de uma convivência difícil.

A Teoria do Vinculo Afetivo ou da vinculação foca-se na emergência e desenvolvimento dos “modelos” adquiridos durante o desenvolvimento infantil e no papel que tais modelos desempenham nas relações interpessoais futuras, ao longo do ciclo de vida. Acredita-se que as experiências vividas nos primeiros (seis) anos de vida são muito importantes para a construção do self e na estruturação do mesmo. Esses modelos internos construídos durante o desenvolvimento precoce se manifestarão nas futuras relações interpessoais íntimas e estabelecidas na idade adulta.

Decorrente das experiências e dos padrões de interação com as figuras significativas durante a infância, cada pessoa, possivelmente, constrói modelos internos e dinâmicos que servirão de guia do comportamento e das atitudes futuras, notadamente do comportamento interpessoal.

Também, de acordo ainda com esses modelos internos dinâmicos resultantes do vínculo estabelecido durante o desenvolvimento precoce da personalidade, a pessoa estabelece suas expectativas particulares sobre o que pode esperar de si própria e dos outros, sobre o que o outro deve corresponder, retribuir, se comportar... principalmente desse outro íntimo, ou seja, das figuras de vinculação afetiva que surgirão ao longo da vida.

Há casos em que ignora a possibilidade de lançar mão de uma psicoterapia. E, existem situações em que a resistência impera. Fato comum é dizer que não se precisa de tratamento algum, pois que as dificuldades são de outra ordem. Todavia, perde-se a chance de resolver na causa os efeitos de uma convivência difícil.

Ao observar os conceitos sobre o Vínculo Afetivo, bem como as suas implicações no ser humano, é possível prospectar formas favoráveis e desfavoráveis de relacionamento ao longo da vida. Se a formação da personalidade de uma pessoa contar com a existência de um vínculo precário, torna-se incompatível a existência de um relacionamento conjugal. Em relatos clínicos obtêm-se históricos onde o marido ou a esposa não tiveram essa formação vincular positiva com os seus pais. Posteriormente, na vida a dois, encontram dificuldades em manter o relacionamento por falta desta condição vincular.

Uma das disfunções no relacionamento íntimo decorrente da precariedade do Vínculo Afetivo pode ser chamada de Síndrome do Comportamento de Hospedagem, segundo Armando Correa de Siqueira Neto. Neste novo tipo de comportamento abusivo a pessoa age, inconscientemente, de forma semelhante a um hóspede dentro de sua própria casa. Realiza as suas atividades de maneira formal, impessoal e, aparentemente, desprovidas de alguma tonalidade afetiva, mantendo nesses padrões a comunicação e os hábitos rotineiros, inclusive os financeiros.

Nesta forma polida e até politicamente correta de agredir ao outro se nota uma certa frieza e um distanciamento formal. Aos poucos vai agindo como se fosse alguém que está hospedado na casa, cumprindo com alguns papéis pertinentes, todavia, trata as questões, antes emocionalmente importantes de forma racional, formal e independente. Normalmente deixa as responsabilidades, sobretudo as domésticas, para o outro cuidar. Onde havia uma atmosfera de cordialidade e doçura, passa a existir um espectro de isolamento e pesar. O outro vai percebendo, sensivelmente, as diferenças no tratamento recebido e acaba por se sentir, pouco a pouco, só. A sensação deste isolamento origina-se na forma pela qual a ausência do vínculo se manifesta nesta relação.

Quanto às uniões conjugais dos padrões Vínculo Afetivo “seguro” com “inseguros”, estudos desenvolvidos no ambiente conjugal mostram que pessoas adultas com padrão de vinculação “seguro” tendem a juntar-se com companheiros(as) também “seguros(as)”. Entretanto, algumas teorias argumentam que a união íntima “seguro/inseguro” poderá funcionar como “amortecedora” da ação maltratante por parte do companheiro(a) inseguro(a).

2 - Uso Abusivo de Álcool e Substâncias Psicoativas.
O uso de substâncias psicoativas (maconha e cocaína) está envolvido em até 92% dos episódios notificados de violência doméstica (Brookoff, 1997). O efeito desinibidor causado pelo álcool freqüentemente facilita a violência e estimulantes como cocaína, crack e anfetaminas também estão envolvidos em grande número de episódios abuso de violência em ambiente doméstico ou de relacionamento íntimo.

Em relação aos abusos sexuais, a Associação Médica Americana relata que o estupro representa 54% dos casos de violência marital, e o uso de álcool parece estar envolvido em até 50% dos casos (Bhatt, 1998). Homens casados violentos possuem índices mais altos de alcoolismo em comparação àqueles não violentos. Estudos relatam índices de alcoolismo de 67% e 93% entre maridos que espancam suas esposas. Bhatt mostra que entre homens alcoolistas em tratamento, 20 a 33% relataram ter atacado suas mulheres pelo menos uma vez no ano anterior ao estudo, ao passo que suas esposas relatam índices ainda mais elevados.

Monica Zilberman e Sheila Blume (2005), da Universidade de São Paulo, apresentaram trabalho mostrando a importância do entendimento por parte dos profissionais de saúde sobre o abuso de violência no ambiente doméstico, bem como suas conexões com o uso, abuso e dependência de substâncias psicoativas. Esses problemas envolvem não apenas os pacientes, mas também seus parceiros, filhos e idosos, influenciando o bem-estar físico e psicológico de toda a família.

Dados importantes desta pesquisa ressaltam que, estando envolvido o suo de substâncias psicoativas nesse problema, sua redução do uso automaticamente elimina o abuso físico e sexual. Apesar de pesquisas recentes mostrarem que o tratamento do alcoolismo está associado à redução da violência pelo parceiro, isso nem sempre ocorre.

Em relação ao alcoolismo, o estudo de O"Farrell (2003) mostrou que no ano que precedeu o tratamento de alcoolismo, 56% desses homens alcoolistas relataram ter sido violentos contra suas parceiras, contra 14% dos homens da amostra controle, sem alcoolismo. Um ano após o tratamento para alcoolismo, o índice caiu significativamente para um total de 25%, depois de conseguida a abstinência desses pacientes, a violência decresceu para 15% (similar aos controles).

3 - Personalidade e Abuso no Relacionamento Íntimo
Além dos efeitos das drogas e do álcool que estariam associados ao comportamento abusivo no relacionamento íntimo, também pessoas portadoras de Transtorno de Personalidade Anti-Social, de Transtorno Explosivo de Personalidade e de algum outro estariam mais propensas ao comportamento abusivo (nem sempre violento e agressivo). Mas não falamos de Transtornos Mentais de forma geral, pois, boa parte das pesquisas não encontrou diferença na prevalência da violência em doentes mentais sem abuso de substâncias, quando comparados com a população geral. O risco de violência em indivíduos da população geral com abuso de álcool ou drogas foi duas vezes maior do que em pacientes esquizofrênicos sem esse abuso. Finalmente, o maior risco de violência ocorre na combinação de abuso de álcool e/ou drogas com transtornos de personalidades, que não são consideradas doenças mentais francas.

A tendência a comportamentos irritadiços, agressivos, violentos, à carência de atenção, entre outros traços, pode ser entendida sob vários pontos de vista, notadamente como traços de personalidade, como respostas aprendidas no ambiente, como reflexos estereotipados de determinados tipos de pessoas ou até como manifestações psicopatológicas. (Veja Violência e Personalidade em Forense).

Entre pessoas intimamente relacionadas é impossível considerar o comportamento abusivo como um evento em si, emancipado das circunstâncias e contingências. Primeiramente, devemos considerar o abuso a partir do agente agressor, depois, a partir do agente agredido e, finalmente, a partir de um observador ou terceiro. Não surpreenderá encontrarmos três representações diferentes de um mesmo evento.

Do ponto de vista do agressor, deve-se considerar a intencionalidade dolosa do ato abusivo, ou seja, a tentativa intencional de uma pessoa em transmitir estímulos nocivos à outro. Para o agredido, deve-se considerar o sentimento de estar sendo agredido ou prejudicado e, quanto ao observador, deve-se considerar seus sentimentos críticos acerca da possibilidade de ter havido nocividade no ato em apreço, bem como sua intencionalidade (subjetiva) em promover a agressão.

Essas variáveis implicam em considerar, por exemplo, que a mulher pode se sentir agredida pelo silêncio do marido, caso estivesse ansiosamente esperando por algum comentário ou diálogo, mesmo se esperasse um comentário hostil. O marido, por sua vez, deve ser consultado sobre suas intenções lesivas ao optar por uma postura silenciosa. Ele tanto poderia estar silencioso por desinteresse, por ser calmo e amistoso, quanto por ter planejado ferir a mulher através do silêncio. Neste último caso, estaríamos diante de um ato de abuso psicológico e sem agressão física. A mesma cena poderia não ter um resultado agressivo, caso a mulher não se sinta agredida apesar da eventual intencionalidade agressiva do marido.

Conseqüências do abuso nos relacionamentos íntimos
As experiências de abuso (físico, psicológico e sexual) no contexto do relacionamento íntimo entre pessoas, têm efeitos adversos a curto e em longo prazo, como por exemplo, a questão da violência contra a(o) companheira(o). De modo geral, as mulheres vítimas de abuso do contexto da relação com o companheiro recorrem mais freqüentemente a serviços médicos, ficam mais dias de cama e exibem mais sintomas de estresse e depressão, assim como ideação e/ou tentativas de suicídio, transtorno de estresse pós-traumático, baixa auto-estima, abuso de álcool e de outras drogas.

Os efeitos em curto prazo das vivências de abuso envolvem várias reações emocionais significativas como, por exemplo, o medo, raiva, isolamento, ansiedade aguda, somatizações (palpitações, dores, falta de ar, etc), recrudescimento de doenças psicossomáticas (gastrointestinais, cardiocirculatórias, etc) e angústia (Koss, 1993).

Os efeitos da qualidade dos relacionamentos íntimos sobre o estado de saúde têm sido cada vez mais estudados. Em longo prazo o abuso sexual pode causar depressão, disfunção sexual, abuso e dependência de drogas e álcool, sintomas de estresse pós-traumático e sintomas dissociativos.

Em relação ao abuso físico e psicológico, as conseqüências incluem a depressão, sentimentos de elevada desconfiança em relação aos membros do sexo oposto, hipervigilância, tensão, sobressaltos e baixa auto-estima (Lloyd, 1993). Cascardi, (1999), por sua vez, mostrou que em 92 mulheres vítimas de abuso físico pelo companheiro, 29,8% apresentava critérios suficientes para diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e 32% critérios para Transtorno Depressivo Maior.

É preciso entender também que o abuso no relacionamento interpessoal íntimo é um forte estressor, capaz de ocasionar na vítima um processo de alterações neuropsíquicas, de natureza também orgânica. Damásio (1994), citado por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo, salienta a importância das estruturas cerebrais límbicas (amígdala, hipocampo) e do córtex pré-frontal, na troca de informações entre os estímulos recebidos, as respostas a acionar e a carga emocional respectiva. No processo de resposta ao estresse existe uma integração cortical e límbica que modula a resposta imunológica e o controlo das respostas autonômica e endócrina.

Experiências repetidas sobre o estresse psicológico sugerem o surgimento conseqüente de  emoções negativas como depressão, hostilidade, raiva, agressão, todas fortemente relacionadas com o sistema imunológico e com a saúde geral. (Veja Psiconeuroimunologia em Psicossomática).

Paiva e Figueiredo, citando Jacobson, Gottman, Waltz, Rushe, e Babcock (1993), referem avaliação de casais violentos e não violentos associados à experiência de raiva e medo. Verificam que, comparados com os casais não violentos, nos casais violentos, quer na vítima quer no agressor, se observam valores mais elevados de raiva e maior ativação do sistema nervoso autônomo com suas conseqüências orgânicas. Veja Cardiologia e Psicossomática, Hipertensão Arterial e Arritmia Cardíaca em Psicossomática.

Muitos autores, ainda citados por Carla Paiva e Bárbara Figueiredo (Campbell et al., 2002; Cascardi, Langhinrichsen, & Vivian, 1992; Goldberg & Tomlanovich, 1984; McCauley, Yurk, Jenckes, & Ford, 1998) comparam mulheres com e sem experiência de abuso pelo companheiro e observam que as mulheres abusadas reportam maior número de sintomas físicos, tais como, dores de cabeça, dores de costas, doenças sexualmente transmissíveis, dor pélvica, corrimentos vaginais, dor no ato sexual, infecções urinárias, perda de apetite, dor abdominal, problemas digestivos, e outros problemas relacionados ao estresse crônico.

Conclusão
Contribuem para a qualidade do relacionamento íntimo com o companheiro um conjunto de circunstâncias; sejam de natureza pessoal, comportamental, e sociocultural. O tipo de relacionamento mantido com os pais durante a infância tem um importante papel na formação do Vínculo Afetivo e implicações no desenvolvimento de modelos íntimos e dinâmicos de comportamento e atitude afetiva diante da vida de relações, bem como em certas estruturas neuroanatômicas, as quais interferem significativamente no relacionamento interpessoal futuro.

As relações abusivas durante a infância se associam à formação de vínculos “inseguros”, perpetuando maneiras alteradas de relacionamento, normalmente também abusivas em diversas circunstâncias de vida, notadamente no relacionamento íntimo.

O efeito da qualidade das relações interpessoais íntimas na saúde das pessoas tem sido cada vez mais estudado. A presença de relações interpessoais íntimas positivas traz benefícios para a saúde geral das pessoas, especialmente atenuam as diversas adversidades da vida.

para referir:
Ballone GJ, Moura EC - Abuso nos Relacionamentos Íntimos - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2008.

 

Bibliografia
1.Bachman R, Saltzman LE (1995) - Violence against women: Estimates from the redesigned survey. Bureau of Justice Statistics, Special report, U.S. Department of Justice, August.
2.Bee H (1997) - O ciclo vital. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.
3.Bowlby J (1990) - Trilogia Apego e Perda. Volumes I e II. São Paulo. Martins Fontes.
4.Bradbury T, Lawrence E (1999) - Physical agression and the longitudinal course of newlywed marriage. In X.B. Arriaga & S. Oskamp (Eds.), Violence in intimate relationships (pp.181-209). Thousand Oaks, CA: Sage.
5.Bhatt RV (1998) - Domestic violence and substance abuse. Int J Gynaecol Obstet. 1998;63 Suppl 1:S25-31.
6.Brazelton T (1988) - O desenvolvimento do apego. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.
7.Brookoff D, O"Brien KK, Cook CS, Thompson TD, Williams C (1997) - Characteristics of participants in domestic violence. Assessment at the scene of domestic assault. JAMA. 1997;277(17):1369-73.
8.Cascardi M, O’Leary KD, Schlee KA (1999) - Co-occurrence and correlates of posttraumatic stress disorder and major depression in physically abused women. Journal of Family Violence, 14, 227-249.
9.Cascardi M, Langhinrichsen J, Vivian D (1992) - Marital aggression: Impact, injury and health correlates for husbands and wives. Archives of Internal Medicine, 152, 1178-1184.
10.Coker A, Davis K (2001) - Impact of intimate violence on men and women: Analysis of the NVAW Survey. Paper presented at 7th International Family Violence Research Conference. Portsmouth: New Hampshire.
11.Coker AL, Sanderson M, Fadden M, Pirisi L (2000) - Intimate partner violence and cervical neoplasia. Journal of Women’s Health and Gender Based Medicine, 9, 1015-1023.
12.Damásio AR (1994) - Descartes´s error: Emotion, reason, and the human brain. New Family, 52, 501-514. York: Putnam.
13.Hoffman L, Paris S, Hall E (1996) - Psicologia del dessarrollo hoy. Madrid: Editora MC Graw Hill.
14.Koss M, Ingram M, Pepper S (2000) - Male partner violence against women: Medical impact and the response of the health care system. In A. Baum & T. Reveson (Eds.), Handbook of Health Psychology (pp. 541-557). Mawah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.
15.Koss MP (1988) - Hidden rape: Sexual aggression and victimization in a national sample of students in higher education. In A.W. Burgess (Ed.), Rape and sexual assault (pp. 3-25). New York: Garland.
16.Koss MP (1993) - Detecting the scope of rape: A review of prevalence research methods. Journal of Interpersonal Violence, 8, 198-222.
17.Koss MP, Gidycz CA, Wisniewski N (1987) - The scope of rape: incidence and prevalence of sexual aggression and victimization in a national sample of higher education students. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 55, 162-170.
18.Koss MP, Koss P, Woodruff WJ (1991) - Deleterious effects of criminal victimization on women’s health and medical utilization. Archives of Internal Medicine, 151, 342-357.
19.Lloyd SA, Emery BC (1993) - Abuse in the family: An ecological, life cycle perspective. In T.H. Brubaker (Ed.), Family relations: Challenges for the future (pp 129-1529).
20.Makepeace JM (1981). Courtship violence among college students. Family Relations, 30, 97-102.
21.O"Farrell TJ, Fals-Stewart W, Murphy M, Murphy CM (2003)- Partner violencebefore and after individually based alcoholism treatment for male alcoholic patients. J Consult Clin Psychol. 2003;71(1):92-102.
22.Paiva C, Figueiredo B - Abuso no Relacionamento Íntimo com o Companheiro: Definição, Prevalência, Causas e Efeitos, Psicologia, Saúde & Doenças, 2003, 4 (2), 165-184.
23.Rennison CM, Welchans S (2000) - Intimate Partner Violence. Bureau of Justice Statistics, Special report, U.S. Department of Justice, May.
24.Rush ME (2000) - Young woman’s experiences of dating violence: A phenomenological study. Dissertation Abstracts International, section B: The Sciences and Engineering, 60, 4524
25.Stets JE (1990) - Verbal and physical aggression in marriage. Journal of Marriage and the Family, 52, 501-514.
26.Stets JE, Henderson DA (1991) - Contextual factors surrounding conflict resolution while dating: Results from a national study. Family Relations, 40, 29-36.
27.Straus MA, Aldrighi T, Borochowitz DY, Brownridge DA, Chan EL, Figueiredo B, Gagne MH, Galliher R V, Hebert M, Jamieson E, MacMillan HL, Laporte L, Paiva C, Ramirez IL, Trochme N, Walsh C, Yodanis CL (2002). Physical and sexual assault on dating partners by university students in nine countries. Paper presented at the meeting of the European Society of Criminology. Toledo, Spain.
28.Straus MA, Hamby SL, Boney-McCoy S, Sugarman DB (1996) - The Revised Conflict Tactics Scales (CTS2): Development and preliminary psychometric data. Journal of Family Issues, 17, 283-316.
29.Sugarman DB, Hotaling GT (1989) - Dating violence: Prevalence, context and risk markers. In M.A. Pirog-Good & J.E. Stets (Eds.), Violence in dating relationships: Emerging social issues (pp 3-32). New York: Pareger.
30.Zilberman ML, Blume SB (2005) - Violência doméstica, abuso de álcool e substâncias psicoativas, Rev. Bras. Psiquiatr. vol.27 suppl.2 São Paulo Oct. 2005




Busca




NEWSLETTER
Receba os boletins informativos do PsiqWeb no seu e-mail

Casamento.... um desafio à tolerância

Conforme cita Terezinha Féres-Carneirotodo fascínio e toda dificuldade de ser casal, reside no fato de o casal encerrar, ao mesmo tempo, na sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja, de o casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projetos de vida, duas identidades individuais que, na relação amorosa, convivem com uma conjugalidade, um desejo conjunto, uma história de vida conjugal, um projeto de vida de casal, uma identidade conjugal. Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois? Na lógica do casamento contemporâneo, um e um são três, na expressão de Philippe Caillé (1991). Para Caillé, cada casal cria seu modelo único de ser casal, que ele chama de absoluto do casal, que define a existência conjugal e determina seus limites. A sua definição de casal, contém portanto os dois parceiros e seu modelo único, seu absoluto”.

Diz ainda Terezinha Féres-Carneiro, que Berger e Kellner descreveram o casamento como um ato dramático, no qual dois estranhos, portadores de um passado individual diferente, se encontram e se redefinem. Na troca de idéias, no diálogo e na conversação conjugal, a realidade subjetiva do mundo é sustentada pelos dois parceiros, que vivem confirmando e reafirmando a realidade objetiva internalizada por eles.

Sobre a separação conjugal, Terezinha, diz que para as mulheres, quando a relação conjugal não vai bem, sobretudo na sua vertente amorosa - admiração, intimidade e relacionamento sexual - a separação conjugal parece inevitável, tendo em vista que, para elas o casamento é sobretudo "relação de amor". Para os homens, entretanto, que definem o casamento como "constituição de família", o fato de a relação amorosa não estar bem não é suficiente para justificar o fim do casamento. Estes dados são confirmados também em estudos realizados na clínica com casais.

Diz ela que “... em pesquisa de dissertação de mestrado, Magalhães (1993) verificou, num grupo de 20 casais da classe média carioca, com idades variando de 25 a 55 anos, que todas as mulheres por ela entrevistadas, menos uma, definiram casamento como relação amorosa, enquanto todos os homens do grupo, definiram casamento como constituição de família. Estes resultados podem explicar, em parte, o fato de a demanda de separação conjugal apresentar-se como predominantemente feminina”.
Reef: Féres-Carneiro T - Casamento contemporâneo: o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade. Psicol. Reflex. Crit. v.11 n.2 Porto Alegre 1998

-------------------------

"O abuso físico é operacionalizado como “o uso de ameaça ou força física ou restrição levada a cabo no sentido de causar dor ou injúria a outrem” (Sugarman & Hotaling, 1989, p.4). Atendendo à ocorrência deste tipo de abuso no contexto das relações interpessoais íntimas, faremos uma breve referência a alguns estudos de prevalência, a maioria dos quais realizados nos EUA.

Sugarman e Hotaling (1989), identificaram onze trabalhos que relatam as elevadas taxas de agressão física no contexto das relações íntimas pré-maritais, que variam entre 20 e 59%. Ainda estes autores, utilizando uma amostra de estudantes americanos, estimam que cerca de 33% dos homens tiveram comportamentos de abuso físico e 36% das mulheres foram vítimas deste tipo de abuso no contexto das suas relações interpessoais íntimas.

Numa amostra representativa da população americana de indivíduos não casados e com idades entre os 18 e os 30 anos, Stets e Henderson (1991) constatam que 30% dos sujeitos referem ter sido vítima de agressão física, nos 12 meses que antecederam à investigação.
Por sua vez, Bergman (1992), numa amostra de estudantes pré-universitários americanos, encontra que 15,7% das mulheres e 7,8% dos homens referem abuso físico por parte do companheiro.

Carver (2000), numa amostra de estudantes (pré-universitários) americanos do sexo feminino que responderam às Revised Conflict Tactics Scales (CTS-2, Straus, Hamby, Boney-McCoy, & Sugarman, 1996), observa também que um número elevado de mulheres está envolvido numa relação violenta com o companheiro (52%).

Numa amostra de estudantes universitários americanos de ambos os sexos (N=247), Dye e Eckhardt (2000) observam que 27% reportam ter perpetrado algum tipo de agressão física contra o seu actual companheiro. Entretanto, no Canadá, Barnes, Greenwood e Sommer (1991), encontram que, numa amostra de estudantes pré-universitários do sexo masculino (N=202), 42% dos sujeitos refere ter praticado algum tipo de abuso físico com a companheira.

Mais recentemente, Straus, Aldrighi, Borochowitz, Brownridge, Chan, Figueiredo, et al. (2002) considerando a prevalência de abuso físico numa amostra de 3.086 estudantes universitários de ambos os sexos oriundos de 14 países, mostram que 28,2% dos sujeitos inquiridos relatam ter perpetrado algum tipo de abuso físico sobre o companheiro (27,7% do sexo masculino e 28,7% do sexo feminino). Para além disso, em 9,7% da amostra estão presentes formas mais severas de abuso físico, embora esta prevalência oscile consoante os países entre 16 e 51%.

Quando se comparam os diferentes locais onde o estudo foi realizado, é no México (Juarez) que se encontram valores superiores de abuso físico no relacionamento íntimo (referido por 51% dos participantes), nomeadamente nas suas formas mais severas (15,9%).
Entre os países em que é menor a prevalência de abuso físico perpetrado sobre o companheiro, encontra-se o Canadá (Hamilton), tanto para o abuso físico total (16,1%), como para as formas mais severas deste tipo de abuso (5,8%). Portugal e Israel apresentam valores ligeiramente inferiores à maioria dos países, no que concerne ao abuso físico, quer em termos gerais (20%), quer no referente às suas formas mais severas (7,1%).

Estes estudos, focalizados essencialmente nas relações pré-maritais e atendendo ao número de vítimas ou ao número de agressores, mostram que o abuso físico acontece com freqüência no quadro do relacionamento íntimo com o companheiro (15 a 50%), tanto na idade adulta, como, sobretudo no início da idade adulta."

Fonte: Carla Paiva e Bárbara Figueiredo -
Abuso no Contexto de Relacionamento Íntimo com o Companheiro, PSICOLOGIA, SAÚDE & DOENÇAS, 2003, 4 (2), 165-184


.

.

pergunta@psiqweb.med.br

.

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 141 142 143 144 145 146 147 148 149 150 151 152 153 154 155 156 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171 172 173 174 175 176 177 178 179 180 181 182 183 184 185 186 187 188 189 190 191 192 193 194 195 196 197 198 199 200 201 202 203 204 205 206 207 208 209 210 211 212 213 214 215 216 217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 227 228 229 230 231 232 233 234 235 236 237 238 239 240 241 242 243 244 245 246 247 248 249 250 251 252 253 254 255 256 257 258 259 260 261 262 263 264 265 266 267 268 269 270 271 272 273 274 275 276 277 278 279 280 281 282 283 284 285 286 287 288 289 290 291 292 293 294 295 296 297 298 299 300 301 302 303 304 305 306 307 308 309 310 311 312 313 314 315 316 317 318 319 320 321 322 323 324 325 326 327 328 329 330 331 332 333 334 335 336 337 338 339 340 341 342 343 344 345 346 347 348 349 350 351 352 353 354 355 356 357 358 359 360 361 362 363 364 365 366 367 368 369 370 371 372 373 374 375 376 377 378 379 380 381 382 383 384 385 386 387 388 389 390 391 392 393 394 395 396 397 398 399 400 401 402 403 404 405 406 407 408 409 410 411 412 413 414 415 416 417 418 419 420 421 422 423 424 425 426 427 428 429 430 431 432 433 434 435 436 437 438 439 440 441 442 443 444 445 446 447 448 449 450 451 452 453 454 455 456 457 458 459 460 461 462 463 464 465 466 467 468 469 470 471 472 473 474 475 476 477 478 479 480 481 482 483 484 485 486 487 488 489 490 491 492 493 494 495 496 497 498 499 500 501 502 503 504 505 506 507 508 509 510 511 512 513 514 515 516 517 518 519 520 521 522 523 524 525 526 527 528 529 530 531 532 533 534 535 536 537 538 539 540 541 542 543 544 545 546 547 548 549 550 551 552 553 554 555 556 557 558 559 560 561 562 563 564 565 566 567 568 569 570 571 572 573 574 575 576 577 578 579 580 581 582 583 584 585 586 587 588 589 590 591 592 593 594 595 596 597 598 599 600 601 602 603 604 605 606 607 608 609 610 611 612 613 614 615 616 617 618 619 620 621 622 623 624 625 626 627 628 629 630 631 632 633 634 635 636 637 638 639 640 641 642 643 644 645 646 647 648 649 650 651 652 653 654 655 656 657 658 659 660 661 662 663 664 665 666 667 668 669 670 671 672 673 674 675 676 677 678 679 680 681 682 683 684 685 686 687 688 689 690 691 692 693 694 695 696 697 698 699 700 701 702 703 704 705 706 707 708 709 710 711 712 713 714 715 716 717 718 719 720 721 722 723 724 725 726 727 728 729 730 731 732 733 734 735 736 737 738 739 740 741 742 743 744 745 746 747 748 749 750 751 752 753 754 755 756 757 758 759 760 761 762 763 764 765 766 767 768 769 770 771 772 773 774 775 776 777 778 779 780 781 782 783 784 785 786 787 788 789 790 791 792 793 794 795 796 797 798 799 800 801 802 803 804 805 806 807 808 809 810 811 812 813 814 815 816 817 818 819 820 821 822 823 824 825 826 827 828 829 830 831 832 833 834 835 836 837 838 839 840 841 842 843 844 845 846 847 848 849 850 851 852 853 854 855 856 857 858 859 860 861 862 863 864 865 866 867 868 869 870 871 872 873 874 875 876 877 878 879 880 881 882 883 884 885 886 887 888 889 890 891 892 893 894 895 896 897 898 899 900 901 902 903 904 905 906 907 908 909 910 911 912 913 914 915 916 917 918 919 920 921 922 923 924 925 926 927 928 929 930 931 932 933 934 935 936 937 938 939 940 941 942 943 944 945 946 947 948 949 950 951 952 953 954 955 956 957 958 959 960 961 962 963 964 965 966 967 968 969 970 971 972 973 974 975 976 977 978 979 980 981 982 983 984 985 986 987 988 989 990 991 992 993 994 995 996 997 998 999 1000 1001 1002 1003 1004 1005 1006 1007 1008 1009 1010 1011 1012 1013 1014 1015 1016 1017 1018 1019 1020 1021 1022 1023 1024 1025 1026 1027 1028 1029 1030 1031 1032 1033 1034 1035 1036 1037 1038 1039 1040 1041 1042 1043 1044 1045 1046 1047 1048 1049 1050 1051 1052 1053 1054 1055 1056 1057 1058 1059 1060 1061 1062 1063 1064 1065 1066 1067 1068 1069 1070 1071 1072 1073 1074 1075 1076 1077 1078 1079 1080 1081 1082 1083 1084 1085 1086 1087 1088 1089 1090 1091 1092 1093 1094 1095 1096 1097 1098 1099 1100 1101 1102 1103 1104 1105 1106 1107 1108 1109 1110 1111 1112 1113 1114 1115 1116 1117 1118 1119 1120 1121 1122 1123 1124 1125 1126 1127 1128 1129 1130 1131 1132 1133 1134 1135 1136 1137 1138 1139 1140 1141 1142 1143 1144 1145 1146 1147 1148 1149 1150 1151 1152 1153 1154 1155 1156 1157 1158 1159 1160 1161 1162 1163 1164 1165 1166 1167 1168 1169 1170 1171 1172 1173 1174 1175 1176 1177 1178 1179 1180 1181 1182 1183 1184 1185 1186 1187 1188 1189 1190 1191 1192 1193 1194 1195 1196 1197 1198 1199 1200 1201 1202 1203 1204 1205 1206 1207 1208 1209 1210 1211 1212 1213 1214 1215 1216 1217 1218 1219 1220 1221 1222 1223 1224 1225 1226 1227 1228 1229 1230 1231 1232 1233 1234 1235 1236 1237 1238 1239 1240 1241 1242 1243 1244 1245 1246 1247 1248 1249 1250 1251 1252 1253 1254 1255 1256 1257 1258 1259 1260 1261 1262 1263 1264 1265 1266 1267 1268 1269 1270 1271 1272 1273 1274 1275 1276 1277 1278 1279 1280 1281 1282 1283 1284 1285 1286 1287 1288 1289 1290 1291 1292 1293 1294 1295 1296 1297 1298 1299 1300 1301 1302 1303 1304 1305 1306 1307 1308 1309 1310 1311 1312 1313 1314 1315 1316 1317 1318 1319 1320 1321 1322 1323 1324 1325 1326 1327 1328 1329 1330 1331 1332 1333 1334 1335 1336 1337 1338 1339 1340 1341 1342 1343 1344 1345 1346 1347 1348 1349 1350 1351 1352 1353 1354 1355 1356 1357 1358 1359 1360 1361 1362 1363 1364 1365 1366 1367 1368 1369 1370 1371 1372 1373 1374 1375 1376 1377 1378 1379 1380 1381 1382 1383 1384 1385 1386 1387 1388 1389 1390 1391 1392 1393 1394 1395 1396 1397 1398 1399 1400 1401 1402 1403 1404 1405 1406 1407 1408 1409 1410 1411 1412 1413 1414 1415 1416 1417 1418 1419 1420 1421 1422 1423 1424 1425 1426 1427 1428 1429 1430 1431 1432 1433 1434 1435 1436 1437 1438 1439 1440 1441 1442 1443 1444 1445 1446 1447 1448 1449 1450 1451 1452 1453 1454 1455 1456 1457 1458 1459 1460 1461 1462 1463 1464 1465 1466 1467 1468 1469 1470 1471 1472 1473 1474 1475 1476 1477 1478 1479 1480 1481 1482 1483 1484 1485 1486 1487 1488 1489 1490 1491 1492 1493 1494 1495 1496 1497 1498 1499 1500 1501 1502 1503 1504 1505 1506 1507 1508 1509 1510 1511 1512 1513 1514 1515 1516 1517 1518 1519 1520 1521 1522 1523 1524 1525 1526 1527 1528 1529 1530 1531 1532 1533 1534 1535 1536 1537 1538 1539 1540 1541 1542 1543 1544 1545 1546 1547 1548 1549 1550 1551 1552 1553 1554 1555 1556 1557 1558 1559 1560 1561 1562 1563 1564 1565 1566 1567 1568 1569 1570 1571 1572 1573 1574 1575 1576 1577 1578 1579 1580 1581 1582 1583 1584 1585 1586 1587 1588 1589 1590 1591 1592 1593 1594 1595 1596 1597 1598 1599 1600 1601 1602 1603 1604 1605 1606 1607 1608 1609 1610 1611 1612 1613 1614 1615 1616 1617 1618 1619 1620 1621 1622 1623 1624 1625 1626 1627 1628 1629 1630 1631 1632 1633 1634 1635 1636 1637 1638 1639 1640 1641 1642 1643 1644 1645 1646 1647 1648 1649 1650 1651 1652 1653 1654 1655 1656 1657 1658 1659 1660 1661 1662 1663 1664 1665 1666 1667 1668 1669 1670 1671 1672 1673 1674 1675 1676 1677 1678 1679 1680 1681 1682 1683 1684 1685 1686 1687 1688 1689 1690 1691 1692 1693 1694 1695 1696 1697 1698 1699 1700 1701 1702 1703 1704 1705 1706 1707 1708 1709 1710 1711 1712 1713 1714 1715 1716 1717 1718 1719 1720 1721 1722 1723 1724 1725 1726 1727 1728 1729 1730 1731 1732 1733 1734 1735 1736 1737 1738 1739 1740 1741 1742 1743 1744 1745 1746 1747 1748 1749 1750 1751 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 1759 1760 1761 1762 1763 1764 1765 1766 1767 1768 1769 1770 1771 1772 1773 1774 1775 1776 1777 1778 1779 1780 1781 1782 1783 1784 1785 1786 1787 1788 1789 1790 1791 1792 1793 1794 1795 1796 1797 1798 1799 1800 1801 1802 1803 1804 1805 1806 1807 1808 1809 1810 1811 1812 1813 1814 1815 1816 1817 1818 1819 1820 1821 1822 1823 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 1831 1832 1833 1834 1835 1836 1837 1838 1839 1840 1841 1842 1843 1844 1845 1846 1847 1848 1849 1850 1851 1852 1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 1861 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 1871 1872 1873 1874 1875 1876 1877 1878 1879 1880 1881 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888 1889 1890 1891 1892 1893 1894 1895 1896 1897 1898 1899 1900 1901 1902 1903 1904 1905 1906 1907 1908 1909 1910 1911 1912 1913 1914 1915 1916 1917 1918 1919 1920 1921 1922 1923 1924 1925 1926 1927 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937 1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 2026 2027 2028 2029 2030 2031 2032 2033 2034 2035 2036 2037 2038 2039 2040 2041 2042 2043 2044 2045 2046 2047 2048 2049 2050 2051 2052 2053 2054 2055 2056 2057 2058 2059 2060 2061 2062 2063 2064 2065 2066 2067 2068 2069 2070 2071 2072 2073 2074 2075 2076 2077 2078 2079 2080 2081 2082 2083 2084 2085 2086 2087 2088 2089 2090 2091 2092 2093 2094 2095 2096 2097 2098 2099 2100 2101 2102 2103 2104 2105 2106 2107 2108 2109 2110 2111 2112 2113 2114 2115 2116 2117 2118 2119 2120 2121 2122 2123 2124 2125 2126 2127 2128 2129 2130 2131 2132 2133 2134 2135 2136 2137 2138 2139 2140 2141 2142 2143 2144 2145 2146 2147 2148 2149 2150 2151 2152 2153 2154 2155 2156 2157 2158 2159 2160 2161 2162 2163 2164 2165 2166 2167 2168 2169 2170 2171 2172 2173 2174 2175 2176 2177 2178 2179 2180 2181 2182 2183 2184 2185 2186 2187 2188 2189 2190 2191 2192 2193 2194 2195 2196 2197 2198 2199 2200 2201 2202 2203 2204 2205 2206 2207 2208 2209 2210 2211 2212 2213 2214 2215 2216 2217 2218 2219 2220 2221 2222 2223 2224 2225 2226 2227 2228 2229 2230 2231 2232 2233 2234 2235 2236 2237 2238 2239 2240 2241 2242 2243 2244 2245 2246 2247 2248 2249 2250 2251 2252 2253 2254 2255 2256 2257 2258 2259 2260 2261 2262 2263 2264 2265 2266 2267 2268 2269 2270 2271 2272 2273 2274 2275 2276 2277 2278 2279 2280 2281 2282 2283 2284 2285 2286 2287 2288 2289 2290 2291 2292 2293 2294 2295 2296 2297 2298 2299 2300 2301 2302 2303 2304 2305 2306 2307 2308 2309 2310 2311 2312 2313 2314 2315 2316 2317 2318 2319 2320 2321 2322 2323 2324 2325 2326 2327 2328 2329 2330 2331 2332 2333 2334 2335 2336 2337 2338 2339 2340 2341 2342 2343 2344 2345 2346 2347 2348 2349 2350 2351 2352 2353 2354 2355 2356 2357 2358 2359 2360 2361 2362 2363 2364 2365 2366 2367 2368 2369 2370 2371 2372 2373 2374 2375 2376 2377 2378 2379 2380 2381 2382 2383 2384 2385 2386 2387 2388 2389 2390 2391 2392 2393 2394 2395 2396 2397 2398 2399 2400 2401 2402 2403 2404 2405 2406 2407 2408 2409 2410 2411 2412 2413 2414 2415 2416 2417 2418 2419 2420 2421 2422 2423 2424 2425 2426 2427 2428 2429 2430 2431 2432 2433 2434 2435 2436 2437 2438 2439 2440 2441 2442 2443 2444 2445 2446 2447 2448 2449 2450 2451 2452 2453 2454 2455 2456 2457 2458 2459 2460 2461 2462 2463 2464 2465 2466 2467 2468 2469 2470 2471 2472 2473 2474 2475 2476 2477 2478 2479 2480 2481 2482 2483 2484 2485 2486 2487 2488 2489 2490 2491 2492 2493 2494 2495 2496 2497 2498 2499 2500 2501 2502 2503 2504 2505 2506 2507 2508 2509 2510 2511 2512 2513 2514 2515 2516 2517 2518 2519 2520 2521 2522 2523 2524 2525 2526 2527 2528 2529 2530 2531 2532 2533 2534 2535 2536 2537 2538 2539 2540 2541 2542 2543 2544 2545 2546 2547 2548 2549 2550 2551 2552 2553 2554 2555 2556 2557 2558 2559 2560 2561 2562 2563 2564 2565 2566 2567 2568 2569 2570 2571 2572 2573 2574 2575 2576 2577 2578 2579 2580 2581 2582 2583 2584 2585 2586 2587 2588 2589 2590 2591 2592 2593 2594 2595 2596 2597 2598 2599 2600 2601 2602 2603 2604 2605 2606 2607 2608 2609 2610 2611 2612 2613 2614 2615 2616 2617 2618 2619 2620 2621 2622 2623 2624 2625 2626 2627 2628 2629 2630 2631 2632 2633 2634 2635 2636 2637 2638 2639 2640 2641 2642 2643 2644 2645 2646 2647 2648 2649 2650 2651 2652 2653 2654 2655 2656 2657 2658 2659 2660 2661 2662 2663 2664 2665 2666 2667 2668 2669 2670 2671 2672 2673 2674 2675 2676 2677 2678 2679 2680 2681 2682 2683 2684 2685 2686 2687 2688 2689 2690 2691 2692 2693 2694 2695 2696 2697 2698 2699 2700 2701 2702 2703 2704 2705 2706 2707 2708 2709 2710 2711 2712 2713 2714 2715 2716 2717 2718 2719 2720 2721 2722 2723 2724 2725 2726 2727 2728 2729 2730 2731 2732 2733 2734 2735 2736 2737 2738 2739 2740 2741 2742 2743 2744 2745 2746 2747 2748 2749 2750 2751 2752 2753 2754 2755 2756 2757 2758 2759 2760 2761 2762 2763 2764 2765 2766 2767 2768 2769 2770 2771 2772 2773 2774 2775 2776 2777 2778 2779 2780 2781 2782 2783 2784 2785 2786 2787 2788 2789 2790 2791 2792 2793 2794 2795 2796 2797 2798 2799 2800 2801 2802 2803 2804 2805 2806 2807 2808 2809 2810 2811 2812 2813 2814 2815 2816 2817 2818 2819 2820 2821 2822 2823 2824 2825 2826 2827 2828 2829 2830 2831 2832 2833 2834 2835 2836 2837 2838 2839 2840 2841 2842 2843 2844 2845 2846 2847 2848 2849 2850 2851 2852 2853 2854 2855 2856 2857 2858 2859 2860 2861 2862 2863 2864 2865 2866 2867 2868 2869 2870 2871 2872 2873 2874 2875 2876 2877 2878 2879 2880 2881 2882 2883 2884 2885 2886 2887 2888 2889 2890 2891 2892 2893 2894 2895 2896 2897 2898 2899 2900 2901 2902 2903 2904 2905 2906 2907 2908 2909 2910 2911 2912 2913 2914 2915 2916 2917 2918 2919 2920 2921 2922 2923 2924 2925 2926 2927 2928 2929